Entre farpas e gols
Marcas de Guerra e Promessas de Paz
O som das muletas batendo no piso de madeira do ginásio era rítmico, quase como uma batida de metrônomo que tentava competir com o barulho ensurdecedor da torcida. Vinicius avançava com dificuldade, mas com uma determinação que fazia os alunos do primeiro ano abrirem caminho como se estivessem diante de um general ferido retornando do front. Ele se acomodou na primeira fileira da arquibancada, bem perto da linha lateral da quadra de handebol. Seu tornozelo direito era uma massa disforme de bandagens e a bota ortopédica, mas o sorriso em seu rosto era de quem tinha ganhado na loteria.
Na quadra, Cecilia terminava o aquecimento. Ela usava o colete azul da 3 JC e prendia o cabelo em um rabo de cavalo alto e firme, com aquela expressão de concentração feroz que Vinicius aprendera a amar — e a temer um pouco. Quando ela o viu sentado ali, cumprindo a promessa de comparecer mesmo parecendo um sobrevivente de um desastre natural, seus lábios se curvaram em um sorriso involuntário.
— Você realmente veio — ela disse, aproximando-se da grade por um instante. — Achei que sua mãe fosse te trancar no quarto depois de ver o estado do seu pé.
— Eu sou mestre na arte da infiltração, Ceci — Vinicius brincou, apoiando as muletas no banco ao lado. — Além disso, eu não perderia sua estreia como titular por nada. A Mari me contou que a ponteira oficial está com amigdalite. O palco é seu.
— Não é uma "estreia", eu sou reserva oficial, só estou cobrindo um buraco — Cecilia retrucou, a teimosia de sempre aflorando, mas seus olhos brilhavam. — E vê se não grita muito. Você já chamou atenção suficiente ontem sendo carregado em uma maca.
— Eu vou ser o seu fã número um — ele prometeu, levando a mão ao peito. — Mas se você fizer um gol, eu não garanto que não vou tentar pular em uma perna só.
O apito inicial interrompeu a conversa. Cecilia correu para sua posição na ponta esquerda. O handebol era um esporte físico, rápido e, muitas vezes, mais violento que o futebol, e Cecilia jogava com uma intensidade que beirava o perigo. Ela não tinha medo do contato; na verdade, parecia descontar na bola toda a frustração de anos de sentimentos reprimidos.
Nos primeiros dez minutos, ela marcou dois gols. No primeiro, ela infiltrou-se pela defesa adversária como uma sombra, saltando e arremessando a bola no ângulo antes mesmo de tocar o chão. Vinicius quase caiu da arquibancada de tanto comemorar, atraindo olhares curiosos de quem ainda não entendia como os dois "inimigos mortais" da escola agora pareciam estar em total sintonia.
— Vai, Cecilia! — ele gritou, a voz rouca. — Acaba com elas!
Cecilia deu um joinha discreto enquanto voltava para a defesa. Mas o clima do jogo começou a mudar. O time da 2 MT — a mesma turma que havia tirado Vinicius de campo no dia anterior — parecia ter uma estratégia pessoal contra a 3 JC. No handebol feminino, as meninas do segundo ano eram conhecidas por jogarem "sujo", aproveitando-se dos pontos cegos dos árbitros para distribuir cotoveladas e empurrões.
— Elas estão caçando ela — Mariana murmurou, aparecendo de repente ao lado de Vinicius na arquibancada. Ela já tinha jogado o vôlei mais cedo e agora estava ali para apoiar a amiga.
— Quem? — perguntou Vinicius, tenso.
— A defesa do segundo ano. Olha a camisa 4. Ela já deu três chegadas fortes na Ceci. Elas sabem que ela é o motor do time hoje.
Vinicius sentiu um nó no estômago. Ele conhecia aquele olhar na defesa adversária. Era o mesmo olhar do zagueiro que o atingira.
Faltavam cinco minutos para o fim do primeiro tempo. Cecilia recebeu um passe longo em profundidade. Ela iniciou a corrida, quicando a bola com precisão. O caminho para o gol parecia aberto, mas foi uma armadilha. Assim que ela saltou para o arremesso, a jogadora número 4 da 2 MT não tentou bloquear a bola. Em vez disso, ela projetou o corpo lateralmente contra o quadril de Cecilia enquanto ela estava no ar, totalmente vulnerável.
O desequilíbrio foi imediato. Cecilia perdeu a sustentação e, em vez de cair rolando para amortecer o impacto, seu braço esquerdo — o de apoio — esticou-se instintivamente para o chão. O estalo não foi ouvido pela torcida, mas o grito de dor de Cecilia ecoou por todo o ginásio.
Ela ficou caída, segurando o pulso e o antebraço, o rosto contraído em uma máscara de agonia.
— Cecilia! — O grito de Vinicius foi um trovão.
Esquecendo completamente que tinha um ligamento rompido e uma bota ortopédica, ele tentou se levantar rápido demais. A dor aguda no tornozelo o lembrou da realidade, fazendo-o cambalear, mas ele usou as muletas como se fossem extensões de seus braços, saltando os degraus da arquibancada com uma agilidade perigosa.
— Vini, espera! — Mariana tentou segurá-lo, mas ele já estava na quadra.
O juiz parou o cronômetro. As jogadoras se agruparam ao redor de Cecilia, mas Vinicius abriu caminho entre elas, ignorando os protestos do treinador que dizia que ele não podia estar ali.
— Saiam da frente! — ele ordenou, a voz tremendo de preocupação e raiva.
Ele se deixou cair de joelhos ao lado dela, ignorando a dor no próprio pé. Cecilia estava pálida, com gotas de suor frio escorrendo pela testa. Seu pulso esquerdo estava começando a inchar em um ângulo estranho.
— Ceci... olha para mim. Sou eu — ele disse, a voz subitamente suave, tentando passar uma calma que ele não sentia.
— Vini... — ela arquejou, as lágrimas finalmente transbordando. — Dói. Dói muito. Aquela garota... ela me empurrou no ar.
— Eu vi. Eu vi tudo — ele disse, pegando a mão direita dela, a que estava boa, e apertando-a com força. — Respira. A enfermeira está vindo. Não tenta mexer o braço.
— Eu sou uma idiota — ela soluçou, fechando os olhos com força. — Eu disse que você era o imprudente, e olha para mim agora. No chão de novo.
— Shhh. Não fala besteira. Você foi incrível. Aquilo foi falta intencional, ela vai ser expulsa.
A enfermeira da escola chegou, a mesma que cuidara de Vinicius no dia anterior. Ela olhou para os dois e soltou um suspiro cansado.
— Vocês dois estão tentando bater algum recorde de visitas à enfermaria? — perguntou ela, embora suas mãos fossem ágeis ao imobilizar o pulso de Cecilia. — Parece uma fratura no rádio, querida. Vamos precisar de um hospital. De novo.
Vinicius não soltou a mão de Cecilia enquanto a ajudavam a levantar. Ele serviu de apoio para o lado direito dela, enquanto a enfermeira segurava o esquerdo. Era uma cena quase cômica, se não fosse trágica: dois adolescentes feridos, um mancando com muletas e a outra com o braço em uma tipoia improvisada, caminhando juntos para fora da quadra.
Antes de sair, Cecilia parou. Ela olhou para a jogadora número 4, que estava sentada no banco após receber o cartão vermelho, com um olhar de descaso.
— Ei! — Cecilia gritou, a voz ainda trêmula, mas carregada de sua teimosia característica. — Você joga como uma covarde! Mas avisa para o seu time que a minha reserva vai entrar e acabar com vocês do mesmo jeito!
Vinicius deu uma risadinha, apesar do coração apertado.
— Essa é a minha garota.
No banco de trás do carro do pai de Vinicius — que fora chamado às pressas —, o silêncio era diferente do dia anterior. Havia uma cumplicidade dolorida. Cecilia estava com a cabeça encostada no ombro de Vinicius, e ele passava a mão suavemente pelos cabelos dela, tentando distraí-la das pontadas de dor que o carro causava a cada solavanco.
— Sabe o que é engraçado? — Cecilia perguntou, com a voz abafada.
— O quê?
— Ontem eu estava cuidando de você. Hoje você está cuidando de mim. A gente realmente não consegue ter um dia normal, não é?
— Acho que "normal" não está no nosso vocabulário — Vinicius respondeu, beijando o topo da cabeça dela. — Mas se servir de consolo, eu prefiro mil vezes estar aqui com você, mesmo no hospital, do que estar sozinho e inteiro em qualquer outro lugar.
Cecilia levantou um pouco a cabeça para olhar para ele.
— Você está ficando muito bom nisso. Nessas frases de efeito.
— Eu tive quatro anos de prática mental enquanto você me dava patadas nos corredores — ele brincou. — Eu tinha que estar preparado para quando você finalmente me desse uma chance.
Ao chegarem ao hospital, o processo foi mais rápido. Como era uma suspeita de fratura, Cecilia foi levada para o gesso. Vinicius ficou na sala de espera, recusando-se a ir para casa. Ele estava sentado, com a perna esticada, atraindo olhares de pena das pessoas que passavam. "Um casal de atletas azarados", ele pensou.
Depois de uma hora, Cecilia apareceu. Seu braço esquerdo agora estava envolto em um gesso branco impecável, que ia do pulso até perto do cotovelo. Ela parecia exausta, mas a cor havia voltado ao seu rosto.
— Gesso por seis semanas — ela anunciou, sentando-se ao lado dele. — O médico disse que foi uma fratura limpa, por sorte. Mas adeus vôlei e handebol pelo resto do semestre.
— Eu sinto muito, Ceci. Eu sei o quanto você queria jogar a final.
— Tudo bem — ela suspirou, encostando a cabeça na parede. — Pelo menos agora eu tenho uma desculpa legítima para não fazer as provas de educação física. E... eu não estou sozinha nessa, né?
Ela apontou para a bota ortopédica dele.
— Definitivamente não — ele sorriu. — Somos o par perfeito. Um pé quebrado e um braço quebrado. Se a gente se abraçar do jeito certo, talvez consigamos montar um ser humano funcional.
Cecilia riu, uma risada leve que aqueceu o peito de Vinicius.
— Você é um idiota, Vinicius.
— Mas sou o seu idiota.
— É. Você é.
Ela olhou para o gesso branco e depois para a mochila, tirando uma caneta permanente preta que sempre carregava.
— Aqui — ela entregou a caneta para ele. — Você tem que ser o primeiro a assinar. É a regra.
Vinicius pegou a caneta com cuidado. Ele pensou por um momento e depois começou a escrever em letras grandes e claras, bem no centro do gesso.
"Propriedade exclusiva de um atacante teimoso que te ama desde o 8º ano."
Cecilia leu e sentiu os olhos marejarem novamente, mas dessa vez não era de dor. Ela pegou a caneta da mão dele e, com alguma dificuldade por estar usando a mão direita — que não era a sua principal para escrever, mas ela daria um jeito —, inclinou-se sobre a bota ortopédica dele.
Lá, em um espaço pequeno na lateral da bota, ela escreveu:
"Perdoado. (Mas ainda me deve o jantar)."
— Eu vou cobrar esse jantar — ele disse, aproximando o rosto do dela.
— Eu sei que vai. E eu não vou a lugar nenhum.
O beijo que se seguiu foi calmo, ignorando o movimento do hospital, o cheiro de remédio e a dor física. Era o selamento de uma paz que demorara quatro anos para ser assinada. A teimosia de Cecilia ainda estava lá — ela provavelmente ainda brigaria com ele por causa do futebol, por causa das piadas bobas e por causa do jeito que ele esquecia de avisar onde estava. Mas agora, a briga não era mais para afastar, era para construir.
— Sabe de uma coisa? — Cecilia disse, quando se afastaram. — A gente vai ser a sensação da formatura. Todo mundo com roupas chiques e a gente de gesso e bota.
— Vamos ser os mais bonitos da festa — Vinicius afirmou com convicção. — Porque ninguém lá vai estar tão feliz quanto eu.
— Convencido — ela murmurou, mas sorriu, entrelaçando seus dedos nos dele.
Enquanto esperavam o pai de Vinicius voltar para buscá-los, eles ficaram ali, apenas aproveitando a presença um do outro. O interclasse tinha sido um desastre em termos de saúde física, mas tinha sido o catalisador perfeito para curar feridas muito mais profundas.
Afinal, para Cecilia e Vinicius, o amor nunca tinha sido sobre um campo perfeito ou um jogo sem faltas. Era sobre quem estava lá para te ajudar a levantar quando o mundo decidia te derrubar contra a trave. E, naquele momento, ambos sabiam que nunca mais precisariam levantar sozinhos.