Entre gotas de chuva e gotas de sangue
O Labirinto de Vidro e Bourbon
O Mystic Grill estava barulhento, uma cacofonia de risadas bêbadas e o tilintar de talheres que, em qualquer outra noite, teria me deixado irritada. Mas com Damon Salvatore sentado a poucos centímetros de mim, o resto do mundo parecia ter o volume reduzido para um sussurro de fundo. Ele girava o líquido âmbar em seu copo com uma elegância quase hipnótica, observando as bolhas de ar subirem como se fossem segredos tentando escapar.
— Então — ele começou, quebrando o silêncio carregado que se instalou entre nós —, você ainda não me disse seu nome. Ou devo continuar te chamando de "Garota que Atropela Vampiros de Ego Inflado"? É um pouco longo para um apelido carinhoso, não acha?
— Meu nome é Elena — respondi, e por um momento, vi uma sombra cruzar os olhos dele. Foi rápido, quase imperceptível, como o bater de asas de um corvo. — Algum problema?
Damon soltou uma risadinha seca, mas seus olhos recuperaram aquele brilho zombeteiro em um piscar de olhos.
— Nenhum. É um nome... clássico. Combina com você. Embora eu ache que você tenha muito mais fogo do que a média das Elenas que eu conheci. E acredite, eu conheci algumas.
— Você fala como se tivesse duzentos anos, Damon — comentei, tomando um gole do bourbon. O líquido queimou minha garganta, mas de um jeito bom, aquecendo meu peito e me dando uma coragem que eu não sabia que possuía. — Qual é o seu segredo? Cremes anti-idade caros ou apenas uma genética irritantemente perfeita?
Ele se inclinou para mais perto, apoiando os cotovelos no balcão de madeira escura. O cheiro de sândalo e perigo me atingiu novamente, fazendo meu estômago dar um salto.
— Um pouco de cada — ele sussurrou, a voz descendo uma oitava, tornando-se algo aveludado e perigoso. — Mas a genética Salvatore é, de fato, uma benção e uma maldição. Nós tendemos a atrair problemas. E, às vezes, os problemas são bonitos demais para serem ignorados.
— Você está me chamando de problema? — Arqueei uma sobrancelha, tentando manter a postura diante daquele olhar magnético.
— Ah, docinho, você é o pior tipo de problema — ele disse, com um sorriso safado brincando nos lábios. — O tipo que faz a gente esquecer por onde estava indo. O tipo que faz um homem como eu, que valoriza tanto seu tempo, querer desperdiçar algumas horas apenas para ver até onde essa sua língua afiada pode chegar.
— Eu não sou de desperdiçar o tempo de ninguém — retruquei, sentindo o calor das bochechas denunciar meu nervosismo. — Se você está entediado, pode voltar para o que quer que estivesse procurando antes de eu "atropelar" você.
Damon soltou uma gargalhada alta, atraindo olhares de algumas mesas próximas, mas ele não pareceu se importar. Ele tinha aquela aura de quem era o dono do lugar, não importava onde estivesse.
— Eu já disse, meus planos mudaram. Eu sou um homem de impulsos. E agora, meu impulso é descobrir o que uma garota como você faz em uma cidade como esta, onde as pessoas costumam desaparecer se não tomarem cuidado.
— Mystic Falls é assim tão perigosa? — perguntei, fingindo inocência, embora sentisse que ele estava testando os limites do que eu sabia.
— Depende de quem você conhece — ele respondeu, o tom de voz subitamente sério. — Se você andar com as pessoas erradas, pode acabar em uma vala. Se andar comigo... bem, você ainda pode acabar em uma vala, mas pelo menos vai se divertir muito antes disso.
— Que proposta tentadora — ironizei, balançando o copo. — Diversão e uma possível morte trágica. Onde eu assino?
Damon esticou a mão e, com uma audácia que me deixou sem ar, passou o polegar levemente pelo meu lábio inferior, limpando uma gota invisível de bebida. O toque foi elétrico, uma descarga de energia que percorreu minha espinha.
— Gosto da sua coragem — ele murmurou, os olhos fixos nos meus lábios antes de subirem para encontrar meu olhar. — A maioria das pessoas aqui treme quando eu chego perto. Eles sentem o cheiro do predador. Mas você... você apenas me desafia. É fascinante. Ou muito corajoso, ou muito estúpido.
— Talvez um pouco dos dois — admiti, a voz saindo mais fraca do que eu pretendia.
Ele se afastou um pouco, mas a tensão entre nós continuava vibrando como uma corda de violão esticada ao máximo. Ele pediu mais uma rodada de drinks com um aceno de cabeça para o barman, que o serviu com uma pressa que beirava o medo.
— Então, Elena — ele disse, saboreando meu nome como se fosse um vinho caro —, o que te trouxe a este fim de mundo? Fugindo de um ex-namorado psicopata? Procurando por uma herança perdida de uma tia avó maluca?
— Apenas um novo começo — respondi, tentando manter a conversa leve. — Às vezes, a gente precisa mudar de cenário para lembrar quem a gente é. E Mystic Falls parecia... calma.
— Calma — ele repetiu, soltando um suspiro teatral. — É a última palavra que eu usaria para descrever este lugar. Mas entendo o apelo. As árvores, a neblina, os cemitérios charmosos... é o cenário perfeito para um drama gótico.
— E você? — perguntei, devolvendo o foco para ele. — O que um Salvatore faz quando não está derrubando estranhas na rua ou sendo o homem mais convencido do bar?
— Eu sou um colecionador — ele disse, os olhos brilhando com uma malícia divertida. — Eu coleciono momentos, garrafas de bourbon raras e, de vez em quando, corações partidos. Mas, na maior parte do tempo, eu apenas tento manter meu irmão mais novo, Stefan, longe de problemas. Ele é o "bonzinho" da família. Um tédio absoluto.
— Stefan — repeti o nome. — Ele também tem esse seu... charme magnético?
— Stefan é o mártir — Damon revirou os olhos. — Ele prefere salvar o mundo enquanto eu prefiro, bem, aproveitar o que o mundo tem a oferecer. Ele bebe chá verde e escreve em diários. Eu bebo bourbon e causo caos. Acho que você consegue adivinhar quem é o mais divertido nas festas.
— Eu tenho uma queda por caos — confessei, sem pensar, e me arrependi no segundo seguinte ao ver o sorriso predatório que se alargou no rosto dele.
— É mesmo? — Ele se aproximou tanto que eu podia sentir o calor que emanava de seu corpo. — Isso é uma informação perigosa para me dar, Elena. Eu sou o rei do caos. Se você brincar com fogo comigo, corre o risco de sair queimada. Ou, quem sabe, você pode descobrir que gosta do calor.
— Você é sempre tão dramático? — tentei desviar o assunto, embora meu coração estivesse martelando tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. E, sendo ele um vampiro — embora eu ainda estivesse processando essa certeza instintiva —, ele provavelmente podia.
— O drama me persegue, docinho. Eu sou apenas a estrela do show.
Ficamos em silêncio por um momento, apenas nos observando. Havia uma batalha silenciosa de vontades acontecendo ali. Damon queria me intimidar, queria me desarmar com seu sarcasmo e sua beleza avassaladora. E eu, por algum motivo que a lógica não explicava, queria ver o que havia por trás daquela máscara de couro e deboche.
— Você está me analisando — ele acusou, inclinando a cabeça. — Pare com isso. Não há nada lá dentro além de trevas e um gosto impecável para sapatos.
— Eu duvido disso — respondi, sustentando o olhar. — Acho que você usa esse sarcasmo todo como um escudo. O que você tem tanto medo que as pessoas vejam, Damon Salvatore?
O sorriso dele vacilou por um milésimo de segundo. Foi como se uma fresta se abrisse em uma armadura impenetrável. Mas, tão rápido quanto apareceu, a fresta se fechou. Ele se levantou da banqueta, deixando alguns dólares sobre o balcão.
— Você é muito observadora para o seu próprio bem — ele disse, a voz agora fria, mas ainda carregada daquela eletricidade. — Venha. O ar aqui dentro está ficando pesado de tanta filosofia barata. Vou te levar para casa.
— Eu sei o caminho — respondi, também me levantando, sentindo o efeito do bourbon me deixar um pouco leve.
— Eu não perguntei se você sabia — ele retrucou, sua natureza marrenta voltando com força total. — Eu disse que vou te levar. É a coisa cavalheiresca a se fazer, e eu sou um cavalheiro... de vez em quando. Além disso, se você tropeçar em outra raiz de árvore, pode não ter um Salvatore por perto para te segurar. E isso seria uma tragédia nacional.
Saímos do bar para a noite fresca de Mystic Falls. A neblina estava começando a rastejar pelo asfalto, dando à cidade aquele aspecto fantasmagórico que Damon mencionara. Caminhamos em silêncio por alguns minutos, mas não era um silêncio desconfortável. Era como se a presença um do outro fosse o suficiente para preencher o espaço.
— Você mora naquela pensão antiga, não é? — perguntei, quebrando o gelo. — Ouvi dizer que os Salvatore são donos de metade da história desta cidade.
— Propriedade da família — ele respondeu, gesticulando vagamente para a direção da floresta. — É grande, vazia e cheia de memórias que eu preferiria esquecer. Mas tem uma adega excelente. Se você sobreviver a esta noite, talvez eu te convide para ver.
— É um convite ou um desafio? — parei em frente ao meu pequeno apartamento, virando-me para ele.
Damon deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal novamente. Ele colocou uma mão na parede atrás da minha cabeça, cercando-me. A luz do poste de luz acima de nós criava sombras dramáticas em seu rosto, destacando a linha forte de sua mandíbula e a curva perversa de seus lábios.
— Pode ser os dois — ele sussurrou. — Eu gosto de desafios. E você, Elena, é o desafio mais interessante que apareceu por aqui em muito, muito tempo.
Ele se inclinou, e por um momento achei que ele fosse me beijar. Fechei os olhos, esperando pelo contato, mas tudo o que senti foi o hálito quente dele perto do meu ouvido.
— Durma bem, docinho. Tente não sonhar comigo. Eu costumo ser um pesadelo muito viciante.
Quando abri os olhos, ele já estava a alguns metros de distância, caminhando com as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, sem olhar para trás. Ele se moveu com uma fluidez que desafiava a física, desaparecendo na escuridão da rua antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
Entrei em casa com o coração ainda acelerado e as mãos tremendo levemente. Encostei as costas na porta fechada, tentando processar o que tinha acabado de acontecer. Damon Salvatore era tudo o que me avisaram para evitar: perigoso, instável, arrogante e, claramente, não era o que parecia ser.
Mas, enquanto eu subia as escadas para o meu quarto, a única coisa em que conseguia pensar era no brilho daqueles olhos azuis e na promessa de caos que eles carregavam. Eu tinha vindo para Mystic Falls em busca de um recomeço, mas parecia que o destino tinha me jogado diretamente nos braços do perigo mais atraente da Virgínia.
Deitei na cama, olhando para o teto, e o cheiro de bourbon e sândalo parecia ainda pairar no meu casaco. Eu sabia que estava me metendo em algo profundo, algo que poderia me destruir se eu não tivesse cuidado. Mas, como o próprio Damon disse, a vida era curta demais para não ser impetuosa.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava com medo do que o amanhã traria. Eu estava ansiosa. Porque em uma cidade cheia de segredos, eu tinha acabado de encontrar o segredo mais perigoso de todos. E ele sabia o meu nome.