Entre cláusulas e contratos.
Sinfonias de Vidro e o Som do Silêncio
O sol de Nova York nasceu com uma intensidade que parecia zombar das poucas horas de sono de S/N. No entanto, ao contrário das manhãs habituais, em que o despertador soava como um chamado para a guerra, hoje o silêncio do seu apartamento de cobertura parecia preenchido. Havia um rastro de perfume de sândalo no ar e uma mensagem vibrando em seu celular que a fazia sorrir antes mesmo de tomar o primeiro gole de café.
— "Bom dia, CEO. Espero que a pizza não tenha causado uma crise diplomática no seu estômago. Já sinto sua falta." — S/N leu em voz alta, sentindo o rosto esquentar.
Ela jogou o corpo para trás no sofá de couro italiano, olhando para o teto alto. Era oficial: ela, a mulher que calculava riscos com a precisão de um algoritmo, estava agindo como uma adolescente apaixonada. E o pior — ou melhor — era que o objeto de seu afeto era o homem mais cobiçado do planeta.
O toque estridente da campainha interrompeu seus devaneios. S/N não precisou olhar pelo olho mágico para saber quem era. Só uma pessoa tinha a audácia de invadir seu santuário às oito da manhã de um sábado.
— Entra, Minjin! A porta está aberta — gritou S/N, ajeitando o roupão de seda.
Minjin entrou como um furacão rosa, carregando duas sacolas de uma padaria chique e um tablet debaixo do braço. Ela parecia ter mais energia do que uma usina nuclear.
— Bom dia para quem dormiu com os anjos... ou melhor, com um anjo sul-coreano de voz aveludada! — Minjin cantarolou, depositando as sacolas na ilha da cozinha. — Quero detalhes. Quero nomes de ruas, sabores de cobertura de pizza e, principalmente, quero saber se o contrato de "fusão de almas" foi devidamente selado.
— Não houve fusão de almas, Minjin — respondeu S/N, tentando manter a compostura enquanto pegava um croissant. — Nós apenas conversamos. E comemos pizza no Brooklyn. Foi... real.
— "Real" é a palavra que as pessoas usam quando estão perdidamente apaixonadas e não querem admitir — Minjin apontou um dedo acusador para a amiga. — S/N, olhe para você. Você está usando um roupão de mil dólares, mas seu cabelo está bagunçado de um jeito que diz "fui feliz ontem à noite". Isso é marketing orgânico, querida!
S/N riu, rendendo-se à animação da amiga.
— Ele é incrível, Minjin. Mas é complicado. Ele viaja para Seul em dois dias. A turnê mundial começa em um mês. Como eu encaixo um relacionamento com um ídolo global na minha agenda de expansão para a Europa?
Minjin parou de mastigar e olhou seriamente para S/N. O tom brincalhão desapareceu por um momento, dando lugar à sabedoria da mulher que conhecia S/N melhor do que ninguém.
— S/N, você passou a vida inteira construindo pontes para os outros atravessarem. Pela primeira vez, há alguém querendo atravessar uma ponte para chegar até você. Não derrube a ponte só porque você tem medo da altura. O mundo corporativo vai continuar girando. A HYBE não vai a lugar nenhum. Mas momentos como esse? Eles são raros.
— Eu sei — sussurrou S/N. — Mas e a empresa? E se a mídia descobrir?
— Deixe que descubram — Minjin deu de ombros, voltando ao seu tom vibrante. — Imagine o valor das ações! "CEO da SN Global conquista o coração do Golden Maknae". É o tipo de publicidade que o dinheiro não compra. Mas, falando sério, se você quer manter isso em segredo, nós vamos manter. Eu sou a diretora de marketing, lembra? Eu crio narrativas. Posso transformar qualquer flagra de vocês em uma "reunião estratégica de branding".
O resto da manhã foi passado entre risadas e planos. No entanto, o clima mudou quando o tablet de Minjin apitou com uma notificação urgente. Ela franziu a testa, os dedos voando sobre a tela.
— S/N... temos um pequeno problema tático.
— O que foi? — S/N sentiu o estômago apertar. — O contrato?
— Não, o contrato está sólido. Mas parece que alguns fãs viram um "homem misterioso de boné" entrando em um SUV com uma "mulher elegante" nos fundos do The Pierre ontem à noite. Já está no Twitter. Não há fotos nítidas do seu rosto, mas a silhueta dele é inconfundível para o exército de fãs deles.
S/N sentiu o sangue fugir do rosto. O peso da realidade estava batendo à porta mais cedo do que o esperado. Ela sabia que a privacidade era um luxo que Jungkook raramente podia pagar, mas ver sua vida pessoal ser dissecada em tempo real era uma experiência nova e assustadora.
— O que a HYBE disse? — perguntou ela, a voz um pouco mais baixa.
— Ainda nada oficial — respondeu Minjin, analisando as métricas. — Mas o Jungkook acabou de me mandar uma mensagem. Ele está pedindo para você não se preocupar. Ele disse que vai resolver.
S/N pegou o celular e viu que havia uma nova mensagem de Jungkook.
— "Não olhe as redes sociais hoje. Confie em mim. O que temos é maior do que qualquer rumor. Podemos nos ver hoje à noite na sede da sua empresa? Preciso te mostrar uma coisa antes de partir."
S/N respirou fundo. A sede da empresa era o lugar mais seguro que ela conhecia. Sensores biométricos, segurança privada e total controle sobre quem entrava e saía. Era o seu domínio.
— Eu vou encontrá-lo, Minjin.
— É assim que se fala! — Minjin sorriu, embora seus olhos mostrassem uma ponta de preocupação genuína. — Vá lá e mostre para esse garoto que uma CEO de Nova York não se assusta com alguns tweets.
A noite caiu sobre Manhattan com uma névoa fina que transformava as luzes da cidade em borrões aquarelados. S/N estava em seu escritório no septuagésimo andar. As luzes estavam apagadas, exceto pela iluminação suave que vinha do horizonte urbano. Ela ouviu o bipe do elevador privativo.
Jungkook entrou na sala usando um moletom largo e uma máscara preta, que ele retirou assim que a porta se fechou. Ele parecia cansado, com olheiras leves que denunciavam o estresse do dia, mas seus olhos brilharam instantaneamente ao vê-la.
— Sinto muito pelo barulho hoje — disse ele, caminhando até ela com passos rápidos. — Eu tentei ser o mais discreto possível, mas Nova York tem olhos em todos os lugares.
— Eu sabia no que estava me metendo, Jungkook — S/N respondeu, aproximando-se e colocando as mãos nos ombros dele, sentindo a tensão em seus músculos. — Ou pelo menos, eu achei que sabia. Como você está lidando com tudo isso?
— Estou bem, agora que estou aqui — ele a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto no vão do pescoço dela. — Minha empresa quer que eu solte uma nota dizendo que era apenas uma reunião de negócios e que a mulher era uma consultora. E eu vou fazer isso, para te proteger. Mas dói ter que mentir sobre algo que me faz tão feliz.
— É o preço que pagamos, não é? — Ela se afastou um pouco para olhar nos olhos dele, segurando seu rosto com as mãos. — Eu passo o dia inteiro negociando verdades e mentiras no mundo corporativo. Mas com você, Jeon Jungkook, eu não quero negociar nada.
Jungkook sorriu e pegou um pequeno dispositivo do bolso — um protótipo dos novos wearables que a empresa de S/N estava desenvolvendo em parceria com a HYBE. Era uma pulseira elegante, minimalista, de titânio escurecido.
— Eu trouxe isso. É o primeiro modelo funcional com a interface que discutimos na reunião — ele colocou o bracelete fino no pulso dela. — Eu pedi aos técnicos para programarem algo especial, uma função que não estará no mercado.
Ele tocou na tela de cristal líquido do bracelete. Instantaneamente, uma pulsação rítmica começou a vibrar contra a pele de S/N. Era um toque suave, como um batimento cardíaco, acompanhado por uma melodia de piano que ela nunca ouvira antes, vinda de um minúsculo alto-falante de alta fidelidade.
— O que é isso? — perguntou ela, maravilhada com a sensação.
— É o meu batimento cardíaco em tempo real — ele explicou, a voz baixa e carregada de emoção. — E a melodia é uma composição que comecei a escrever ontem à noite, depois que te deixei em casa. Sempre que você se sentir pressionada, ou quando a distância parecer grande demais, toque aqui. Você vai saber que, em algum lugar do mundo, meu coração está batendo por você. Literalmente.
S/N sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ela, que sempre valorizara diamantes, ações e imóveis de luxo, percebeu que aquele pequeno pedaço de tecnologia e sentimento era o objeto mais valioso que já possuíra em toda a sua vida.
— Jungkook... isso é... — ela não conseguia encontrar as palavras, apenas apertou o pulso contra o peito.
— É a minha garantia de sucesso — ele brincou, usando o jargão que ela tanto gostava. — S/N, eu tenho que ir para Seul amanhã. Vai ser difícil. Vai haver rumores, fuso horário e muito trabalho. Mas eu não vou desistir de nós. Você é a mulher mais forte que já conheci, e eu quero ser o homem que te faz sentir que não precisa ser forte o tempo todo.
S/N o puxou para um beijo profundo, um beijo que selava um contrato muito mais importante do que aquele que estava assinado em sua mesa. Era um compromisso de almas, uma promessa feita no topo do mundo, onde o ar era rarefeito, mas a visão era clara.
— Eu vou te esperar — disse ela, contra os lábios dele. — E eu vou para Seul no próximo mês para a inauguração da nossa linha de produtos. Vamos transformar essa viagem de negócios na nossa melhor memória.
— Eu vou contar os segundos — ele sorriu, encostando a testa na dela.
Eles ficaram ali, em silêncio, observando a cidade. O medo de S/N não havia desaparecido completamente, mas fora substituído por uma determinação inabalável. Ela era uma CEO, uma líder, uma mulher que moldava o futuro. E agora, ela tinha um motivo para querer que esse futuro chegasse mais rápido.
De repente, o celular de S/N vibrou no bolso. Era uma mensagem de Minjin, que provavelmente estava monitorando a situação de algum bar badalado.
— "A nota da HYBE acabou de sair. 'Reunião estratégica noturna para alinhamento de marketing'. O mundo acreditou, ou fingiu acreditar. Mas eu sei a verdade. E a verdade é que você está radiante, amiga. Aproveite cada minuto desse 'alinhamento'."
S/N sorriu e guardou o celular, ignorando as notificações. Ela olhou para o bracelete em seu pulso, sentindo a vibração suave e constante.
— Sabe — disse ela, voltando-se para ele —, Minjin me disse uma vez que o amor era um investimento de alto risco e baixo retorno, algo para quem tinha tempo de sobra.
— E o que você acha agora, depois de tudo isso? — perguntou Jungkook, envolvendo-a pela cintura e puxando-a para mais perto.
— Acho que o amor é o único investimento que faz o tempo valer a pena — ela respondeu, sentindo-se finalmente completa.
Eles sabiam que o caminho à frente seria um labirinto de desafios. Haveria aeroportos vazios, chamadas de vídeo de madrugada com conexão ruim e a constante pressão da fama global. Mas, enquanto caminhavam em direção ao elevador, de mãos dadas, S/N percebeu que não importava o quão alto ela subisse em sua carreira, o lugar mais alto que ela já alcançara fora ali, naquele momento, sendo simplesmente a mulher que amava Jeon Jungkook.
A porta do elevador se fechou com um suave zumbido metálico, deixando para trás o escritório luxuoso e as luzes frias de Nova York. Eles desceram juntos, prontos para enfrentar o mundo, não como dois gigantes de suas indústrias, mas como duas pessoas que encontraram o silêncio em meio ao barulho ensurdecedor da vida moderna.
No dia seguinte, S/N estava de volta à sua mesa. O relatório da manhã mostrava que as ações da SN Global haviam subido 4%. O contrato com a HYBE era um sucesso absoluto antes mesmo do lançamento dos produtos. O nome dela estava em todos os jornais econômicos.
Minjin entrou na sala, desta vez sem o turbilhão de sacolas, apenas com um sorriso cúmplice e um café gelado na mão.
— Pronta para a próxima reunião, "Mulher de Ferro"? — perguntou a amiga, sentando-se de forma descontraída na cadeira de veludo.
S/N olhou para o bracelete em seu pulso, sentindo a vibração suave que indicava que, em algum lugar do outro lado do oceano, Jungkook estava acordando e pensando nela. Ela sorriu, um sorriso que iluminou toda a sala e pareceu desarmar até a frieza do mármore do escritório.
— Mais do que pronta, Minjin. O mercado pode estar agitado, mas meu coração está em perfeita sincronia.
— É assim que se fala — disse Minjin, piscando. — Agora, vamos dominar o mundo de vez. Temos uma turnê para planejar, uma marca para lançar e uma CEO para manter com esse brilho nos olhos.
S/N abriu seu laptop, mas antes de começar a trabalhar, enviou uma última mensagem para o homem que estava a dez mil metros de altitude.
— "O batimento está forte aqui. Te vejo em breve, meu estranho misterioso. O contrato foi apenas o começo."
A resposta veio minutos depois, uma simples foto da asa do avião acima das nuvens com a legenda:
— "Sempre seu. O mundo é pequeno demais para nós dois."
E, pela primeira vez, S/N não viu o horizonte de Nova York como um inventário de conquistas, mas como um convite para o infinito. A parceria de negócios fora apenas o prefácio de uma história que nenhum relatório seria capaz de descrever. O verdadeiro império que eles estavam construindo não tinha paredes, nem ações, nem fim. Era feito de batimentos cardíacos, promessas e a coragem de amar em um mundo que nunca para de olhar.