Entre farpas e gols
Gelo, Gesso e o Gosto do Perdão
A luz branca da sala de espera do hospital municipal refletia no piso de linóleo, criando um ambiente que Cecilia sempre detestou. O cheiro de álcool e desinfetante parecia impregnar seu uniforme de vôlei, mas ela não se importava. Seus olhos estavam fixos na porta dupla por onde Vinicius fora levado há quase quarenta minutos para fazer o raio-X.
Mariana, que havia insistido em acompanhar a amiga na ambulância, cutucou o ombro de Cecilia com um copo de água de plástico.
— Bebe um pouco, Ceci. Você está pálida. Se você desmaiar, vai ser mais um para a enfermeira cuidar e eu não tenho estrutura emocional para dois feridos hoje.
Cecilia pegou o copo, mas suas mãos ainda tremiam levemente.
— Eu só não consigo parar de pensar no estalo que deu, Mari. Foi horrível. E se ele precisar de cirurgia? E se ele não puder mais jogar? O futebol é a vida daquele idiota.
— Ele vai ficar bem — confortou Mariana, sentando-se ao lado dela. — O Vinicius é duro na queda. Mas o que me impressionou mesmo foi você. "Incompetente" foi o elogio mais leve que você fez para o professor de geografia. Acho que ele vai pedir exoneração amanhã.
Cecilia deu um gole na água, sentindo o líquido gelado descer por sua garganta seca. Um pequeno sorriso de canto apareceu em seu rosto.
— Ele mereceu. Onde já se viu deixar um jogo de interclasse virar um vale-tudo? Eu só... eu perdi a cabeça quando vi o Vini batendo na trave. Parecia que o mundo tinha ficado mudo por um segundo.
— Isso se chama amor, amiga. Ou, no seu caso, um "gostar muito" que você tentou enterrar em uma cova de sete palmos e cobrir com cimento — brincou Mariana.
— Não começa — resmungou Cecilia, embora sem a agressividade habitual. — Eu já admiti para ele. Não precisa esfregar na minha cara.
A porta finalmente se abriu e um enfermeiro empurrou Vinicius em uma cadeira de rodas. Ele estava com a perna direita esticada, envolta em uma tala provisória e muito gelo, mas o sorriso no rosto dele, ao ver Cecilia, foi imediato.
— Sobrevivi! — exclamou ele, tentando fazer uma pose heroica mesmo sentado. — O médico disse que não quebrou nada, mas rompi uns ligamentos. Vou ter que usar bota ortopédica e ficar de molho por um mês.
Cecilia se levantou num salto, ignorando Mariana, e parou na frente dele. Ela queria abraçá-lo, mas ficou com medo de machucá-lo ainda mais.
— Um mês? Vinicius, você é um desastre ambulante.
— Um desastre que quase fez um gol de placa antes de ser assassinado em campo — ele rebateu, piscando para ela. — E aí? Ainda vai me levar para comer ou o contrato expirou quando eu entrei na cadeira de rodas?
— Primeiro, a gente vai te levar para casa — disse Cecilia, assumindo o controle da situação e pegando as alças da cadeira de rodas das mãos do enfermeiro. — Eu vou cuidar para que você tome os remédios e não tente apoiar esse pé no chão antes da hora.
— Você vai cuidar de mim? — Vinicius inclinou a cabeça para trás para olhá-la. — Isso soa como música para os meus ouvidos.
— Não se acostuma — ela avisou, começando a empurrá-lo em direção à saída. — É só para garantir que você se recupere logo e eu possa te dar a bronca que você merece por ter sido tão imprudente.
O caminho até a casa de Vinicius foi feito no carro do pai de Mariana, que foi buscá-las no hospital. O silêncio no banco de trás, onde Cecilia e Vinicius estavam espremidos para dar espaço à perna esticada dele, era carregado de uma eletricidade nova. Não era mais a tensão da briga, mas a expectativa do que viria a seguir.
Quando chegaram à casa dele, os pais de Vinicius ainda não haviam voltado do trabalho. Com a ajuda de Mariana, Cecilia conseguiu manobrar o garoto até o sofá da sala, enchendo-o de almofadas.
— Pronto — disse Mariana, limpando o suor da testa. — Minha missão de vela profissional termina aqui. Vou para casa tomar um banho e tirar esse cheiro de hospital. Juízo vocês dois. Principalmente você, Cecilia, não mate o paciente.
— Pode deixar, Mari — respondeu Cecilia, acompanhando a amiga até a porta.
Ao voltar para a sala, ela encontrou Vinicius tentando alcançar o controle remoto na mesa de centro, quase tombando do sofá no processo.
— Fica parado! — ela gritou, correndo para ajudá-lo. — Eu acabei de dizer que você não pode se mexer. O que você quer?
— Só o controle, Ceci. Queria ver se o jogo da nossa sala passou em algum lugar no grupo da escola.
— Esquece o jogo — ela disse, entregando o controle a ele e sentando-se no tapete, ao lado do sofá, para ficar na altura dos olhos dele. — Como está a dor?
— Está latejando um pouco, mas a companhia ajuda a distrair — ele disse, com uma suavidade na voz que sempre fazia o coração de Cecilia dar um solavanco. — Ei, Cecilia... obrigado. Por tudo.
— Eu já disse que não foi nada.
— Foi sim — ele insistiu, esticando a mão para tocar uma mecha do cabelo dela que estava solta. — Você me defendeu lá no campo. Eu ouvi você gritando com o juiz. Ninguém nunca ficou tão bravo por minha causa antes.
Cecilia baixou o olhar, sentindo o rosto esquentar. Ela começou a brincar com a barra do seu próprio calção de vôlei.
— Eu não gosto de ver injustiça. E eu não gosto de ver você machucado. Mesmo quando eu estava com raiva de você, eu nunca quis que nada de ruim te acontecesse.
— Eu sei que eu estraguei tudo no oitavo ano — Vinicius começou, a voz ficando séria. — Eu era um idiota que queria impressionar os amigos e não tinha maturidade para lidar com o que eu sentia. Porque a verdade, Ceci, é que eu já gostava de você naquela época. Só que eu tive medo.
Cecilia olhou para ele, surpresa.
— Você gostava de mim? Então por que riu? Por que me fez sentir como se eu fosse uma piada?
— Porque eu achei que, se eu risse, ninguém perceberia que eu estava morrendo de vergonha e que meu coração estava saindo pela boca — ele confessou, os olhos fixos nos dela. — Foi a coisa mais estúpida que eu já fiz. E eu passei os últimos quatro anos tentando achar um jeito de te dizer isso sem parecer que eu estava apenas tentando ganhar pontos com você.
Cecilia sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas a limpou rapidamente. A teimosia, que por tanto tempo fora sua armadura, estava se desintegrando.
— Você demorou muito, Vinicius.
— Eu sei. Mas eu não vou desistir agora. Mesmo que eu tenha que mancar atrás de você por todo o colégio.
Cecilia soltou uma risada curta, meio chorosa.
— Você não vai precisar mancar atrás de mim. Eu vou estar bem aqui, garantindo que você não faça mais nenhuma besteira.
Ela se aproximou mais, apoiando os braços na borda do sofá. Vinicius não perdeu tempo. Com cuidado para não mover a perna, ele se inclinou para frente e selou a distância entre eles. O beijo foi calmo, com gosto de alívio e de algo que deveria ter acontecido há muito tempo. Não havia mais a barreira do orgulho ou as cicatrizes do passado; era apenas o presente, ali, na sala silenciosa.
Quando se separaram, Vinicius encostou a testa na dela.
— Isso quer dizer que eu estou perdoado?
— Quase — ela sussurrou, com um sorriso travesso. — Você ainda me deve aquele jantar. E vai ter que me deixar escolher o filme hoje.
— Justo — ele concordou. — Mas nada de romance meloso, por favor.
— Vai ser romance meloso sim — ela decretou, levantando-se para procurar algo na Netflix. — É o preço por ter me feito sofrer por quatro anos.
— Vale a pena — ele murmurou, observando-a se movimentar pela sala.
O resto da tarde passou devagar. Cecilia preparou um sanduíche para ele e garantiu que ele tomasse o anti-inflamatório no horário certo. Eles assistiram a um filme que Vinicius fingiu odiar, mas que Cecilia percebeu que ele estava prestando atenção, especialmente nas partes em que ela se encostava no ombro dele.
Por volta das seis da tarde, o celular de Cecilia começou a apitar freneticamente. Era o grupo da sala.
— O que foi? — perguntou Vinicius, sonolento.
— A diretoria cancelou o resultado do jogo — disse ela, lendo as mensagens com os olhos arregalados. — Por causa da agressão e da negligência do juiz, eles decidiram que vai haver uma nova partida no mês que vem, quando o campeonato retomar após o conselho de classe. E o garoto do segundo ano foi suspenso dos jogos escolares por dois anos.
Vinicius deu um soco leve no ar.
— Justiça! Mas... eu não vou conseguir jogar no mês que vem.
Cecilia olhou para ele e depois para o celular.
— O time disse que vai jogar por você. E a Mariana escreveu aqui que, se eles ganharem a taça, vão levar ela direto para a sua casa.
Vinicius sorriu, mas depois olhou para Cecilia com um olhar mais profundo.
— Eles podem ficar com a taça. Eu já ganhei o meu prêmio hoje.
Cecilia revirou os olhos, mas sentou-se ao lado dele no sofá, acomodando-se com cuidado.
— Você está ficando muito clichê, Vinicius. Onde está o garoto irritante que eu conheço?
— Ele ainda está aqui — ele disse, puxando-a para mais perto. — Mas ele descobriu que ser legal com você dá resultados muito melhores.
— É bom que você não esqueça disso — ela disse, deitando a cabeça no peito dele, ouvindo as batidas ritmadas do seu coração. — Porque eu sou muito teimosa, lembra? Se você vacilar de novo, eu não vou ser tão boazinha.
— Eu não pretendo vacilar — ele prometeu, beijando o topo da cabeça dela. — Nunca mais.
Lá fora, o sol começava a se pôr, pintando o céu de laranja e roxo. Dentro daquela sala, entre o cheiro de gelol e o som da televisão baixa, Cecilia finalmente sentiu que a guerra que ela travava contra si mesma tinha terminado. Ela não precisava mais ser a reserva de seus próprios sentimentos. Pela primeira vez em anos, ela estava exatamente onde queria estar.
— Ei, Ceci? — chamou Vinicius, algum tempo depois.
— Hum?
— Você joga handebol amanhã, não joga?
— Jogo. Sou reserva, mas a titular está com dor de garganta, então talvez eu entre.
— Eu vou estar lá. Na primeira fila da arquibancada. Mesmo que eu tenha que ir de muletas.
Cecilia sorriu contra o peito dele.
— É melhor você ficar em casa descansando, seu bobo.
— Nem pensar. Eu quero ver você ganhar. E quero que todo mundo veja quem é a garota que quase bateu no professor de geografia por minha causa.
— Você é impossível — ela riu, fechando os olhos.
— E você me ama por isso.
Dessa vez, Cecilia não retrucou. Ela apenas apertou a mão de Vinicius, aceitando que, às vezes, a melhor forma de vencer uma briga é simplesmente parar de lutar e deixar o coração assumir o controle. O oitavo ano agora era apenas uma memória distante, uma página virada em um livro que finalmente estava começando um capítulo muito melhor.