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Entre Lençóis e Relâmpagos

O Espectro da Alvura e o Silêncio do Destino

O ar no sótão da modesta casa da costureira em Sleepy Hollow era saturado pelo cheiro de linho novo, alfazema seca e a poeira que dançava nos poucos raios de sol que conseguiam penetrar as nuvens carregadas de outono. Ichabod Crane subia os degraus de madeira rangente com sua habitual agitação nervosa. Suas mãos, longas e inquietas, ajustavam constantemente o colarinho de seu casaco escuro, enquanto sua mente processava uma miríade de preocupações burocráticas sobre a investigação que ainda o prendia àquela vila envolta em névoa.

Ele viera buscar Katrina a pedido de Baltus. A jovem Van Tassel passara a tarde em ajustes finais para uma celebração que se aproximava, e o caminho de volta para a mansão, sob a luz moribunda do entardecer, não era seguro para uma dama desacompanhada. Pelo menos, essa era a justificativa lógica que Ichabod usava para acalmar as batidas descompassadas de seu próprio coração.

Ao chegar ao topo da escada, ele parou diante de uma pesada cortina de veludo carmesim que dividia o ateliê. O silêncio lá dentro era quase absoluto, quebrado apenas pelo estalo rítmico de uma tesoura e pelo som do vento uivando nas frestas do telhado.

— Senhorita Katrina? — chamou ele, a voz saindo um pouco mais trêmula do que pretendia. — O senhor seu pai solicitou minha presença para escoltá-la. O crepúsculo se aproxima e as sombras nesta região têm o hábito de se alongar além da razão.

Não houve resposta imediata. Ichabod hesitou, sua mão pairando sobre o tecido pesado da cortina. Sua natureza inquisitiva lutava contra o decoro cavalheiresco que ele tanto se esforçava para manter. Após um momento de incerteza, ele afastou a cortina apenas o suficiente para espiar.

O que ele viu fez o ar escapar de seus pulmões de forma violenta.

O ateliê estava iluminado por dezenas de velas dispostas em candelabros de prata, criando uma aura dourada e tremeluzente que parecia emanar de um único ponto central. Lá, em pé sobre um pequeno estrado circular, estava Katrina.

Mas não era a Katrina que ele conhecia em seus vestidos de passeio ou nas vestes de seda que ele desprovera em momentos de paixão proibida. Ela estava envolta em ondas de cetim branco e rendas tão finas que pareciam tecidas por aranhas sob o luar. O vestido de noiva, uma obra-prima de repressão e elegância, moldava-se ao seu corpo com uma precisão quase cruel.

Ichabod ficou paralisado. Seus olhos escuros, sempre tão atentos a detalhes científicos, agora falhavam em processar a visão diante dele. O véu de tule caía sobre o rosto dela como uma névoa matinal, suavizando suas feições e transformando-a em algo que não parecia pertencer ao mundo dos vivos.

— Ichabod? — A voz dela veio de trás do véu, abafada, etérea, como se ecoasse de dentro de uma tumba de mármore.

— Eu... peço mil desculpas — gaguejou ele, dando um passo à frente sem perceber que estava entrando no santuário dela. — Eu não pretendia... eu não sabia que a senhorita já estava...

Ele parou a poucos passos do estrado. Katrina levantou as mãos lentamente e afastou o véu, revelando seu rosto. Ela estava pálida, uma palidez que rivalizava com a alvura do tecido. Seus lábios eram de um rosa gélido e seus olhos azuis pareciam mais profundos, carregando uma melancolia que Ichabod nunca vira antes.

— Como eu estou? — perguntou ela, a voz desprovida de sua habitual vivacidade, soando quase como um sussurro de confissão.

Ichabod tentou falar, mas as palavras morreram em sua garganta. Ele a observou com uma fascinação que rapidamente se transformou em um desconforto arrepiante. Sob a luz vacilante das velas, a brancura do vestido parecia ganhar vida própria. As rendas no pescoço lembravam mãos esqueléticas que a abraçavam, e o peso da saia parecia ancorá-la ao chão de uma forma definitiva.

Por um instante horripilante, a mente de Ichabod — traumatizada pelas visões de túmulos abertos e pelo Cavaleiro que assolava a região — pregou-lhe uma peça cruel. Ele não viu a mulher que amava; ele viu uma efígie. Katrina parecia exatamente com as figuras femininas esculpidas nos sarcófagos de mármore que ele examinara no cemitério da Igreja Holandesa.

Ela era a personificação da beleza estática da morte.

— Você parece... — ele começou, sua voz falhando enquanto ele dava um passo instintivo para trás — ...parece um espectro, Katrina. Uma visão que um homem não deveria ter antes do tempo.

Katrina desceu do estrado com uma graça silenciosa, o rastro de seda sussurrando contra a madeira como o rastejar de uma serpente. Ela se aproximou dele, e Ichabod sentiu o cheiro de incenso e flores secas que parecia emanar das dobras do vestido.

— Um espectro? — Ela inclinou a cabeça, um pequeno sorriso triste surgindo em seus lábios. — É assim que você me vê agora que estou vestida para o compromisso final?

— A alvura é excessiva — disse Ichabod, tentando recuperar sua postura racional, embora suas mãos estivessem geladas. — A luz das velas cria sombras que... que não deveriam estar lá. Você parece uma habitante da névoa, uma noiva que espera há cem anos em uma cripta fria.

Katrina estendeu a mão e tocou a face de Ichabod. O toque dela estava frio, ou talvez fosse apenas a impressão dele diante daquela imagem fantasmagórica.

— Talvez seja isso que o casamento é em Sleepy Hollow, Ichabod — sussurrou ela. — Uma transição. Uma forma de morrer para o mundo e renascer dentro de uma nova linhagem, cercada por tradições que são mais velhas que as árvores desta floresta.

— Não fale assim — rebateu ele, segurando a mão dela com uma urgência quase violenta. — Você é vida, Katrina. Você é o calor que me impediu de enlouquecer nesta terra de superstições. Ver você assim... me faz sentir como se eu estivesse perdendo você para o passado. Para as sombras que habitam o nome Van Tassel.

— Você nunca me perderá para as sombras — disse ela, aproximando o rosto do dele. — Porque eu sou a sombra.

Ichabod estremeceu. O contraste entre o vestido virginal e as palavras sinistras de Katrina criava uma dissonância que ele não conseguia resolver. Ele olhou para o véu caído no chão e, por um momento, jurou ver a forma de um rosto agonizante nas dobras do tecido.

— Este vestido... — Ichabod murmurou, seus olhos percorrendo os bordados intrincados — ...ele tem uma história, não tem?

— Pertenceu à minha bisavó — revelou ela, voltando-se para o espelho de moldura dourada que refletia sua imagem infinitamente. — Dizem que ela o usou no dia em que o primeiro Van Tassel chegou a estas terras. Dizem que o linho foi lavado nas águas do riacho que corre atrás da Árvore dos Mortos.

Ichabod sentiu um nó na garganta. Sua mente científica lutava para descartar tais histórias como folclore sem sentido, mas a atmosfera do ateliê, o cheiro de morte e linho, e a aparência etérea de Katrina tornavam a lógica uma ferramenta inútil.

— Você parece uma estátua de mármore que ganhou vida apenas para me assombrar — confessou ele, aproximando-se por trás dela e olhando para o reflexo de ambos no espelho.

No vidro levemente distorcido, Ichabod parecia ainda mais magro e sombrio em suas roupas negras, enquanto Katrina brilhava com uma luz sobrenatural. Eles pareciam um casal saído de uma balada trágica, o investigador das sombras e a noiva do túmulo.

— E você — disse Katrina, olhando para o reflexo de Ichabod — parece o homem que veio para me desenterrar.

— Eu vim para salvá-la — corrigiu ele, sua voz ganhando uma intensidade febril. — De Sleepy Hollow, das lendas, deste destino que parece querer transformá-la em pedra.

— Mas você gosta da pedra, Ichabod — provocou ela suavemente. — Você adora o mistério que não pode explicar. Você se sente atraído por mim justamente porque eu carrego o frio da terra em meus ossos.

Ichabod não pôde negar. Ele sentiu um desejo avassalador de beijá-la, de provar que ela ainda era feita de carne e calor, apesar da aparência fantasmagórica. Ele a virou para si, suas mãos perdendo-se nas camadas de renda e seda. O vestido era pesado, rígido, como uma armadura de castidade e tradição.

— Se eu a beijar agora — sussurrou ele, o rosto a centímetros do dela —, temo que você se transforme em cinzas ou em pétalas de flores murchas.

— Tente — desafiou ela, fechando os olhos.

Ichabod a beijou. O toque foi desesperado, carregado de uma melancolia que ele não conseguia explicar. Katrina respondeu com uma urgência que contrastava com sua aparência estática. Por um momento, o ateliê desapareceu, as velas se apagaram na mente dele e houve apenas o contato humano em meio ao vazio branco do vestido.

Quando ele se afastou, Katrina estava ofegante, e uma leve cor avermelhada finalmente surgiu em suas bochechas, quebrando a ilusão da morte.

— Viu? — disse ela, a voz recuperando um pouco de sua doçura terrena. — Ainda há sangue correndo aqui.

— Sim — admitiu Ichabod, limpando uma lágrima que não percebera que caíra de seus próprios olhos. — Mas o medo permanece. Ver você de noiva... me faz perceber o quão frágil é nossa ligação diante do mundo. Este vestido é um muro, Katrina. Um muro de linhagem e expectativas.

— Os muros podem ser escalados, Ichabod — disse ela, voltando a pegar o véu do chão. — Ou podem ser derrubados.

Nesse momento, o som de passos pesados ecoou na escada. Era a costureira voltando com mais alfinetes, ou talvez um mensageiro de Baltus. A bolha de intimidade e terror gótico estourou.

— Preciso me trocar — disse Katrina, sua expressão tornando-se novamente a de uma dama composta. — Espere por mim lá embaixo. A noite está caindo e não queremos que o Cavaleiro nos encontre em campo aberto.

Ichabod assentiu, sentindo-se subitamente exausto. Ele caminhou em direção à cortina, mas antes de sair, olhou uma última vez para trás. Katrina estava novamente sobre o estrado, as mãos cruzadas sobre o ventre, enquanto a costureira começava a ajustar o véu sobre sua cabeça.

A luz de uma vela expirou, lançando uma sombra longa e distorcida sobre o vestido branco. Por um segundo final, a ilusão voltou com força total: não era Katrina quem estava ali, mas o fantasma de todas as mulheres Van Tassel que vieram antes dela, prontas para reivindicar o investigador como parte de sua lenda eterna.

Ichabod desceu as escadas quase tropeçando em seus próprios pés. Ao sair para o ar frio da noite, ele respirou fundo, tentando expulsar o cheiro de lavanda e poeira de seus pulmões. Ele olhou para as árvores retorcidas que cercavam a vila e sentiu que Sleepy Hollow acabara de lhe mostrar uma verdade que ele não estava pronto para aceitar.

O amor deles não era apenas um segredo entre um homem e uma mulher; era uma batalha contra o próprio tempo e contra a morte que parecia vestir a pele de Katrina com tanta naturalidade.

— Ela é linda — murmurou ele para a escuridão, enquanto esperava que a porta se abrisse e a Katrina de carne e osso surgisse. — Mas Deus me perdoe, ela é a morte mais bela que eu já vi.

E enquanto ele esperava, o som de um galope distante ecoou pela floresta, um lembrete de que, em Sleepy Hollow, as noivas e os fantasmas muitas vezes caminhavam pela mesma estrada, sob o mesmo luar indiferente.