Entre cláusulas e contratos.
Sussurros de Seoul e o Algoritmo do Destino
O escritório da SN Global Enterprises, no topo de um dos arranha-céus mais icônicos de Manhattan, costumava ser o santuário de S/N. Ali, entre paredes de vidro e móveis de design minimalista, ela comandava um império com a frieza de um algoritmo. No entanto, naquela manhã de terça-feira, a CEO sentia que algo em seu sistema operacional interno havia sofrido um "curto-circuito" irremediável.
Ela girou a cadeira de couro, observando o horizonte de Nova York. Em seu pulso, o bracelete de titânio — o protótipo que Jungkook lhe dera — vibrou suavemente. Era um pulsar rítmico, constante, quente. Não era um alerta de mercado, nem uma notificação de e-mail. Era o batimento cardíaco dele, transmitido em tempo real de algum lugar sobre o Oceano Pacífico.
— Se você continuar encarando o Empire State com essa cara de quem está vendo um dorama, eu vou ser obrigada a cancelar sua assinatura da Forbes e te inscrever em um fã-clube — a voz de Minjin ecoou, interrompendo o silêncio.
Minjin entrou na sala com sua energia habitual, equilibrando dois copos de café gelado e uma pasta de couro legítimo. Ela usava um conjunto de alfaiataria fúcsia que parecia berrar "sucesso".
— Eu estava apenas... revisando as projeções para o lançamento em Seoul — mentiu S/N, ajeitando a manga do blazer para cobrir o bracelete, embora soubesse que era inútil tentar enganar a amiga.
— Sei, projeções com setenta batidas por minuto — Minjin riu, colocando o café sobre a mesa. — S/N, admita. Você está viciada nesse "gadget do amor". Quem diria que a mulher que só acreditava em lucros trimestrais agora monitora sístoles e diástoles de um ídolo global?
S/N suspirou, rendendo-se e pegando o café.
— É assustador, Minjin. Eu sempre tive o controle de tudo. Meus investimentos, minha empresa, minha vida. Agora, meu humor depende de uma vibração no pulso e de mensagens enviadas em fusos horários impossíveis.
— Isso se chama "viver", querida — Minjin sentou-se na poltrona à frente da mesa, cruzando as pernas com elegância. — E por falar em viver, o jato está pronto. Partimos para Seoul em seis horas. A HYBE preparou uma recepção que faria a ONU parecer uma festa de aniversário de criança. O mundo está esperando para ver a "Parceria do Século" ser oficializada em solo coreano.
— O contrato já está assinado, Minjin. O que eles querem agora é o espetáculo — S/N comentou, voltando à sua postura profissional.
— Eles querem a narrativa. E nós somos as melhores nisso — Minjin abriu a pasta, revelando o cronograma. — Teremos o jantar de gala na primeira noite, a coletiva de imprensa no Dongdaemun Design Plaza e, claro, o show de lançamento da linha tecnológica. E, antes que você pergunte, sim, a agenda do Jungkook tem uma "janela de manutenção" de duas horas logo após o desembarque. Coincidência, não?
S/N sentiu um frio na barriga que nenhuma fusão bilionária jamais lhe causara.
— Você não tem jeito.
— Eu sou eficiente, S/N. Há uma diferença — Minjin piscou. — Agora, vá para casa e termine de arrumar aquela mala. Quero que você chegue em Seoul parecendo a dona do mundo, porque, tecnicamente, você é.
O voo para a Coreia do Sul foi uma mistura de trabalho intenso e momentos de devaneio. S/N revisava contratos e apresentações, mas seus olhos sempre voltavam para o bracelete. À medida que o avião cruzava as zonas temporais, a vibração no seu pulso parecia ficar mais intensa, como se a proximidade física estivesse carregando a conexão.
Ao pousar no Aeroporto de Incheon, a realidade da fama de Jungkook atingiu S/N como uma parede. Mesmo saindo pela área VIP, ela pôde ouvir o rugido distante dos fãs que aguardavam qualquer sinal do grupo. Carros pretos com vidros fumê as aguardavam.
— Bem-vinda à toca do leão, amiga — sussurrou Minjin enquanto entravam no veículo. — Aqui, o jogo é diferente.
O hotel em Gangnam era uma fortaleza de luxo. S/N mal teve tempo de se refrescar quando seu celular vibrou. Não era uma mensagem de texto, era uma localização enviada por um número privado. Ela sabia exatamente o que era.
— Minjin, eu vou precisar de...
— Duas horas de cobertura? Já está resolvido — Minjin disse, sem tirar os olhos do laptop. — Vá pela saída de serviço do spa. Tem um sedã cinza esperando. O motorista é de extrema confiança da HYBE. E, por favor, tente não ser presa por espionagem industrial ou algo do tipo.
S/N sorriu e saiu. O trajeto foi curto, levando-a a um bairro residencial tranquilo e arborizado, longe dos outdoors brilhantes. O carro parou em frente a uma casa de arquitetura moderna, protegida por muros altos.
Ao entrar, o silêncio era absoluto. Ela caminhou pelo jardim de pedras até que uma porta de vidro se abriu. Jungkook estava lá, vestindo apenas um moletom preto largo e calças de pijama. Ele parecia exausto, com leves olheiras sob os olhos, mas o sorriso que ele abriu ao vê-la iluminou o ambiente mais do que qualquer refletor de estádio.
— Você realmente atravessou o mundo — disse ele, a voz um pouco rouca.
— Eu tinha um contrato para cumprir, lembra? — S/N respondeu, aproximando-se. — E um monitor cardíaco que não me deixava dormir.
Jungkook a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço dela. O cheiro de sândalo e o calor do corpo dele eram a única coisa que S/N precisava para sentir que o chão estava firme novamente sob seus pés.
— Eu senti tanta falta — ele sussurrou contra a pele dela. — Em Nova York, parecia um sonho. Aqui, com a pressão da turnê e as câmeras... eu tive medo de que você desistisse de nós quando visse como a minha realidade é caótica.
— Eu sou uma CEO de Nova York, Jungkook — ela se afastou um pouco para olhar nos olhos dele, segurando seu rosto com as mãos. — Eu como caos no café da manhã. Você acha mesmo que um bando de paparazzi e um fuso horário iam me assustar?
Ele riu, um som leve e genuíno que aqueceu o peito dela.
— Eu deveria saber que não se subestima S/N.
— Nunca — ela sorriu. — Mas, falando sério... como você está? Minjin me disse que os ensaios estão sendo brutais.
— Estão — ele admitiu, conduzindo-a para um sofá confortável que dava para um pequeno jardim interno. — Queremos que essa turnê seja perfeita. É a primeira vez que integramos a tecnologia da sua empresa nas apresentações. É um marco para nós. Mas, às vezes, eu só queria poder desligar o "modo ídolo" por mais de cinco minutos.
— É para isso que eu estou aqui — S/N sentou-se ao lado dele, entrelaçando seus dedos. — Para ser o seu botão de desligar.
Eles passaram as duas horas seguintes em um mundo à parte. Não falaram de parcerias, de ações na bolsa ou de coreografias. Falaram sobre a infância dele em Busan, sobre os medos dela quando assumiu a empresa e sobre como a pizza do Brooklyn ainda era a melhor que já haviam comido.
— Eu tenho um presente para você — disse Jungkook, levantando-se e indo até uma gaveta. Ele voltou com uma pequena caixa de veludo.
S/N sentiu o coração falhar uma batida.
— Jungkook, se isso for um anel de noivado diante de toda essa pressão...
— Calma, CEO — ele brincou, abrindo a caixa. — É um anel de compromisso. Na Coreia, é comum. É um símbolo de que estamos juntos, mesmo que o mundo não possa saber ainda.
Era uma peça de platina, minimalista, com uma pequena safira azul cravada na parte interna.
— É lindo — sussurrou ela, permitindo que ele deslizasse o anel em seu dedo.
— Ele tem um sensor — explicou ele, sério. — Se você pressionar a pedra por três segundos, o meu bracelete vai vibrar de um jeito específico. É o meu sinal de que, não importa onde eu esteja, eu estou ouvindo você.
S/N sentiu as lágrimas arderem. Ela, que sempre fora mestre em desvendar as intenções das pessoas, via em Jungkook uma pureza que a desarmava completamente.
— Eu vou ter que aumentar o orçamento de segurança da empresa — ela brincou, tentando disfarçar a emoção. — Porque eu não pretendo tirar isso nunca.
A despedida foi difícil, mas necessária. O dever os chamava.
O dia do evento de lançamento no Dongdaemun Design Plaza foi um espetáculo de luzes e sons. A imprensa global estava presente em peso. S/N subiu ao palco com a confiança de uma rainha, apresentando os novos dispositivos que fundiam moda, tecnologia e a identidade do BTS.
— Esta parceria não é apenas sobre produtos — disse ela ao microfone, sua voz projetada para milhares de pessoas. — É sobre conexão. Sobre como a tecnologia pode encurtar distâncias e como a arte pode dar alma às máquinas.
Quando o grupo subiu ao palco para a demonstração final, a energia era palpável. Jungkook estava impecável em um terno sob medida que misturava elementos futuristas. Durante a apresentação, em um momento coreografado, ele passou por S/N e, por uma fração de segundo, seus olhos se encontraram.
Não houve toque, não houve palavras, mas a vibração no pulso de S/N, vinda do bracelete, disse tudo o que precisava ser dito. O batimento dele estava acelerado, em sincronia com o dela.
Após o evento, no jantar de gala privado para os altos executivos da HYBE e da SN Global, a atmosfera estava carregada de satisfação. Os lucros projetados eram astronômicos.
S/N estava em um canto da varanda, observando as luzes de Seoul, quando o CEO da HYBE se aproximou.
— Uma noite de sucesso, S/N — disse ele, em um inglês perfeito. — A química entre as nossas marcas é... sem precedentes.
— Os números não mentem, senhor Bang — ela respondeu com um sorriso profissional.
— Sim, os números são ótimos — ele olhou para onde os membros do BTS conversavam com outros convidados. — Mas eu estou no ramo das pessoas há tempo suficiente para saber que números não criam esse tipo de brilho nos olhos. Só tome cuidado. O mundo é um lugar pequeno para segredos tão grandes.
— Eu sei lidar com riscos — S/N afirmou, mantendo o olhar firme.
— Eu não duvido disso — ele brindou com sua taça e se afastou.
Minjin apareceu logo em seguida, parecendo radiante.
— O Twitter está em chamas, as ações subiram 8% em Tóquio e eu acabei de ouvir três diretores da Samsung perguntando quem é a "mulher de ferro" de Nova York — ela riu, entregando uma taça de champanhe para a amiga. — Você conseguiu, S/N. O mundo está aos seus pés.
— O mundo é muito grande, Minjin — S/N olhou para o anel de compromisso em seu dedo, escondido sob a luva de renda que fazia parte de seu figurino. — Eu só preciso de um pedaço bem pequeno dele.
— Aquele pedaço ali? — Minjin apontou discretamente com o queixo para Jungkook, que se desvencilhava de um grupo de investidores e caminhava em direção à varanda. — Vou garantir que ninguém interrompa vocês pelos próximos dez minutos. Considere isso meu bônus de desempenho.
Minjin saiu, arrastando qualquer pessoa que estivesse por perto para o buffet de sobremesas. Jungkook parou ao lado de S/N, apoiando os braços no parapeito.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz baixa.
— Estou exausta, feliz e com os pés latejando — ela confessou, encostando a cabeça no ombro dele por um breve momento. — Mas valeu a pena. Cada segundo.
— A turnê começa amanhã — ele disse, com uma nota de tristeza. — Japão, Europa, Américas. Vai ser um longo tempo longe de Seoul. E de Nova York.
S/N se virou para ele, pegando suas mãos.
— Jungkook, olhe para mim. Eu construí uma empresa do zero em uma cidade que tenta te devorar viva todos os dias. Você acha que eu não consigo gerenciar uma turnê mundial? Eu já reservei meu roteiro de viagens. Vou estar em Londres para o show no Wembley, em Paris para o encerramento e em Los Angeles para a festa de encerramento.
Ele arregalou os olhos.
— Você vai? Mas e a empresa?
— Eu tenho a Minjin. E eu tenho algo chamado "trabalho remoto" — ela sorriu, travessa. — Além disso, a CEO precisa garantir que o controle de qualidade dos produtos seja verificado pessoalmente nos bastidores. É uma questão de governança corporativa.
Jungkook riu, puxando-a para um beijo rápido e escondido pelas sombras da varanda.
— Você é inacreditável.
— Eu sou uma mulher de negócios, Jeon Jungkook — ela sussurrou contra os lábios dele. — E eu nunca deixo um investimento tão valioso sem supervisão.
Eles ficaram ali por mais alguns minutos, observando a cidade que nunca dormia, mas que, naquela noite, parecia guardar o segredo deles com carinho. O futuro era incerto, cheio de flashes, contratos e fusos horários, mas enquanto o bracelete em seu pulso continuasse pulsando em sincronia com o coração dele, S/N sabia que o algoritmo do destino finalmente tinha acertado o cálculo.
O sucesso profissional era doce, mas o amor, ela descobriu, era o único lucro que realmente não podia ser tributado. E para uma CEO que sempre buscou o topo, ela finalmente percebeu que a vista era muito melhor quando se tinha alguém para segurar sua mão enquanto olhava para baixo.
— Pronta para o próximo capítulo? — perguntou Jungkook, enquanto Minjin sinalizava ao longe que eles precisavam voltar para o salão.
— Eu escrevi o roteiro, Jungkook — S/N respondeu, ajeitando o blazer e assumindo sua postura inabalável. — E eu garanto: o final vai ser épico.
Eles entraram no salão iluminado, de volta aos papéis que o mundo esperava que desempenhassem. Mas por baixo da seda e do titânio, dois corações batiam como um só, prontos para transformar uma parceria comercial na maior história de amor que o mundo corporativo — e o mundo da música — já tinha visto.