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Entre Chamas e Geadas

O Peso de uma Coroa e o Calor de um Coração

O silêncio que se seguiu à saída brincalhona de Kael do quarto não durou muito. Lyra ainda estava processando o turbilhão de emoções — a vergonha, o desejo residual, a irritação constante e aquela centelha de algo que ela se recusava a nomear — quando a porta do banheiro se abriu novamente. Kael não tinha ido tomar banho; ele apenas tinha garantido que ela não atirasse mais nada nele.

Ele voltou para o quarto, mas seu semblante havia mudado. A malícia nos olhos vermelhos ainda estava lá, mas havia uma camada de seriedade, uma intensidade que fez Lyra apertar o lençol contra o peito com mais força. Ele caminhou até a beira da cama e, em vez de provocá-la, sentou-se devagar, mantendo uma distância respeitosa que a deixou ainda mais em alerta.

— Lyra — começou ele, sua voz perdendo o tom de deboche e assumindo uma cadência profunda que parecia vibrar no ar aquecido do quarto.

— Se for para falar sobre o café da manhã, eu já disse que quero que você saia — interrompeu ela, desviando o olhar para as cortinas de seda. — Eu preciso de tempo para... para organizar meus pensamentos e planejar como vou apagar este episódio da história oficial de Glaciarum.

— Você não vai apagar nada — disse Kael, e a firmeza em sua voz a fez olhar para ele novamente. — Porque eu não pretendo deixar que isso seja apenas um "episódio".

Lyra arqueou uma sobrancelha prateada, o coração começando a acelerar por um motivo completamente diferente da indignação.

— Do que você está falando, Ignis? Já tivemos nossa... cota de escândalos por um ano inteiro. Eu sou uma rainha, você é um rei de uma civilização oposta. O que aconteceu aqui foi uma anomalia causada por vinho de amora e... e má gestão de estresse.

Kael soltou um suspiro curto e inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele olhou para as próprias mãos por um momento antes de fixar os olhos nos dela.

— Eu passei anos discutindo com você em cada mesa de conselho. Passei anos tentando encontrar falhas na sua lógica apenas para ter uma desculpa para ouvir sua voz por mais cinco minutos. Eu te provoquei, te tirei do sério e te fiz me odiar porque, no meu mundo de fogo e guerra, essa era a única maneira que eu conhecia de manter você por perto.

Lyra sentiu o ar ficar subitamente escasso. Ela abriu a boca para soltar uma resposta sarcástica, mas as palavras morreram em sua garganta. O olhar dele era sincero demais, desarmado demais.

— Mas a noite passada — continuou Kael, sua voz suavizando-se — não foi sobre vinho. E não foi sobre estresse. Foi sobre o fato de que eu não consigo mais imaginar o meu trono sem o seu ao lado dele. Eu não quero mais te encontrar apenas em salas de punição ou em jardins secretos na fronteira.

Kael estendeu a mão e, desta vez, Lyra não recuou quando ele tocou a ponta de seus dedos sobre o lençol.

— Lyra Frostveil, Rainha de Glaciarum... eu quero que você seja minha de forma oficial. Quero que o mundo saiba que o Rei de Pyros não apenas respeita a soberana do gelo, mas que ele pertence a ela. Eu estou pedindo para que tornemos isso um relacionamento real. Um compromisso diante de todos os nossos povos.

O rosto de Lyra passou por uma transição rápida de cores. O pálido habitual deu lugar a um rosa suave, que rapidamente evoluiu para um vermelho escarlate tão intenso que ela sentiu as orelhas arderem. Seus olhos azuis arregalaram-se, e ela sentiu uma tontura súbita. Se ela estivesse em pé, certamente teria desabado.

— Você... você... — ela gaguejou, a voz subindo uma oitava. — Você está delirando! Ficou louco? Bebeu mais do que eu ontem? Um relacionamento oficial? O Conselho teria um colapso! Meus generais teriam ataques cardíacos! A economia de cristais e carvão entraria em colapso!

— Deixe que entre em colapso — disse Kael, levantando-se e ajoelhando-se ao lado da cama, ficando na altura dos olhos dela. — Eu reconstruirei cada ponte com você. Eu não me importo com a política, Lyra. Eu me importo com o jeito que você tenta esconder um sorriso quando eu digo algo estúpido. Eu me importo com a sua força e com o fato de que você é a única pessoa neste mundo que me olha nos olhos sem medo.

Lyra sentiu o mundo girar. O Rei de Pyros, o homem mais arrogante e teimoso que ela já conhecera, estava ali, declarando sentimentos de uma forma tão romântica e vulnerável que parecia algo saído de um livro proibido de poesias. O contraste entre o guerreiro musculoso e as palavras gentis era demais para sua fachada de rainha fria.

— Pare com isso — pediu ela, a voz trêmula, escondendo o rosto atrás de uma mecha de cabelo prateado. — Você está sendo... ridículo. Ninguém fala essas coisas na vida real. É humilhante. Eu estou... eu estou com tanta vergonha que poderia derreter o palácio inteiro.

— Deixe derreter — sussurrou Kael, aproximando-se mais, sua mão agora acariciando a bochecha dela, que estava quente o suficiente para ferver água. — Eu amo cada grama dessa sua vergonha, Lyra. Amo o fato de que, por trás de toda essa geada, existe uma mulher que sente tudo com uma intensidade que me assombra.

— Kael, por favor — ela murmurou, fechando os olhos, sentindo que o desmaio era uma possibilidade muito real agora. — Você não pode simplesmente dizer essas coisas. Eu sou uma rainha estressadinha, eu sou difícil, eu vivo brigando com você...

— E eu sou um bárbaro impulsivo que não aceita um "não" como resposta — completou ele, sorrindo de forma terna. — Somos perfeitos um para o outro. Então, o que me diz? Vai continuar se escondendo atrás de tratados e discussões, ou vai aceitar que o seu lugar é aqui, comigo, incendiando e congelando o mundo ao mesmo tempo?

Lyra respirou fundo, tentando recuperar um pingo de sua dignidade. Ela olhou para Kael, vendo a expectativa e o carinho nos olhos vermelhos dele. O silêncio se arrastou, tenso e carregado, até que ela soltou um suspiro longo e trêmulo.

— Se eu aceitar... — ela começou, a voz ainda vacilante — ...você promete que nunca, jamais, em hipótese alguma, vai repetir essas palavras melosas na frente de outras pessoas? Especialmente na frente daquela rainha das Ilhas do Sol?

Kael soltou uma risada vitoriosa, seus olhos brilhando.

— Eu prometo guardar todo o meu romantismo apenas para os seus ouvidos, majestade. Contanto que você prometa que, de vez em quando, vai admitir que me ama sem tentar me congelar logo em seguida.

Lyra revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o pequeno sorriso que finalmente floresceu em seus lábios.

— Eu não disse que te amo, Ignis. Eu disse que aceito o relacionamento. É um processo burocrático longo.

— Sei — Kael inclinou-se e selou o acordo com um beijo suave, que rapidamente se tornou profundo, fazendo o coração de Lyra bater contra as costelas como um pássaro engaiolado.

Quando se afastaram, Lyra ainda estava vermelha, mas havia uma luz nova em seu olhar.

— Agora — disse ela, recuperando um pouco de sua postura — saia daqui e mande trazerem o meu café. E se houver um único boato no Conselho antes de eu redigir o anúncio oficial, eu pessoalmente garantirei que Pyros sofra a pior nevasca da história.

— Sim, minha rainha — disse Kael, levantando-se com um salto, radiante. Ele caminhou até a porta, parando antes de sair para lançar um último olhar para ela. — E Lyra?

— O que é agora? — perguntou ela, já sentindo a vergonha voltar.

— Você fica ainda mais bonita quando está prestes a desmaiar de amor.

— Saia! — gritou ela, atirando o último travesseiro disponível.

Kael saiu rindo, fechando a porta atrás de si. Lyra afundou-se nos lençóis, cobrindo o rosto e soltando um gemido abafado de pura exaustão emocional e felicidade contida. Ela era a Rainha de Glaciarum, e agora, oficialmente, ela era a mulher que havia domado o fogo.

— Idiota... — sussurrou ela para o quarto vazio, mas desta vez, o sorriso em seu rosto era tão quente quanto o sol de Pyros.

A união entre o fogo e o gelo não seria fácil. Haveria guerras políticas, discussões intermináveis e, sem dúvida, muitas outras marcas no pescoço para esconder. Mas, enquanto Lyra sentia o calor residual de Kael no quarto, ela soube que nenhuma coroa pesaria tanto quanto a solidão que ela havia deixado para trás. O gelo tinha finalmente encontrado sua chama, e o mundo nunca mais seria o mesmo.