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entre mundos

O Brilho das Estrelas e o Eco do Corredor

A segunda-feira no Colégio Saint-Jude sempre tinha um peso diferente, mas, para mim, o ar parecia carregado de partículas de eletricidade. Depois do sábado no parque, o mundo não era mais o mesmo. Eu não era mais apenas a Helena do 1ºC que admirava o ídolo de longe; eu era a garota que tinha sentido o gosto do beijo de Keonho e que guardava segredos que fariam qualquer fã do Cortis entrar em colapso.

Eu caminhava pelo corredor principal, tentando manter a expressão mais neutra possível, embora por dentro eu estivesse dando saltos mortais. Luis apareceu ao meu lado como uma sombra, com um sorriso de quem sabia de todos os podres do universo.

— Bom dia, Romeu e Julieta versão K-pop — disse ele, dando um encontrão leve no meu ombro. — Por que você está com essa cara de quem ganhou na loteria e não pode contar para ninguém?

— Eu não sei do que você está falando, Luis — respondi, sentindo o rosto esquentar, o que denunciava totalmente a minha mentira.

— Ah, não sabe? — Ele riu, balançando a mochila. — O Sean me mandou uma mensagem ontem à noite dizendo que o Keonho voltou do parque parecendo que tinha sido atingido por um raio de felicidade. E você está usando aquele gloss de cereja de novo. Coincidência? Acho que não.

— Foi apenas um passeio, Luis. Nada demais — tentei desconversar, mas o brilho nos meus olhos me traía.

— Sei. Um passeio que durou cinco horas e terminou com o Keonho suspirando pelos cantos do dormitório. Helena, você é péssima em esconder as coisas. Mas relaxa, o segredo está guardado comigo. Pelo menos até eu precisar de um favor muito grande.

Entramos na sala de aula e eu tentei me concentrar na aula de História, mas as datas e os nomes das revoluções eram apenas ruídos de fundo. Eu só conseguia pensar no bilhete que Keonho tinha me mandado antes da primeira aula: "Me encontra no terraço do prédio de artes no intervalo. Preciso te mostrar uma coisa."

O intervalo finalmente chegou. Eu praticamente voei pelas escadas, evitando os grupos de alunos que se aglomeravam no pátio. O terraço do prédio de artes era um lugar pouco frequentado, cercado por uma grade alta e com uma vista privilegiada da cidade. Quando abri a porta pesada de metal, o vento frio bateu no meu rosto, trazendo o aroma familiar de cítricos e baunilha.

Keonho estava lá, encostado na grade, com um violão apoiado no joelho. Ele não estava de máscara, e o sol batia em seu rosto, destacando a serenidade que ele só parecia ter quando estava longe dos holofotes.

— Você veio — disse ele, abrindo aquele sorriso que desarmava todas as minhas defesas.

— Eu não perderia por nada — respondi, aproximando-me e sentando-me no banco de cimento ao lado dele. — O que é tão importante que não podia esperar até o fim das aulas?

Ele ajustou as cordas do violão, um som metálico e doce ecoando no ar aberto.

— Eu escrevi uma coisa ontem à noite. Depois que te deixei em casa. Eu não conseguia dormir, a melodia simplesmente não saía da minha cabeça. E eu queria que você fosse a primeira pessoa a ouvir.

Meu coração deu um solavanco. Ser a primeira a ouvir uma composição do Keonho era mais do que qualquer fã poderia sonhar. Era um privilégio que me fazia sentir pequena e gigante ao mesmo tempo.

— Por favor, cante — pedi, em um sussurro.

Ele respirou fundo, fechou os olhos e começou a dedilhar uma sequência de acordes suaves e melancólicos, mas com um toque de esperança. A voz dele saiu baixa, quase como um segredo compartilhado apenas entre nós e o vento. A letra falava sobre cores que voltavam a existir, sobre o medo de se perder na multidão e sobre encontrar um porto seguro em meio ao caos. Era, sem dúvida, a nossa história transformada em música.

Quando ele terminou, o silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som distante do pátio lá embaixo. Eu estava sem palavras, com os olhos levemente úmidos.

— E então? — perguntou ele, parecendo genuinamente nervoso com a minha reação. — Ficou muito clichê?

— Ficou perfeito, Keonho — eu disse, segurando a mão dele que ainda repousava sobre as cordas. — É a coisa mais linda que eu já ouvi. Você vai gravar isso com o grupo?

Ele balançou a cabeça negativamente, olhando para as nossas mãos unidas.

— Não. Essa música não é do Cortis. É nossa. Talvez um dia eu a lance como um solo, mas, por enquanto, eu quero que ela pertença apenas a esse terraço e a você.

Eu me inclinei e beijei a bochecha dele, sentindo a pele macia e o calor que ele emanava.

— Obrigada por compartilhar isso comigo.

Ficamos ali por alguns minutos, apenas aproveitando a companhia um do outro, até que a porta do terraço se abriu bruscamente. Por um segundo, entrei em pânico, achando que era algum professor ou, pior, alguma fã perseguidora. Mas era apenas Sean, com uma expressão de urgência no rosto.

— Keonho! Cara, você precisa descer agora! — disse Sean, ofegante. — O manager ligou. Houve um vazamento de fotos do parque.

O mundo pareceu parar. Senti o sangue fugir do meu rosto. Vazamento? Como? Nós fomos tão cuidadosos.

Keonho levantou-se imediatamente, guardando o violão na capa com movimentos rápidos e precisos. A expressão de serenidade tinha desaparecido, substituída pela máscara profissional e tensa de um idol em crise.

— Fotos nossas? — perguntou Keonho, a voz fria e controlada.

— Sim. Alguém tirou fotos de longe, na ponte. Não dá para ver o rosto da Helena com clareza, mas dá para ver o seu. E dá para ver que vocês estão... bem próximos — Sean explicou, olhando para mim com uma mistura de pena e preocupação.

— Helena, eu sinto muito — disse Keonho, virando-se para mim. Ele segurou meus ombros, os olhos cheios de uma angústia que me partiu o coração. — Eu preciso ir. A empresa vai querer abafar isso, e eu preciso estar lá para garantir que você não seja envolvida.

— Vai, Keonho. Não se preocupe comigo — eu disse, embora minhas pernas estivessem tremendo. — Apenas resolva o que tiver que resolver.

Ele me deu um beijo rápido na testa e saiu correndo com Sean. Fiquei sozinha no terraço, o vento agora parecendo muito mais gelado do que antes. Peguei meu celular e, com as mãos trêmulas, abri as redes sociais. Não demorou muito para encontrar. As fotos estavam em todos os lugares. "Keonho do Cortis visto em encontro romântico?", "Quem é a garota misteriosa?".

As fotos eram granuladas, tiradas de um ângulo lateral. Eu estava de costas ou com o rosto parcialmente escondido pelo cabelo, mas a blusa vermelha e a saia branca eram inconfundíveis para qualquer um que tivesse me visto na escola.

Desci as escadas sentindo que todos os olhares estavam voltados para mim. No corredor, o burburinho era ensurdecedor. Grupos de garotas mostravam os celulares umas para as outras, algumas chorando, outras indignadas.

— Você viu? — ouvi uma garota do segundo ano dizer. — Ele não pode estar namorando. Ele prometeu que o fandom era o único amor dele!

— Aquela garota deve ser uma sasaeng — outra comentou, com veneno na voz.

Passei por elas de cabeça baixa, querendo apenas desaparecer. Luis me encontrou perto do meu armário e me puxou para um canto vazio.

— Helena, você está bem? — perguntou ele, a voz séria pela primeira vez.

— Eu não sei, Luis. As fotos... todo mundo está falando disso.

— Escuta, a empresa dele é boa em lidar com isso. Eles vão dizer que é apenas uma amiga, ou uma prima, ou sei lá. O importante é que ninguém te identificou oficialmente ainda.

— Mas e se identificarem? Luis, eu sou apenas uma estudante. Eu não sei lidar com o ódio da internet.

— Ninguém vai te identificar se você não der motivos. Fica calma, age normalmente. Eu vou ficar de olho para você.

O resto do dia foi um borrão de ansiedade. Eu sentia que cada risada, cada sussurro no corredor era sobre mim. Quando as aulas finalmente terminaram, saí da escola quase correndo, querendo a segurança do meu quarto. Mas, ao chegar no portão, vi uma van preta estacionada do outro lado da rua. O vidro baixou apenas alguns centímetros, o suficiente para eu ver os olhos de Sean.

Ele fez um sinal para eu me aproximar.

— Entra, rápido — disse ele.

Eu hesitei, mas a urgência em sua voz me convenceu. Entrei na van e vi que Keonho estava no banco de trás, com o rosto escondido por um boné e uma máscara. Ele parecia exausto.

— O que você está fazendo aqui? É perigoso! — eu disse, assim que a porta se fechou e a van começou a se mover.

— Eu não podia te deixar sozinha depois do que aconteceu — disse Keonho, tirando a máscara e pegando minha mão. — A empresa já soltou uma nota oficial dizendo que as fotos foram tiradas de contexto e que eu estava apenas com uma conhecida de longa data.

— Uma conhecida de longa data? — repeti, sentindo um gosto amargo na boca.

— É a única forma de te proteger, Helena — explicou ele, apertando minha mão com força. — Se eles admitirem que é um namoro, a sua vida vira um inferno. Eles vão vasculhar o seu passado, a sua família, tudo. Eu não posso deixar isso acontecer.

— Eu sei. Eu entendo. Mas dói ser chamada de "apenas uma conhecida" depois de tudo.

— Eu sei que dói. Dói em mim também — disse ele, a voz falhando. — Mas isso não muda o que eu sinto. Aquela música que eu cantei para você... ela continua sendo verdade.

Ficamos em silêncio enquanto a van circulava pela cidade, um refúgio móvel em meio ao caos. Sean, no banco da frente, olhava pelo retrovisor com uma expressão compreensiva.

— Temos cerca de vinte minutos antes de eu ter que levar o Keonho para o estúdio — disse Sean. — Aproveitem.

Keonho me puxou para um abraço, escondendo o rosto no meu pescoço.

— Eu prometo que vou dar um jeito nisso — sussurrou ele. — Eu não vou deixar que a fama nos afaste. Mas, por enquanto, precisamos ser cuidadosos. Mais do que nunca.

— Eu aguento, Keonho. Se for por você, eu aguento — respondi, sentindo as lágrimas finalmente caírem.

Ele se afastou um pouco e limpou meu rosto com os polegares.

— Você é muito mais forte do que imagina, Helena. E muito mais do que eu mereço.

A van parou em uma rua tranquila, a poucas quadras da minha casa.

— Você precisa ir agora — disse Sean. — Não queremos que ninguém veja você descendo de uma van da empresa perto da sua casa.

— Eu te ligo mais tarde — prometeu Keonho, dando-me um beijo rápido e cheio de saudade.

Desci da van e caminhei o resto do trajeto sentindo o peso da realidade. Ser fã de um idol era uma coisa; ser o segredo de um idol era algo completamente diferente. Entrei em casa e fui direto para o meu quarto. Olhei para o pôster na parede e, pela primeira vez, as estrelas pareciam muito distantes.

Mas então, meu celular vibrou. Era uma mensagem no grupo que eu tinha com o Luis e, para minha surpresa, o próprio Keonho tinha sido adicionado por ele.

"Estamos juntos nessa. O plano 'Papagaio Protegido' está em ação. Ninguém toca na nossa Helena. — Luis."

Abaixo, Keonho tinha enviado um pequeno áudio. Cliquei para ouvir. Era apenas o som dele dedilhando o violão, a mesma melodia do terraço, e no final, ele sussurrava:

— Durma bem, minha conhecida de longa data favorita. Eu te amo.

Eu sorri, as lágrimas agora sendo de alívio. O mundo podia estar desabando lá fora, as fotos podiam estar circulando e o ódio podia estar crescendo, mas ali, naquele pequeno pedaço de áudio, eu tinha tudo o que precisava.

A fama era um eco barulhento, mas o nosso amor era uma melodia que só nós dois podíamos ouvir. E enquanto a música continuasse tocando, eu estaria lá, entre as sombras e as luzes, esperando pelo próximo acorde.

Naquela noite, sonhei com terraços e sorvetes de baunilha, e acordei com a certeza de que, não importa o quão difícil fosse o caminho, eu não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo. Afinal, eu era a fã que tinha conquistado o coração do ídolo, e agora, eu era a garota que lutaria para mantê-lo, mesmo que fosse em segredo, entre as páginas de um caderno de desenhos e os batimentos acelerados de um coração apaixonado.

A terça-feira chegou com a mesma intensidade, mas eu estava pronta. Vesti meu uniforme, coloquei meu gloss de cereja e, ao passar pelo corredor, não baixei a cabeça. Eu sabia a verdade. E a verdade era a música mais bonita de todas.

Ao chegar na sala, encontrei um pequeno bilhete colado no meu armário. Não tinha nome, apenas um desenho de um pequeno pássaro e um violão. Sorri, guardando-o perto do coração. O jogo tinha mudado, as regras eram novas, mas o prêmio... ah, o prêmio valia cada segundo de silêncio.

— Ei, Helena! — gritou Luis, vindo em minha direção. — Preparada para mais um dia de espionagem internacional?

— Sempre, Luis. Sempre — respondi, piscando para ele.

E assim, entre sussurros e flashes escondidos, nossa história continuava, escrita com a tinta da coragem e o brilho eterno das estrelas que, por um milagre do destino, tinham decidido descer à terra apenas para me encontrar.

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