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Entre espadas e trono

A Dança de Aço e o Elo de Ouro

O sol da manhã filtrava-se pelas frestas das janelas altas do pátio de treinamento interno da Fortaleza de Marfim, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. O som metálico de lâminas colidindo ecoava contra as paredes de pedra bruta, um ritmo constante que interrompia o silêncio habitual do castelo.

Lookmhee Punyapat observava cada movimento de Sonya com olhos de lince. A general estava sem sua pesada armadura de combate, vestindo apenas uma calça de couro e uma camisa de linho preta com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os músculos definidos de seus antebraços e a bandagem já gasta na mão que Sonya ferira semanas atrás.

— Mais firme, Sonya — comandou Lookmhee, sua voz projetando-se com a autoridade natural de quem liderava legiões. — Se você segurar o cabo como se fosse uma taça de vinho, qualquer soldado raso vai desarmá-la em segundos. O peso deve estar no seu centro, não apenas nos braços.

Sonya ofegou, o suor fazendo com que algumas mechas de seu cabelo castanho-claro grudassem em sua testa. Ela segurava uma espada de treino, mais leve que as de batalha, mas ainda assim um fardo considerável para alguém que passara a vida cercada por sedas e protocolos.

— É mais difícil do que parece quando você faz — reclamou Sonya, tentando ajustar a postura. — Você se move como se a espada fosse uma extensão do seu próprio corpo.

Lookmhee caminhou até ela, sua estatura de um metro e oitenta sombreando a princesa. Ela parou atrás de Sonya, envolvendo-a com seus braços para ajustar a posição das mãos da herdeira no punho da arma. O calor do corpo da general e o cheiro familiar de sândalo e couro envolveram Sonya, fazendo seu coração acelerar por motivos que nada tinham a ver com o esforço físico.

— Porque ela é — sussurrou Lookmhee perto do ouvido de Sonya, sua voz rouca enviando um calafrio pela espinha da princesa. — No campo de batalha, não há tempo para pensar. Você precisa sentir o aço. Se eu não estiver por perto, quero saber que você pode atravessar o coração de qualquer um que ouse tocá-la.

Sonya virou o rosto levemente, encontrando o olhar intenso de Lookmhee. A pequena cicatriz no canto da boca da general repuxou-se quando ela deu um meio sorriso possessivo.

— Você prometeu que estaria sempre por perto — lembrou Sonya, desafiadora.

— E estarei — afirmou Lookmhee, apertando as mãos de Sonya sobre a espada. — Mas o conhecimento é a única arma que ninguém pode tirar de você, nem mesmo eu. Agora, de novo. Ataque-me como se quisesse me matar, como fez com aquela adaga na carruagem.

O treinamento continuou por mais uma hora. Lookmhee era uma instrutora metódica e fria, não dando margem para fraquezas, mas havia uma ternura oculta na forma como ela corrigia os movimentos de Sonya. Ela não queria apenas que a princesa sobrevivesse; ela queria que Sonya fosse soberana de sua própria segurança.

Ao final da sessão, ambas estavam exaustas. Lookmhee entregou um cantil de água para Sonya e sentou-se em um banco de pedra, observando a princesa recuperar o fôlego. O olhar da general suavizou-se, perdendo a dureza militar.

— Sabe — disse Lookmhee, limpando o suor do pescoço com as costas da mão —, meus batedores mencionaram que o calendário de Pedersen marca uma data importante para a próxima semana.

Sonya parou de beber, olhando sobre o ombro.

— Eles estão bem informados.

— É o seu aniversário — continuou a general, levantando-se e caminhando até ela. — Uma data que costumava ser celebrada com banquetes extravagantes e bajuladores por todos os lados. Aqui, na Fortaleza, as coisas são diferentes. Mas eu quero marcar a ocasião. O que a minha rainha deseja de presente? Ouro? Terras? A cabeça de algum inimigo que ainda respira?

Sonya riu, um som cristalino que parecia deslocado naquele ambiente de guerra. Ela se aproximou de Lookmhee, passando os dedos pelos botões da camisa da general.

— Eu não preciso de mais terras, Lookmhee. E você já me deu o ouro que eu poderia querer. — Ela olhou nos olhos escuros da general, um brilho travesso surgindo em seu semblante. — Se você realmente quer me dar algo... eu aceitaria anéis. Anéis combinados. Para que todos saibam, sem sombra de dúvida, a quem eu pertenço e quem me protege.

Lookmhee arqueou uma sobrancelha, surpresa com a sugestão. Anéis de compromisso eram uma tradição que ela sempre considerara fútil, um simbolismo suave demais para o mundo brutal em que vivia. Mas, vindo de Sonya, o pedido soava como um juramento de lealdade que ela ansiava por selar.

— Anéis — repetiu Lookmhee, processando a ideia. — Algo que marque você como minha diante do mundo?

— Exatamente — brincou Sonya, empurrando levemente o peito da general. — Considere como uma coleira de ouro, se isso facilitar sua mente de soldado.

Lookmhee não respondeu de imediato, mas o brilho em seus olhos indicava que a ideia havia se enraizado.

Nos dias seguintes, a general esteve estranhamente ausente durante as tardes. Sonya passava o tempo na biblioteca ou praticando o que aprendera, sentindo a falta constante da presença esmagadora de Lookmhee. Ela sabia que a general estava tratando de assuntos do exército, mas havia um mistério no ar que a deixava inquieta.

Na manhã do aniversário de Sonya, o quarto na Torre Leste estava inundado pela luz pálida do inverno. Sonya acordou sentindo o peso familiar de Lookmhee ao seu lado. A general já estava acordada, apoiada em um cotovelo, observando-a dormir com uma obsessão silenciosa.

— Feliz aniversário, Sonya — disse Lookmhee, sua voz ainda grave pelo sono.

Ela estendeu a mão para a mesa de cabeceira e pegou uma pequena caixa de veludo negro. Sem dizer uma palavra, ela a abriu.

Dentro, repousavam dois anéis de ouro puro, forjados com uma simplicidade elegante, mas com uma espessura que sugeria durabilidade. No interior de cada aro, havia inscrições em uma língua antiga que Sonya reconheceu como o dialeto das tribos guerreiras de Punyapat.

— Mandei o melhor ferreiro da região fundir o ouro de uma das minhas medalhas de conquista — explicou Lookmhee, pegando a mão direita de Sonya. — Nele está escrito: "Propriedade da General". E no meu...

Lookmhee deslizou o anel no dedo anelar de Sonya. O ajuste era perfeito. Em seguida, ela entregou o segundo anel para a princesa.

— No seu — continuou Sonya, lendo a inscrição interna com os dedos — está escrito: "Cativa do Coração".

Sonya sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela deslizou o anel no dedo de Lookmhee, o metal brilhando contra a pele cicatrizada da general. O contraste era poético: a delicadeza do ouro sobre a mão que comandava mortes.

— Eu não sabia que a General de Gelo era capaz de tanto romantismo — provocou Sonya, embora sua voz estivesse embargada.

Lookmhee puxou-a para um abraço, enterrando o rosto no pescoço de Sonya.

— Não confunda romantismo com marcação de território. Agora, o mundo inteiro verá que você é intocável.

Sonya riu baixinho, acariciando os cabelos pretos e curtos de Lookmhee. Ela se sentia segura, protegida por uma fera que o mundo temia, mas que, em seus braços, tornava-se algo completamente diferente.

— Sabe, Lookmhee — murmurou Sonya —, as pessoas lá fora falam de você como se fosse um monstro sem alma. Uma fera que morde qualquer um que cruze seu caminho.

Lookmhee se afastou um pouco para olhar para ela, uma expressão de curiosidade em seu rosto gélido.

— E elas não estão erradas — afirmou a general. — Eu sou exatamente o que eles temem.

Sonya sorriu, passando o polegar pela cicatriz na boca de Lookmhee, sentindo a textura áspera da pele.

— Sim, você é. Você é como uma cachorrinha feroz, Punyapat. Rosna para o mundo, mostra os dentes para os meus inimigos e morde qualquer um que tente nos separar. — Sonya inclinou-se, encostando a testa na de Lookmhee. — Mas a parte divertida é que você só obedece a mim. Somente a mim.

Lookmhee soltou um rosnado baixo, mas não de raiva. Ela envolveu o pescoço de Sonya com uma das mãos, puxando-a para um beijo que era ao mesmo tempo uma punição e uma promessa.

— Você é a única pessoa com o poder de me dar ordens, princesa — admitiu Lookmhee entre beijos. — E a única que eu deixaria me guiar por uma coleira de ouro.

— Bom — disse Sonya, separando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos obsessivos da general. — Então, como sua dona, minha primeira ordem de hoje é que você esqueça seus mapas e seus soldados. O dia pertence a nós.

Lookmhee sorriu, um gesto que raramente chegava aos seus olhos, mas que ali, na intimidade do quarto, era pleno e verdadeiro.

— Como desejar, minha rainha.

Naquela tarde, elas não treinaram. Elas caminharam pelas muralhas da fortaleza, as mãos dadas, os anéis combinados brilhando sob o sol frio. Os soldados que passavam por elas baixavam a cabeça, não apenas por medo da general, mas por respeito à mulher que caminhava ao seu lado. Eles viam a mudança em sua líder; a frieza ainda estava lá, mas agora havia um propósito, um centro de gravidade que não era mais apenas o trono ou a guerra.

Ao entardecer, sentadas diante da lareira, Sonya observava as chamas refletidas no anel em seu dedo. Ela percebeu que a liberdade que perdera ao ser sequestrada fora substituída por algo muito mais profundo. Ela não era mais uma peça em um tabuleiro de xadrez real, movida pelo pai ou por pretendentes arrogantes. Ela era o coração da mulher mais poderosa do continente.

— No que está pensando? — perguntou Lookmhee, servindo vinho para ambas.

— Pensando que o meu pai ficaria horrorizado se visse isso — respondeu Sonya, gesticulando para os anéis. — Ele sempre disse que eu deveria me casar para fortalecer o reino. Mal sabia ele que eu encontraria meu próprio reino nos braços da mulher que o destruiu.

Lookmhee sentou-se no chão, apoiando a cabeça nos joelhos de Sonya. O gesto de submissão voluntária sempre fascinava a princesa.

— O reino dele era feito de papel e tradições velhas — disse Lookmhee. — O que temos aqui é feito de aço, sangue e uma verdade que eles nunca entenderão. Você não é apenas um troféu de guerra, Sonya. Você é a razão pela qual eu ainda não me tornei o monstro completo que eles acreditam que eu sou.

Sonya começou a trançar os dedos nos cabelos de Lookmhee, sentindo a tensão deixar o corpo da general.

— Você ainda morde, no entanto — brincou Sonya.

— Só se você me mandar — respondeu Lookmhee, fechando os olhos sob o toque de Sonya. — Ou se tentarem tirar você de mim.

O silêncio que se seguiu foi confortável, preenchido apenas pelo estalar da madeira queimando. Naquele momento, a Fortaleza de Marfim não era um lugar de tiranos e prisioneiros. Era o lar de duas mulheres que haviam encontrado sua própria forma de salvação na escuridão uma da outra.

Sonya olhou para sua mão direita, o elo de ouro brilhando como uma promessa eterna. Ela sabia que os desafios viriam, que o mundo não aceitaria facilmente a união entre a herdeira de um reino caído e a general que o derrubara. Mas, enquanto sentia a respiração rítmica de Lookmhee contra suas pernas, ela não sentia medo.

Ela tinha sua espada, tinha seu conhecimento e, acima de tudo, tinha sua fera leal.

— Feliz aniversário para mim — sussurrou Sonya, inclinando-se para beijar o topo da cabeça de Lookmhee.

A general apenas apertou levemente a perna de Sonya, um gesto silencioso de que ela estava ouvindo, e que estaria ali, pronta para morder o mundo inteiro, contanto que Sonya continuasse a segurar sua mão. O elo estava completo, e a dança entre o ódio e a necessidade havia finalmente se transformado em algo que nenhum exército seria capaz de quebrar.