Entre bastidores
Entre Acordes e Confissões
O sol de Bangkok ainda não havia se posto completamente quando o carro de Gemini parou em frente a um dos estúdios de ensaio da GMMTV. O dia tinha sido exaustivo, preenchido por sessões de fotos e reuniões de planejamento para a turnê asiática que se aproximava. No entanto, para Gemini e Fourth, o cansaço parecia um detalhe irrelevante diante da eletricidade que ainda pulsava entre eles desde a noite anterior.
Dentro do estúdio, o ar condicionado trabalhava no máximo, contrastando com o calor úmido do lado de fora. Gemini jogou sua mochila em um canto e pegou o violão que já o esperava no suporte. Ele se sentou no banquinho alto, ajustando as cordas com uma concentração quase meditativa. Fourth, por outro lado, caminhava pela sala, observando os cartazes de apresentações passadas, sentindo uma nostalgia estranha.
— Você está inquieto — observou Gemini, sem tirar os olhos do instrumento. — O que foi? O P'Tha disse algo que te deixou preocupado depois que eu saí da sala?
Fourth parou diante do espelho que cobria uma das paredes inteiras do estúdio. Ele ajeitou a gola da camisa, vendo o reflexo de Gemini atrás dele.
— Não é isso. Ele foi ótimo, na verdade. É só que... — Fourth hesitou, virando-se para encarar o parceiro. — É estranho não ter que esconder. Hoje, quando o maquiador fez uma piada sobre como você não parava de olhar para mim, eu não precisei inventar uma desculpa sobre "estudar a dinâmica do personagem". Eu só sorri. E isso é assustador, Gem.
Gemini parou de dedilhar e olhou para Fourth. Seus olhos, sempre tão expressivos, carregavam uma mistura de compreensão e adoração.
— O novo sempre assusta, Fourth. Mas pense no peso que saiu das nossas costas. — Gemini estendeu a mão, chamando-o para perto. — Vem aqui.
Fourth caminhou até ele e se encaixou entre as pernas de Gemini, apoiando as mãos nos ombros do mais alto. A proximidade era natural, uma coreografia que seus corpos haviam aprendido ao longo de anos de "serviço aos fãs", mas que agora ganhava um significado visceral, sem câmeras para satisfazer.
— Eu escrevi algo hoje cedo — sussurrou Gemini, a voz vibrando contra o peito de Fourth. — No meio daquela reunião chata sobre logística de voos. Eu só conseguia pensar em como a sua mão se sentia na minha ontem à noite.
— Uma música nova? — perguntou Fourth, os olhos brilhando de curiosidade.
— Talvez. Ou talvez apenas um desabafo. — Gemini começou a tocar uma melodia suave, algo que Fourth nunca tinha ouvido. Era lenta, com acordes que pareciam flutuar no ar silencioso do estúdio.
— "Não há mais sombras no corredor" — Gemini começou a cantar baixinho, a voz rouca e íntima. — "O tempo parou de correr contra nós. O que era provável, agora é o meu chão. E o seu nome é a única nota da minha canção."
Fourth sentiu um nó na garganta. Ele sempre soube que Gemini era talentoso, mas a honestidade naquelas palavras o atingiu de forma diferente. Não era uma música para um drama ou para um álbum comercial. Era para ele.
— Gem... isso é lindo — murmurou Fourth, escondendo o rosto na curvatura do pescoço de Gemini. — Você não pode lançar isso, as pessoas vão descobrir que você é um romântico incurável atrás dessa fachada de cara legal e sociável.
— Deixe que descubram — Gemini riu, deixando o violão de lado para envolver a cintura de Fourth com os dois braços, puxando-o para mais perto. — Eu sou um romântico incurável por você. Sempre fui. Lembra de 2023? No nosso primeiro grande show?
— Como eu poderia esquecer? Eu quase desmaiei de nervosismo — respondeu Fourth, rindo contra a pele dele.
— Eu segurei sua mão atrás das cortinas — relembrou Gemini, o tom de voz ficando mais sério. — E por um segundo, eu quase te beijei ali mesmo. Eu senti que, se eu não fizesse aquilo, eu ia explodir. Mas aí a contagem regressiva começou e fomos empurrados para o palco.
— Eu teria deixado — confessou Fourth, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos de Gemini. — Se você tivesse me beijado naquela época, eu teria ficado em choque, mas eu teria deixado. Eu já estava completamente perdido por você, só não tinha maturidade para admitir que um garoto podia me fazer sentir aquilo.
Gemini acariciou a bochecha de Fourth com o polegar, traçando o contorno de seu lábio inferior.
— Nós crescemos, Fourth. O mundo mudou, nós mudamos. Mas o jeito que meu coração acelera quando você entra na sala... isso é a única coisa que permaneceu intacta.
O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som da respiração de ambos. Não havia pressa. Pela primeira vez em anos, eles não tinham um cronograma a seguir nos próximos trinta minutos.
— Sabe o que eu mais gosto em 2026? — perguntou Fourth, quebrando o silêncio.
— O quê?
— Que não precisamos mais de roteiros. — Fourth inclinou-se, selando seus lábios nos de Gemini.
O beijo começou calmo, um reconhecimento mútuo de tudo o que haviam passado para chegar ali. Mas logo a intensidade aumentou, alimentada pela liberdade que agora possuíam. Gemini puxou Fourth para mais perto, se é que isso era possível, enquanto as mãos de Fourth se perdiam nos cabelos cuidadosamente penteados de Gemini, bagunçando-os sem piedade.
— Gem... — Fourth murmurou entre os beijos —, a gente tem que ensaiar a coreografia de *Ticket to Heaven* para o fanmeeting de amanhã.
— O ensaio pode esperar dez minutos — respondeu Gemini, a voz carregada de desejo, descendo os beijos para o pescoço de Fourth. — Ou vinte. Ou a noite toda.
— P'Tha vai nos matar — Fourth riu, mas não fez menção de se afastar.
— Ele vai entender que estamos em um "processo criativo intenso" — brincou Gemini, fazendo Fourth soltar uma gargalhada alta que ecoou pelo estúdio.
Eles acabaram sentados no chão, encostados no espelho, dividindo uma garrafa de água e conversando sobre o futuro. Falaram sobre o desejo de tirar férias de verdade, em algum lugar onde ninguém os reconhecesse, onde pudessem caminhar de mãos dadas em uma praia sem se preocuparem com fotos de paparazzi ou hashtags no Twitter.
— Talvez a Suíça? — sugeriu Gemini. — Ou algum lugar nas montanhas. Você gosta do frio.
— Eu gosto de qualquer lugar, desde que você esteja lá para me aquecer — rebateu Fourth, ganhando um empurrão de brincadeira de Gemini.
— Nossa, essa foi péssima, Fourth Nattawat! Onde está o seu senso artístico?
— Ficou lá fora, junto com a minha timidez — Fourth deu de ombros, sorrindo de forma travessa.
Enquanto a noite avançava, eles finalmente se levantaram para ensaiar. A música começou a tocar nos alto-falantes do estúdio e, por instinto, eles se posicionaram. Mas a dança era diferente agora. Os toques que antes eram técnicos e precisos agora tinham uma suavidade orgânica. Quando Gemini girava Fourth, ele o segurava por um segundo a mais. Quando se aproximavam para a parte final da música, a tensão era palpável.
— Você está sendo muito pegajoso — provocou Fourth, enquanto tentava recuperar o fôlego após a terceira repetição da coreografia.
— Eu? — Gemini fingiu indignação. — Você é quem não solta meu braço na parte do refrão.
— É para eu não cair, seu bobo.
— Sei... — Gemini aproximou-se, envolvendo a cintura de Fourth por trás e olhando para o reflexo de ambos no espelho. — Ficamos bem juntos, não ficamos?
Fourth olhou para a imagem no espelho. Dois homens jovens, bem-sucedidos, mas que, naquele momento, pareciam apenas dois garotos apaixonados. Ele viu a forma como Gemini o abraçava, com uma posse que não era sufocante, mas sim protetora.
— Ficamos. Ficamos muito bem.
— Eu estava lendo alguns comentários antes de entrarmos aqui — disse Gemini, o tom de voz mudando para algo mais reflexivo. — Alguns fãs antigos estão postando vídeos de 2022. Eles notaram coisas que eu nem lembrava.
— Tipo o quê? — perguntou Fourth, curioso.
— Teve uma entrevista onde perguntaram qual era o nosso tipo ideal. Eu descrevi exatamente você, ponto por ponto, e você ficou tão vermelho que parecia que ia explodir. Eu nem percebi na época que fui tão óbvio.
— Eu percebi — Fourth riu. — Eu passei a noite inteira acordado pensando se você tinha feito de propósito ou se era só o seu jeito atencioso de sempre.
— Foi de propósito — admitiu Gemini, beijando o ombro de Fourth. — Eu sempre quis que você soubesse. Mesmo quando eu não podia dizer as palavras, eu tentava mostrar. Em cada música que eu escolhia para cantarmos juntos, em cada postagem escondida... era tudo para você.
Fourth virou-se nos braços de Gemini, ficando de frente para ele. Ele levou as mãos ao rosto do parceiro, sentindo a pele quente e a leve textura da barba que Gemini agora deixava crescer um pouco mais.
— Obrigado por esperar por mim, Gem. Eu sei que eu demorei para entender. Eu sei que eu fui difícil às vezes, querendo manter as barreiras por medo da indústria, por medo do que nossos pais pensariam...
— Shh — Gemini o interrompeu, colocando um dedo sobre os lábios de Fourth. — Não peça desculpas por ser cauteloso. Isso só me fez valorizar ainda mais o que temos agora. Nós construímos isso tijolo por tijolo. Não foi um acidente, Fourth. Foi uma escolha.
— E você escolheria de novo? — perguntou Fourth, com um brilho de vulnerabilidade nos olhos.
Gemini sorriu, aquele sorriso que iluminava todo o rosto e que fazia Fourth sentir que o mundo inteiro estava em paz.
— Eu escolheria você em todas as vidas, em todos os anos e em todas as probabilidades. Seja em 2022, 2026 ou 2060.
Eles se abraçaram apertado, um abraço que selava não apenas um compromisso romântico, mas uma parceria de vida. O estúdio de ensaio, com suas luzes fluorescentes e paredes espelhadas, tornou-se o cenário de uma promessa silenciosa.
— Vamos para casa? — sugeriu Fourth, depois de algum tempo. — Estou exausto, e amanhã o dia começa às seis da manhã.
— Vamos. Mas eu dirijo. Você sempre dorme no meio do caminho e eu gosto de ver você roncando baixinho no banco do passageiro.
— Eu não ronco, Gemini! — protestou Fourth, enquanto pegava sua mochila.
— Ronca sim. É como um gatinho cansado. É fofo, na verdade.
Eles saíram do estúdio brincando e se empurrando, a imagem perfeita da felicidade que haviam conquistado. No corredor, encontraram alguns seguranças e funcionários da limpeza, que os cumprimentaram com sorrisos cúmplices. A "bolha" que eles haviam criado para se proteger estava se expandindo, e o mundo parecia mais do que disposto a deixá-los viver sua verdade.
Ao chegarem ao estacionamento, Gemini destravou o carro, mas antes de Fourth entrar, ele o puxou para um último beijo sob a luz dos postes da rua.
— O que foi isso? — perguntou Fourth, sorrindo contra os lábios de Gemini.
— Nada. Só queria ter certeza de que isso não é um sonho — respondeu Gemini, abrindo a porta para ele.
— Se for um sonho, não me acorde — disse Fourth, acomodando-se no banco.
Gemini entrou no carro, ligou o motor e a música começou a tocar automaticamente pelo Bluetooth. Era uma das canções que haviam gravado para *Ticket to Heaven*, uma balada sobre encontrar o paraíso nos braços de alguém.
Enquanto dirigia pelas ruas ainda movimentadas de Bangkok, Gemini estendeu a mão para o lado, e Fourth imediatamente a segurou, entrelaçando seus dedos. Eles não precisavam de grandes declarações ou gestos heróicos. O amor deles estava nos pequenos detalhes: no toque constante, no olhar compartilhado, na certeza de que, ao final de cada dia longo e cansativo, eles teriam um ao outro.
O ano de 2026 estava apenas começando, e embora houvesse muitos desafios pela frente — turnês esgotantes, críticas, a pressão constante da fama —, eles sabiam que nada disso importava. Eles haviam cruzado a linha mais importante de suas vidas. E do outro lado, encontraram não apenas o sucesso, mas a liberdade de amar sem reservas.
— Gem? — chamou Fourth, sua voz já ficando arrastada pelo sono conforme o carro avançava.
— Sim, Nong?
— Eu te amo.
Gemini sentiu o coração falhar uma batida. Mesmo depois de tantas vezes, ouvir aquelas palavras vindas de Fourth ainda era o melhor som do mundo.
— Eu também te amo, Fourth. Mais do que qualquer letra de música poderia explicar.
Fourth fechou os olhos, um sorriso sereno nos lábios, enquanto o carro seguia em direção ao futuro que eles agora construíam juntos, um dia de cada vez, transformando cada "provável" em um "para sempre" absoluto.