entre mundos
O Voo do Papagaio e o Caos dos Sentidos
O ar gelado do lado de fora da escola deveria ter servido para me despertar, mas meu cérebro parecia ter sofrido um curto-circuito irreversível. Eu caminhava a passos largos pelo pátio externo, a mochila pendurada de qualquer jeito, sentindo o rosto ainda em brasa. A imagem de Keonho na biblioteca, vendo aquele vídeo e ouvindo meu surto de ciúmes, passava em loop na minha mente como um filme de terror adolescente.
— Burra, Helena! Muito burra! — resmunguei para mim mesma, chutando uma pedrinha no asfalto. — "Eles não combinam"? Por que eu disse isso em voz alta? Por que eu existo?
Eu estava tão mergulhada no meu próprio abismo de vergonha que o mundo ao meu redor se tornou um borrão. As árvores secas, os outros alunos indo embora, o portão principal... nada disso importava. Eu só queria chegar em casa, me enfiar debaixo das cobertas e só sair de lá quando o Cortis já tivesse anunciado sua turnê de despedida.
Foi nesse estado de alheamento total que o desastre aconteceu. Eu não vi a figura alta parada perto de um dos pilares do portão. Eu não vi o uniforme impecável do segundo ano, nem os ombros largos que bloqueavam meu caminho.
O impacto foi seco. Eu bati contra algo que parecia uma parede revestida de tecido caro. Com o susto e a força da colisão, perdi o equilíbrio. Minhas mãos soltaram a alça da mochila, que se abriu ao atingir o chão, espalhando cadernos, estojos e, para meu horror absoluto, o meu caderno de desenhos com a foto do Keonho colada na capa.
— Ai, meu Deus! Me desculpa, me desculpa mesmo! — eu disse, caindo de joelhos para tentar recolher a bagunça antes que o vento levasse minhas folhas.
— Não, a culpa foi minha! Eu estava distraído olhando o celular — uma voz profunda e aveludada respondeu prontamente.
A pessoa se abaixou imediatamente ao meu lado. Suas mãos eram rápidas e gentis, pegando meus lápis que haviam rolado para longe.
— Está tudo bem, sério — eu continuei, sem levantar a cabeça, a voz abafada pelo cabelo que caía sobre meu rosto. — Eu que sou uma tonta e não olho por onde ando. Não se preocupe, eu pego...
— Deixa eu te ajudar, é o mínimo que posso fazer por ter causado esse atropelamento — ele riu baixinho, uma risada calorosa que me fez congelar.
Eu parei de catar os papéis por um segundo e, lentamente, levantei o olhar. Meus olhos se arregalaram tanto que senti as pálpebras tremerem. Na minha frente, segurando meu estojo de pelúcia, estava Sean. O Sean. O dançarino principal do Cortis, o cara que tinha um carisma que incendiava os palcos e que, naquele momento, estava usando o uniforme da escola, provavelmente tendo acabado de sair de alguma aula especial.
— Sean? — O nome saiu da minha boca como um suspiro de descrença. Minha voz estava tão trêmula que parecia que eu estava enfrentando um terremoto.
Ele me deu um sorriso radiante, aquele mesmo sorriso que derretia o fandom inteiro nos MVs.
— O próprio. E você é a... Helena, certo? Acho que o Keonho comentou de você.
Eu senti que ia desmaiar. Keonho tinha falado de mim para o Sean? O universo estava conspirando para me matar de ataque cardíaco antes dos dezoito anos.
— SEANNNNN! — Um grito ecoou vindo da direção do prédio principal.
Olhei para trás e meu coração deu um salto mortal. Keonho vinha correndo em nossa direção, o cachecol cinza voando atrás dele. Quando ele se aproximou e percebeu quem estava ali, ele travou. Ele olhou para Sean, depois para mim, e depois para o meu material espalhado no chão. Um tom de rosa vívido subiu instantaneamente pelo pescoço de Keonho, atingindo suas bochechas. Ele claramente ainda estava processando o incidente da biblioteca.
— Ah... oi de novo — murmurou Keonho, desviando o olhar para o chão, parecendo tão envergonhado quanto eu.
O silêncio constrangedor pairou por três segundos, mas para mim, pareceu uma eternidade. Eu olhei para o Sean, que ainda segurava minhas coisas com um olhar curioso, e depois para Keonho, que parecia querer cavar um buraco e se esconder. A adrenalina de fã simplesmente assumiu o controle.
— Sean! — eu disparei, as palavras saindo como metralhadora. — Eu só queria dizer que sou muito sua fã, tipo, muito mesmo! O jeito que você executou a ponte de "Midnight Melody" foi simplesmente transcendental, e sua presença de palco é o que mantém a indústria de k-pop viva, eu amo muito o seu trabalho, sério, você é um artista completo e eu adoraria ficar aqui falando por horas sobre como sua técnica de dança contemporânea influenciou minha percepção de arte!
Sean piscou, surpreso com a rapidez da minha fala, mas seu sorriso se alargou.
— Uau, quanta energia! — disse ele, rindo. — Adoraria tirar uma foto com você, Helena, e...
— Mas eu não posso! — interrompi, entrando em pânico total ao perceber que Keonho estava me encarando com uma expressão indecifrável. — Eu tenho um compromisso urgentíssimo!
— Agora? — Keonho perguntou, finalmente encontrando a voz. — Mas a gente acabou de...
— Sim! — eu gritei, pegando o resto das minhas coisas das mãos do Sean de um jeito quase rude, enfiando tudo na mochila de qualquer maneira. — Eu tenho que ir... eu preciso levar meu papagaio no dentista! É uma emergência odontológica aviária!
Houve um silêncio mortal. Sean franziu a testa. Keonho abriu a boca, mas nenhum som saiu.
— Papagaio no... dentista? — repetiu Sean, lentamente.
— Isso! Ele está com... dor de dente! — eu disse, já dando passos para trás, sentindo que meu rosto ia explodir a qualquer momento. — Tchau, Sean! Tchau, Keonho! Desculpa pelo vídeo! Desculpa pelo papagaio! Adeus!
Virei as costas e saí correndo como se minha vida dependesse disso. Eu não olhei para trás, mas meus ouvidos, aguçados pelo desespero, captaram o som de uma gargalhada alta e sonora vindo de onde eles estavam. Era a risada do Sean.
— "Emergência odontológica aviária"? — ouvi a voz de Sean ecoar, entre risos. — Cara, de onde você tirou essa garota? Ela é incrível!
Eu continuei correndo até dobrar a esquina, o coração batendo na garganta. Quando finalmente parei para respirar, encostada em um muro, cobri o rosto com as mãos, soltando um gemido de agonia.
— Papagaio no dentista, Helena? Sério? Você nem tem um papagaio! — sussurrei para o nada.
Enquanto isso, no portão da escola, Sean deu um tapinha amigável no ombro de Keonho, que ainda olhava para a direção onde Helena havia sumido.
— Ela é muito fofa, Keonho. E bem bonita, aliás — comentou Sean. — E parece que ela gosta muito da gente... ou pelo menos tem um interesse bem específico em você, já que ela mencionou um "vídeo" e saiu correndo quando você chegou.
Keonho soltou um suspiro longo, passando a mão pelos cabelos e deixando um sorriso bobo escapar.
— Você não tem ideia, Sean. Você não tem ideia do caos que aquela garota causa na minha cabeça sem nem precisar de música.
— Pois é, mas se o papagaio dela sobreviver ao dentista — Sean brincou —, eu acho que você deveria pedir o número dela logo. Antes que ela invente que precisa levar um peixinho dourado para fazer natação.
Keonho riu, um som leve que se misturou ao vento frio da tarde, enquanto seu coração, assim como o de Helena, já aguardava ansiosamente pelo próximo sinal da escola.