Entre luz e Sombra
O Labirinto de Seda e Sombras
As semanas que se seguiram àquela noite foram envoltas em um silêncio denso, pontuado apenas pelo som dos meus próprios passos nos tapetes persas que abafavam qualquer tentativa de fuga. Park Jimin era um homem de palavras curtas, mas de presença absoluta. Ele não me forçava a nada físico, o que era uma surpresa que eu ainda tentava processar, mas sua dominação era psicológica. Eu vivia em uma redoma de vidro, onde cada desejo meu era antecipado por empregados silenciosos, e cada movimento meu era monitorado por câmeras e olhares atentos.
Eu mantinha a maior distância possível. Quando ele entrava em um cômodo, eu saía. Quando nos sentávamos para jantar — uma exigência que ele não revogava —, eu mantinha meus olhos fixos no prato, respondendo apenas o estritamente necessário. Eu queria odiá-lo com todas as minhas forças. Queria que ele fosse o monstro que meu pai descreveu, mas Jimin era... complexo.
Certa tarde, encontrei-me na vasta biblioteca da mansão. Era o único lugar onde eu me sentia minimamente humana. Os livros não me julgavam; eles não me pertenciam e eu não pertencia a eles. Eu estava sentada no parapeito da janela, observando o jardim sob uma garoa fina, quando a porta se abriu. O cheiro de sândalo o precedeu.
— Você gosta de poesia clássica — comentou Jimin, sua voz vindo de algum lugar atrás das estantes.
Eu não me virei. Continuei olhando para a chuva.
— É melhor do que a realidade — respondi secamente.
Ouvi seus passos lentos. Ele parou a poucos metros de mim, respeitando o espaço que eu tentava desesperadamente preservar. Ele não estava usando terno hoje, apenas uma calça de alfaiataria e um suéter de gola alta preto que o fazia parecer menos um carrasco e mais um homem comum, embora a aura de perigo nunca o abandonasse totalmente.
— A realidade pode ser moldada, Emilly. Você está aqui há um mês e ainda me trata como se eu fosse um estranho que acabou de sequestrá-la.
— E você não é? — Finalmente olhei para ele, meus olhos brilhando com uma mistura de mágoa e desafio. — Você me comprou, Jimin. Você usou o desespero de um homem fraco para me prender aqui. O que você esperava? Que eu o recebesse com sorrisos?
Jimin inclinou a cabeça, um pequeno sorriso triste brincando no canto de seus lábios carnudos.
— Eu esperava que você fosse inteligente o suficiente para perceber que eu a tirei de um destino muito pior. Se você não estivesse aqui, seu pai teria vendido você para pessoas que não têm metade da minha paciência ou... do meu apreço por você.
— Apreço? — Soltei uma risada amarga. — Você gosta de colecionar coisas bonitas. Eu sou apenas mais um quadro na sua parede.
Ele deu um passo à frente, e instintivamente eu me encolhi contra o vidro frio da janela. Jimin parou imediatamente, seus olhos âmbar suavizando-se por um breve segundo.
— Eu não coleciono pessoas, Emilly. Eu protejo o que considero valioso.
— Proteção não deveria parecer uma prisão.
Ele suspirou, um som que pareceu carregar um cansaço que eu não esperava encontrar nele.
— Talvez você tenha razão. Mas no meu mundo, as paredes são a única coisa que impede o sangue de entrar.
Ele se retirou sem dizer mais nada, deixando um livro sobre a mesa de centro. Quando a porta se fechou, caminhei até a mesa. Era uma edição rara de poemas que eu havia mencionado gostar em uma conversa aleatória com uma das camareiras. Ele estava ouvindo. Ele sempre estava ouvindo.
Nos dias seguintes, algo começou a mudar dentro de mim. O ódio, que antes era uma chama ardente, começou a se transformar em uma curiosidade incômoda. Eu comecei a observá-lo de longe. Via como ele lidava com seus homens — com uma autoridade fria e inquestionável —, mas também via como ele cuidava das roseiras no jardim quando pensava que ninguém estava olhando. Havia uma delicadeza em suas mãos que contrastava violentamente com a reputação de homem que esmagava inimigos sem piedade.
Uma noite, fui acordada por um barulho estranho vindo do escritório dele, que ficava no mesmo andar que o meu quarto. O relógio marcava três da manhã. Movida por um impulso que a razão desaconselhava, saí do quarto e caminhei pelo corredor escuro.
A porta do escritório estava entreaberta. A luz lá dentro era fraca, e o cheiro de uísque era forte. Jimin estava sentado no chão, encostado na mesa de carvalho, com a cabeça jogada para trás e os olhos fechados. Havia uma mancha de sangue em sua camisa branca, perto do ombro.
O pânico subiu pela minha garganta, mas o instinto de ajudar foi maior do que o medo. Entrei na sala silenciosamente.
— Jimin? — chamei baixinho.
Ele abriu os olhos rapidamente, a mão voando para a arma que estava no chão ao seu lado. Quando viu que era eu, seu corpo relaxou, mas ele soltou um gemido de dor.
— Vá para o seu quarto, Emilly — ordenou ele, mas sua voz estava falha, desprovida da autoridade habitual.
— Você está ferido. Deixe-me ver.
— Eu disse para sair! — Ele tentou se levantar, mas fraquejou, voltando ao chão.
Ignorei sua ordem. Aproximei-me e ajoelhei-me ao seu lado. O ferimento não parecia profundo, era um tiro de raspão, mas sangrava muito.
— Onde está o seu médico? — perguntei, minhas mãos tremendo enquanto eu começava a desabotoar a camisa dele para avaliar o dano.
— Não posso chamar ninguém agora... — ele murmurou, a respiração pesada. — Há problemas na organização. Não posso mostrar fraqueza.
— Então eu vou cuidar disso. Fique quieto.
Fui até o banheiro privativo do escritório e peguei o kit de primeiros socorros que sabia que existia ali. Voltei para o lado dele e, com cuidado, comecei a limpar o sangue. Jimin não desviou o olhar de mim por um segundo sequer. A proximidade era eletrizante; eu podia sentir o calor que emanava de sua pele e o cheiro de metal e perfume que agora eu associava a ele.
— Por que você está fazendo isso? — perguntou ele, sua voz apenas um sussurro acima do silêncio da noite. — Você deveria estar torcendo para que eu sangrasse até a morte. Assim, você estaria livre.
Parei o que estava fazendo e olhei em seus olhos. A vulnerabilidade que vi ali me desarmou. Não era o mafioso poderoso sentado à minha frente; era apenas um homem ferido, cercado por inimigos e fardos que eu mal conseguia imaginar.
— Eu não sou como o meu pai, Jimin — respondi com sinceridade. — Eu não abandono as pessoas quando elas estão por baixo. Nem mesmo você.
Ele soltou uma risada curta, dolorida.
— Você é uma criatura estranha, Emilly. Eu a prendi aqui, e você me cura.
— Talvez eu esteja apenas tentando entender quem você realmente é sob toda essa armadura.
Terminei de enfaixar o ombro dele. Nossos rostos estavam a centímetros de distância. A tensão entre nós mudou de natureza; não era mais o medo da presa perante o predador, mas algo mais profundo, mais perigoso. Jimin estendeu a mão boa e acariciou meu rosto com as costas dos dedos.
— Você não quer saber quem eu sou, pequena — disse ele, a voz carregada de uma ternura sombria. — Há muita escuridão aqui dentro.
— Eu não tenho medo do escuro — menti, sentindo meu coração acelerar de uma forma que nada tinha a ver com pânico.
Jimin aproximou-se mais, seus lábios quase roçando os meus. Eu podia sentir o hálito quente com sabor de uísque. Por um momento, o mundo lá fora, a dívida, o meu pai, a máfia... tudo desapareceu. Havia apenas aquele espaço compartilhado entre nós.
— Você deveria ter — sussurrou ele, antes de se afastar abruptamente, como se estivesse lutando contra si mesmo. — Obrigado, Emilly. Vá dormir agora.
Eu me levantei, sentindo as pernas bambas. Saí do escritório sem olhar para trás, mas a sensação do toque dele permaneceu em minha pele como uma marca de fogo.
Nas semanas seguintes, a dinâmica entre nós mudou drasticamente. Eu não fugia mais quando ele entrava na sala. Às vezes, passávamos horas na biblioteca, cada um lendo seu próprio livro, compartilhando um silêncio que se tornara confortável. Ele começou a me contar histórias de sua infância — uma sucessão de perdas e violência que explicavam o homem de gelo que ele se tornara. E eu, por minha vez, contei a ele sobre meus sonhos de ensinar, sobre a mãe que perdi e sobre o vazio que sentia antes de ser trazida para cá.
Eu estava me apaixonando. Era uma constatação aterrorizante. Como eu poderia amar o homem que me comprou? Mas o Jimin que eu estava conhecendo era atencioso, protetor e, de uma forma distorcida, profundamente leal.
Uma noite, estávamos no jardim. A lua estava cheia, iluminando o caminho de pedras. Jimin caminhava ao meu lado, as mãos nos bolsos da calça.
— Eu tomei uma decisão — disse ele, parando diante de um grande carvalho.
Olhei para ele, sentindo um aperto no peito.
— Que decisão?
— Os papéis que meu pai fez você assinar... o contrato de posse. Eu os destruí hoje de manhã.
O mundo pareceu parar por um segundo.
— O quê? — minha voz saiu falha.
— Você está livre, Emilly. Há um carro esperando por você no portão principal. Há uma conta em seu nome com dinheiro suficiente para você recomeçar em qualquer lugar, estudar, ser a professora que você sempre quis. Meu motorista a levará para onde você quiser.
Eu deveria estar saltando de alegria. Deveria estar correndo para o portão sem olhar para trás. Mas meus pés pareciam colados ao chão.
— Por que agora? — perguntei, as lágrimas começando a embaçar minha visão.
Jimin deu um passo em minha direção, a expressão endurecida por uma dor mal disfarçada.
— Porque eu percebi que não posso ter você se você não escolher estar aqui. E eu... eu não posso mais suportar ver você como minha prisioneira quando tudo o que eu quero é que você seja minha parceira. Eu amo você, Emilly. E é por isso que estou deixando você ir.
O silêncio que se seguiu foi o mais longo da minha vida. Olhei para os portões abertos ao longe e depois olhei para o homem à minha frente. O mafioso poderoso, o homem que todos temiam, estava ali, com o coração na mão, oferecendo-me a única coisa que ele nunca teve: uma escolha.
— Você realmente quer que eu vá? — perguntei, dando um passo em sua direção.
Jimin engoliu em seco, seus olhos brilhando com uma intensidade avassaladora.
— Eu quero que você seja feliz. Se a sua felicidade estiver longe de mim, então sim, eu quero que você vá.
Eu sorri, uma lágrima solitária escorrendo pelo meu rosto. Caminhei até ele e segurei seu rosto com as duas mãos. Jimin pareceu prender a respiração, como se temesse que eu fosse um fantasma que desapareceria a qualquer momento.
— Você é um idiota, Park Jimin — sussurrei.
— Sou?
— Sim. Porque você me deu a liberdade e agora a única coisa que eu quero fazer com ela é escolher ficar com você.
Jimin não esperou por mais nada. Ele envolveu minha cintura com seus braços fortes e me puxou para um beijo que carregava toda a saudade, o desejo e a promessa de um futuro que nenhum de nós esperava encontrar. Foi um beijo que selou nosso destino, não mais por um contrato de papel, mas por algo muito mais indestrutível.
— Você tem certeza? — perguntou ele, entre beijos, a voz rouca de emoção. — Minha vida é perigosa. Eu sempre terei inimigos.
— Eu sei — respondi, encostando minha testa na dele. — Mas eu prefiro estar em perigo ao seu lado do que segura em qualquer outro lugar do mundo.
Jimin sorriu, e desta vez o sorriso não era cruel ou enigmático. Era o sorriso de um homem que finalmente havia encontrado seu porto seguro.
— Então, bem-vinda ao lar, Emilly. Desta vez, por vontade própria.
Enquanto caminhávamos de volta para a mansão, de mãos dadas, eu sabia que o caminho à frente não seria fácil. Haveria sombras, haveria sangue e haveria segredos. Mas, pela primeira vez na vida, eu não era mais uma peça no tabuleiro de ninguém. Eu era a rainha ao lado do rei, e juntos, construiríamos nosso próprio império sobre as cinzas do passado. Meu pai havia me vendido para o diabo, mas o que ele não sabia é que o diabo era capaz de amar com uma intensidade que o céu jamais conheceria. E eu estava pronta para queimar com ele.