entre a e s
Entrelinhas e Desencontros
A noite de Maya foi uma sucessão de sonhos fragmentados. Em um momento, ela estava em uma galeria de arte onde todas as molduras estavam vazias, e Samuel aparecia para preenchê-las com fotografias em preto e branco. No momento seguinte, ela estava em um campo de girassóis gigantes que tinham o rosto de Arthur, todos sorrindo e perguntando se ela queria sorvete de baunilha. Quando o despertador tocou na manhã de quinta-feira, ela sentiu como se tivesse corrido uma maratona mental.
Ao chegar na escola, o peso da mochila parecia diferente. Dentro do caderno de artes, escondido entre as páginas de geometria, havia um novo rascunho. Maya passara a madrugada desenhando. Não era uma paisagem, mas sim uma composição de formas geométricas: um círculo vibrante e cheio de linhas saindo dele, como o sol, e um quadrado sólido, firme, com tons de azul profundo. Era a sua tradução para Arthur e Samuel.
— Maya! Terra chamando Maya! — Bia acenou com a mão na frente do rosto da amiga logo na entrada do pátio. — Você está mais pálida que o normal. O que aconteceu depois que eu te deixei ontem? Você sumiu!
Maya hesitou. O encontro na biblioteca com Samuel parecia um segredo precioso, algo que, se fosse dito em voz alta, perderia a magia. Mas o convite de Arthur... aquilo era público.
— O Arthur me chamou para tomar sorvete amanhã. Com vocês — disse Maya, tentando manter a voz estável enquanto caminhavam para o armário.
Bia parou de súbito, os olhos arregalados.
— O quê? O Arthur? O Arthur do 9º ano? O capitão do time de basquete? — Ela praticamente gritou, atraindo olhares de alguns alunos que passavam.
— Shhh! — Maya a puxou pelo braço. — Não precisa anunciar para o colégio inteiro, Bia. E sim, ele chamou. Mas eu disse que ia pensar.
— Pensar? Maya, você sofreu uma concussão? É o Arthur! Você gosta dele desde que as suas canetas em gel eram de purpurina!
— Eu sei, eu sei — murmurou Maya, abrindo o armário e escondendo o rosto atrás da porta de metal. — Mas as coisas estão... complicadas na minha cabeça.
— Complicadas como? — Bia cruzou os braços, desconfiada. — Tem algo a ver com o Samuel, não tem? Eu vi você entrando na biblioteca ontem atrás dele.
Maya sentiu o rosto queimar instantaneamente. Ela não era boa em esconder nada de Bia.
— Eu só... entreguei um desenho para ele.
— Um desenho? — Bia soltou uma risadinha. — Você é tão romântica à moda antiga que às vezes eu acho que você nasceu no século errado. E o que ele disse?
— Ele disse que as palavras às vezes estragam as coisas — respondeu Maya, fechando o armário e começando a caminhar para a sala de aula. — Ele me entendeu, Bia. Sem eu precisar explicar que eu tenho dificuldade de falar.
Bia ficou em silêncio por um momento, processando a informação.
— Entendi. Então temos um dilema real. O Sol e a Lua. O barulho e o silêncio.
Durante as primeiras aulas, Maya não conseguiu se concentrar. Cada vez que a porta da sala se abria, ela temia — e secretamente esperava — que um deles aparecesse com algum recado da diretoria. No intervalo, a tensão atingiu o ápice. Ela precisava passar pelo corredor do 9º ano para chegar ao laboratório de ciências.
— Vai lá — incentivou Bia, dando um empurrãozinho. — Eu te encontro no laboratório em cinco minutos. Preciso passar na secretaria.
Maya caminhou sozinha. O corredor do 9º ano era sempre mais barulhento, cheio de adolescentes que pareciam ocupar mais espaço do que o fisicamente possível. De longe, ela viu o grupo de Arthur. Ele estava cercado de amigos, rindo alto enquanto tentava equilibrar um livro na cabeça. Quando ele a viu, seus olhos brilharam e ele acenou vigorosamente.
— Ei, Maya! — ele gritou, atravessando o corredor em sua direção, ignorando as piadinhas dos amigos. — E aí? Já pensou sobre o sorvete? A gente vai naquele lugar novo perto da praça.
Maya sentiu as mãos suarem. A energia de Arthur era contagiante, mas também um pouco esmagadora.
— Oi, Arthur. Eu... eu ainda estou vendo com a minha mãe se eu posso sair na sexta — mentiu ela, sentindo uma pontada de culpa.
— Ah, entendi. Se quiser, eu posso falar com ela! — Ele brincou, dando aquela piscadinha que fazia as pernas de Maya parecerem feitas de gelatina. — Mas sério, seria legal ter você lá. Você é diferente das outras meninas, Maya. Você ouve de verdade.
Maya sentiu um nó na garganta.
— Obrigada, Arthur. Eu aviso a Bia e ela te fala, tá bom?
— Combinado! — Ele tocou levemente o topo da cabeça dela antes de voltar para os amigos.
Ela continuou andando, o coração batendo no ritmo de um tambor. Mas, ao virar a esquina para o bloco da biblioteca, ela quase colidiu com Samuel. Ele estava encostado na parede, com o mesmo par de fones de ouvido no pescoço, lendo um livro de bolso.
Ao vê-la, ele fechou o livro e guardou algo dentro do bolso da mochila.
— Maya — disse ele. Apenas o nome dela, mas a forma como ele disse, lenta e pausada, parecia um parágrafo inteiro.
— Oi, Samuel.
— Eu li o que você escreveu no verso do desenho — ele comentou, dando um passo à frente. O corredor ali era mais silencioso, longe da agitação de Arthur. — "Belo olhar". Ninguém nunca tinha me dito isso. Geralmente dizem que eu pareço estar no mundo da lua.
— Mas o mundo da lua é um lugar interessante — defendeu Maya, ganhando uma coragem repentina. — É onde as melhores ideias ficam escondidas.
Samuel sorriu. Não era um sorriso aberto como o de Arthur, era um pequeno canto de boca que parecia um segredo compartilhado.
— Eu fiz uma coisa para você. Quer dizer, eu não sabia se ia te ver hoje.
Ele enfiou a mão na mochila e tirou uma fotografia polaroid. Era uma imagem da janela da biblioteca, com a luz do sol batendo em uma estante de livros de uma forma que criava um arco-íris de poeira no ar. No canto da foto, quase imperceptível, estava a silhueta de uma menina de costas, com o cabelo preso — era Maya, ontem, saindo da sala.
— Você tirou uma foto minha? — ela perguntou, pegando o papel com dedos trêmulos.
— Eu estava testando a luz. E você apareceu. Parecia que a cena só ficou completa quando você passou por ela — explicou Samuel, desviando o olhar por um segundo, demonstrando uma timidez que Maya nunca achou que ele tivesse. — Guarde para você. Como um agradecimento pelo desenho.
Maya olhou para a foto e depois para Samuel. O contraste era absurdo. Arthur queria levá-la para o mundo, para o barulho, para o sorvete e para a risada. Samuel estava convidando-a para o seu próprio mundo interno, feito de luz, sombra e silêncio.
— Samuel... — ela começou, mas as palavras travaram novamente.
— Não precisa dizer nada — ele a interrompeu suavemente. — Eu sei. As palavras não cabem na voz, certo?
Ele colocou os fones de ouvido novamente e, com um aceno de cabeça, seguiu seu caminho. Maya ficou parada no meio do corredor, segurando a fotografia contra o peito.
O resto do dia passou como um borrão. Na aula de matemática, ela não resolveu uma única equação. No verso do seu caderno, ela começou a escrever uma lista, tentando organizar o caos que sentia.
"Arthur: 1. Ele me faz rir. 2. Ele me nota no meio da multidão. 3. Ele é fácil de gostar. 4. Ele quer que eu fale."
"Samuel: 1. Ele me entende sem eu falar. 2. Ele vê os detalhes que ninguém vê. 3. Ele é calmo como um livro. 4. Ele gosta do meu silêncio."
Na saída da escola, Bia a encontrou no portão.
— E então? Decidiu? — perguntou a amiga, enquanto caminhavam para o ponto de ônibus. — O Arthur passou por mim agora pouco e estava todo radiante. Ele gosta de você, Maya. Dá para ver de longe.
— E o Samuel? — perguntou Maya em voz baixa, mostrando a polaroid para a amiga.
Bia pegou a foto e ficou em silêncio por um longo tempo.
— Uau. Isso é... profundo. Ele realmente te vê, não é?
— É o que eu sinto — confessou Maya. — Com o Arthur, eu sinto que posso aprender a ser mais corajosa. Com o Samuel, eu sinto que não preciso ter medo de ser quem eu já sou.
— E qual desses dois sentimentos você quer agora? — Bia perguntou com uma sabedoria que não parecia de uma menina do 7º ano.
Maya olhou para o horizonte, onde o céu começava a ganhar tons de laranja e roxo.
— Eu não sei se quero escolher um sentimento. Eu quero entender por que eu sinto os dois.
Naquela noite, Maya pegou seu diário. Ela não desenhou. Ela não fez listas. Ela começou a escrever uma carta. Não era para Arthur, nem para Samuel. Era para si mesma.
"Querida Maya do futuro," ela escreveu com sua caneta favorita. "Hoje eu descobri que o amor não é uma resposta de múltipla escolha. Às vezes, ele é uma pergunta dissertativa que leva a vida inteira para responder. O Arthur é o sol que eu quero que me aqueça, e o Samuel é a lua que ilumina meus pensamentos mais escuros. Talvez eu não precise decidir amanhã. Talvez a expressão que eu tanto procuro não seja uma palavra, mas sim o tempo."
Ela fechou o diário e colocou a polaroid de Samuel e o convite de Arthur (que Bia tinha anotado em um papel de rascunho) lado a lado na sua mesa de cabeceira.
Na sexta-feira de manhã, o ar estava fresco. Maya se vestiu com cuidado, escolhendo sua blusa azul favorita. Ela pegou dois envelopes pequenos de sua gaveta.
No primeiro, para Arthur, ela escreveu: "Eu vou ao sorvete. Mas só se você prometer que, se eu ficar em silêncio por cinco minutos, você não vai achar que eu estou triste. É só o meu jeito de aproveitar a companhia."
No segundo, para Samuel, ela escreveu: "Obrigada pela foto. Ela me fez ver que o silêncio também pode ser revelado. Você quer me mostrar mais fotos na biblioteca na segunda-feira?"
Ao chegar na escola, ela sentiu uma calma estranha. Ela ainda era a menina que gaguejava quando ficava nervosa. Ela ainda era a menina que preferia o fundo da sala. Mas ela não era mais refém da sua própria incapacidade de se expressar.
Ela encontrou Arthur perto da quadra.
— Ei! — ela chamou, antes que ele pudesse falar. Ela entregou o envelope e saiu andando, sentindo o coração vibrar.
Cinco minutos depois, ela passou pela biblioteca. Samuel estava lá, como sempre. Ela deslizou o segundo envelope por cima do balcão onde ele devolvia os livros. Ele a viu, pegou o papel e deu aquele meio sorriso que agora ela sabia identificar como um convite silencioso.
Maya caminhou para sua sala de aula. Bia a esperava na porta, com um olhar inquisidor.
— E então? O que você fez?
Maya sorriu, um sorriso que não era para o Arthur, nem para o Samuel, mas para si mesma.
— Eu falei, Bia. Do meu jeito, mas eu falei.
— E o que você disse?
— Eu disse que o labirinto é grande demais para eu sair dele correndo. Então eu resolvi caminhar devagar.
Bia franziu a testa, sem entender nada, mas abraçou a amiga.
— Você é muito estranha, Maya. Mas acho que é por isso que eles gostam de você.
Enquanto o sinal tocava, iniciando mais um dia de aulas, Maya se sentou em sua carteira. Ela olhou para as mãos e percebeu que elas não estavam mais tremendo. A comunicação, ela descobriu, não era sobre falar as palavras certas, mas sobre ter a coragem de entregar um pedaço de si mesma para o outro, seja em um bilhete, em um desenho ou em uma fotografia.
O 7º ano ainda parecia pequeno, e o 9º ano ainda parecia distante. Mas entre o A e o S, Maya tinha finalmente encontrado o seu próprio lugar. E aquele lugar, pela primeira vez, não era silencioso. Ele estava cheio de todas as palavras que ela ainda iria dizer.