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Entre Chamas e Geadas

Embriaguez de Cristal e Chamas

O céu de Pyros estava tingido de um roxo profundo, salpicado por estrelas que pareciam fagulhas de uma fogueira cósmica. A festa de celebração do Tratado de Harmonia Elemental deveria ter sido um evento puramente diplomático, mas o vinho de amora silvestre das terras do sul — conhecido por sua doçura enganosa e teor alcoólico devastador — provou ser o maior inimigo da Rainha de Glaciarum.

Kael Ignis suspirou, sentindo o peso do corpo de Lyra Frostveil contra o seu. Ele a segurava pela cintura, enquanto um dos braços prateados dela rodeava seu pescoço com uma frouxidão perigosa. O palácio de Kael, uma fortaleza de obsidiana e pedras quentes, estava a poucos metros da carruagem, e ele decidiu que levá-la para lá era mais sensato do que enfrentar as três horas de viagem até as fronteiras gélidas naquela condição.

— Eu já disse que você... você tem olhos muito vermelhos? — Lyra murmurou, a voz arrastada, tropeçando nos próprios pés. — Parecem duas brasas. Eu quero... eu quero assoprar para ver se apagam.

Kael soltou uma risada baixa, tentando manter o equilíbrio enquanto subiam a escadaria de mármore negro.

— Se você assoprar meus olhos, Lyra, a única coisa que vai conseguir é um rei cego e um tombo monumental. Vamos, tente andar direito.

— Eu ando direito! — Ela parou abruptamente, quase fazendo os dois caírem. — O chão é que está... ondulado. Por que você fez o chão de Pyros como se fosse o mar? É uma tática de guerra?

— Sim, Lyra. É para marear rainhas teimosas que não sabem o limite entre uma taça e uma garrafa — provocou ele, ajustando-a nos braços.

Ao entrarem nos aposentos reais, o calor das pedras térmicas pareceu relaxar ainda mais os músculos da rainha. Kael a conduziu até uma poltrona de veludo escarlate, mas Lyra não se sentou. Em vez disso, ela se agarrou às lapelas da túnica elegante dele, puxando-o para perto. O hálito dela tinha um cheiro doce de frutas, e o rosto, geralmente pálido e rígido, estava banhado por um rubor adorável.

— Você é muito mandão — ela sibilou, estreitando os olhos azuis, que agora brilhavam com uma névoa de embriaguez e algo mais. — Sempre dando ordens. "Lyra, assine isso". "Lyra, não congele meus guardas". "Lyra, beba água".

— Alguém tem que ser a voz da razão — respondeu Kael, as mãos repousando cautelosamente na cintura dela. — Especialmente quando você decide que é uma boa ideia desafiar o Rei de Pyros para um duelo de bebidas.

Lyra soltou uma risadinha cristalina, um som que Kael raramente ouvia e que fez seu coração martelar contra as costelas. Ela soltou uma das mãos da túnica dele e começou a traçar o contorno da mandíbula de Kael com a ponta dos dedos frios.

— Eu ganhei, não ganhei? — perguntou ela, inclinando a cabeça para o lado. — Você está todo... embaçado. Isso significa que eu ganhei.

— Significa que você está vendo dobrado, sua tonta — Kael tentou manter a voz firme, mas a proximidade dela estava derretendo sua paciência. — Agora, sente-se. Vou pedir que tragam um chá de ervas e...

— Não quero chá — ela o interrompeu, deslizando os dedos para os lábios dele. — Quero saber por que você está sendo tão bonzinho. Onde está o Kael arrogante? O Kael que vive me irritando nas reuniões?

Ela deu um passo à frente, forçando Kael a recuar até que suas costas batessem na coluna de pedra do quarto. Lyra não recuou. Pelo contrário, ela se pressionou contra ele, as mãos agora subindo para os cabelos negros dele, bagunçando os fios com uma audácia que ela jamais demonstraria sóbria.

— Sabe o que eu acho? — ela sussurrou, o rosto a centímetros do dele. — Acho que você gosta de me ver assim. Vulnerável. Sem meu gelo para me proteger de você.

Kael sentiu o calor subir por seu pescoço. Ele estava acostumado com a Lyra mordaz, a Lyra que gritava e o insultava. Mas essa Lyra... essa versão provocadora e flertadora era uma tortura refinada.

— Lyra, você está bêbada — ele avisou, a voz mais rouca do que o normal. — Amanhã você vai se arrepender de cada palavra. Vai querer me congelar vivo por ter visto você assim.

— Amanhã eu posso ser a Rainha de Gelo de novo — ela disse, e por um momento, a névoa nos olhos dela pareceu se dissipar, revelando uma intensidade crua. — Mas hoje... hoje eu sou apenas Lyra. E Lyra acha que o Rei de Pyros fica muito atraente quando está tentando ser um cavalheiro.

Ela soltou um suspiro suave e encostou a testa no peito dele, fechando os olhos por um segundo antes de olhar para cima novamente, com um sorriso travesso.

— Você tem músculos de verdade sob essa roupa ou é algum feitiço de fogo para parecer forte? — perguntou ela, as mãos descendo atrevidamente pelo peito dele, sentindo a definição sob o tecido fino.

— Lyra! — Kael segurou os pulsos dela, a respiração acelerada. — Pare com isso. Estou tentando ser respeitoso aqui.

— Por quê? — Ela riu, tentando soltar as mãos, mas acabando por se enrolar ainda mais nos braços dele. — Você passou meses tentando me levar para a cama, provocando-me em cada banquete, deixando marcas no meu pescoço que eu tive que esconder com magia... E agora que eu estou aqui, você quer ser respeitoso?

Kael rosnou baixinho, uma vibração que Lyra sentiu contra seu próprio corpo.

— Eu quero você lúcida, sua teimosa. Quero que você saiba exatamente o que está fazendo quando eu finalmente perder o controle.

— E quem disse que eu não sei? — Ela se soltou do aperto dele com um movimento fluido e começou a desabotoar os primeiros ganchos do próprio vestido azul escuro, os olhos fixos nos dele. — Eu sei que você queima. E eu sei que eu sou a única coisa que pode apagar esse seu incêndio... ou aumentá-lo.

Kael sentiu o sangue ferver. A visão de Lyra, com os cabelos prateados desgrenhados e a pele alva brilhando sob a luz das brasas do quarto, era demais para qualquer homem, especialmente para um que já estava perdidamente apaixonado por ela.

— Você está brincando com fogo, rainha — ele avisou, dando um passo à frente, recuperando o território.

— Então me queime, rei — desafiou ela, a voz baixa e carregada de uma promessa perigosa.

Kael não aguentou mais. Ele a envolveu em seus braços, erguendo-a do chão enquanto capturava seus lábios em um beijo que não tinha nada de diplomático. Era um beijo faminto, uma colisão de desejo reprimido e meses de tensão sexual acumulada. Lyra correspondeu com a mesma intensidade, suas mãos puxando a túnica dele, querendo sentir o calor da pele de Kael contra a sua.

Ele a carregou até a cama de dossel, deitando-a sobre as colchas de seda. Lyra puxou-o para cima dela, rindo entre os beijos.

— Você... você é muito quente — ela arfou, as mãos explorando as costas musculosas dele enquanto Kael se livrava da própria camisa.

— E você continua falando demais — ele murmurou, descendo os beijos pelo pescoço dela, encontrando aquele ponto sensível que a fazia arquear as costas.

— Kael... — o nome dele saiu como um suspiro, perdendo a força.

Ele parou por um momento, olhando para ela. Lyra estava desfeita sob ele, uma visão de rendição que ele nunca imaginou ver.

— Tem certeza disso? — ele perguntou, uma última tentativa de sanidade. — Se continuarmos, não haverá volta. Amanhã não haverá "foi um erro tático".

Lyra estendeu a mão, acariciando o rosto dele com uma doçura que partiu o coração de Kael.

— Eu não quero voltar, seu idiota. Eu só quero que você pare de falar e me mostre se o fogo de Pyros é tudo isso que dizem as lendas.

Kael sorriu, o sorriso predatório de um rei que finalmente conquistou seu reino mais difícil.

— As lendas não chegam nem perto da realidade, Lyra.

O que se seguiu foi uma sinfonia de contrastes. Onde Kael tocava, a pele de Lyra fervia; onde ela o arranhava, o frio de Glaciarum trazia um alívio momentâneo antes de incendiar ainda mais os sentidos dele. A embriaguez de Lyra parecia ter removido todas as barreiras, todas as defesas tsundere que ela usava como armadura. Ela era vocal, expressiva, flertando com ele através de palavras sussurradas e carícias ousadas que deixavam Kael completamente desarmado.

— Você... você é meu — ela murmurou em certo ponto, as unhas cravadas nos ombros dele enquanto o ápice se aproximava.

— Sempre fui seu — ele respondeu, a voz carregada de uma verdade absoluta. — Desde a primeira vez que você me mandou calar a boca naquela reunião de anciões.

Quando a exaustão finalmente os atingiu, o quarto estava mergulhado em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som das respirações sincronizadas. Lyra estava aninhada no peito de Kael, o efeito do vinho começando a se transformar em um sono profundo e pesado.

Kael acariciava os cabelos prateados dela, sabendo que a manhã traria uma tempestade. Lyra acordaria com dor de cabeça, lembraria de metade das provocações que fez e provavelmente tentaria congelar o palácio inteiro por vergonha.

Ele sorriu para a escuridão, puxando o cobertor sobre eles.

— Pode tentar me congelar amanhã, Lyra — sussurrou ele, beijando o topo da cabeça dela. — Mas hoje, você derreteu. E eu não vou deixar você esquecer disso.

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A luz da manhã em Pyros era implacável. Lyra Frostveil sentiu como se um pequeno exército de goblins estivesse usando sua cabeça como bigorna. Ela gemeu, tentando se esconder da claridade, mas o que encontrou foi um calor sólido e rítmico.

Suas memórias começaram a voltar em flashes desconexos: a festa... o vinho de amora... a carruagem... Kael.

"Oh, deuses", pensou ela, o pânico começando a subir por sua garganta.

Ela abriu um olho e viu o braço bronzeado de Kael Ignis atravessado sobre sua cintura. Ela estava no palácio dele. Na cama dele. E, a julgar pela falta de roupas, ela tinha feito exatamente o que jurou nunca fazer.

Pior do que o ato em si, eram as lembranças das coisas que ela disse. As provocações. O flerte descarado. Ela o chamou de atraente? Ela disse que queria ser queimada?

Lyra sentiu o rosto esquentar tanto que temeu entrar em combustão espontânea.

— Acordou, Rainha de Gelo? — a voz de Kael soou ao lado dela, divertida e perfeitamente desperta.

Lyra não se moveu. Ela continuou encarando o dossel da cama.

— Eu estou morta — disse ela, a voz rouca. — Eu morri e este é o meu inferno pessoal.

Kael soltou uma gargalhada alta, sentando-se na cama e olhando para ela com um brilho vitorioso nos olhos.

— Se este é o inferno, eu recomendo a estadia. Você foi uma hóspede... fascinante ontem à noite. Especialmente a parte em que disse que eu era seu "salvador de fogo".

Lyra cobriu o rosto com as mãos, soltando um grito abafado.

— Eu não disse isso. Eu estava delirando. O vinho estava envenenado.

— Estava delicioso, isso sim — Kael inclinou-se sobre ela, removendo as mãos do rosto dela com delicadeza. — E você foi muito clara sobre o que queria, Lyra. Não tente se esconder atrás do gelo agora.

Ela olhou para ele, a habitual carranca tsundere tentando voltar ao lugar, mas seus lábios traíram sua vontade ao tremerem levemente.

— Você é um aproveitador, Ignis. Devia ter me mandado para casa.

— Eu tentei — mentiu ele descaradamente. — Mas você me agarrou pela túnica e disse que se eu te deixasse, você congelaria meu coração. O que eu poderia fazer? Sou apenas um rei preocupado com sua saúde.

Lyra bufou, sentando-se e puxando o lençol para cobrir os seios, embora soubesse que era tarde demais para modéstia.

— Eu te odeio. Eu te odeio tanto.

Kael aproximou-se, beijando a ponta do nariz dela.

— Eu sei. E eu adoro quando você me odeia desse jeito. Especialmente depois de uma noite em que você me amou tanto.

— Cale a boca! — ela exclamou, empurrando-o, mas sem muita força.

— Sabe — Kael continuou, levantando-se da cama com uma nudez que fez Lyra desviar o olhar e corar ainda mais —, eu tenho uma reunião com o Conselho em uma hora. Vou dizer a eles que a Rainha de Glaciarum está... indisposta. Ou prefere ir comigo e mostrar a todos como o vinho de Pyros faz bem para a sua pele?

Lyra pegou um travesseiro e o atirou na cabeça dele com precisão real.

— Saia daqui, Kael! Agora!

Ele pegou o travesseiro no ar, rindo enquanto caminhava em direção ao banheiro privativo.

— O café da manhã será servido aqui. Tente não congelar os criados. E Lyra...

Ela olhou para ele, ainda furiosa e vermelha.

— O quê?

— Você fica muito bem com o meu lençol. Mas fica ainda melhor sem ele.

A porta se fechou antes que o segundo travesseiro pudesse atingi-lo. Lyra afundou-se nos colchões macios, o coração batendo forte. Ela deveria estar furiosa. Deveria estar planejando sua fuga e uma declaração de guerra.

Mas, em vez disso, ela sentiu um sorriso involuntário aparecer em seus lábios. Ela tocou o pescoço, encontrando uma nova marca de calor ali.

— Idiota... — sussurrou ela para o quarto vazio.

A Rainha de Gelo tinha derretido, e embora ela passasse o resto da vida tentando negar, ambos sabiam que o fogo de Pyros agora tinha uma dona definitiva. E aquela dona, apesar de estressadinha e teimosa, nunca se sentira tão viva quanto naquelas cinzas de uma noite inesquecível.