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Entre espadas e trono

Cicatrizes de uma Guerra Silenciosa

O tempo na Fortaleza de Marfim não era medido por horas, mas pela intensidade do silêncio que se seguia às visitas da General Punyapat. Para Sonya, cada pôr do sol era uma pequena derrota, um lembrete de que as fronteiras de seu pai permaneciam distantes e que o castelo de sua infância agora parecia uma memória desbotada. Ela se recusava a ser quebrada, mas a solidão da torre começava a sussurrar dúvidas em seus ouvidos durante as madrugadas gélidas.

Lookmhee era metódica em sua tortura psicológica. Ela não usava chicotes ou correntes; ela usava a presença. Ela aparecia em horários imprevisíveis, às vezes apenas para ler relatórios de batalha enquanto Sonya jantava em silêncio, outras vezes para descrever, com uma frieza cirúrgica, como as defesas do reino Pedersen estavam desmoronando. A general era uma sombra constante, uma força da natureza que Sonya não conseguia ignorar, por mais que tentasse.

Naquela noite, a lua estava escondida por nuvens espessas, e o vento uivava contra as pedras da torre. Sonya estava exausta. O peso da incerteza a havia deixado letárgica. Ela se deitou na cama de dossel, cobrindo-se com os lençóis pesados, mas o sono era um mestre esquivo. Ela fechou os olhos, respirando fundo, tentando fingir para si mesma que estava em outro lugar, longe do cheiro de sândalo e da aura de controle de sua captora.

Passava da meia-noite quando o som da tranca pesada ecoou. Sonya não se moveu. Ela manteve a respiração ritmada, o corpo relaxado em uma encenação perfeita de sono profundo. Ela ouviu os passos pesados de Lookmhee, mas havia algo diferente neles hoje. O ritmo era mais lento, quase arrastado, desprovido da precisão militar habitual.

Lookmhee não acendeu todas as velas. Apenas uma pequena chama na escrivaninha lançava uma luz âmbar e vacilante pelo quarto. Sonya, espiando por entre os cílios quase colados, observou a silhueta da general. Lookmhee parecia exausta. Seus ombros, geralmente tão retos que pareciam esculpidos em mármore, estavam levemente caídos.

A general soltou um suspiro longo, um som que Sonya nunca imaginou que sairia daqueles lábios severos. Lookmhee começou a desabotoar a túnica militar. Sonya sentiu o coração disparar contra o colchão. Ela deveria fechar os olhos por completo, deveria ignorar a intimidade daquele momento, mas a curiosidade — aquela faísca perigosa que Lookmhee tanto admirava — a impediu.

Lookmhee despiu a túnica, revelando uma camisa de linho fino por baixo, que logo também foi descartada. Ela ficou de costas para a cama, e foi então que Sonya perdeu o fôlego.

À luz fraca da vela, as costas da General Punyapat revelaram-se como um mapa de dor e sobrevivência. O corpo era, de fato, escultural — músculos definidos pelo treinamento rigoroso, uma linhagem de força que explicava sua estatura de um metro e oitenta. Mas a pele, que Sonya imaginava ser impecável como o mármore da fortaleza, estava coberta de cicatrizes.

Havia marcas longas de chicotes que cruzavam seus ombros, sulcos profundos que só poderiam ter sido causados por lâminas de machado, e pequenas marcas circulares que pareciam queimaduras de ferro quente. Era um testamento silencioso de que a "General de Gelo" não havia nascido no topo; ela havia sido forjada no inferno.

Lookmhee pegou um pequeno frasco de bálsamo sobre a mesa. Com movimentos lentos e quase dolorosos, ela tentou alcançar uma cicatriz particularmente feia que se estendia da omoplata esquerda até o meio das costas. Ela soltou um gemido baixo de frustração quando o músculo protestou.

Incapaz de se conter, Sonya sentou-se na cama. O rangido da madeira foi mínimo, mas no silêncio da noite, soou como um tiro.

Lookmhee congelou. Em um movimento puramente instintivo, ela agarrou a túnica descartada e a pressionou contra o peito, virando-se para encarar a princesa. Seus olhos escuros estavam arregalados, uma vulnerabilidade crua atravessando sua máscara de comando antes que ela pudesse recuperá-la.

— Você... — a voz de Lookmhee falhou por um milésimo de segundo antes de endurecer — ... deveria estar dormindo.

Sonya não recuou. Ela manteve os olhos fixos nos de Lookmhee, mas sua mente ainda processava a imagem das costas da general.

— O sono não vem para quem está trancada em uma gaiola — disse Sonya, sua voz suave, desprovida do veneno habitual. — Quem fez isso com você?

Lookmhee tensionou a mandíbula, a pequena cicatriz no canto da boca repuxando. Ela terminou de vestir a túnica com pressa, fechando os botões com dedos que, pela primeira vez, pareciam levemente trêmulos.

— Não é da sua conta, princesa — cuspiu Lookmhee, tentando retomar sua estatura imponente. — Volte para o seu descanso.

— Foram muitos, não foram? — Sonya continuou, ignorando a ordem. Ela se levantou da cama, o vestido de dormir branco flutuando ao redor de seus pés. — As marcas. Algumas são antigas, outras parecem ter sido feitas quando você já era adulta.

Lookmhee deu um passo atrás, uma reação que chocou Sonya. A general estava na defensiva.

— Você não sabe nada sobre mim — disse Lookmhee, a voz agora um rosnado baixo. — Você viveu em castelos de seda, protegida por homens que morreriam por um sorriso seu. Eu conquistei o meu lugar com sangue. O meu e o daqueles que tentaram me quebrar.

— E eles conseguiram? — Sonya perguntou, parando a dois passos de distância. — Quebrar você?

Lookmhee soltou uma risada seca, sem um pingo de humor.

— Olhe para mim, Sonya. Eu sou a general que comanda o exército que está destruindo o seu mundo. Ninguém me quebra.

— Então por que se esconder? — Sonya apontou para a túnica agora fechada. — Por que o pânico em cobrir o que você é? Você me disse que eu deveria aceitar minha nova realidade. Talvez você devesse aceitar a sua. Você é feita de feridas, Punyapat. Tanto quanto eu sou.

A general deu um passo rápido à frente, encurtando a distância. Ela era muito mais alta, e sua sombra engoliu Sonya, mas a princesa não desviou o olhar.

— Não ouse se comparar a mim — sibilou Lookmhee, segurando o braço de Sonya com firmeza, mas sem a brutalidade de antes. — Você é uma herdeira mimada que teve que usar uma adaga de prata para se defender. Eu sobrevivi a masmorras onde a luz do sol nunca chegava. Eu comi ratos para não morrer de fome enquanto meus captores se divertiam marcando a minha pele.

Sonya sentiu um aperto no peito. A imagem de uma jovem Lookmhee, crescendo em tamanha violência, contrastava violentamente com a mulher poderosa e controladora à sua frente.

— Eu sinto muito — sussurrou Sonya.

Lookmhee soltou o braço dela como se tivesse se queimado.

— Eu não quero a sua piedade! — gritou a general, o som ecoando pelas paredes de pedra. — Piedade é para os fracos. Eu quero a sua submissão. Eu quero que você entenda que não há nada neste mundo que possa me ferir mais do que eu já fui ferida.

— Então por que seus olhos dizem o contrário agora? — Sonya deu um passo ousado, estendendo a mão.

Ela não tocou o rosto da general, mas parou a centímetros de seu peito, onde o coração de Lookmhee batia de forma errática sob o tecido da túnica.

— Você diz que quer me moldar, que quer que eu sinta necessidade de você — disse Sonya, olhando profundamente nas orbes escuras de Lookmhee. — Mas você é quem parece precisar de algo. Você se cerca de paredes e soldados porque tem medo de que, se alguém vir o que está por baixo dessa armadura, verá que você ainda é aquela criança na escuridão.

Lookmhee agarrou o pulso de Sonya, mas não para afastá-la. Ela apertou com força, seus olhos brilhando com uma mistura perigosa de fúria e algo que beirava o desespero.

— Você acha que me conhece porque viu algumas cicatrizes? — Lookmhee perguntou, sua voz agora um sussurro rouco. — Você não viu nada. Cada uma daquelas marcas é um lembrete de que o afeto é uma fraqueza. Eu não preciso de ninguém.

— Mentira — rebateu Sonya. — Se não precisasse, não passaria tanto tempo nesta torre. Você tem um reino para conquistar, generais para liderar. Mas você volta para cá. Todas as noites. Você não está me observando, Lookmhee. Você está tentando se aquecer no fogo que diz que eu tenho.

Lookmhee puxou Sonya para mais perto, até que seus corpos estivessem quase colados. A tensão entre elas era palpável, uma corda esticada ao ponto de romper.

— Você é perigosa — murmurou Lookmhee, a mão subindo do pulso de Sonya para o seu pescoço, o polegar pressionando levemente a pulsação acelerada da princesa. — Mais perigosa do que qualquer exército que já enfrentei.

— E o que você vai fazer, General? — Sonya desafiou, embora sua respiração estivesse curta. — Vai me mandar para as masmorras? Vai me marcar como marcaram você?

Lookmhee olhou para os lábios de Sonya, e por um momento, a princesa achou que ela a beijaria com a mesma violência com que comandava suas batalhas. Mas a general apenas encostou a testa na dela, fechando os olhos por um breve segundo.

— Eu deveria — confessou Lookmhee. — Seria mais fácil.

Ela se afastou abruptamente, recuperando a compostura como se estivesse vestindo sua armadura invisível novamente. Ela caminhou até a porta, mas antes de sair, olhou por cima do ombro. A luz da vela estava morrendo, deixando seu rosto em sombras.

— Não pense que o que viu lhe dá algum poder sobre mim, Sonya Saranphat — disse ela, a voz fria como o gelo do inverno. — Aquelas cicatrizes são a prova de que eu sobrevivo a tudo. Inclusive a você.

— Sobreviver não é o mesmo que viver, Lookmhee — respondeu Sonya para as costas da general.

Lookmhee não respondeu. Ela saiu e trancou a porta, mas o som da tranca não pareceu tão definitivo desta vez.

Sonya voltou para a cama, mas não se deitou imediatamente. Ela olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que haviam feito a general sangrar dias atrás. Ela percebeu que a guerra entre elas havia mudado. Não era mais apenas sobre reinos ou liberdade. Era sobre o que estava escondido sob a pele.

Naquela noite, Sonya não sonhou com sua fuga. Ela sonhou com as costas de Lookmhee, e com a estranha e avassaladora vontade de passar os dedos por cada uma daquelas cicatrizes, até que a dor da general não fosse mais apenas dela.

Longe dali, no corredor escuro, Lookmhee Punyapat encostou-se na parede, a mão sobre o peito. Onde Sonya quase a tocara, a pele parecia queimar. Ela olhou para a mão enfaixada, a ferida que a princesa lhe causara.

— Você vai ser a minha ruína — sussurrou Lookmhee para a escuridão, e pela primeira vez na vida, a ideia de ser destruída não parecia tão terrível quanto a ideia de nunca mais ser olhada daquela forma por Sonya Pedersen.