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Entre cláusulas e contratos.

O Eco de Seul e as Cores do Amanhã

O silêncio do escritório da SN Global Enterprises, em Nova York, era agora preenchido por um som que não vinha de relatórios ou de notificações de ações. Era um pulsar rítmico, uma vibração constante e morna no pulso de S/N. Olhando pela janela de vidro duplo, onde os táxis amarelos pareciam formigas apressadas lá embaixo, ela tocou o bracelete de titânio. O batimento de Jungkook estava calmo. Ele provavelmente estava ensaiando ou descansando em Seul, a milhares de quilômetros de distância.

— S/N, se você passar mais dez minutos encarando esse horizonte com cara de quem está vendo um dorama, eu vou ser obrigada a confiscar seu passaporte — a voz de Minjin ecoou, acompanhada pelo estalar de seus saltos agulha no mármore.

Minjin entrou na sala segurando dois copos de café gelado e um envelope dourado. Ela usava um conjunto de alfaiataria azul elétrico que gritava confiança.

— Eu estava apenas... processando os dados do último trimestre — mentiu S/N, ajeitando a manga do terno para esconder o bracelete, embora soubesse que era inútil tentar enganar a amiga.

— Sei, dados com batimentos cardíacos de setenta batidas por minuto — Minjin riu, colocando o café sobre a mesa de carvalho. — Esqueça os dados por um segundo. A primeira remessa dos wearables "SN x BTS" esgotou em doze minutos na pré-venda global. O conselho administrativo está querendo erguer uma estátua sua no saguão.

— É um bom começo — admitiu S/N, sentindo o peso da responsabilidade diminuir um pouco. — Mas o lançamento oficial em Seul é o que realmente importa. Se o evento na Coreia não for impecável, a narrativa de "parceria global" perde a força.

Minjin sentou-se na beira da mesa, cruzando as pernas com elegância.

— Por isso mesmo, nós vamos para Seul amanhã. O jato já está pronto, as malas da sua equipe de marketing estão sendo feitas e eu tomei a liberdade de reservar a suíte presidencial que tem a melhor vista para a Torre Namsan. E, antes que você pergunte, sim, a agenda de ensaios do grupo "coincidentemente" tem uma brecha na noite da nossa chegada.

S/N sentiu o coração disparar, entrando em uma breve desarmonia com o pulsar no seu pulso.

— Minjin, você é impossível. Temos reuniões com a diretoria da HYBE logo na manhã seguinte. Não posso chegar parecendo que passei a noite acordada.

— Querida, você é a CEO — disse Minjin, piscando. — Você não chega parecendo cansada, você chega parecendo "produtiva". Além disso, o Jungkook me mandou uma mensagem perguntando se a "chefe" aceitaria um tour privado pela cidade que nunca dorme, versão coreana.

— Ele falou com você? — S/N arqueou uma sobrancelha, surpresa e secretamente encantada.

— Ele sabe quem realmente manda na sua agenda — Minjin deu de ombros, levantando-se. — Agora, termine de assinar esses papéis. Temos um mundo para conquistar e um ídolo para encontrar. O amor pode ser um investimento de risco, S/N, mas o retorno sobre esse aqui está quebrando todos os recordes da bolsa.

Vinte e quatro horas depois, o ar úmido e vibrante de Seul envolveu S/N ao sair do aeroporto de Incheon. A cidade era uma mistura fascinante de templos ancestrais e arranha-céus que pareciam ter saído de um filme de ficção científica. No trajeto para o hotel, ela observou os outdoors gigantes espalhados pela cidade. Em muitos deles, o rosto de Jungkook e dos outros membros do BTS aparecia ao lado do logotipo da sua empresa. Era uma visão surreal.

Ao chegar à suíte, S/N mal teve tempo de tirar os sapatos antes que o bracelete em seu pulso vibrasse de forma diferente — três pulsos curtos, o sinal combinado de que ele estava por perto.

O interfone tocou e, antes que ela pudesse atender, a porta se abriu levemente. Jungkook entrou, usando um boné preto e um casaco largo, tentando manter o máximo de discrição possível, mesmo dentro da segurança do hotel. Assim que a porta se fechou, ele retirou a máscara e abriu um sorriso que fez com que as horas de voo de S/N parecessem apenas alguns minutos.

— Você realmente veio — disse ele, a voz um pouco rouca, provavelmente pelo excesso de ensaios.

— Eu disse que não aceitava propostas sem garantias, lembra? — S/N caminhou até ele, sentindo a eletricidade familiar que sempre os cercava. — Eu precisava ver com meus próprios olhos se o meu investimento em Seul estava sendo bem cuidado.

Jungkook a envolveu em um abraço apertado, tirando-a levemente do chão.

— O investimento está ótimo, mas o investidor estava morrendo de saudades — ele a soltou apenas o suficiente para olhar em seus olhos. — Você está linda. Nova York fica bem em você, mas Seul parece combinar com o seu brilho.

— É o efeito do fuso horário — ela brincou, embora sentisse o rosto corar.

— Não — ele disse, sério —, é o efeito de estarmos no mesmo fuso horário finalmente. Eu tenho pouco tempo antes do toque de recolher da equipe, mas prometi um tour. Você está pronta para ver a Seul que não está nos guias turísticos?

Eles saíram por uma passagem de serviço, acompanhados por um segurança de extrema confiança da HYBE. Jungkook a levou para uma pequena colina nos arredores de um bairro residencial tranquilo, longe do brilho ofuscante de Gangnam. Lá, havia um pequeno mirante de madeira que dava para um vale de luzes residenciais, muito mais calmo do que o centro da cidade.

— Minha mãe costumava dizer que, para conhecer o coração de um lugar, você precisa ouvir o silêncio dele — disse Jungkook, encostando-se no parapeito. — Todo mundo vê o BTS nos estádios, vê você nas capas de revistas de negócios. Mas aqui, somos apenas o JK e a S/N.

— É difícil ser apenas nós mesmos, não é? — S/N suspirou, sentindo a brisa fresca da noite. — Às vezes eu sinto que sou apenas uma sucessão de decisões e assinaturas.

— Você é muito mais do que isso — ele pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos. — Você é a pessoa que me faz querer escrever músicas que não falam sobre o mundo, mas sobre um momento específico. Como aquele da pizza no Brooklyn. Ou este aqui.

S/N olhou para ele, vendo o brilho da lua refletido em seus olhos.

— Jungkook, o lançamento é amanhã. Se alguém nos ver... se a imprensa coreana pegar um ângulo errado...

— Deixe que vejam — ele a interrompeu suavemente. — S/N, eu passei muito tempo me preocupando com o que os outros pensariam. Mas quando eu vi você naquela boate, sem saber quem eu era, eu percebi que o que eu mais queria era alguém que visse o homem por trás do nome. Eu não vou esconder o que sinto por você.

— Você é muito corajoso — disse ela, admirada. — No meu mundo, a coragem é medida em agressividade de mercado. No seu, é medida em vulnerabilidade. Eu ainda estou aprendendo a ser vulnerável.

— Eu posso te ensinar — ele sorriu, aproximando-se para um beijo que tinha o sabor de promessas mantidas e de um futuro que começava a ganhar cores sólidas.

O dia do lançamento oficial chegou com a força de um furacão. O Dongdaemun Design Plaza estava cercado por milhares de fãs e jornalistas. O evento era uma fusão de desfile de moda, show de tecnologia e conferência de imprensa.

S/N estava nos bastidores, verificando os últimos detalhes com Minjin.

— Tudo pronto — disse Minjin, ajustando o ponto eletrônico no ouvido. — O grupo entra em cinco minutos. Você sobe ao palco logo depois para o discurso de encerramento e a foto oficial da parceria. S/N, respira. Você está tremendo.

— Eu não estou tremendo, Minjin. Estou... em ressonância — brincou S/N, embora seu coração estivesse martelando.

— Sei. É a ressonância de quem está prestes a apresentar o namorado para o mundo, mesmo que tecnicamente seja um "parceiro de negócios" — Minjin deu um tapinha encorajador no ombro dela. — Vá lá e arrase. Você é a CEO da porra toda.

O evento foi um triunfo. Quando o BTS subiu ao palco usando os wearables da SN Global, o barulho foi ensurdecedor. Jungkook estava impecável, movendo-se com uma confiança que hipnotizava a plateia. Durante a performance, em um momento que poderia passar despercebido para muitos, ele tocou o bracelete em seu pulso e olhou diretamente para o canto do palco onde S/N estava. Foi um sinal privado, uma conexão que só eles entendiam.

Quando chegou a hora de S/N subir ao palco, ela sentiu o peso de milhares de câmeras apontadas para ela. Ela fez seu discurso em inglês, com tradução simultânea, falando sobre inovação, conexão e o futuro da tecnologia vestível. Sua voz estava firme, a imagem perfeita da líder de sucesso.

Ao final, os sete membros do grupo se juntaram a ela para a foto oficial. Jungkook ficou ao lado dela. Por um breve segundo, enquanto os flashes disparavam como fogos de artifício, a mão dele roçou a dela. Não foi um gesto óbvio, mas foi o suficiente para que S/N sentisse que não estava sozinha naquela arena de vidro e luz.

Após o evento, no jantar de gala privado para os executivos, o clima era de celebração absoluta. O CEO da HYBE e os membros da diretoria de S/N brindavam aos lucros projetados.

Minjin, sempre atenta, aproximou-se de S/N perto de uma varanda que dava para o jardim interno do pavilhão.

— Conseguimos, amiga — disse ela, levantando sua taça de champanhe. — O contrato está mais do que seguro. E, a julgar pelo jeito que o senhor Jeon está te observando do outro lado da sala, acho que o seu "investimento pessoal" também está rendendo dividendos altíssimos.

— Ele é incrível, Minjin — confessou S/N, olhando para Jungkook, que conversava com RM, mas mantinha o olhar fixo nela. — Mas a turnê começa na semana que vem. Ele vai estar em um continente diferente a cada dez dias.

— E você tem um jato particular e uma diretora de marketing que sabe como esconder viagens de fim de semana — Minjin piscou. — S/N, o amor não é um fardo. É o que faz a carga valer a pena ser carregada. Pare de tentar prever o crash do mercado e aproveite a alta.

Mais tarde, quando a maioria dos convidados já havia partido, Jungkook encontrou S/N no jardim.

— Foi perfeito hoje — disse ele, retirando o paletó e jogando-o sobre o banco de pedra. — Você foi a estrela do show.

— Nós fomos — corrigiu ela, sentando-se ao lado dele. — Jungkook, sobre a turnê...

— Eu sei — ele a interrompeu, pegando a mão dela. — Vai ser difícil. Mas eu quero que você saiba que, não importa em que cidade eu esteja, ou quantas pessoas gritem meu nome, a única batida que eu quero sentir no meu pulso é a sua.

Ele tirou do bolso uma pequena caixa. Dentro, havia um anel simples de platina, com uma gravação interna quase imperceptível.

— Não é um pedido de casamento, ainda — ele sorriu, vendo o susto nos olhos dela. — É um símbolo. Na Coreia, temos a tradição dos anéis de compromisso. Eu quero que você use isso como um lembrete de que, mesmo no mundo dos negócios e da fama, existe algo que é só nosso.

S/N sentiu uma onda de emoção que nenhuma conquista profissional jamais lhe proporcionara. Ela permitiu que ele deslizasse o anel em seu dedo.

— Eu nunca achei que terminaria uma viagem de negócios com um anel de compromisso e um coração tão cheio — disse ela, abraçando-o.

— É porque você parou de olhar para os gráficos e começou a olhar para as estrelas — respondeu Jungkook, beijando-a sob o céu de Seul.

Nas semanas que se seguiram, o mundo viu a parceria entre a SN Global e o BTS florescer. Os produtos tornaram-se itens de colecionador. Mas, nos bastidores, a história era outra. Eram chamadas de vídeo às três da manhã, voos surpresa para cidades como Paris e Tóquio, e o som constante de dois corações batendo em sincronia através de braceletes de titânio.

Minjin, fiel ao seu papel de conselheira e estrategista, continuou a gerenciar a narrativa pública com maestria. Para o mundo, S/N era a CEO visionária e Jungkook era o ídolo talentoso em uma parceria de sucesso. Para eles, no entanto, eram apenas duas pessoas que decidiram que o amor era, de fato, o investimento mais lucrativo de suas vidas.

Anos depois, quando a parceria já era um estudo de caso em Harvard e a marca SN Global era sinônimo de excelência, S/N e Jungkook caminhavam pela mesma praia em Busan onde ele crescera. Não havia câmeras, não havia contratos, apenas o som das ondas.

— Você se lembra do que disse naquela primeira noite em Nova York? — perguntou Jungkook, agora com o cabelo um pouco mais curto e um olhar ainda mais profundo.

— Que o amor era um investimento de alto risco e baixo retorno? — S/N riu, apertando a mão dele.

— Exatamente — ele parou e a puxou para um abraço. — E agora, CEO? Qual é o veredito?

S/N olhou para o anel em seu dedo, que agora estava acompanhado por uma aliança de casamento, e depois para o homem à sua frente, que fora seu sócio, seu segredo e agora era sua vida.

— O veredito é que eu estava errada — disse ela, sorrindo. — O amor é o único investimento onde você pode perder tudo e ainda assim terminar a vida como a pessoa mais rica do mundo.

Jungkook a beijou, e naquele momento, o silêncio de Busan foi a sinfonia mais bonita que eles já haviam ouvido. A CEO de Nova York e o garoto de Busan haviam provado que, quando as estratégias do coração são bem traçadas, o sucesso não é apenas garantido — ele é eterno.