Entre espadas e trono
O Brilho Gélido da Obsessão
A Fortaleza de Marfim erguia-se contra o céu noturno como um dente de gigante, pálida e implacável. Para o mundo exterior, era um símbolo de poder inabalável; para Sonya Saranphat, era uma tumba de pedra e luxo. O som dos cascos dos cavalos ecoando no pátio interno da fortaleza soou como o bater de um martelo em um caixão. Ela foi arrancada da sela por mãos rudes e conduzida através de corredores sinuosos, onde as tochas projetavam sombras que pareciam garras nas paredes de pedra fria.
Ela não foi levada para as masmorras úmidas que esperava. Em vez disso, os guardas a forçaram a subir a escadaria em espiral da Torre Leste, parando apenas diante de uma pesada porta de carvalho reforçada com ferro. Quando a porta se abriu, Sonya foi empurrada para dentro.
O quarto era vasto e opressor. Não era o quarto de uma princesa, mas o santuário de uma predadora. Mapas de guerra estavam estendidos sobre uma mesa de carvalho negro, e o cheiro de couro, sândalo e o leve aroma metálico de sangue que parecia seguir a General Punyapat impregnava o ar. Sonya tropeçou, mas recuperou o equilíbrio rapidamente, virando-se para encarar a porta que se fechava com um estrondo metálico.
Ela estava sozinha. Por enquanto.
Sonya caminhou até a janela estreita. As grades de ferro eram grossas e o abismo lá fora era absoluto. Ela tocou o pulso, ainda dolorido pelo aperto de Lookmhee, e sentiu o ressecado do sangue da general em sua bochecha. Uma náusea subiu por sua garganta, mas ela a engoliu. Ela era uma Pedersen. Ela não se quebraria diante de uma bárbara.
Cerca de uma hora se passou antes que o som de passos pesados e rítmicos ecoasse no corredor. A fechadura rangeu.
Lookmhee Punyapat entrou no quarto. Ela havia retirado a armadura pesada, vestindo agora uma túnica militar de seda escura que delineava seus ombros largos e sua estatura imponente de um metro e oitenta. Em uma das mãos, ela carregava uma bandeja de prata com frutas, pão fresco e uma taça de vinho. Na outra, a mão que Sonya havia ferido estava agora envolta em uma bandagem branca e limpa, embora uma mancha escarlate começasse a florescer no centro do curativo.
A general chutou a porta para fechá-la e caminhou até a mesa central, colocando a bandeja ali com uma calma exasperante.
— Você deve estar com fome — disse Lookmhee, sua voz vibrando no silêncio do quarto como um trovão distante. — O caminho foi longo e você não facilitou as coisas para os meus homens.
Sonya não se moveu da janela. Seus olhos castanhos-claros brilhavam com um ódio que poderia incendiar a fortaleza.
— Eu não quero nada que venha de você, Punyapat. Prefiro morrer de inanição a aceitar sua "caridade".
Lookmhee deu um passo à frente, a luz das velas realçando a pequena cicatriz no canto de sua boca. Ela ignorou o comentário e serviu o vinho, o som do líquido caindo na taça sendo o único ruído entre elas.
— A morte é um destino muito tedioso para alguém com a sua vivacidade, Sonya — comentou a general, pegando uma maçã e girando-a entre os dedos longos. — E eu não gastei metade do meu exército para deixar você morrer de fome em uma torre. Coma.
— Por que me trouxe para os seus aposentos? — Sonya perguntou, a voz trêmula de fúria. — Para me humilhar? Para exibir sua conquista antes de me jogar aos seus cães?
Lookmhee deixou a maçã cair de volta na bandeja e caminhou lentamente em direção à princesa. Cada passo era deliberado, predatório. Sonya sentiu o espaço diminuir, a presença física de Lookmhee era como uma muralha que a cercava de todos os lados. Quando a general parou a poucos centímetros dela, a diferença de altura era quase sufocante. Sonya teve que inclinar a cabeça para trás para manter o contato visual.
— Você não é um prêmio para os meus cães — disse Lookmhee, sua voz baixando para um sussurro perigoso. — Você é o meu interesse particular. Eu trouxe você para cá porque quero observar você. Quero ver quanto tempo esse fogo nos seus olhos levará para se transformar em algo mais... útil.
— Nunca — sibilou Sonya. — Você pode ter meu corpo preso nesta torre, mas nunca terá nada de mim.
Lookmhee estendeu a mão enfaixada, tocando levemente o queixo de Sonya. A princesa tentou recuar, mas as costas bateram contra a pedra fria da parede.
— Você me marcou, Sonya — disse Lookmhee, erguendo a mão ferida entre as duas. — Ninguém me fazia sangrar há anos. Você sentiu o gosto do meu sangue na ponta da sua adaga, não sentiu?
O nojo borbulhou no peito de Sonya. A proximidade, o cheiro de Lookmhee, a arrogância gélida daquela mulher que a olhava como se ela fosse uma peça de um quebra-cabeça que ela pretendia montar e depois destruir.
— Senti — respondeu Sonya, um sorriso amargo surgindo em seus lábios. — E foi a única coisa prazerosa deste dia maldito. Ver você sangrar.
Lookmhee inclinou a cabeça, os olhos escuros fixos nos lábios de Sonya.
— Então você gosta de ferir o que deseja? Temos mais em comum do que você imagina.
A audácia da afirmação foi o estopim. Sonya sentiu o arrepio de repulsa percorrer sua espinha. Sem pensar, sem medir as consequências, ela acumulou saliva e cuspiu diretamente no rosto da general.
O líquido atingiu a bochecha de Lookmhee, logo abaixo do olho esquerdo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, denso o suficiente para ser cortado por uma lâmina. Sonya sentiu o coração martelar contra as costelas, uma mistura de triunfo e terror absoluto. Ela esperava que Lookmhee a esbofeteasse, que a jogasse no chão, que desembainhasse a espada e terminasse o que começou na fronteira.
Mas Lookmhee Punyapat não se moveu.
A general permaneceu imóvel por longos segundos, o cuspe escorrendo lentamente por sua pele pálida. Seus olhos, no entanto, mudaram. O gelo habitual foi substituído por uma chama escura e obsessiva, um brilho de loucura controlada que fez Sonya vacilar.
Lentamente, Lookmhee ergueu a mão enfaixada. Com o dedo indicador, ela recolheu o rastro do cuspe de sua bochecha. Ela olhou para o dedo por um momento, como se estivesse analisando uma joia preciosa, e então, com uma lentidão torturante, levou o dedo à própria boca, provando a umidade.
Sonya sentiu o sangue fugir de seu rosto.
— Doce — murmurou Lookmhee, sua voz agora era um rosnado baixo, carregado de uma tensão que Sonya não conseguia compreender. — O seu ódio tem um sabor delicioso, princesa.
Lookmhee deu mais um passo, colando seu corpo ao de Sonya. A princesa podia sentir o calor emanando da general, a força bruta escondida sob a túnica de seda.
— Você acha que isso me ofende? — Lookmhee perguntou, sua mão livre agarrando um punhado dos cabelos castanhos de Sonya, forçando-a a olhar para cima. — Você acha que o seu desprezo é uma barreira? Para mim, é apenas o combustível.
— Você é doente — sussurrou Sonya, as lágrimas de frustração ameaçando cair.
— Talvez eu seja — admitiu Lookmhee, aproximando o rosto do de Sonya até que seus narizes se tocassem. — Mas sou a única realidade que lhe resta. Olhe ao seu redor, Sonya. Seu pai não virá. Seus guardas estão mortos. O mundo que você conhecia virou cinzas. Aqui, nesta torre, só existimos nós duas.
Lookmhee soltou o cabelo dela, mas não se afastou. Ela deslizou o polegar pela cicatriz em sua própria boca, o olhar nunca deixando os olhos de Sonya.
— Esse ódio que você nutre com tanto fervor... — Lookmhee começou, um sorriso predatório curvando seus lábios. — Ele é intenso. É puro. E é exatamente por ser tão forte que ele é fácil de moldar. Em breve, cada fibra do seu ser que hoje queima de raiva, queimará de necessidade. Esse ódio todo se transformará em amor, Sonya.
— Eu morreria antes disso — desafiou a princesa, embora sua voz soasse fraca até para seus próprios ouvidos.
— Oh, você não vai morrer — disse Lookmhee, acariciando o rosto de Sonya com o dorso da mão enfaixada, o sangue seco da general manchando novamente a pele da princesa. — Eu vou manter você viva. Vou quebrar cada uma dessas suas defesas, uma por uma, com a paciência de quem sitia uma cidade. E no final, você implorará pelo meu toque. Você virá até mim por vontade própria, ou eu a arrastarei para os meus braços. Por bem ou por mal, Sonya Saranphat, você será minha. Não apenas como prisioneira, mas como alguém que não consegue respirar sem a minha permissão.
Lookmhee afastou-se subitamente, a mudança de atmosfera sendo tão brusca que Sonya quase caiu. A general caminhou de volta para a mesa, pegou a taça de vinho e bebeu um gole longo, observando a princesa como um mestre observa um animal selvagem recém-capturado.
— Coma a comida — ordenou Lookmhee, sua voz voltando ao tom frio e autoritário de antes. — Você precisará de forças para o que está por vir. Amanhã começaremos as suas novas lições.
Sem dizer mais uma palavra, Lookmhee virou-se e saiu do quarto. O som da porta sendo trancada por fora ecoou como uma sentença de morte.
Sonya desabou no chão, as pernas finalmente cedendo. Ela olhou para a bandeja de comida, o cheiro do pão agora parecendo cinzas em seu nariz. Ela esfregou a bochecha com força, tentando limpar o rastro do toque de Lookmhee, mas a sensação da mão da general em seu rosto parecia ter sido gravada a fogo em sua pele.
Ela olhou para a janela, para a escuridão infinita além das grades.
— Você se engana, general — sussurrou Sonya para o vazio, as mãos tremendo. — O ódio não é argila que você possa moldar. É uma adaga. E eu ainda tenho a minha, mesmo que você não a veja.
No corredor silencioso, Lookmhee Punyapat parou por um momento, encostando a mão enfaixada na parede de pedra. A dor no corte latejava, um lembrete constante da resistência de Sonya. Ela levou a mão à boca novamente, fechando os olhos. O sabor do desafio da princesa ainda estava ali.
Ela nunca desejara nada com tanta intensidade. O reino de Pedersen era apenas terra e pedra; Sonya era a alma, o fogo que Lookmhee queria dominar. E ela tinha todo o tempo do mundo.
A guerra lá fora estava apenas começando, mas dentro daquelas paredes, a General Punyapat já havia decidido o resultado. Sonya Saranphat aprenderia que, no jogo de Lookmhee, a rendição era o único caminho para a sobrevivência. E Lookmhee mal podia esperar para ver a princesa de joelhos, não por força, mas por uma devoção que ela mesma plantaria no coração daquela mulher indomável.