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entre mundos

O Som do Silêncio e a Dança das Sombras

A semana que se seguiu ao incidente das fotos foi, sem dúvida, o teste de resistência mais intenso que eu já havia enfrentado. O Colégio Saint-Jude, que antes era o palco dos meus devaneios românticos, transformou-se em um campo minado de olhares inquisidores e sussurros venenosos. A nota oficial da empresa de Keonho tinha esfriado um pouco os ânimos da mídia, mas no microcosmo da escola, onde cada detalhe é dissecado, a "garota da blusa vermelha" ainda era o assunto principal.

Eu tentava manter a camuflagem. Troquei a saia plissada por calças largas e moletons que escondiam minha silhueta, e o gloss de cereja deu lugar a um protetor labial sem cor. Eu precisava ser invisível. Mas a invisibilidade dói quando você quer gritar para o mundo que o garoto mais talentoso do país segura a sua mão quando ninguém está olhando.

Na quinta-feira, o clima estava pesado. Havia rumores de que algumas fãs mais radicais tinham descoberto qual era a escola da "suposta namorada" e estavam rondando os portões. O medo era real, mas a saudade de Keonho era uma dor física. Não nos falávamos pessoalmente desde a van, apenas por mensagens criptografadas que Luis entregava ou através do nosso grupo secreto.

— Você precisa comer alguma coisa, Helena — disse Luis, empurrando uma bandeja com uma maçã e um suco em minha direção. — Você está parecendo um fantasma.

— Eu me sinto um fantasma, Luis — respondi, mexendo no suco sem vontade. — Sinto que estou vivendo uma vida que não é minha. Olho para o Keonho no corredor e ele nem sequer me olha nos olhos. Eu sei que é para o meu bem, mas... é horrível.

— Ele está sofrendo tanto quanto você — sussurrou Luis, inclinando-se para frente. — O Sean me disse que ele quase quebrou o violão no ensaio ontem porque não conseguia se concentrar. Ele se sente culpado por te colocar nessa situação.

— A culpa não é dele. A culpa é desse sistema que não permite que ele seja humano.

O sinal tocou, e eu me levantei, sentindo o peso da mochila e da tristeza. Mas, ao passar pelo corredor que levava ao laboratório de química, senti uma mão puxar meu braço com firmeza e me arrastar para dentro de uma sala de limpeza escura.

Eu ia gritar, mas uma mão quente cobriu minha boca e o perfume cítrico inundou meus sentidos.

— Shh... sou eu — sussurrou a voz que eu reconheceria até no fim do mundo.

Keonho me soltou, e eu me virei para ele na penumbra. Ele estava usando um casaco com capuz por cima do uniforme e parecia ter perdido peso em poucos dias. O cansaço em seus olhos era evidente, mas o brilho de afeto ainda estava lá.

— Keonho! Você ficou louco? Se alguém te vir entrando aqui...

— Eu não aguentava mais, Helena — disse ele, puxando-me para um abraço apertado, escondendo o rosto no meu ombro. — Eu precisava te ver. Precisava saber se você ainda está comigo depois de todo esse lixo que a internet jogou em cima de você.

— Eu não vou a lugar nenhum — respondi, retribuindo o abraço com a mesma intensidade. — Mas você está se arriscando demais. O manager...

— O manager está ocupado com o Juhoon agora — ele me interrompeu, afastando-se apenas o suficiente para olhar no meu rosto. — Escuta, temos um plano. O Cortis vai fazer um showcase fechado amanhã à noite em um teatro pequeno. É para convidados da indústria e alguns fãs sorteados.

— E o que isso tem a ver comigo? Eu não fui sorteada, e certamente não sou da indústria.

Keonho sorriu, um sorriso travesso que eu não via há dias. Ele tirou do bolso interno do casaco um envelope preto com letras douradas.

— Este é um passe de equipe técnica. VIP total. Você vai entrar pelos fundos, com o Luis. Ele vai estar ajudando na logística dos bastidores — explicou ele. — Você vai ficar na lateral do palco, escondida pelas cortinas pretas. Ninguém vai te ver, mas você vai me ver. E eu vou saber que você está lá.

— Keonho, isso é perigoso. Se alguém te vir me entregando isso...

— Ninguém viu. Eu fui cuidadoso — ele disse, acariciando meu rosto. — Eu preciso que você esteja lá, Helena. A música que eu escrevi... eu vou cantá-la como bis. Só eu e o violão. Eu preciso olhar para a cortina e saber que você está ouvindo.

— Eu estarei lá — prometi, sentindo uma onda de determinação. — Eu não perderia isso por nada.

Ouvimos passos no corredor e ele se retificou.

— Preciso ir. O Luis vai te dar as coordenadas amanhã. Eu te amo, Helena. Mais do que a minha carreira, mais do que a música. Lembre-se disso.

Ele me deu um beijo rápido e urgente, um beijo que carregava toda a tensão e o desejo dos últimos dias, e saiu da sala tão rápido quanto tinha entrado. Fiquei ali, no escuro, segurando o envelope preto contra o peito, sentindo meu coração martelar contra as costelas.

A sexta-feira passou em um borrão. Luis estava mais agitado do que o normal, coordenando tudo com o Sean através de mensagens codificadas. Quando as aulas terminaram, fomos para a casa dele, onde ele me ajudou a me transformar.

— Nada de vermelho hoje, Helena — disse ele, sério. — Você precisa ser uma sombra.

Vesti uma calça cargo preta, uma camiseta preta básica e um casaco com capuz também escuro. Prendi meu cabelo em um coque apertado e usei óculos de armação grossa que eu raramente usava. Eu parecia apenas mais uma assistente de produção estagiária.

Chegamos ao teatro por volta das 19h. O lugar estava cercado de fãs, algumas com cartazes enormes do Keonho. Senti um aperto no peito ao ver as fotos dele, tão perfeitas e distantes. Luis mostrou as credenciais na entrada dos fundos e entramos sem problemas.

O ambiente nos bastidores era um caos controlado. Cabos por todos os lados, maquiadores correndo, o som dos instrumentos sendo afinados. Avistei o grupo Cortis de longe. Eles estavam em um círculo, fazendo o grito de guerra antes de subir ao palco. Keonho estava no centro, parecendo uma divindade com seu terno de seda azul escuro e o cabelo perfeitamente estilizado. Ele parecia outra pessoa, o ídolo inalcançável.

Mas então, por um breve segundo, ele olhou em direção à lateral do palco. Nossos olhares se cruzaram no meio da confusão. Ele não sorriu, não acenou, mas eu vi a tensão em seus ombros relaxar por um instante. Ele sabia que eu estava ali.

— Fica aqui, Helena — sussurrou Luis, apontando para um espaço estreito entre o telão de LED e a cortina de veludo preto. — Daqui você vê tudo e ninguém te nota.

O show começou com uma explosão de luzes e batidas eletrônicas. O Cortis era impecável. A dança sincronizada, as vozes potentes, a energia que emanava deles era avassaladora. Eu assistia a tudo hipnotizada. Ver o Keonho no palco era uma experiência transcendente; ele dominava o espaço, cada movimento seu era seguido por gritos histéricos da plateia.

Durante as coreografias mais intensas, ele passava perto de onde eu estava. Em um momento de transição, ele chegou a roçar a cortina com a mão, um toque que só eu sabia o que significava.

Após uma hora de show, as luzes se apagaram. O grupo saiu do palco para a troca de roupa do bis. O público gritava o nome deles ritmicamente. Eu vi Keonho passar correndo por mim, suado e ofegante, indo em direção ao camarim. Ele não parou, mas piscou para mim, um gesto rápido que me fez sorrir no escuro.

Minutos depois, as luzes voltaram, mas de forma diferente. Apenas um holofote central iluminava um banco alto e um violão. Keonho voltou ao palco sozinho, vestindo apenas uma camisa branca simples com as mangas dobradas. O teatro ficou em silêncio absoluto.

— Esta próxima música... — começou ele, a voz ecoando pelo sistema de som — ...é algo muito pessoal. Eu a escrevi em um momento de muita dúvida, mas também de muita clareza. Ela fala sobre encontrar a verdade no meio das sombras.

Ele começou a dedilhar. Era a melodia do terraço.

— "No eco do corredor, eu ouvi o seu nome..." — ele cantou, a voz carregada de uma emoção que fez os pelos do meu braço se arrepiarem. — "E as cores voltaram, onde antes era apenas cinza e dor..."

Ele cantava olhando para a plateia, mas eu sabia que ele estava cantando para mim. A letra era uma declaração pública disfarçada de arte. Cada palavra era um tijolo que reconstruía o que as fotos tinham tentado destruir. Eu via as fãs na primeira fila chorando, tocadas pela vulnerabilidade dele, sem imaginar que a inspiração para aquela dor e beleza estava a poucos metros dali, escondida no veludo preto.

Quando ele chegou ao refrão final, ele se virou levemente em minha direção.

— "Não importa o que digam, não importa a luz..." — ele cantou, a voz subindo em uma nota perfeita — "...você é a melodia que o meu silêncio produz."

Ele terminou a música e o teatro explodiu em aplausos. Ele se levantou, fez uma reverência profunda e saiu do palco. No momento em que ele entrou na lateral, ele não foi para o camarim. Ele veio direto para onde eu estava.

Ele me puxou para trás de um painel de som, longe da vista de qualquer pessoa que estivesse passando. Ele estava suado, o peito subindo e descendo com a respiração pesada, e seus olhos brilhavam com o triunfo da apresentação.

— Você ouviu? — perguntou ele, a voz rouca.

— Foi a coisa mais linda que eu já vi na vida, Keonho.

— Aquilo foi para você. Tudo isso é por você.

Ele me beijou com uma paixão que me tirou o fôlego. Era um beijo de vitória, de alívio e de promessa. Ali, cercados por cabos e barulho de produção, éramos apenas dois adolescentes apaixonados, desafiando um sistema que tentava nos rotular.

— Keonho! Dois minutos para a música final com o grupo! — gritou a voz do stage manager.

— Preciso ir — disse ele, dando-me um último selinho. — O Luis vai te levar para fora assim que o show acabar. Te mando mensagem quando chegar no dormitório.

Ele voltou para o palco como um raio, e eu fiquei lá, sentindo o gosto dele nos meus lábios e o eco da música na minha alma.

A saída foi tranquila. Luis me guiou pela multidão de fãs que saía extasiada. Voltamos para a escola na segunda-feira seguinte, e o clima tinha mudado. A música do Keonho tinha se tornado um hit instantâneo, e a narrativa da mídia mudou de "escândalo de namoro" para "a genialidade artística de Keonho e sua musa misteriosa".

Eu ainda era a garota misteriosa, mas agora eu não me sentia mais com medo. Eu me sentia protegida pela música.

No intervalo, eu estava na biblioteca, tentando estudar, quando Keonho entrou. Ele não se escondeu. Ele caminhou até a minha mesa, colocou um livro de história na minha frente e sentou-se na cadeira oposta.

Alguns alunos pararam para olhar, mas ele não pareceu se importar.

— Preciso de ajuda com a Revolução Industrial — disse ele, em voz alta, para que todos ouvissem. — Ouvi dizer que você é a melhor da turma.

— Eu posso te ajudar, Keonho — respondi, abrindo um sorriso radiante.

Ele abriu o livro, mas por baixo da mesa, ele encontrou a minha mão e entrelaçou seus dedos nos meus.

— Sabe, Helena — sussurrou ele, inclinando-se como se estivesse lendo um parágrafo — , eu decidi que não quero mais me esconder tanto. A empresa que lute com as relações públicas. Eu só quero poder estudar com a minha namorada em paz.

Meu coração quase parou. Ele tinha dito a palavra. "Namorada".

— Você tem certeza disso? — perguntei, apertando a mão dele.

— Tenho toda a certeza do mundo.

Luis passou pela nossa mesa, fingindo que estava procurando um livro, e piscou para nós.

— O papagaio mandou lembranças — brincou ele, continuando seu caminho.

Nós dois rimos, atraindo ainda mais olhares. Mas, pela primeira vez, os olhares não pareciam facas. Pareciam apenas curiosidade. E, no meio daquela biblioteca silenciosa, entre livros de história e promessas de futuro, eu percebi que a nossa história não era mais uma fanfic ou um segredo doloroso. Era a nossa realidade.

Keonho era o meu utt, o meu ídolo e o meu namorado. E eu era a fã que tinha aprendido que, às vezes, o brilho mais forte não vem dos holofotes do palco, mas do olhar de alguém que te vê de verdade, mesmo quando você está escondida nas sombras.

A música continuava tocando, mas agora, nós dois estávamos cantando juntos. E o resto do mundo? O resto do mundo era apenas o público de uma história de amor que estava apenas começando o seu refrão mais bonito.

— Então, vamos começar pela Inglaterra? — perguntei, apontando para o livro.

— Vamos começar por onde você quiser, Helena — respondeu ele, sem soltar a minha mão. — Eu tenho todo o tempo do mundo agora.

E, sob a luz suave da biblioteca do Saint-Jude, o ídolo e a fã escreveram o capítulo mais importante de suas vidas: o capítulo em que eles simplesmente eram eles mesmos.

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