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Entre Lençóis e Relâmpagos

O Santuário de Seda e Pecado

A mansão Van Tassel parecia respirar junto com a tempestade. O ranger das vigas de madeira, o sibilar do vento nas frestas e o tamborilar incessante da chuva contra as vidraças criavam uma sinfonia de isolamento. No quarto de Katrina, o tempo havia sido suspenso. O ar era espesso, saturado pelo cheiro de cera de abelha, lavanda e o calor humano que emanava dos dois corpos ainda entrelaçados na cama de dossel.

Ichabod Crane estava deitado de lado, apoiado em um cotovelo, observando Katrina com uma intensidade que beirava a adoração religiosa. A luz das velas douradas dançava em suas feições pálidas, acentuando as olheiras de cansaço que, por um breve momento, pareciam suavizadas pelo êxtase. Ele era um homem de ciência, de medidas precisas e evidências empíricas, mas ali, sob o dossel de seda, ele se sentia como um alquimista que finalmente descobrira o segredo da transmutação da alma.

— Eu nunca imaginei — sussurrou ele, a voz rouca, os dedos longos traçando o contorno do ombro de Katrina — que o mundo pudesse se reduzir a este quarto. Minha mente... ela sempre foi um lugar barulhento, cheio de engrenagens e dúvidas. Mas com você, há apenas silêncio.

Katrina sorriu, um sorriso que carregava a sabedoria das eras e a inocência da aurora. Ela se moveu lentamente, desprendendo-se do abraço dele, mas não para se afastar. Ela se sentou no centro do colchão de penas, os cabelos dourados caindo como uma cascata desordenada sobre os seios alvos, que subiam e desciam em uma respiração agora calma.

— O silêncio é onde a verdadeira magia reside, Ichabod — disse ela, sua voz como um veludo que acariciava os ouvidos dele. — Você busca a verdade em seus livros e em seus instrumentos de metal frio. Mas a verdade não está no que você pode medir. Está no que você ousa ver.

Ichabod sentiu um arrepio percorrer sua espinha, um misto de antecipação e um pavor sagrado. Ele se sentou também, as costas apoiadas na cabeceira entalhada, observando cada movimento dela com a atenção de um estudioso diante de um manuscrito proibido.

— Eu vejo você, Katrina — respondeu ele, sua mão hesitando no ar antes de tocar uma mecha de seu cabelo. — E isso é mais do que minha razão pode processar.

Katrina inclinou a cabeça, seus olhos azuis capturando o brilho das chamas das velas. Ela não desviou o olhar. Lentamente, com uma deliberação que fez o coração de Ichabod martelar contra as costelas, ela começou a se afastar, deslizando para a beira da cama, mas permanecendo de frente para ele.

— Você viu a superfície, Ichabod — disse ela, sua voz tornando-se mais baixa, mais profunda. — Você viu a filha do fazendeiro, a jovem de posses, a mulher que o acolheu na névoa. Mas você ainda não viu o altar onde seu intelecto deve se ajoelhar.

Com um gesto gracioso e lento, Katrina segurou as bordas do lençol de linho fino que a cobria parcialmente e o afastou. Ela se reclinou levemente para trás, apoiando-se nos braços, e abriu as pernas diante dele.

O mundo de Ichabod Crane parou.

Ali, banhada pela luz âmbar e pelas sombras trêmulas, estava a essência da feminilidade, o mistério que a ciência nunca conseguiria dissecar sem destruir a alma. A pele de Katrina era de uma brancura quase lunar, e entre suas coxas, o segredo mais profundo de sua anatomia estava exposto a ele com uma honestidade devastadora.

Ichabod sentiu a garganta secar. Seus olhos, acostumados a examinar provas e vestígios sob a lente de um microscópio, agora se perdiam na visão daquela carne macia, rosada e vulnerável. Era o epicentro de sua obsessão, o lugar onde a vida começava e onde a razão terminava.

— Katrina... — O nome dela escapou de seus lábios como uma prece desesperada.

— Olhe, Ichabod — comandou ela suavemente. — Não como um investigador. Não como um homem da lei. Olhe como o homem que me ama. Este é o meu centro. É aqui que eu guardo o fogo que o aqueceu.

Ele se aproximou, movendo-se como se estivesse em transe. Suas mãos tremiam visivelmente enquanto ele se ajoelhava no colchão, aproximando o rosto daquela visão sagrada. O aroma dela — uma mistura de almíscar, calor e a doçura da pele — envolveu seus sentidos, obliterando qualquer resquício de pensamento lógico.

— É... é perfeito — murmurou ele, a respiração quente batendo contra a pele sensível das coxas dela. — A geometria da natureza não possui nada que se compare a isso. Nenhuma flor, nenhum mineral... nada.

Ele estendeu a mão, os dedos longos e finos movendo-se com uma reverência que ele normalmente reservava para os artefatos mais preciosos. Com a ponta do indicador, ele tocou levemente os lábios da vulva dela, sentindo a umidade e o calor que pareciam pulsar em sincronia com seu próprio coração.

Katrina soltou um suspiro longo, fechando os olhos e inclinando a cabeça para trás. O prazer que emanava dela era palpável, uma energia que preenchia o espaço entre eles.

— Você tem medo, Ichabod? — perguntou ela, sem abrir os olhos.

— Eu tenho terror — confessou ele, sua voz tremendo enquanto seus dedos exploravam com mais audácia as dobras delicadas. — Terror de que isso seja um sonho. Terror de que a lógica volte e me diga que eu não mereço estar aqui, neste santuário.

— Esqueça a lógica — disse ela, abrindo as pernas um pouco mais, entregando-se completamente à exploração dele. — Sinta a vida. Sinta o sangue que corre aqui. É real. Mais real do que qualquer coisa em Nova York ou nos seus livros de anatomia.

Ichabod inclinou-se mais, sua língua seguindo o caminho de seus dedos. Ele se perdeu na textura, no sabor salgado e doce, na maneira como ela reagia a cada toque seu. Ali, naquele momento de entrega absoluta, ele percebeu que a ciência era apenas uma tentativa pálida de explicar o que só podia ser vivenciado. Ele não estava apenas tocando uma mulher; ele estava tocando o cerne da existência humana.

A tempestade lá fora parecia ter aumentado de intensidade, mas dentro do quarto, o calor era sufocante. Katrina segurou os cabelos de Ichabod, puxando-o para mais perto, querendo que ele sentisse cada pulsação, cada espasmo de prazer que percorria seu corpo.

— Você vê agora? — ela sussurrou, a voz entrecortada por pequenos gemidos. — Você vê quem eu sou?

— Eu vejo — respondeu ele, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela, seu rosto manchado de desejo e devoção. — Eu vejo tudo. E nunca mais serei o mesmo homem.

Foi nesse instante de vulnerabilidade total, de uma intimidade que transcendia o físico e alcançava o espiritual, que o feitiço se quebrou da maneira mais brutal possível.

Um estalo seco vindo da porta.

Ichabod congelou. Katrina abriu os olhos abruptamente, a névoa do prazer dissipando-se instantaneamente para dar lugar a uma clareza gelada.

Eles se viraram em uníssono para a fresta da porta.

Lá, imóvel como uma estátua de julgamento moral, estava a Sra. Miller. A pequena vela que ela carregava tremeluzia violentamente, iluminando as rugas de seu rosto, que estava distorcido em uma máscara de horror e repulsa. Seus olhos pequenos e severos estavam fixos exatamente onde a mão de Ichabod ainda repousava sobre a intimidade de Katrina.

O silêncio que se seguiu foi mais ensurdecedor do que qualquer trovão.

Ichabod saltou para trás com tamanha pressa que quase caiu da cama. Suas mãos, que momentos antes tocavam o sagrado, agora buscavam desesperadamente por suas roupas descartadas. Ele se sentia como se tivesse sido atingido por um raio.

— Sra. Miller! — ele exclamou, a voz subindo uma oitava, o pânico tomando conta de cada fibra de seu ser. — Eu... eu posso... a ciência da... as circunstâncias da investigação...

Ele tentou cobrir-se com a camisa, mas suas mãos tremiam tanto que ele mal conseguia segurar o tecido. O suor frio brotou em sua testa enquanto ele olhava de um lado para o outro, procurando uma explicação lógica que não existia.

— Oh, céus... oh, céus... — ele murmurava, o rosto passando de um branco fantasmagórico para um vermelho febril de vergonha.

Katrina, no entanto, agiu de forma diferente. Ela não se moveu com pressa. Lentamente, ela puxou o lençol de linho sobre si, cobrindo seu corpo com uma dignidade que parecia uma armadura. Ela não desviou o olhar da governanta; pelo contrário, ela a encarou com uma firmeza que beirava o desafio.

A Sra. Miller finalmente recuperou a voz, e ela saiu como um sibilado venenoso.

— Sacrilégio — disse a mulher, sua voz tremendo de indignação. — Debaixo deste teto honrado... diante dos olhos de Deus e da memória de sua mãe... tamanha depravação!

— Sra. Miller, por favor — Ichabod tentou intervir, aproximando-se da porta enquanto abotoava a camisa de forma errada. — A culpa é minha. Eu... eu fui tomado por um delírio, uma febre da mente... não culpe a senhorita Katrina!

A governanta o ignorou completamente, mantendo seu dedo apontado para Katrina.

— O senhor Van Tassel saberá disso no instante em que o sol nascer. Ele expulsará este... este animal de sua casa e você, menina, conhecerá o peso da vergonha pública. Jamais vi tamanho escândalo nestas terras!

Ela virou-se para sair, as saias pesadas sussurrando contra o chão do corredor como o som de uma sentença de morte.

— Pare, Miller — a voz de Katrina cortou o ar, fria e cortante como uma lâmina de gelo.

A governanta estacou. Ichabod olhou para Katrina, surpreso pela autoridade que emanava dela.

— Você não dirá nada a meu pai — continuou Katrina, levantando-se da cama com o lençol envolto em seu corpo como uma túnica real. — E não dirá porque o que você viu não foi depravação. Foi a verdade.

— A verdade? — a Sra. Miller riu, uma risada seca e sem alegria. — Eu vi o mestre Crane debruçado sobre sua... sua vergonha como um pecador no inferno!

— O que você viu — disse Katrina, caminhando até a luz da porta, ficando a poucos centímetros da mulher — foi um homem que me ama e uma mulher que não tem medo de ser amada. Você chama de pecado porque sua vida é feita de sombras e repressão. Mas aqui, neste quarto, não há sombras.

— O Sr. Van Tassel não terá sua filosofia, menina — rebateu a governanta, embora sua voz tivesse perdido um pouco da força diante da convicção de Katrina. — Ele só verá a honra de sua família jogada na lama por causa de um investigador estrangeiro.

Ichabod, que finalmente conseguira vestir o casaco, embora estivesse todo desalinhado e com o cabelo em total desordem, aproximou-se de Katrina. Ele ainda estava pálido, o medo de ser enforcado ou exilado brilhando em seus olhos, mas a coragem dela parecia infundir-lhe um pouco de brio.

— Sra. Miller — disse ele, recuperando um pouco de sua dicção de magistrado, embora sua voz ainda vacilasse —, peço que considere as consequências. O escândalo destruirá a paz desta casa e não trará benefício a ninguém. Meus sentimentos pela senhorita Katrina são... são profundos e permanentes. Eu pretendo honrá-la.

A governanta olhou de um para o outro. Ela via o terror em Ichabod, o homem que sempre confiava na lei e na ordem, agora reduzido a um suplicante. Mas em Katrina, ela via algo muito mais inquietante. Havia uma força nos olhos da jovem Van Tassel, algo que lembrava os boatos sobre sua linhagem, sobre mulheres que podiam amaldiçoar ou abençoar com um simples olhar.

O silêncio voltou a reinar, interrompido apenas pelo tique-taque de um relógio distante e pelo rugido da tempestade. A vela na mão da governanta estava chegando ao fim, a cera quente pingando sobre seus dedos, mas ela parecia não sentir.

— Vocês são loucos — murmurou a Sra. Miller, finalmente baixando o braço. — Loucos e perdidos. Este lugar já é amaldiçoado o suficiente sem que vocês tragam a luxúria para dentro destas paredes.

— Não é luxúria — disse Katrina suavemente, voltando-se para Ichabod e tocando seu rosto com as pontas dos dedos, um gesto de carinho que fez a governanta estremecer de desgosto. — É a única coisa real em Sleepy Hollow.

A governanta deu um passo para trás, saindo da luz do quarto e voltando para a escuridão do corredor.

— Não direi nada esta noite — disse ela, sua voz vindo das sombras. — Mas fiquem sabendo que Deus está observando. E o Cavaleiro também. Se o segredo de vocês trouxer sangue para esta casa, a culpa será de suas almas.

Ela se retirou, a luz de sua pequena vela desaparecendo lentamente enquanto ela descia as escadas.

Ichabod soltou um suspiro tão profundo que parecia ter expelido toda a alma. Ele se deixou cair em uma cadeira próxima, enterrando o rosto nas mãos.

— Estamos arruinados — murmurou ele entre os dedos. — Minha carreira, minha reputação... Katrina, eu a coloquei em perigo. Eu sou um tolo, um homem da ciência que se esqueceu de que o mundo é governado por olhos curiosos e mentes estreitas.

Katrina caminhou até ele, ajoelhando-se a seus pés. Ela puxou as mãos dele para longe do rosto e o forçou a olhá-la.

— Ichabod, olhe para mim.

Ele obedeceu, seus olhos cansados e assombrados encontrando a calma azul dos dela.

— Ela não dirá nada — afirmou Katrina. — Ela tem medo de mim. E tem medo do que o amor pode fazer com um homem como você.

— Eu nunca senti tanto medo em toda a minha vida — admitiu ele, a voz falhando. — Nem mesmo na floresta, quando as árvores pareciam ganhar vida. O pensamento de perdê-la, de vê-la humilhada por minha causa...

— Você não vai me perder — ela sorriu, um sorriso enigmático que sempre o deixava entre o encantamento e a inquietação. — A tempestade vai passar, Ichabod. E amanhã seremos apenas o investigador e a filha do fazendeiro novamente. Mas aqui, nestas sombras... nós sabemos a verdade. O que eu lhe mostrei esta noite... nenhum escândalo pode tirar de você.

Ichabod a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto em seu pescoço. Ele ainda tremia levemente, a lógica de sua mente tentando processar o perigo que acabaram de correr, enquanto seu coração clamava pela proteção que só ela oferecia.

Lá fora, um relâmpago iluminou o quarto por um breve segundo, revelando os dois abraçados no centro do caos de lençóis e velas apagadas. Por um instante, eles não pareciam mais um investigador e uma jovem rica, mas duas almas perdidas que se encontraram no meio de uma lenda de terror.

A Sra. Miller, em seu quarto, soprava sua própria vela, mas a imagem de Katrina aberta diante de Ichabod permaneceria gravada em sua mente como um estigma. Ela sabia que, em Sleepy Hollow, alguns segredos eram enterrados na terra, mas outros, como aquele, eram tecidos na própria névoa que cercava a mansão, esperando o momento certo para sufocar a todos.

Mas, por enquanto, no quarto iluminado pelo que restava das velas douradas, Ichabod Crane permitiu-se esquecer a ciência, o dever e o medo. Ele apenas segurou Katrina com mais força, enquanto a chuva continuava a lavar o mundo lá fora, incapaz de tocar o fogo proibido que agora queimava entre eles, mais forte do que qualquer verdade que a luz do dia pudesse revelar.