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Entre bastidores

Onde o Céu e a Terra se Encontram

A luz do amanhecer em Bangkok tinha um tom alaranjado que filtrava pelas cortinas de linho do quarto de Gemini. O silêncio da manhã era apenas quebrado pelo som rítmico do ar-condicionado e pela respiração profunda de Fourth, que ainda dormia profundamente ao seu lado. Gemini, no entanto, estava acordado há algum tempo, apenas observando. Havia algo de sagrado em ver o rosto de Fourth desarmado pelo sono, sem as pressões das câmeras ou a necessidade de ser o "Fourth Nattawat" que o mundo inteiro idolatrava.

Ele estendeu a mão, hesitando por um segundo antes de tocar a ponta dos dedos no ombro de Fourth. Em 2026, a pele dele parecia mais firme, os traços do rosto mais definidos, mas a expressão de paz era a mesma de quando tinham dezessete anos e dormiam em vans entre uma locação e outra.

— Acorda, dorminhoco — sussurrou Gemini, aproximando o rosto do ouvido de Fourth. — Temos um voo em três horas.

Fourth resmungou algo ininteligível e puxou o edredom para cima da cabeça, rolando para o lado oposto. Gemini riu, uma risada baixa que vibrou em seu peito, e se inclinou sobre ele, começando a distribuir beijos pela nuca exposta do outro.

— Gem... para... está cedo — a voz de Fourth saiu abafada pelo travesseiro, mas ele não se afastou.

— Cedo? O sol já está alto e o P'Tha já mandou três mensagens no grupo perguntando se já tomamos café — Gemini continuou a tortura carinhosa, agora mordiscando levemente o lóbulo da orelha de Fourth. — Se perdermos esse voo para o Japão, ele vai nos fazer ir nadando.

Fourth finalmente se virou, os olhos ainda semicerrados e o cabelo uma bagunça completa de fios escuros. Ele encarou Gemini por um momento, um sorriso preguiçoso surgindo em seus lábios.

— Você é muito irritante de manhã — disse Fourth, passando os braços pelo pescoço de Gemini e puxando-o para baixo. — Mas o seu beijo de bom dia compensa.

Eles se beijaram com a lentidão de quem não tem pressa, um beijo que tinha gosto de intimidade e de planos para o futuro. O fanmeeting em Tóquio seria o primeiro grande evento internacional desde que começaram a ser mais "abertos" sobre o que sentiam, e a expectativa estava lá no alto.

— Você está nervoso? — perguntou Gemini, afastando-se apenas alguns centímetros, as mãos apoiadas no colchão, cercando o corpo de Fourth.

— Um pouco — confessou Fourth, sentando-se na cama e passando as mãos pelo rosto para espantar o sono. — Os fãs japoneses são muito observadores. Eles notam cada microexpressão. Se eu te olhar por um segundo a mais, vai estar em todos os ângulos do TikTok em dez minutos.

— E qual o problema? — Gemini deu de ombros, levantando-se e indo em direção ao armário para pegar uma camisa limpa. — Nós concordamos que não íamos mais nos esconder. Se eu quiser segurar sua mão no palco durante a balada de *Ticket to Heaven*, eu vou segurar.

— Eu sei, Gem. Eu só... ainda estou me acostumando com a ideia de que não vou levar uma bronca por ser feliz — Fourth suspirou, levantando-se também. — Foram anos treinando para ser o "parceiro de cena perfeito" sem ultrapassar a linha. Desaprender isso leva tempo.

Gemini parou o que estava fazendo e voltou até Fourth, segurando suas mãos com firmeza.

— Olhe para mim. Não existe mais linha, Fourth. Nós a apagamos. Agora só existe o que a gente quer construir. E eu quero construir tudo com você.

O clima no aeroporto de Suvarnabhumi era o caos controlado de sempre. Centenas de fãs se aglomeravam atrás das fitas de segurança, gritando seus nomes. Gemini e Fourth caminhavam lado a lado, cercados por seguranças. Antigamente, eles manteriam uma distância segura, talvez interagindo apenas com acenos coordenados. Mas hoje, Gemini ocasionalmente encostava a mão na base das costas de Fourth para guiá-lo pela multidão, e Fourth não recuava; pelo contrário, ele se inclinava levemente para o toque.

Já dentro do avião, na cabine da classe executiva, o burburinho do mundo exterior desapareceu. P'Tha estava sentado algumas fileiras à frente, imerso em seu tablet, deixando os dois em sua própria bolha.

— Você viu as fotos que postaram de nós entrando no aeroporto? — perguntou Fourth, mostrando o celular para Gemini. — Estão dizendo que estamos usando anéis combinando.

Gemini olhou para a própria mão e depois para a de Fourth. Eles realmente estavam usando anéis de prata simples que haviam comprado juntos em uma viagem curta para Chiang Mai no mês anterior.

— Eles são rápidos — comentou Gemini com um sorriso satisfeito. — Mas não estão errados. Eu gosto que eles saibam. É como marcar território sem precisar dizer uma palavra.

— Você é tão possessivo às vezes, Norawit — brincou Fourth, colocando os fones de ouvido. — Vou dormir um pouco. Me acorde quando chegarmos.

— Pode dormir, Nong. Eu cuido de tudo.

Durante as seis horas de voo, Gemini não conseguiu dormir. Ele aproveitou o tempo para revisar o setlist do show. Ele queria que cada momento fosse especial. Ele planejava fazer um solo de piano e, no meio da música, dedicar uma estrofe específica para Fourth, algo que só os dois entenderiam. Era o seu jeito de manter a chama acesa no meio de uma rotina tão exaustiva.

Quando pousaram em Tóquio, o frio do outono japonês os recebeu. Fourth estremeceu ao sair do aeroporto, e Gemini imediatamente se aproximou, ajustando o cachecol no pescoço do outro.

— Eu te disse para trazer o casaco mais grosso — ralhou Gemini, embora seu tom fosse cheio de preocupação.

— Eu esqueci, tá legal? Eu estava ocupado conferindo se você não tinha esquecido o seu passaporte pela décima vez — rebateu Fourth, escondendo o sorriso no cachecol.

Eles foram direto para o hotel para um descanso rápido antes dos ensaios no local do evento. O quarto de hotel era luxuoso, com uma vista deslumbrante para a Torre de Tóquio iluminada.

— Uau — exclamou Fourth, aproximando-se da janela de vidro do chão ao teto. — É lindo, não é?

Gemini não olhou para a vista. Ele olhou para Fourth, cujo perfil era recortado pelas luzes da cidade.

— É — disse Gemini em voz baixa. — A coisa mais linda que eu já vi.

Fourth virou-se, encontrando o olhar intenso de Gemini. O ar entre eles pareceu carregar-se instantaneamente. Sem dizer nada, Gemini caminhou até ele e o envolveu em um abraço apertado, enterrando o rosto em seu ombro.

— O que foi, Gem? — perguntou Fourth, retribuindo o abraço e acariciando os cabelos da nuca de Gemini.

— Nada. Só... às vezes eu ainda não acredito que isso é real. Que eu posso te ter assim, sem ter que olhar por cima do ombro para ver se tem alguém filmando. Que eu posso te amar em Tóquio, em Bangkok ou em qualquer lugar do mundo.

— É real, seu bobo — Fourth se afastou um pouco para beijar a ponta do nariz de Gemini. — Eu sou real. E eu não vou a lugar nenhum.

Na noite do evento, o auditório estava lotado. O mar de luzes verdes e azuis — as cores oficiais da dupla — brilhava intensamente. Quando a música de abertura começou e eles subiram ao palco através do elevador hidráulico, o som dos gritos foi algo que Fourth nunca se acostumaria.

A química entre eles no palco sempre fora o ponto forte, mas naquela noite, havia algo a mais. Durante as brincadeiras e jogos com os fãs, Gemini não perdia a oportunidade de fazer Fourth rir, sussurrando piadas internas no seu ouvido enquanto os tradutores falavam. Em um momento, durante um desafio de culinária no palco, Fourth acabou ficando com um pouco de farinha na bochecha.

Normalmente, um membro da equipe viria com um lenço. Mas Gemini foi mais rápido. Ele estendeu a mão, limpando a mancha com o polegar de forma lenta e deliberada, mantendo o contato visual com Fourth por um segundo a mais do que o estritamente necessário para um "serviço de fãs". O auditório explodiu em um coro de "Awnnn".

— Você é muito exibido — sussurrou Fourth, sentindo o rosto queimar enquanto tentava focar na apresentadora.

— Eu só estou sendo um bom parceiro — respondeu Gemini pelo microfone, piscando para a plateia, o que gerou ainda mais gritos.

O ponto alto da noite foi a performance de *Ticket to Heaven*. A música era uma balada romântica que falava sobre atravessar o mundo para encontrar o seu lugar seguro. Gemini estava ao piano, e Fourth estava de pé ao lado dele.

No meio da canção, Gemini parou de olhar para as teclas e fixou os olhos em Fourth. Ele começou a cantar a ponte da música, que falava sobre promessas feitas na juventude que se cumpriam na maturidade.

— "Eu prometi que o futuro seria nosso" — cantou Gemini, a voz falhando levemente pela emoção. — "E agora que o futuro chegou, eu vejo que o céu sempre esteve nos seus olhos."

Fourth sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ele pegou a mão de Gemini que estava sobre o piano e a apertou com força. Eles terminaram a música assim, de mãos dadas, enquanto as luzes do palco diminuíam lentamente. Não houve beijo, não houve declaração explícita, mas cada pessoa naquele auditório sabia. O silêncio que se seguiu à música foi carregado de uma compreensão coletiva: Gemini e Fourth não eram mais apenas uma "marca" ou um "shipp". Eles eram uma história de amor real.

Após o show, o camarim estava um caos de flores, presentes de fãs e membros da equipe comemorando o sucesso. P'Tha entrou com um sorriso largo.

— Vocês foram incríveis hoje. A hashtag do show está em primeiro lugar no mundo todo. E Gemini... aquela improvisação no piano? Genial.

— Não foi improvisação, P' — disse Gemini, passando o braço pelos ombros de um Fourth exausto. — Foi a verdade.

Quando finalmente voltaram para o hotel, tarde da noite, ambos desabaram no sofá da suíte.

— Minhas pernas estão me matando — reclamou Fourth, tirando os sapatos e jogando-os em qualquer lugar.

— Vem aqui — Gemini sentou-se no chão e puxou os pés de Fourth para o seu colo, começando uma massagem suave.

— Você vai me deixar mal-acostumado, Gem — suspirou Fourth, fechando os olhos e encostando a cabeça no encosto do sofá.

— Essa é a ideia. Quero que você esqueça como é viver sem mim cuidando de você.

Eles ficaram ali por um longo tempo, aproveitando a quietude após a tempestade de emoções do show. Fourth observava Gemini, pensando em como a vida deles tinha mudado desde 2022. Eles tinham passado por tudo juntos: o sucesso repentino, as críticas, as dúvidas, o medo de serem eles mesmos em uma indústria que muitas vezes prefere a ficção à realidade.

— Gem? — chamou Fourth.

— Hum?

— Você lembra do que eu disse naquela live, anos atrás? Sobre o futuro ser provável?

Gemini parou a massagem e olhou para cima.

— Lembro de cada palavra. Eu assisti aquele clipe tantas vezes que decorei até o jeito que você mexia no cabelo quando ficava nervoso.

— Eu estava com tanto medo naquele dia — confessou Fourth. — Medo de que, se eu dissesse que sim, que éramos reais, tudo pudesse desmoronar. Carreira, contratos, a nossa amizade... eu achava que o segredo era o que nos mantinha seguros.

Gemini subiu para o sofá, sentando-se ao lado dele e puxando-o para um abraço de lado.

— O segredo era uma gaiola, Fourth. Uma gaiola dourada, mas ainda assim uma gaiola.

— Eu sei disso agora. — Fourth virou-se para ele, os olhos brilhando. — Sabe o que eu percebi hoje, no palco?

— O quê?

— Que o "provável" é muito pouco para nós. O que a gente tem... é inevitável.

Gemini sorriu, aquele sorriso que Fourth sabia que era só dele. Ele se inclinou e beijou Fourth, um beijo que selava aquela nova compreensão. Não era mais sobre probabilidades ou sobre o que o futuro poderia trazer. Era sobre o agora. Sobre o fato de que, em 2026, eles não precisavam mais de roteiros para saberem que pertenciam um ao outro.

— Inevitável — repetiu Gemini contra os lábios de Fourth. — Eu gosto dessa palavra. Soa como algo que nem o tempo pode mudar.

— Nada vai mudar isso — prometeu Fourth.

Lá fora, a Torre de Tóquio continuava a brilhar, um farol no meio da metrópole. Mas dentro daquele quarto, o mundo era pequeno, seguro e perfeitamente completo. Eles tinham o resto da turnê pela frente, novos projetos, novas cidades e milhares de olhos sobre eles. No entanto, enquanto estivessem juntos, o resto do mundo era apenas o cenário para a história que eles finalmente tinham coragem de viver plenamente.

— Vamos dormir? — sugeriu Gemini, levantando-se e estendendo a mão para Fourth. — Amanhã temos que turistar um pouco antes de irmos para a próxima cidade. Quero te levar naquele templo que você viu no Instagram.

— Só se você prometer que não vai me fazer andar dez quilômetros — brincou Fourth, aceitando a mão e levantando-se.

— Prometo nada — riu Gemini, apagando as luzes da sala.

Caminharam juntos para o quarto, as sombras se misturando no chão do corredor. O amanhã traria novos desafios, mas pela primeira vez em muito tempo, Fourth não tinha medo. Ele tinha Gemini. E Gemini tinha a ele. E isso, no final das contas, era tudo o que importava no grande esquema das coisas. O futuro que antes era uma incerteza distante agora era o presente que eles abraçavam com as mãos dadas e o coração em paz.