Entre a cruz e a espada
O Sussurro da Febre e o Trono de Veludo
O sol de Seattle parecia estranhamente opaco através das grandes janelas da mansão West. Eu tentava focar nas cores do jardim — o verde esmeralda que Jade tanto insistira para combinar com seus olhos —, mas tudo o que eu via eram manchas borradas e dançantes. Minha cabeça pesava como se fosse feita de chumbo, e cada batida do meu coração ecoava como um trovão dentro dos meus ouvidos.
— Mamãe, olha! O Luan pegou meu desenho! — O grito de Luna, agora uma menina de cinco anos com a mesma intensidade feroz da mãe, cortou o ar.
Eu tentei responder, tentei dizer que eles precisavam brincar com calma, mas minha garganta parecia cheia de areia quente. Quando tentei me levantar do sofá de veludo azul safira, o mundo girou violentamente. Meus joelhos cederam e eu só não atingi o chão porque mãos fortes e familiares me seguraram antes do impacto.
— Karen! — A voz de Jade não era um chamado; era um comando carregado de pânico.
Eu senti o frio do couro da jaqueta dela contra a minha pele ardente. Abri os olhos com dificuldade e vi o rosto de Jade, emoldurado por seus cabelos negros, distorcido pela preocupação. Atrás dela, Luna e Luan pararam a briga instantaneamente. Luan, que era a cópia fiel de Jade com suas feições aristocráticas e olhos verdes, segurava o papel amassado, os olhos arregalados de medo ao ver a cena.
— Você está fervendo, pequena — murmurou Jade, encostando as costas da mão na minha testa. — Marcus! Chame o Dr. Aris agora! Diga que se ele demorar mais de dez minutos, eu mesma vou buscá-lo pelos cabelos!
— Jade... não grite... — sussurrei, sentindo uma náusea profunda. — As crianças...
— Shhh. Eu cuido de tudo. — Ela me pegou no colo com a facilidade de quem carrega uma pluma. — Luna, leve seu irmão para o quarto de brinquedos. Agora.
— A mamãe vai morrer? — perguntou Luan, a voz pequena e trêmula, uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto que raramente demonstrava fraqueza.
Jade parou por um segundo, seus olhos suavizando apenas para o filho.
— Ninguém morre nesta casa sem a minha permissão, Luan. E eu não dei permissão para a sua mãe ir a lugar nenhum. Agora, vá.
Fui levada para o nosso quarto vermelho. A cor que antes simbolizava paixão agora parecia pulsar com a minha febre. Jade me despiu com uma delicadeza que contrastava com sua natureza impetuosa, cobrindo-me com lençóis de linho fresco.
O diagnóstico veio uma hora depois, sob o olhar predatório de Jade que não deixou o médico um segundo sequer. Febre Amarela. Um surto raro na região, mas devastador para uma Beta cujo sistema imunológico estava exausto após anos cuidando de dois filhotes Alfas cheios de energia.
— Ela precisa de hidratação constante, repouso absoluto e monitoramento da temperatura — explicou o médico, limpando o suor da testa sob a pressão da aura de Jade. — Se a febre não baixar em doze horas, teremos que interná-la.
— Ela não vai a hospital nenhum — rosnou Jade. — Ela fica aqui. Comigo. Eu sou o hospital dela.
As horas seguintes tornaram-se um borrão de dor e calafrios. Eu sentia o frio cortante, seguido por ondas de calor que me faziam delirar. Em meus delírios, eu voltava para o resort, para o dia em que ela me disse que não podíamos ficar juntas. Eu chorava em sonhos, chamando por ela, sentindo o medo daquela rejeição antiga.
— Eu estou aqui, Karen. Eu nunca mais vou embora. — A voz de Jade era a única coisa que me mantinha ancorada na realidade.
Ela não saiu do meu lado. Jade West, a Alfa Alfa, a mulher que comandava exércitos de lobos e decidia o destino político de alcateias inteiras, estava sentada em uma cadeira simples ao lado da cama, trocando compressas frias na minha testa a cada quinze minutos.
Em um momento de lucidez, durante a madrugada, eu a vi. Ela estava sem a jaqueta, as mangas da camisa social preta dobradas, revelando as veias saltadas em seus braços pelo cansaço. Seus olhos estavam vermelhos, não de raiva, mas de exaustão e lágrimas contidas.
— Jade... — chamei baixinho.
Ela se inclinou sobre mim instantaneamente, segurando minha mão com uma força que beirava o desespero.
— Estou aqui, minha vida. Beba um pouco de água.
— Você precisa dormir... — tentei dizer, vendo as olheiras profundas nela.
— Eu não durmo até você estar bem — disse ela, o tom de voz não aceitando discussões. — O mundo pode queimar lá fora, Karen. O conselho pode implodir. Mas nada importa se você não estiver respirando direito. Você é o meu centro. Se você cair, eu caio junto.
Na manhã seguinte, a porta do quarto se abriu silenciosamente. Luna e Luan entraram, caminhando na ponta dos pés. Eles carregavam seus cobertores favoritos e alguns bichos de pelúcia.
— Papai disse que a mamãe está lutando contra um monstro invisível — sussurrou Luna, subindo na ponta dos pés para colocar seu ursinho ao lado do meu travesseiro.
— Nós viemos ajudar a vigiar — disse Luan, sentando-se no tapete aos pés da cama, cruzando os braços com a mesma postura autoritária de Jade. — Se o monstro aparecer, eu mordo ele.
Jade observou os filhos, e pela primeira vez em dias, um pequeno sorriso de orgulho surgiu em seus lábios. Ela se aproximou deles e afagou suas cabeças.
— Fiquem de guarda, pequenos Alfas. Mas façam silêncio. A rainha precisa descansar.
Eles ficaram ali o dia todo. Era uma cena surreal: a Alfa mais poderosa do mundo e seus dois herdeiros, montando guarda ao redor de uma Beta gordinha e doente que era, sem dúvida alguma, o coração pulsante daquele império.
A temperatura subiu perigosamente ao entardecer. Eu comecei a tremer violentamente, meus dentes batendo.
— Jade, está frio... muito frio...
Ela não hesitou. Jade tirou os sapatos e entrou na cama comigo, puxando-me para o seu peito. Ela envolveu seus braços e pernas ao meu redor, usando o calor natural e intenso de sua linhagem Alfa para combater meus calafrios.
— Use meu calor, Karen — sussurrou ela no meu ouvido, sua respiração quente me acalmando. — Lute. Por mim. Pela Luna. Pelo Luan. Não me deixe sozinha com esses dois pestinhas, eu não vou saber o que fazer sem você para me dizer quando eu estou sendo dura demais.
Eu me aconcheguei nela, sentindo o cheiro de sândalo e chuva que era minha cura particular. O calor de Jade era como um sol de verão me tirando do inverno da doença.
— Você lembra dos votos? — perguntei, a voz fraca, enquanto sentia a consciência oscilar.
— Na saúde e na doença — respondeu ela, apertando-me mais forte. — Na riqueza e na pobreza. Mas eles esqueceram de escrever a parte principal, Karen.
— Qual parte?
— Que eu te amaria além da vida. Que se a morte vier te buscar, ela vai ter que passar por cima do meu cadáver primeiro, e eu garanto que nem o ceifador é páreo para uma Jade West furiosa.
Eu ri, um som fraco e rouco, mas foi o suficiente para fazer Jade soltar um suspiro de alívio.
A febre finalmente quebrou na terceira noite. Acordei encharcada de suor, mas com a cabeça leve. A luz da manhã entrava suavemente pelo quarto vermelho. Jade ainda estava me segurando, dormindo um sono inquieto, mas seus braços não haviam relaxado o aperto nem por um segundo.
Luna e Luan estavam amontoados em um ninho de cobertores no chão ao lado da cama, dormindo como dois filhotes de lobo exaustos.
Eu acariciei o rosto de Jade, sentindo a pele áspera pela barba por fazer — algo raro nela, que sempre era impecável. Ela abriu os olhos instantaneamente, o instinto de proteção disparando antes mesmo da consciência.
— Karen?
— A febre passou, Jade. Eu estou de volta.
Ela me olhou por um longo tempo, verificando minha temperatura com as mãos, com os lábios, com a alma. Quando teve certeza, ela enterrou o rosto no meu pescoço e soltou um soluço sufocado. Foi a primeira vez que a vi chorar de verdade, sem barreiras.
— Nunca mais — soluçou ela. — Nunca mais me dê um susto desses. Eu quase destruí aquele médico ontem à noite só porque ele não conseguia baixar sua temperatura rápido o suficiente.
— Eu sei, minha Alfa — eu disse, puxando-a para um beijo calmo e cheio de promessas. — Eu não vou a lugar nenhum. Temos uma casa de prata, ouro e vermelho para terminar de decorar, lembra? E temos dois monstrinhos para criar.
Jade se afastou um pouco, olhando para os filhos dormindo no chão e depois voltando para mim. O brilho de diamante negro em seu olhar estava mais forte do que nunca.
— Eu vou mandar construir uma ala médica completa nesta mansão — declarou ela, voltando ao seu modo autoritário. — Com os melhores equipamentos do mundo. E ninguém sai de casa sem tomar vitaminas. É uma ordem.
Eu ri, sentindo a vida fluir de volta para os meus membros.
— Sim, senhora.
Algumas semanas depois, eu já estava recuperada. Estávamos todos no jardim. Eu estava sentada em uma poltrona, observando Jade ensinar Luna e Luan a rastrear trilhas na floresta. Ela era dura, exigente, mas sempre que um deles tropeçava, ela os levantava com uma mão firme e um olhar que transbordava um amor que ela só aprendera a sentir depois de mim.
Jade olhou para trás e me viu observando. Ela parou a lição e caminhou até mim. O sol batia em seu rosto, destacando a beleza sombria que me capturara anos atrás no resort.
Eles dizem que em um relacionamento de Dark Romance, o poder é tudo. Mas enquanto Jade se ajoelhava diante de mim para beijar minha mão, ignorando os protestos dos filhos que queriam continuar a brincadeira, eu percebi a verdade.
O poder de Jade era imparável perante o mundo, mas perante mim, ela era apenas uma mulher entregue. E o meu poder, a minha doçura, era a única coisa capaz de manter aquela força da natureza em equilíbrio.
— No que você está pensando? — perguntou ela, seus olhos verdes fixos nos meus.
— Que os votos estavam certos — respondi, puxando-a para um beijo que cheirava a futuro. — Na saúde e na doença. Mas nós fizemos melhor. Nós transformamos a doença em uma prova de que nem o destino pode separar o que o sangue e a alma uniram.
Jade sorriu, aquele sorriso que prometia proteção eterna e uma paixão que nunca esfriaria.
— Eu sou sua, Karen West. Na saúde, na doença, e em cada batida do meu coração de loba.
E ali, sob o céu de Seattle, cercada por nossos filhos e pelo império que construímos sobre cinzas e diamantes, eu soube que nossa história não era apenas sobre sobrevivência. Era sobre o triunfo da doçura sobre a escuridão, e sobre como uma Alfa poderosa encontrou sua verdadeira força nos braços de uma Beta que se recusou a deixá-la caminhar sozinha nas sombras.