Entre a cruz e a espada
O Eco do Sangue e o Rumor do Lobo
O salão do resort Blue Moon parecia girar ao meu redor. O tilintar de taças de cristal e as risadas forçadas da aristocracia lupina soavam como estática em meus ouvidos. Eu me sentia como uma presa no meio de uma clareira, e o predador mais perigoso daquela floresta de luxo tinha acabado de sentir o meu rastro.
Caminhei até a mesa de bufê, sentindo minhas pernas pesadas. A fome que eu sentira antes não era apenas um pretexto para fugir de Jade; era a necessidade voraz que o pequeno ser dentro de mim impunha ao meu corpo. Peguei um prato com as mãos trêmulas, focando em algumas frutas e pães, tentando ignorar a náusea leve que o cheiro forte de carne assada — típica de banquetes de Alfas — me causava.
— Você sempre teve um apetite adorável, Karen. — A voz de Madison, a noiva de Jade, surgiu ao meu lado, carregada de um veneno polido.
Eu me empertiguei, engolindo em seco. Madison era tudo o que eu não era: alta, esguia, com traços afiados e uma aura de superioridade que gritava "linhagem pura". Ela vestia um vestido branco perolado que parecia uma segunda pele, contrastando com o meu azul-marinho solto.
— A comida do resort é excelente — respondi, tentando manter a voz estável. — Seria um desperdício não aproveitar.
Madison deu um gole em seu champanhe, seus olhos frios percorrendo meu corpo de cima a baixo. Havia um brilho de desdém neles, mas também uma curiosidade mórbida.
— Jade me contou que vocês tiveram... uma associação no passado. — Ela enfatizou a palavra 'associação' como se estivesse falando de um negócio sujo. — Fico feliz que você saiba o seu lugar agora. Uma ômega como você, tão... voluptuosa e doce, certamente encontrará um Beta que queira uma vida tranquila. Jade precisa de alguém que aguente o peso da coroa. Alguém que possa lhe dar herdeiros fortes, não apenas conforto.
Senti uma pontada de raiva aquecer meu sangue. Meu lobo interior rosnou, uma reação rara para uma ômega tão pacífica quanto eu. "Se ela soubesse", pensei, minha mão quase se movendo para o ventre por puro instinto, mas me forcei a segurar o prato com mais força.
— Jade sabe exatamente o que eu sou capaz de dar a ela, Madison — respondi, minha voz subindo um oitavo, ganhando uma firmeza que a surpreendeu. — E o que nós tivemos não é algo que uma aliança de papel possa apagar. Com licença.
Saí de perto dela antes que eu pudesse dizer algo que me denunciasse. Eu precisava de ar. Eu precisava de silêncio. Mas, ao atravessar o salão em direção à saída lateral, percebi que o olhar de Jade não tinha me deixado por um segundo sequer. Ela estava cercada por anciãos da alcateia, mas sua cabeça estava levemente inclinada, as narinas dilatadas, observando cada movimento meu.
Saí para os jardins de inverno, onde o ar frio da noite ajudava a dissipar a névoa de feromônios do salão. Eu me sentei em um banco de pedra, escondido atrás de algumas trepadeiras. O silêncio da noite foi interrompido apenas pelo som distante da música e pelo bater do meu próprio coração.
— Três meses, Karen. — A voz de Jade não veio de trás, mas de cima. Ela estava encostada em uma pilastra, as sombras ocultando parte de seu rosto, tornando-a ainda mais parecida com uma criatura de pesadelo e desejo. — Você está evitando os meus olhos a noite inteira.
— Eu estou tentando ser educada, Jade — respondi, sem olhar para ela. — Sua noiva já veio marcar território. Não preciso de mais drama.
Jade desceu da pilastra com a graça de uma pantera. Ela caminhou até mim, e o som de suas botas no cascalho parecia contar os segundos da minha sanidade. Ela parou à minha frente, obrigando-me a olhar para cima.
— Madison é uma necessidade política, e você sabe disso — rosnou ela, inclinando-se. — Mas o jeito que você saiu daquela conversa... você cheirava a desafio. E a algo mais. Algo que está me deixando possessiva de um jeito que eu não consigo controlar.
— Talvez seja apenas o seu ego de Alfa ferido porque eu não murcho mais na sua presença — provoquei, embora por dentro eu estivesse desmoronando.
Jade soltou um riso baixo e sombrio. Ela se ajoelhou entre minhas pernas, uma posição de intimidade que me fez perder o fôlego. Suas mãos grandes e firmes pousaram nos meus joelhos, subindo lentamente pelas minhas coxas cobertas pela seda do vestido.
— Não é o meu ego, Karen. É o meu lobo. — Ela aproximou o rosto do meu abdômen, e eu congelei. — Há um ritmo aqui embaixo. Um segundo batimento que é quase imperceptível, mas que ressoa no meu sangue.
Meu coração parou. Ela sentiu. De alguma forma, através da minha pele, através da gordura que eu sempre odiei e que agora servia de escudo, ela ouviu.
— Jade, saia... — tentei empurrá-la, mas ela era uma rocha.
— Por que você está tão quente? — perguntou ela, a voz agora um sussurro carregado de uma suspeita perigosa. — Suas curvas estão diferentes. Seus seios estão mais cheios. E o seu cheiro... não é perfume. É hormônio. É vida.
Ela subiu as mãos, segurando minha cintura com força, e eu soltei um gemido baixo. Jade puxou o tecido do meu vestido, tateando a curva suave da minha barriga que começava a se firmar abaixo do umbigo.
— Karen — disse ela, o nome saindo como uma oração e uma ameaça. — Olhe para mim.
Eu me recusei. Fechei os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem.
— Olhe para mim agora! — comandou ela, usando sua voz de Alfa.
Minhas pálpebras se abriram contra a minha vontade. O verde dos olhos de Jade estava incandescente, as pupilas tão dilatadas que quase não havia cor. Ela parecia estar em transe, uma mistura de choque e uma fúria protetora que eu nunca tinha visto.
— De quem é? — perguntou ela, a voz tremendo pela primeira vez na vida. — Se você me disser que é de outro, eu juro que reduzo este resort a cinzas.
— Como você pode ser tão idiota? — explodi, a dor de meses de solidão transbordando. — Três meses, Jade! Faz três meses que você me deixou naquela chuva, dizendo que tinha que se casar com aquela... aquela mulher! Você acha que eu correria para os braços de outro depois de você ter me marcado daquele jeito? Depois de tudo o que você fez comigo?
Jade recuou o rosto, o impacto das minhas palavras atingindo-a como um soco físico. Ela olhou para a minha barriga novamente, sua mão espalmando-se sobre o tecido. Desta vez, ela não estava apenas tateando; ela estava sentindo. Ela fechou os olhos e encostou a testa no meu ventre.
Um silêncio pesado caiu sobre nós. Eu podia sentir a respiração dela através da seda, quente e rítmica. O poder que emanava de Jade mudou de forma; não era mais a agressividade de um Alfa pronto para a briga, mas a possessividade absoluta de um pai.
— É meu — sussurrou ela, e não era uma pergunta. Era uma constatação que parecia reorganizar todo o seu universo. — É o meu sangue. O meu filhote.
— Jade, você tem um noivado lá dentro — lembrei-a, a voz embargada. — Você tem um acordo. Você disse que eu não era o suficiente para o seu futuro.
Jade se levantou abruptamente, puxando-me junto com ela. Ela me abraçou com uma força que quase me tirou o ar, enterrando o rosto no meu pescoço e inspirando profundamente, marcando-me novamente com o seu cheiro diante de qualquer um que pudesse estar assistindo.
— Eu menti — rosnou ela contra a minha pele. — Eu fui uma covarde tentando seguir as regras de velhos que já deveriam estar mortos. Eu achei que poderia te deixar em segurança, longe da política suja da alcateia. Eu achei que poderia viver uma vida vazia com Madison e manter você em uma caixa no meu coração.
Ela se afastou apenas o suficiente para segurar meu rosto entre as mãos. Seus olhos vasculhavam os meus, buscando perdão e reafirmando sua reivindicação.
— Mas isso muda tudo. Ninguém toca no que é meu. E esse filhote... você... vocês são a única coisa que importa. Se o conselho quer uma Alfa poderosa, eles terão uma. Mas será com você ao meu lado.
— Jade, eles nunca vão aceitar — eu disse, o medo voltando. — Eu sou uma ômega comum. Eu não tenho linhagem. Eles vão tentar tirar o bebê de mim ou me expulsar.
O sorriso que cruzou os lábios de Jade foi algo saído de um conto de fadas sombrio. Era cruel, belo e absolutamente letal.
— Deixe que tentem. Eu sou Jade West. Eu não sigo regras, eu as quebro. E se Madison ou qualquer um daqueles Alfas mofados lá dentro pensar em cruzar o meu caminho agora que eu sei que você carrega o meu herdeiro... eles descobrirão por que a minha linhagem é a que governa.
Ela deslizou a mão para a base das minhas costas, guiando-me de volta para o salão.
— O que você está fazendo? — perguntei, o pânico subindo.
— Vou encerrar essa farsa — declarou ela. — Você disse que queria comer, não é? Pois vamos entrar, você vai se sentar na mesa principal, e eu vou garantir que todos vejam quem é a verdadeira fêmea desta alcateia.
— Jade, meu vestido... eles vão perceber — sussurrei, tentando parar.
— Que percebam — retrucou ela, os olhos brilhando com uma satisfação selvagem. — Eu quero que eles saibam que eu já plantei minha semente antes mesmo de assinarem qualquer contrato. Eu quero que Madison veja que ela nunca teve chance de ter o que você já possui.
Entramos no salão e o silêncio se espalhou como uma onda de choque. Jade não me soltou; pelo contrário, ela passou o braço pela minha cintura de forma possessiva, sua mão descansando protetoramente sobre a curva do meu ventre, agora deliberadamente enfatizada pelo modo como ela me segurava.
Madison, que estava no centro do palco improvisado com seu pai, empalideceu ao nos ver.
— Jade? O que significa isso? — o pai de Madison, um Alfa ancião, perguntou com a voz trovejante.
Jade parou no meio do salão, sua aura de Alfa Alfa expandindo-se de tal forma que vários lobos de classificação inferior baixaram a cabeça instintivamente.
— Significa — começou Jade, sua voz ecoando por cada canto do resort — que este noivado acabou antes mesmo de começar. Eu já escolhi minha companheira. E ela carrega o futuro desta alcateia.
Um murmúrio de horror e surpresa percorreu a sala. Madison deu um passo à frente, os olhos cheios de fúria.
— Essa... essa ômega gorda? Você está nos humilhando por causa de um caso de cama com uma criatura qualquer?
O rosnado que saiu da garganta de Jade foi tão alto que algumas taças na mesa próxima vibraram. Ela deu um passo à frente, e por um momento achei que ela atacaria.
— Chame-a assim de novo — disse Jade, a voz perigosamente baixa — e eu arrancarei sua língua diante de todos os seus convidados. Karen é minha. O sangue que corre nela é o meu sangue. E se vocês têm algum problema com a mãe do meu herdeiro, podem vir resolver comigo. Agora.
Ninguém se moveu. O poder de Jade era absoluto, e a revelação da gravidez, embora chocante, trazia um peso biológico que nenhum contrato político poderia superar no mundo dos lobos. O herdeiro já existia. A linhagem estava garantida, mas não do jeito que eles planejaram.
Jade se virou para mim, sua expressão suavizando-se apenas para os meus olhos.
— Vamos embora daqui, Karen. Este lugar cheira a desespero.
— Para onde vamos? — perguntei, sentindo o peso do mundo diminuir sob a proteção dela.
— Para casa — respondeu ela, beijando minha testa diante de todos. — Para a nossa casa. E amanhã, o conselho vai aprender que a única coisa mais perigosa que uma Alfa protegendo seu território... é uma Alfa protegendo sua família.
Enquanto saíamos pelo grande portal do resort, senti o ar puro da noite nos envolver. Eu ainda era a ômega doce e meiga, e ainda tinha minhas inseguranças, mas ao lado de Jade West, eu sabia que não era apenas uma peça no tabuleiro. Eu era a rainha dela. E o pequeno lobo que crescia dentro de mim já podia sentir que o mundo, a partir daquela noite, pertenceria a nós três.
Jade me ajudou a entrar no carro, seus movimentos agora carregados de uma delicadeza quase reverente. Antes de dar a partida, ela colocou a mão sobre a minha barriga uma última vez.
— Eu nunca mais vou deixar você ir — prometeu ela. — E se o mundo tentar nos separar, eu queimarei o mundo.
Eu sorri, encostando a cabeça no banco. O dark romance que nos uniu tinha ganhado um novo propósito. Não era mais apenas sobre atração e sombras; era sobre luz, sangue e uma promessa que nem mesmo o destino ousaria quebrar.