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Entre a cruz e a espada

O Sangue das Sombras e a Herdeira Rara

O motor do SUV de luxo de Jade roncava baixo enquanto cortávamos a estrada sinuosa que levava para longe do resort. O silêncio dentro do carro era denso, carregado de eletricidade estática e do cheiro ferroso de Alfa em estado de alerta. Eu olhava pela janela, vendo as árvores passarem como vultos, sentindo o peso do olhar de Jade sobre mim a cada poucos segundos.

— Por que não me contou? — A voz dela quebrou o silêncio, rouca, vibrando com uma mistura de mágoa e possessividade.

Eu respirei fundo, sentindo meu estômago dar um nó. A adrenalina do confronto no salão estava baixando, e a realidade fria estava voltando a se instalar.

— E por que eu contaria, Jade? — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Você me descartou. Você disse que tinha deveres, que tinha uma linhagem a seguir. Eu era apenas a ômega que você usava para fugir da sua realidade sombria.

— Você nunca foi "apenas" nada, Karen — rosnou ela, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

— Pois sua noivinha não pensa assim — retruquei, sentindo as lágrimas arderem. — Ela disse na minha cara que eu estou te humilhando. Que uma ômega gorda e comum como eu é uma mancha na sua reputação. E quer saber? Jade, você não tem que ficar comigo só porque sou mãe da sua filha.

Jade freou o carro bruscamente no acostamento, os pneus cantando no asfalto. Ela se virou para mim, os olhos brilhando em um verde quase sobrenatural na escuridão da cabine.

— Filha? — O tom dela suavizou instantaneamente, uma nota de reverência atravessando sua armadura.

— Sim. É uma garota — afirmei, protegendo meu ventre com os braços. — E eu estava bem, Jade. Eu ia criá-la sozinha. Eu seria mãe solo. Eu não preciso da sua caridade ou de um casamento por obrigação que vai fazer você me odiar daqui a cinco anos.

— Mãe solo? — Jade soltou uma risada seca, desprovida de humor. — Você realmente achou que eu deixaria meu sangue, minha herdeira, crescer sem o meu nome? Sem a minha proteção?

— Quem disse que ela é sua? — disparei, a defensiva falando mais alto que a razão. — Talvez ela tenha outra mãe. Talvez eu tenha encontrado alguém que não me vê como um segredo sujo. Você não quer a nós duas, Jade. Você quer o controle.

O clima dentro do carro mudou instantaneamente. O ar ficou pesado, difícil de respirar. Jade se inclinou sobre o console central, invadindo meu espaço até que nossas testas quase se tocassem. O cheiro dela — chuva e perigo — me inundou, fazendo meu corpo traidor ansiar pelo toque dela.

— Não ouse mentir para mim sobre isso — sussurrou ela, a voz carregada de uma autoridade ancestral. — Eu sinto o cheiro do meu próprio sangue nela. Ela é minha. E você é minha. Se eu descobrir que outro Alfa sequer respirou perto de você nesses três meses, eu vou caçá-lo até o fim do mundo.

— Eu não sou sua, Jade! Eu sou uma ômega... eu sou... — Eu parei de falar, sentindo uma tontura súbita. As emoções da noite estavam cobrando seu preço.

Jade franziu a testa, levando a mão ao meu pescoço, onde a glândula de aroma deveria estar emitindo os sinais de uma ômega submissa. Ela cheirou profundamente a curva do meu ombro, e sua expressão mudou de fúria para uma confusão absoluta.

— Karen... seu cheiro. Não é de ômega.

— O quê? — Eu a olhei, confusa.

— Você não está exalando submissão. Você está exalando... estabilidade. — Ela tocou meu pulso, sentindo o pulso forte. — Você não é uma ômega, Karen. Você é uma Beta. Como eu não percebi isso antes?

Fiquei em choque. Durante toda a minha vida, me disseram que eu era uma ômega devido à minha natureza doce e ao meu corpo curvilíneo. Mas agora, com a gravidez, meu verdadeiro eu estava emergindo. Eu não era uma peça frágil a ser protegida; eu era o alicerce.

— Uma Beta... — sussurrei, sentindo uma estranha onda de poder. — Mas e ela? — Apontei para minha barriga.

Jade colocou a mão sobre meu ventre de novo, fechando os olhos. Seus sentidos de Alfa Alfa estavam sintonizados em uma frequência que ninguém mais alcançava.

— Ela não é Beta. E não é Alfa comum. — Jade abriu os olhos, e havia um temor genuíno neles. — O batimento dela... é rítmico como o de um tambor de guerra. Karen, ela é uma loba rara. Uma Tri-Híbrida ou algo que não vemos há séculos. É por isso que o conselho nunca pode saber a verdade total. Se eles souberem o que você carrega, eles vão querer transformá-la em uma arma.

O medo que eu sentia antes não era nada comparado ao que senti agora. Eu não era apenas a ex-amante gordinha de Jade West; eu era o receptáculo de algo que poderia mudar o equilíbrio de poder de todas as alcateias.

— Precisamos ir para o meu refúgio nas montanhas — disse Jade, voltando a dirigir, desta vez com uma urgência mortal. — Madison e o pai dela não vão aceitar o fim do noivado tão fácil. Eles são políticos, Karen. Eles jogam sujo.

Os dias que se seguiram foram uma névoa de cuidados possessivos e tensão constante. Jade me levou para uma cabana fortificada, onde ela mesma cozinhava para mim, vigiava meu sono e passava horas com a mão na minha barriga, conversando com a filha que ainda nem conhecia o mundo. Ela era poderosa, imparável, mas comigo, ela era uma tempestade contida.

No entanto, a paz era uma ilusão.

Naquela tarde, Jade precisou descer até a fronteira da propriedade para encontrar seu segundo em comando. Ela me garantiu que o sistema de segurança era impenetrável.

— Não saia da varanda, Karen — disse ela, beijando meus lábios com uma intensidade que parecia uma despedida. — Eu volto em vinte minutos.

Eu assenti, observando-a desaparecer entre os pinheiros. O ar estava fresco, e eu me sentia segura. Mas então, o pássaros pararam de cantar.

Um cheiro acre de fumaça e sedativos inundou o ar. Antes que eu pudesse gritar por Jade, três vultos saltaram das sombras. Eles não usavam uniformes de alcateia; eram mercenários, lobos renegados que cheiravam a dinheiro e maldade.

— Ora, ora — disse um deles, um Alfa de olhos injetados de sangue. — Então esta é a pequena Beta que carrega o tesouro da West?

— Fiquem longe de mim! — gritei, tentando correr para dentro da casa, mas meu corpo estava pesado, os três meses de gravidez e o peso extra me tornando mais lenta.

Um deles me agarrou por trás, pressionando um pano embebido em clorofórmio contra meu rosto. Eu lutei, chutei, tentei morder, mas a força de um Alfa era esmagadora.

— Jade! — tentei gritar, mas minha voz morreu em um sussurro abafado.

— A noivinha rejeitada pagou muito bem por você, doçura — rosnou o homem no meu ouvido. — Ela quer que a gente se livre do "problema" antes que a Alfa West perceba que você sumiu.

Minha visão começou a escurecer. A última coisa que senti foi o pânico da minha filha dentro de mim, um chute forte que pareceu um uivo silencioso de socorro.

— Jade... — murmurei, antes que a escuridão me levasse por completo.

Acordei em um lugar frio, o cheiro de mofo e concreto úmido substituindo o perfume de pinheiros de Jade. Meus pulsos estavam acorrentados à parede, e eu estava sentada no chão gelado. Meu vestido azul-marinho estava sujo e rasgado.

— Acordou, a gracinha? — A voz de Madison ecoou pelo porão.

Ela apareceu das sombras, sem o vestido de seda, vestindo roupas de caça. Ela segurava uma adaga de prata, o metal brilhando com uma luz letal.

— Você achou mesmo que venceria, não é? — Madison se aproximou, chutando minha perna. — Uma Beta insignificante, gordinha e sem graça, roubando o lugar que é meu por direito de sangue?

— Jade vai encontrar você — eu disse, a voz fraca mas carregada de ódio. — E quando ela encontrar, não vai sobrar nada de você para contar a história.

— Jade está ocupada tentando descobrir para onde o rastro falso que deixamos a levou — riu Madison, encostando a ponta da adaga na minha barriga. — Sabe o que o conselho diz? Que acidentes acontecem. Uma Beta fraca morrendo durante um sequestro... é uma tragédia, mas Jade acabará voltando para mim para manter a linhagem.

— Você é doente — cuspi as palavras.

— Eu sou uma Alfa que protege o que é dela — retrucou Madison, levantando a adaga. — E esse monstro que você carrega nunca vai ver a luz do dia.

Nesse exato momento, um uivo que não parecia humano rasgou o ar lá fora. O som foi seguido por uma explosão de madeira e gritos de agonia. As paredes do porão tremeram com a força de um impacto brutal.

Madison congelou, o medo finalmente substituindo sua arrogância.

— Não... é impossível. Ela não deveria estar aqui tão cedo!

A porta de ferro do porão foi arrancada das dobradiças como se fosse feita de papel. No vão da porta, coberta de sangue que não era dela, estava Jade West. Sua forma era maior, mais sombria, seus olhos emitindo uma luz verde tão intensa que iluminava o ambiente. Suas garras estavam estendidas e seus dentes eram lâminas de puro instinto assassino.

— Tire a mão... da minha fêmea — rosnou Jade, e a voz dela era um estrondo que fez Madison cair de joelhos.

— Jade, espere! — Madison tentou falar, mas Jade não estava mais no modo de conversa.

Ela se moveu como um borrão de sombras e fúria. Em um segundo, ela estava atravessando a sala; no outro, Madison estava sendo arremessada contra a parede de concreto com tal força que o som de ossos quebrando ecoou pelo lugar.

Jade não parou para finalizar Madison; ela correu até mim, rasgando as correntes com as mãos nuas como se fossem fios de barbante.

— Karen! — Ela me pegou nos braços, verificando cada centímetro do meu corpo. — Você está ferida? Ela tocou em você? Ela machucou nossa pequena?

— Eu estou bem... eu acho que sim — solucei, agarrando-me ao pescoço dela. — Ela ia me matar, Jade.

Jade me apertou contra o peito, um rosnado constante vibrando em seu tórax. Ela olhou para Madison, que tentava se arrastar pelo chão, e por um momento eu vi a verdadeira face da Alfa Alfa. Era uma escuridão sem fim, uma promessa de dor que faria qualquer lobo tremer.

— Você cometeu o erro de tocar no meu coração, Madison — disse Jade, a voz fria como o gelo. — Eu não vou te matar agora. Vou deixar você para os anciãos verem o que acontece com quem trai a própria espécie. Mas antes...

Jade caminhou até ela e, com um movimento rápido, marcou o rosto de Madison com suas garras, um sinal de exílio e desonra que nunca cicatrizaria.

— Agora você é nada.

Jade voltou para mim, envolvendo-me em sua jaqueta de couro que ainda tinha o cheiro dela. Ela me carregou para fora daquele buraco infernal, sob a luz da lua cheia.

— Eu disse que nunca mais deixaria você ir — sussurrou ela contra o meu cabelo enquanto caminhávamos em direção ao carro. — Agora o mundo inteiro sabe quem você é. E eles sabem que para chegar em você ou na nossa filha, terão que passar por cima do meu cadáver.

Eu olhei para ela, a Alfa poderosa e imparável que tinha se tornado minha protetora mais feroz. Eu não era mais apenas a ômega escondida; eu era a companheira de Jade West. E enquanto sentia o chute forte da nossa pequena loba rara dentro de mim, eu soube que, não importava o quão sombrio nosso romance pudesse ser, nós éramos a força mais poderosa daquela floresta.

— Jade? — chamei baixinho.

— Sim, pequena?

— Eu te amo.

Ela parou por um momento, seus olhos verdes encontrando os meus com uma vulnerabilidade que ela só mostrava para mim.

— Eu sei — respondeu ela com um sorriso sombrio e possessivo. — E é por isso que eu vou transformar este mundo em um paraíso para vocês duas, nem que eu tenha que pintá-lo de vermelho primeiro.