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entre a e s

O Eco do Silêncio e o Som das Cores

A sexta-feira à tarde tinha um peso diferente. O ar parecia mais denso, carregado com a expectativa do encontro na sorveteria e o eco das palavras que Maya tinha corajosamente colocado nos envelopes. No intervalo, ela evitou os corredores principais, sentindo que sua cota de coragem para um único dia já havia sido atingida. Ela se refugiou com Bia em um canto afastado do pátio, observando as formigas carregarem migalhas de biscoito entre as rachaduras do cimento.

— Você está parecendo uma estátua de novo, Maya — comentou Bia, dando uma mordida em sua maçã. — O Arthur leu o bilhete. Eu vi a cara dele. Ele ficou olhando para o papel por uns três minutos, sorrindo como se tivesse ganhado na loteria.

Maya sentiu o estômago dar um solavanco.

— E o Samuel? — perguntou ela, a voz quase um sussurro.

— O Samuel é um mistério, né? Ele guardou o envelope no bolso e continuou lendo como se nada tivesse acontecido. Mas eu vi ele olhando para a porta da biblioteca depois que você saiu. Ele parecia... pensativo.

O sinal da saída tocou, e o coração de Maya disparou. Era o momento. Ela seguiu Bia e um grupo de colegas do 7º ano em direção à sorveteria "Ponto Gelado". De longe, ela viu a silhueta alta de Arthur. Ele estava sem a mochila, apenas com o casaco do time de basquete amarrado na cintura, gesticulando para que elas apressassem o passo.

— Vocês chegaram! — exclamou Arthur quando elas se aproximaram. Ele olhou diretamente para Maya, e o sorriso dele foi suave, desprovido daquela agitação costumeira. — Eu li sua mensagem, Maya. Promessa é promessa. Cinco minutos de silêncio garantidos, ou até mais, se você quiser.

— Obrigada, Arthur — respondeu ela, sentindo que o rosto não queimava tanto quanto antes.

O grupo entrou na sorveteria, um caos de risadas, pedidos de coberturas de chocolate e o som das colheres de plástico batendo nos potes. Maya escolheu um sorvete de frutas vermelhas, a cor vibrante lembrando-a dos desenhos que fazia quando estava inspirada. Ela se sentou em uma mesa de canto, e Arthur, para sua surpresa, afastou-se dos amigos barulhentos para se sentar ao lado dela.

— Sabe — começou Arthur, baixando o tom de voz para que apenas ela ouvisse —, eu nunca parei para pensar que o silêncio pudesse ser uma forma de aproveitar a companhia. Eu sempre achei que, se ninguém estivesse falando, era porque algo estava errado.

Maya olhou para ele, surpresa com a confissão.

— Para mim é o contrário — disse ela, ganhando confiança. — Quando as pessoas falam demais, eu sinto que as palavras escondem o que elas realmente estão sentindo. No silêncio, a gente só... é.

Arthur ficou em silêncio por alguns instantes, testando a teoria dela. Ele observou o movimento da rua através da vidraça, depois olhou para o sorvete de Maya.

— É difícil — admitiu ele, rindo baixo. — Mas é um silêncio bom. Você tem razão.

Enquanto o grupo se divertia, Maya se sentia em paz. No entanto, sua mente trapaceira voou para a biblioteca. Ela imaginou Samuel em casa, talvez revelando alguma foto ou lendo sob a luz de um abajur. A dualidade de seus sentimentos era como uma corda bamba. Com Arthur, ela sentia que o mundo se expandia; com Samuel, ela sentia que o mundo se aprofundava.

A tarde passou rápido demais. Quando o grupo começou a se dispersar, Arthur caminhou com ela até a esquina onde ela costumava esperar o ônibus.

— Maya — chamou ele antes de partir. — Valeu por hoje. De verdade. Eu acho que aprendi mais sobre você nesses dez minutos quietos do que em um ano inteiro de escola.

— Eu também gostei, Arthur — disse ela, e desta vez não foi um som abafado, foi uma frase clara.

Ao chegar em casa, Maya encontrou um envelope por baixo da sua porta. Não havia selo, apenas o seu nome escrito com uma caligrafia técnica e precisa. Seu coração quase parou. Samuel morava a apenas três quadras dali, mas eles nunca haviam se visitado.

Ela subiu para o quarto, sentou-se na cama e abriu o papel com cuidado. Dentro, não havia uma carta, mas sim um pequeno pedaço de filme negativo e um bilhete curto:

"Coloque isso contra a luz. Algumas coisas só podem ser vistas quando há clareza suficiente. Vejo você na segunda-feira. — S."

Maya correu até a janela. O sol estava se pondo, tingindo o quarto de dourado. Ela segurou o negativo contra a luz do poente. Era uma imagem dela na aula de artes, debruçada sobre seu caderno, totalmente concentrada. Na foto, ela parecia radiante, não pela beleza externa, mas pela intensidade do que estava criando.

Ela se deitou, olhando para o teto. Como era possível se sentir tão conectada a duas pessoas tão diferentes ao mesmo tempo?

O fim de semana foi uma tortura de pensamentos. No sábado, Arthur mandou uma mensagem de texto com uma foto de um grafite que encontrou na rua: "Lembrei do seu estilo de desenho". No domingo, ela passou o dia relendo o bilhete de Samuel.

Segunda-feira chegou com um céu cinzento, prometendo chuva. Maya entrou na escola sentindo que cada passo era uma nota musical em uma sinfonia que ela ainda não sabia como terminar. No intervalo, ela não foi para o pátio. Ela foi direto para a biblioteca.

Samuel estava lá, no mesmo lugar, mas desta vez ele não estava lendo. Ele estava olhando para a porta.

— Você veio — disse ele, levantando-se.

— Eu vi o negativo — Maya falou, aproximando-se da mesa. — Por que você tira fotos minhas quando eu não estou olhando?

Samuel hesitou, passando a mão pelo cabelo.

— Porque quando você sabe que está sendo observada, você cria uma concha. Mas quando você está desenhando ou pensando, a concha desaparece. Eu queria registrar a Maya real. Aquela que não tem medo das palavras porque está ocupada demais criando mundos.

Maya sentiu um arrepio. Ninguém nunca tinha falado com ela daquela forma.

— Eu não sou tão corajosa assim, Samuel. Eu morro de medo de quase tudo.

— Ter medo não é o oposto de ser corajosa — respondeu ele, pegando sua câmera que estava sobre a mesa. — O oposto da coragem é o conformismo. E você não se conforma em ser apenas mais uma na multidão. Você sente tudo em cores, não é?

— Sinto — confessou ela. — Às vezes é cansativo.

— Eu sei. Por isso eu gosto da fotografia. Ela congela o sentimento para que a gente possa analisar depois, com calma.

Eles ficaram ali, cercados pelo cheiro de livros velhos, compartilhando um entendimento que não precisava de explicações. Mas, de repente, a porta da biblioteca se abriu com um estrondo. Era Arthur, procurando por alguém. Quando seus olhos encontraram Maya e Samuel juntos, ele parou bruscamente.

O triângulo estava completo. O silêncio da biblioteca tornou-se tenso, carregado com a energia elétrica de Arthur e a gravidade de Samuel.

— Ah, oi — disse Arthur, perdendo um pouco do seu brilho habitual. — Eu estava te procurando, Maya. Queria te devolver aquela caneta que você esqueceu na sorveteria.

Ele caminhou até a mesa, depositando uma caneta de gel azul entre os dois. Seus olhos alternaram entre o rosto de Maya e a câmera de Samuel.

— Atrapalhei alguma coisa? — perguntou Arthur, tentando manter o tom casual, mas falhando miseravelmente.

— Estávamos apenas falando sobre... artes — disse Maya, sentindo a velha gagueira ameaçar voltar.

Samuel olhou para Arthur com uma expressão neutra, mas seus dedos apertavam a alça da câmera.

— Ela estava me contando como o silêncio é importante para ela — disse Samuel, com uma ponta de desafio na voz.

Arthur forçou um sorriso e cruzou os braços.

— É, ela me contou isso na sexta. A gente passou um tempo bem legal juntos. O silêncio dela é incrível mesmo.

Maya sentiu que o ar estava ficando escasso. Ela olhou para Arthur, que representava a alegria, o movimento e a aceitação pública. Depois olhou para Samuel, que representava a profundidade, a introspecção e a alma. Ela não queria machucar nenhum dos dois, mas também não queria se perder no processo.

— Eu... eu preciso ir para a aula — disse Maya, pegando sua mochila.

— Eu te acompanho — disseram os dois, quase em uníssono.

Eles se entreolharam, uma faísca de rivalidade adolescente surgindo no ar. Maya respirou fundo. Pela primeira vez, ela percebeu que a dificuldade de se expressar não era apenas um defeito dela, era uma proteção. Mas agora, a proteção precisava cair.

— Não — disse ela firmemente, surpreendendo a ambos. — Eu vou sozinha. Eu preciso pensar.

Ela saiu da biblioteca sem olhar para trás, mas desta vez não estava fugindo. Ela estava caminhando para o seu próprio centro.

No corredor, ela encontrou Bia, que a observou com curiosidade.

— O clima pesou lá dentro, não foi? — perguntou a amiga.

— Pesou. Mas eu descobri uma coisa, Bia.

— O quê?

— Que eu não sou um prêmio que um dos dois vai ganhar. E eu não sou uma escolha que precisa ser feita hoje. Eu tenho doze anos. Eu tenho o direito de gostar do sol e da lua ao mesmo tempo.

Bia sorriu e passou o braço pelos ombros da amiga.

— Finalmente! Eu achei que teria que desenhar isso para você entender.

— Engraçadinha — rebateu Maya, sentindo um peso sair de seus ombros.

Naquela tarde, na aula de artes, o professor deu um novo tema: "O Encontro".

Maya pegou suas tintas. Ela não desenhou Arthur, nem Samuel. Ela desenhou uma ponte. De um lado da ponte, havia um sol radiante. Do outro, uma lua crescente. E no meio da ponte, havia uma menina caminhando, segurando um caderno e uma câmera. Ela não estava indo para nenhum dos lados especificamente; ela estava simplesmente aproveitando a vista de ambos.

No final da aula, ela arrancou a folha e a dividiu ao meio com cuidado, seguindo a linha da ponte.

Ela passou pelo armário de Arthur e deixou a metade com o sol. Depois, passou pelo armário de Samuel e deixou a metade com a lua. No verso de ambas as metades, ela escreveu a mesma frase:

"Obrigada por me ajudarem a encontrar minha voz. No meu tempo, a ponte vai se completar."

Ao sair da escola, a chuva prometida finalmente caiu. Maya abriu seu guarda-chuva transparente e observou as gotas escorrendo pela superfície plástica. Ela viu Arthur correndo para o carro da mãe, acenando para ela com um sorriso compreensivo. Viu Samuel caminhando devagar sob a chuva, com o capuz do casaco levantado, dando um aceno discreto com a mão.

Ela não sabia o que o futuro reservava. Talvez ela acabasse namorando Arthur no ensino médio, ou talvez Samuel se tornasse seu melhor amigo e parceiro de exposições de arte. Ou talvez ambos fossem apenas capítulos bonitos de um livro que estava apenas começando.

O que importava era que Maya não era mais a menina que se escondia atrás das alças da mochila. Ela era a menina que sabia usar o silêncio, o desenho e a coragem para dizer ao mundo que ela estava ali.

— Maya! Espera! — gritou Bia, correndo para debaixo do guarda-chuva dela. — Você vai me contar tudo o que escreveu naqueles papéis, ou vou ter que adivinhar?

Maya riu, um som cristalino que se misturou ao barulho da chuva.

— Eu te conto no caminho, Bia. Mas aviso logo: é uma história longa.

— Ótimo — disse Bia, ajustando a mochila. — Eu adoro histórias longas.

E assim, as duas caminharam juntas, deixando para trás os corredores da escola e as incertezas da infância, prontas para o que quer que viesse a seguir. O labirinto entre o A e o S ainda existia, mas Maya agora possuía o mapa, e ele era pintado com todas as cores que ela sempre teve medo de mostrar.

A jornada de Maya estava longe de terminar, mas ela finalmente entendera que a expressão mais pura do amor não era uma escolha forçada, mas a liberdade de ser exatamente quem se é diante do outro. E, naquele momento, sob a chuva de segunda-feira, Maya sentia-se perfeitamente completa.