← Voltar ao resumo

entre mundos

O Silêncio dos Corredores e a Teoria das Cores

A manhã seguinte no Colégio Saint-Jude foi, sem dúvida, a mais difícil da minha existência. Eu me sentia como se estivesse caminhando em uma corda bamba sobre um tanque de tubarões famintos, e os tubarões, no caso, eram qualquer pessoa que pudesse mencionar as palavras "papagaio", "dentista" ou "Cortis".

Passei as primeiras três aulas escondida atrás do meu livro de Biologia, tentando me tornar invisível. Luis, que não perdia uma oportunidade de me atormentar, já tinha ficado sabendo de parte da história — provavelmente através do Sean, já que os membros do grupo e os veteranos pareciam ter uma rede de fofocas mais rápida que a internet da escola.

— Então... como está o Lourival? — Luis perguntou, sentando-se na mesa à minha frente durante o intervalo, com um sorriso de orelha a orelha.

Eu bati a testa na mesa com um som surdo.

— Quem é Lourival, Luis?

— O seu papagaio, ué! — Ele começou a rir, atraindo a atenção de alguns alunos do 1ºC. — Fiquei sabendo que a cirurgia de canal dele foi um sucesso. Ele já consegue comer sementes de girassol ou ainda está na dieta pastosa?

— Eu vou te matar — resmunguei contra a madeira da mesa. — Eu entrei em pânico, tá legal? O Sean estava lá, o Keonho apareceu do nada... meu cérebro simplesmente ejetou a lógica e instalou um gerador de frases aleatórias.

— Helena, você é uma lenda — Luis disse, limpando uma lágrima de riso do canto do olho. — O Sean não parava de rir disso no ensaio ontem à noite. E o Keonho... bom, o Keonho ficou bem quieto, mas o James disse que ele passou a noite olhando para o celular e sorrindo como um bobo.

Levantei a cabeça rápido demais, sentindo uma tontura leve.

— Sorrindo? Ele não estava com vergonha? Ou com medo de mim?

— Acho que ele achou... adorável? Ou talvez ele só esteja feliz por saber que você tem ciúmes dele com a Wonhee — Luis piscou para mim. — A propósito, ele me pediu para te entregar isso.

Luis deslizou um pequeno pedaço de papel dobrado pela mesa. Meu coração deu um solavanco tão forte que achei que ele fosse pular para fora da minha boca. Com as mãos trêmulas, peguei o bilhete. O papel tinha um leve cheiro de perfume cítrico — o perfume dele.

"Atrás do ginásio, depois do treino de basquete. 15:30. Prometo que não trouxe nenhum dentista de aves. — K."

Eu li e reli aquelas palavras até que elas perdessem o sentido. Ele queria me ver. A sós. Atrás do ginásio, um lugar que, embora fosse público, era conhecido por ser o refúgio dos alunos que queriam conversar sem o barulho constante do pátio central.

— Eu não posso ir — declarei, embora cada fibra do meu ser estivesse gritando o contrário. — Eu vou desmaiar na frente dele. Ou vou dizer que meu peixe dourado está tendo aulas de piano.

— Você vai sim — Luis disse, levantando-se e batendo no meu ombro. — Deixa de ser covarde, Helena. Ele é só um garoto. Um garoto muito bonito, que canta bem, dança maravilhosamente e é famoso... mas ainda assim, um garoto.

As horas seguintes foram uma tortura. Cada vez que o relógio da parede avançava cinco minutos, eu sentia uma mistura de euforia e pavor. Quando o sinal das 15:00 tocou, liberando as turmas, eu caminhei em direção ao ginásio como quem caminha para o próprio julgamento.

O ginásio do Saint-Jude era um prédio antigo, com paredes de tijolos aparentes cobertas por trepadeiras. Contornei a estrutura, pisando nas folhas secas que estalavam sob meus sapatos, até chegar à parte de trás, onde havia alguns bancos de madeira sob a sombra de um carvalho centenário.

Ele já estava lá.

Keonho estava sentado em um dos bancos, com as pernas esticadas e a cabeça encostada na parede de tijolos. Ele não estava com o uniforme completo; tinha tirado o paletó da escola e dobrado as mangas da camisa branca até os cotovelos. O sol da tarde batia de lado em seu rosto, destacando a linha perfeita do seu maxilar e a serenidade em seus olhos fechados. Ele parecia uma pintura, um momento de paz capturado em meio ao caos da vida de um idol.

Eu parei a alguns metros de distância, com medo de quebrar o encanto. Mas o som de um galho quebrando sob meus pés o fez abrir os olhos.

— Você veio — disse ele, abrindo um sorriso que fez o resto do mundo desaparecer. — Eu estava começando a achar que o papagaio tinha tido uma recaída.

Senti meu rosto esquentar instantaneamente. Caminhei até o banco e me sentei na ponta oposta, mantendo uma distância segura para que ele não ouvisse meu coração martelando.

— Eu sinto muito — comecei, escondendo o rosto entre as mãos. — Por tudo. Pelo vídeo na biblioteca, pelo surto no portão, pela mentira absurda... Eu sou um desastre, Keonho.

Ele soltou uma risada baixa e se inclinou um pouco na minha direção.

— Helena, olha para mim.

Eu hesitei, mas acabei afastando as mãos e encontrando o olhar dele. Os olhos de Keonho eram calorosos, sem qualquer traço de julgamento ou deboche.

— Eu achei engraçado — confessou ele. — Na verdade, foi a primeira vez em semanas que eu ri de verdade, sem ser para uma câmera ou durante uma entrevista. Você é... autêntica. E no meu mundo, autenticidade é algo muito raro.

— Mas o vídeo... — eu murmurei. — Você viu o que eu disse. Eu parecia uma doida ciumenta.

— Você parecia alguém que se importa — ele corrigiu, com a voz suave. — E, para ser sincero, eu também não gosto muito daqueles edits. A Wonhee é uma ótima colega, mas é só isso. Fico feliz em saber que você prefere me ver sozinho... ou talvez com outra pessoa.

O tom da voz dele na última frase me fez prender a respiração. Houve um silêncio carregado de eletricidade entre nós. O vento soprou, trazendo o cheiro de grama cortada e o aroma cítrico que emanava dele.

— Por que você me chamou aqui? — perguntei, tentando recuperar a voz.

Keonho suspirou e olhou para as próprias mãos.

— As coisas estão ficando muito intensas com o Cortis, Helena. O novo álbum, a preparação para a turnê, as gravações... Às vezes, eu sinto que estou perdendo o contato com quem eu era antes de tudo isso. O garoto que gostava de estudar história e tocar violão no pátio.

Ele se virou totalmente para mim, diminuindo a distância no banco.

— Quando eu falo com você, não me sinto o "Keonho do Cortis". Eu me sinto apenas o Keonho. E eu percebi que sinto falta disso. Sinto falta de conversas reais, de biscoitos de aveia e até de desculpas esfarrapadas sobre papagaios.

— Eu sou apenas uma fã, Keonho — eu disse, embora meu coração protestasse contra aquela palavra tão limitadora.

— Você é muito mais do que isso — ele rebateu prontamente. — Você é a garota que me faz querer vir para a escola mesmo quando eu dormi apenas três horas.

Minha mente entrou em pane. Aquilo era uma confissão? O meu utt, o garoto dos meus sonhos, estava me dizendo que eu era o motivo dele aguentar a rotina exaustiva?

— Eu... eu não sei o que dizer — confessei, sentindo uma lágrima de emoção ameaçar cair.

Keonho estendeu a mão e, com uma delicadeza extrema, tocou meu rosto, afastando uma mecha de cabelo que o vento tinha jogado sobre meus olhos. O contato da pele dele com a minha enviou ondas de calor por todo o meu corpo.

— Não precisa dizer nada — ele sussurrou. — Só... não fuja de mim da próxima vez, está bem? Eu não mordo. E eu realmente gostaria de te conhecer melhor. Fora dos corredores, fora da biblioteca.

— Como? — perguntei, quase em um sussurro. — Você é vigiado o tempo todo.

Ele sorriu de lado, um sorriso travesso que eu raramente via nas lives do grupo.

— Eu tenho meus métodos. E o Sean me deve um favor por eu não ter contado para o manager que ele quebrou um dos refletores do estúdio na semana passada.

Nós dois rimos, e o clima de tensão se dissipou, dando lugar a algo muito mais profundo e doce. Ficamos ali por um longo tempo, conversando sobre coisas triviais, sobre as músicas que ele estava compondo e sobre os meus desenhos. Pela primeira vez, eu não me senti apenas uma espectadora da vida dele, mas parte dela.

Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de tons de laranja e violeta, Keonho se levantou e me ajudou a levantar também.

— Eu preciso ir para a empresa agora. Temos ensaio de coreografia até meia-noite.

— Bom trabalho, Keonho — eu disse, usando a frase que sempre quis dizer a ele pessoalmente.

Ele segurou minha mão por um segundo a mais do que o necessário.

— Obrigado, Helena. E, a propósito...

— Sim?

— Eu verifiquei na internet — ele disse, com os olhos brilhando de diversão. — Papagaios não têm dentes. Eles têm bicos. Então, da próxima vez, tente dizer que ele precisa de um ortodontista de bico. Soa mais profissional.

Eu ri, empurrando-o levemente pelo ombro.

— Vai embora, Keonho!

Ele se afastou, caminhando em direção ao estacionamento onde uma van preta já o esperava, mas parou e olhou para trás uma última vez.

— A gente se vê amanhã?

— Com certeza — respondi, acenando.

Enquanto observava a van se afastar, eu sabia que minha vida nunca mais seria a mesma. O muro entre o ídolo e a fã tinha começado a desmoronar, e o que estava surgindo no lugar era algo muito mais bonito e real do que qualquer pôster na parede do meu quarto.

Caminhei de volta para casa sentindo que estava flutuando. O ar frio não me incomodava mais; eu tinha o calor das palavras dele guardado no peito. Ao chegar no meu quarto, olhei para o pôster do Cortis na parede. Keonho estava lá, com sua pose perfeita e olhar intenso. Mas o Keonho que eu tinha acabado de deixar no ginásio... aquele era o meu Keonho.

Peguei meu celular e vi que havia uma nova notificação no Instagram. O perfil oficial do Cortis tinha postado um story. Era uma foto da vista da janela da van, mostrando o pôr do sol, com uma legenda simples:

"Hoje o dia teve cores que eu não via há muito tempo. Obrigado pelo brilho."

Eu sorri, sabendo exatamente para quem aquela mensagem era direcionada. E, pela primeira vez, eu não precisei de um comentário ou de um like para me sentir conectada a ele. Eu tinha a realidade.

Abri meu caderno de desenhos e, na página onde antes havia apenas o nome dele, comecei a esboçar o contorno de um carvalho antigo e um banco de madeira. E, no canto da folha, escrevi em letras pequenas: "Sem dentes, apenas bicos e batimentos acelerados".

O próximo capítulo da nossa história estava apenas começando, e eu mal podia esperar para ver qual seria a próxima melodia que comporíamos juntos nos corredores do Saint-Jude.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.