Voltar ao resumo

Entre luz e Sombra

O Labirinto de Vidro e a Dança das Facas

A liberdade é um conceito estranho quando se decide entregá-la de volta a quem a ofereceu. No dia seguinte à minha decisão de ficar, a mansão não parecia mais uma gaiola, mas um castelo cujas muralhas eu agora ajudava a vigiar. No entanto, o amor de um homem como Park Jimin não vinha sem um preço alto, e eu estava prestes a descobrir que o mundo da máfia não aceitava "finais felizes" sem antes testar a resistência da alma.

Eu estava sentada na varanda do quarto, sentindo o sol da manhã aquecer minha pele, quando Jimin apareceu. Ele não usava o terno formal; estava com uma calça escura e uma camisa de seda preta, os cabelos loiros levemente bagunçados pelo vento. Ele parecia mais jovem sob a luz do dia, menos como o "Senhor Park" e mais como o homem que havia chorado de alívio no jardim na noite anterior.

— Você ainda está aqui — disse ele, encostando-se no batente da porta com um sorriso discreto. — Eu quase tive medo de acordar e descobrir que ontem foi apenas um delírio da minha mente exausta.

— Eu sou uma mulher de palavra, Jimin — respondi, levantando-me e caminhando até ele. — E você não vai se livrar de mim tão cedo.

Ele envolveu minha cintura com os braços, puxando-me para perto. O calor de seu corpo era reconfortante, mas notei uma sombra de preocupação em seus olhos âmbar. Ele me beijou na testa, um gesto carregado de uma ternura que ele raramente mostrava a qualquer outra pessoa.

— Eu gostaria que pudéssemos ficar assim para sempre — murmurou ele contra meu cabelo. — Mas o mundo lá fora não para porque decidimos ser felizes. Tenho uma reunião importante hoje à tarde.

— Sobre o que aconteceu na outra noite? O tiro? — perguntei, sentindo um aperto no peito.

— Sim. Houve uma traição interna. Alguém acha que estou ficando "mole" porque deixei você entrar na minha vida. Eles acham que você é minha fraqueza.

— E eu sou? — questionei, olhando-o nos olhos.

Jimin segurou meu rosto com as duas mãos, a expressão tornando-se subitamente intensa, quase feroz.

— Você é a única coisa que me mantém humano, Emilly. Se isso me torna fraco aos olhos deles, que venham tentar a sorte. Mas eu preciso que você prometa que não sairá desta casa hoje, sob hipótese alguma.

— Eu prometo — respondi, embora o pressentimento ruim começasse a se espalhar como veneno em minhas veias.

Jimin partiu logo depois, cercado por um comboio de carros pretos e homens armados. A mansão, que antes parecia silenciosa e pacífica, agora parecia expectante, como se as próprias paredes estivessem prendendo o fôlego.

Passei a tarde na biblioteca, tentando me concentrar em um livro de história da arte, mas as palavras pareciam dançar diante dos meus olhos sem fazer sentido. Por volta das cinco da tarde, o senhor Kim entrou na sala. Sua expressão, normalmente neutra e impenetrável, estava tingida de algo que parecia... urgência.

— Senhorita Emilly — disse ele, fazendo uma reverência rápida. — O senhor Park solicitou que a levássemos para o abrigo de segurança no subsolo.

Senti meu coração falhar uma batida.

— O que aconteceu, senhor Kim? Onde está o Jimin?

— Houve um incidente na reunião. O senhor Park está bem, mas a segurança da propriedade foi comprometida. Por favor, venha comigo agora.

Eu o segui pelos corredores, meus pés ecoando no mármore. O caminho para o subsolo era longo e frio. No entanto, quando estávamos prestes a chegar às escadas de serviço, um som estrondoso ecoou pela casa — o som de vidros se estilhaçando e gritos abafados.

— Eles entraram — sussurrou o senhor Kim, sacando uma arma do coldre sob o paletó. — Corra, Emilly. Não olhe para trás.

Eu não tive tempo de processar. O pânico assumiu o controle. Corri, mas não para o abrigo. Meus pés me levaram de volta para o escritório de Jimin, movidos por um instinto irracional de que eu precisava proteger o lugar que ele chamava de seu. No entanto, antes que eu pudesse alcançar a porta, uma mão forte agarrou meu braço e me prensou contra a parede.

Eu ia gritar, mas a mão cobriu minha boca. Olhei para cima e vi um rosto familiar, mas que eu não via há semanas. Era meu pai. Ele parecia deplorável; as roupas estavam sujas, o rosto estava marcado por hematomas e seus olhos brilhavam com uma loucura desesperada.

— Shhh, calada — sibilou ele. — Eu vim te buscar. Temos que sair daqui antes que os outros o matem.

Tentei me soltar, mas ele me apertou com mais força. A náusea que eu sentira no escritório de Jimin semanas atrás voltou com força total.

— Você... o que você está fazendo aqui? — perguntei, assim que ele aliviou a pressão na minha boca. — Você trouxe essas pessoas?

— Eu não tive escolha! — exclamou ele em um sussurro frenético. — Eles me prometeram que, se eu mostrasse o caminho pelas câmeras de segurança e os pontos cegos, eles me dariam dinheiro e me deixariam levar você. Jimin é um monstro, Emilly! Ele te enfeitiçou!

— O único monstro aqui é você! — gritei, a raiva superando o medo. — Você me vendeu uma vez por dinheiro e agora está vendendo a vida dele pelo mesmo motivo!

— Ele vai morrer hoje, filha. Venha comigo agora ou você morre com ele.

— Eu prefiro morrer com ele do que viver um segundo a mais sendo sua moeda de troca — disse, cuspindo as palavras com todo o desprezo que eu guardava.

Antes que meu pai pudesse reagir, a porta do corredor se abriu com um chute. Jimin estava lá. Sua camisa estava manchada de sangue fresco e sua expressão era algo que eu nunca tinha visto antes — era o rosto da morte encarnada. Ele não parecia um homem; parecia uma força da natureza pronta para destruir tudo em seu caminho.

— Solte-a, Arthur — disse Jimin, sua voz tão baixa e fria que parecia congelar o próprio ar.

Meu pai me usou como escudo, puxando uma faca pequena e trêmula do bolso e encostando-a no meu pescoço.

— Não dê mais um passo, Park! Eu quero o meu dinheiro e quero sair daqui com ela!

Jimin deu um passo à frente, ignorando a ameaça. Seus olhos estavam fixos nos meus, e por um segundo, vi a dor lancinante que ele sentia ao me ver naquela posição.

— Você já causou dor suficiente a ela — disse Jimin. — Eu dei a você a chance de sumir. Eu poupei sua vida medíocre por causa dela. Mas você tocou no que é meu. E por isso, não haverá misericórdia.

— Eu sou o pai dela! — gritou Arthur, a voz falhando.

— Você é apenas o homem que a traiu — rebateu Jimin.

Tudo aconteceu em um borrão. Jimin moveu-se com uma velocidade predatória. Ouvi o som de um disparo abafado — um silenciador. Senti o corpo do meu pai vacilar atrás de mim. Ele não caiu morto, mas o tiro atingiu seu ombro com precisão cirúrgica, fazendo-o soltar a faca e cair de joelhos.

Jimin me puxou para longe dele com uma força desesperada, envolvendo-me em seus braços enquanto seus homens entravam no corredor para conter o que restava da invasão.

— Você está bem? Ele te machucou? — perguntou Jimin, examinando meu rosto com as mãos trêmulas.

— Estou bem... eu estou bem — respondi, soluçando contra o peito dele. — Você voltou.

— Eu sempre voltarei para você — prometeu ele.

Ele olhou para o meu pai, que gemia no chão. O olhar de Jimin era desprovido de qualquer humanidade. Ele levantou a arma, mas eu segurei sua mão.

— Não — sussurrei. — Não faça isso. Não na minha frente. Não se torne o monstro que ele diz que você é.

Jimin olhou para mim, e a escuridão em seus olhos pareceu lutar contra a luz que eu tentava oferecer. Ele respirou fundo e abaixou a arma.

— Levem-no — ordenou ele aos seus homens. — Entreguem-no à polícia com provas de todas as suas dívidas e crimes. Ele nunca mais verá a luz do dia. Mas não o matem. Ainda não.

Os homens arrastaram meu pai para longe. O silêncio voltou a reinar na mansão, embora o cheiro de pólvora e traição ainda pairasse no ar. Jimin me levou para o escritório e me sentou na poltrona de couro. Ele se ajoelhou à minha frente, apoiando as mãos nos meus joelhos.

— Sinto muito, Emilly — disse ele, a voz carregada de uma culpa genuína. — Eu prometi protegê-la e falhei. Minha vida... é isso. É caos e sangue. Você viu hoje. Tem certeza de que ainda quer ficar?

Eu olhei para as mãos dele — as mãos que haviam acabado de disparar uma arma, mas que agora me tocavam com a delicadeza de quem segura um tesouro frágil.

— O caos estava na minha vida muito antes de você chegar, Jimin — respondi, acariciando os cabelos dele. — Meu pai era o meu caos. Você foi a primeira pessoa que me deu uma escolha. E eu escolho enfrentar o mundo ao seu lado.

Jimin deitou a cabeça no meu colo, e eu senti seus ombros relaxarem. Naquele momento, eu entendi a verdade sobre Park Jimin. Ele não era um monstro, nem um anjo. Ele era um homem forjado no fogo, tentando encontrar um caminho em meio às cinzas. E eu seria sua bússola.

— Eles vão tentar de novo — murmurou ele. — Meus inimigos viram que eu não matei o homem que me traiu. Eles vão achar que estou fraco.

— Deixe que achem — eu disse, inclinando-me para beijar o topo de sua cabeça. — Eles não sabem que agora você tem algo pelo qual vale a pena lutar de verdade.

Jimin levantou o rosto e sorriu. Era um sorriso diferente — não era o sorriso de um mafioso, mas o de um homem que sabia que, pela primeira vez, não estava sozinho na batalha.

— Eu vou reformular toda a segurança — disse ele, voltando ao seu tom de comando, mas com um brilho novo nos olhos. — E amanhã, vamos começar a organizar sua vida. Eu quero que você comece a dar aulas. Vou construir uma escola, se for preciso. Mas você terá sua vida de volta, Emilly. Só que desta vez, dentro do meu mundo.

— Uma escola de artes? — perguntei, sentindo uma ponta de esperança.

— O que você quiser. O mundo é seu, eu só sou o homem que garante que ninguém o tire de você.

Naquela noite, dormimos abraçados, o som da chuva lá fora servindo como um lembrete de que, embora a tempestade fosse constante, estávamos seguros um nos braços do outro. Eu sabia que haveria mais dias como aquele, mais traições e mais perigos. Mas, enquanto eu olhava para Jimin dormindo ao meu lado, vi o homem que ele poderia ser, e não apenas o homem que ele foi obrigado a se tornar.

Eu fora vendida por uma dívida de sangue, mas acabara conquistando algo que dinheiro nenhum poderia comprar. Eu era a protegida do homem mais perigoso de Seul, e ele era o meu refúgio. Em meio ao labirinto de seda e sombras da máfia, tínhamos encontrado a única coisa real: a lealdade um ao outro.

— Eu te amo, Jimin — sussurrei no escuro.

Ele não abriu os olhos, mas apertou minha mão com força no meio do sono.

— Eu sei, minha pequena — murmurou ele. — E eu vou queimar o mundo inteiro antes de deixar qualquer coisa acontecer com você de novo.

E eu acreditei nele. Porque no mundo de Park Jimin, as promessas eram escritas em sangue, e o amor era a única lei que ele realmente respeitava. A nossa dança estava apenas começando, e eu não pretendia errar nenhum passo. Se o preço da minha felicidade era viver à sombra de um império criminoso, eu pagaria com prazer, contanto que a mão que segurasse a minha fosse a dele. O preço do silêncio havia sido pago; agora, era hora de começar a escrever nossa própria história, uma palavra de cada vez, sob o brilho das estrelas e o aço das armas.