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Entre espadas e trono

O Altar de Cinzas e Seda

A Fortaleza de Marfim nunca pareceu tão silenciosa, mas, desta vez, o silêncio não era carregado de tensão ou ameaça. O vento soprava suavemente pelas frestas da Torre Leste, trazendo o cheiro da terra molhada e a promessa de um novo começo. Dentro dos aposentos da General, a luz das lareiras dançava nas paredes de pedra, criando sombras que pareciam abraçar as duas mulheres que ali estavam.

Lookmhee Punyapat estava sentada em sua poltrona de carvalho negro, observando Sonya. A princesa — ou o que restava daquela imagem de herdeira intocável — estava parada junto à janela, observando o horizonte onde o reino de Pedersen se tornava apenas uma mancha escura na distância. Sonya vestia uma camisola de seda fina, um contraste delicado com a rigidez militar que preenchia o restante do quarto.

— Então — começou Lookmhee, sua voz vibrando com uma nota de diversão rara —, agora que você renunciou a tudo diante de toda a corte, como devo chamá-la? Devo começar a tratá-la como a Rainha de Pedersen, mesmo que o trono esteja vazio?

Sonya virou-se lentamente, um sorriso enigmático brincando em seus lábios castanho-claro. Ela caminhou em direção à general, cada passo exalando uma confiança que Lookmhee mesma havia ajudado a cultivar.

— Pedersen morreu naquela sala, Lookmhee — respondeu Sonya, parando entre as pernas da general. — O título de rainha não significa nada se não houver um reino que valha a pena governar. Eu prefiro ser apenas sua.

Lookmhee envolveu a cintura de Sonya com seus braços fortes, puxando-a para mais perto. A diferença de altura, mesmo com Sonya de pé e Lookmhee sentada, ainda permitia que a general olhasse para cima com aquela intensidade predatória que nunca desaparecia de seus olhos escuros.

— Você sempre foi minha, Sonya — murmurou Lookmhee. — Só demorou um pouco para que o seu orgulho real percebesse isso.

Sonya passou os dedos pelos ombros de Lookmhee, sentindo a rigidez da túnica militar. Ela hesitou por um momento, seus olhos descendo para o peito da general.

— Lookmhee — sussurrou ela —, naquela noite, eu vi... eu vi o que você esconde sob essa armadura. Eu quero ver de novo. Sem pressa. Sem o medo que me cegava antes.

A general tensionou-se. A vulnerabilidade era uma língua que ela ainda não falava com fluência. Mas, ao olhar para Sonya, ela viu apenas aceitação e um desejo que espelhava o seu. Lentamente, Lookmhee desfez os botões de sua túnica e a deixou cair no chão. Em seguida, retirou a camisa de linho, revelando o corpo escultural de um metro e oitenta, forjado em anos de privação e batalhas.

À luz do fogo, as cicatrizes de Lookmhee pareciam contar uma história de horror e triunfo. Marcas de lâminas, queimaduras e antigos açoites marcavam a pele pálida. Sonya soltou um suspiro trêmulo, mas não recuou. Ela se ajoelhou entre as pernas da general, suas mãos pequenas e delicadas tocando suavemente a primeira marca: um sulco profundo no ombro esquerdo.

— Esta — disse Sonya, inclinando-se para depositar um beijo suave sobre a cicatriz —, por quem você a recebeu?

— Um traidor em uma masmorra — respondeu Lookmhee, a voz falhando levemente quando sentiu os lábios de Sonya contra sua pele. — Ele achou que eu era apenas uma criança indefesa.

Sonya moveu-se para a próxima, uma marca de queimadura perto das costelas. Ela a beijou com a mesma reverência.

— E esta?

— Um cerco no Norte — sussurrou a general, fechando os olhos enquanto as mãos de Sonya exploravam seu corpo. — O fogo era a única coisa que nos mantinha aquecidos, e às vezes ele nos mordia.

Sonya continuou seu caminho, beijando cada cicatriz presente naquele corpo. Ela beijou as marcas nas costas, os calos nas mãos e, finalmente, a pequena cicatriz no canto da boca de Lookmhee. A cada beijo, a armadura psicológica da general parecia derreter, deixando apenas a mulher que ansiava por ser amada.

— Eu odiei você, sabia? — Sonya murmurou contra o pescoço de Lookmhee, enquanto seus braços envolviam o tronco da general. — No início, eu queria ver você morta. Queria que você sangrasse até não sobrar nada daquela arrogância.

Lookmhee soltou uma risada rouca, acariciando os cabelos castanhos de Sonya.

— Eu sei. Eu senti o gosto desse ódio na ponta da sua adaga. Foi o que me fez querer você ainda mais.

— Mas agora — continuou Sonya, afastando-se para olhar nos olhos dela —, você se tornou a pessoa mais importante da minha vida. Eu não reconheço mais a mulher que eu era antes de você me capturar. Você me quebrou, Lookmhee, mas me reconstruiu como algo muito mais forte.

A devoção nos olhos de Lookmhee era quase palpável. Ela segurou o rosto de Sonya com as duas mãos, o polegar traçando o lábio inferior da princesa.

— Você acha que eu a capturei por acaso, Sonya? — Lookmhee perguntou, sua voz carregada de uma confissão antiga. — Eu a vi pela primeira vez meses atrás, no anúncio real em Pedersen. Você estava lá, no alto da varanda, parecendo uma deusa de porcelana cercada por homens que não mereciam nem respirar o mesmo ar que você.

Sonya arregalou os olhos.

— Você estava lá?

— Disfarçada — admitiu Lookmhee. — Eu deveria estar apenas colhendo informações para a invasão, mas quando meus olhos encontraram os seus, a guerra tornou-se pessoal. Eu não queria apenas o reino do seu pai. Eu queria você. Eu teria dado um jeito de tomá-la, Sonya. Se a emboscada na carruagem tivesse falhado, eu teria derrubado os portões daquele castelo sozinha apenas para carregar você nos meus braços.

— Você é louca — disse Sonya, mas havia um sorriso de triunfo em seu rosto.

— Sou louca por você — Lookmhee corrigiu, puxando-a para um beijo profundo e faminto. — Eu teria atravessado o inferno para tê-la. E agora que você é minha, o mundo pode tentar nos tirar o que quiser, mas eles nunca conseguirão separar o que o sangue e a obsessão uniram.

Sonya entregou-se ao abraço, sentindo o coração de Lookmhee batendo forte contra o seu. Não havia mais rainhas ou generais, apenas duas almas que encontraram sua paz no meio do caos. Naquela noite, a Fortaleza de Marfim não era uma prisão, mas o santuário de uma devoção que queimaria muito depois que as cinzas de Pedersen tivessem sido levadas pelo vento.