Voltar ao resumo

Entre nós.

Sinfonia de Trovões e Outras Penitências

A tempestade que antes parecia apenas um pano de fundo ruidoso transformou-se em um monstro. O vento uivava pelas frestas das janelas de madeira da casa de campo, e os trovões não eram mais apenas sons distantes, mas explosões que faziam os vidros vibrarem e o peito de Gabriele contrair em um espasmo de puro pavor. Lorenzo, felizmente, continuava em seu sono profundo e alcoólico no sofá do andar de baixo, alheio ao caos meteorológico e emocional que se desenrolava no andar de cima.

No quarto, a luz do abajur oscilava. Gabriele estava sentada na ponta da cama, o corpo rígido como uma estátua de mármore, segurando o celular contra o ouvido com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.

— Clara, eu não me importo se o arquivo está corrompido, você precisa ligar para o suporte de TI agora! — A voz de Gabriele saía aguda, carregada de uma ansiedade que ultrapassava os limites do profissional. — Se perdermos aquele prazo de contestação, a responsabilidade será sua. Ouça, eu... — Um estrondo monumental cortou o céu, seguido por um clarão azulado que iluminou o quarto por um milésimo de segundo. Gabriele soltou um grito abafado, derrubando o celular sobre o edredom.

Hylda, que estava sentada na poltrona de canto, cercada por pilhas de provas de filosofia e resumos sobre o niilismo, observava a cena com uma mistura de exaustão e irritação crescente. Ela deixou a caneta vermelha cair sobre a mesa de cabeceira e levantou-se. A postura era pesada, mas decidida. Suas tatuagens pareciam se mover sob a luz instável enquanto ela caminhava em direção à esposa.

— Chega, Gabriele. — A voz de Hylda era um comando baixo.

Gabriele tateou a cama, tentando recuperar o aparelho.

— Eu preciso... eu preciso terminar isso. A Clara está nervosa, ela não sabe o que fazer e se a luz cair de vez eu não vou conseguir acessar o servidor...

Antes que Gabriele pudesse levar o telefone ao ouvido novamente, a mão de Hylda, grande e firme, envolveu o aparelho. Com um movimento rápido, ela pressionou o botão de desligar e jogou o celular para longe, em direção à poltrona.

— O que você está fazendo?! — Gabriele levantou-se num salto, a indignação lutando contra o tremor nas mãos. — Devolve isso agora, Hylda! Você não tem o direito de interferir no meu trabalho!

— Eu tenho todo o direito de interferir no colapso nervoso da minha esposa — rebateu Hylda, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Gabriele. — Olhe para você. Você está tremendo por causa de um processo que pode esperar até segunda-feira e por causa de uma tempestade que não vai te matar, por mais que você ache que é a ira de Deus caindo sobre o telhado.

— Você não entende! — Gabriele gritou, e o som de sua própria voz pareceu assustá-la tanto quanto o trovão seguinte. — Tudo está saindo do controle. O escritório, essa casa, o meu corpo... eu sinto que se eu parar de segurar essas pontas, eu vou simplesmente desaparecer!

— Então desapareça nos meus braços, porra! — Hylda explodiu, a agressividade que vinha acumulando nos últimos meses de rejeição vindo à tona. — Para de ser essa secretária perfeita e essa mártir religiosa por cinco minutos!

Gabriele, num impulso de raiva e desespero, levantou a mão para desferir um tapa no rosto de Hylda. Foi um movimento impensado, uma tentativa de afastar a realidade que a outra lhe esfregava na cara. Mas Hylda era mais rápida. Seus reflexos de ex-viciada que já frequentou lugares muito piores que uma casa de campo no interior eram afiados. Ela interceptou o pulso de Gabriele no ar, segurando-o com uma força que não machucava, mas que era absoluta.

— Não ouse — sussurrou Hylda, os olhos fixos nos de Gabriele. — Você quer lutar? Ótimo. Vamos lutar. Mas não com tapas.

— Me solta, Hylda! — Gabriele tentou puxar o braço, mas a outra a empurrou suavemente, porém com firmeza, de volta para a cama.

Hylda ajoelhou-se sobre o colchão, prendendo Gabriele entre seu corpo e os travesseiros. A respiração de ambas estava pesada, um duelo de vontades no meio da escuridão intermitente.

— Escuta aqui, Gabriele Carandini — disse Hylda, a voz agora carregada de uma sensualidade autoritária que fez o estômago de Gabriele dar um nó. — Eu cansei. Cansei de ser ignorada, cansei de ver você se escondendo atrás de gim e de orações de culpa. Vamos aproveitar essa sinfonia de trovões lá fora para colocar nossa vida matrimonial em dia. Eu não aguento mais ser casada com uma freira.

— Eu... eu não consigo — murmurou Gabriele, embora seu corpo estivesse traindo suas palavras, reagindo ao calor de Hylda que a pressionava contra o colchão. — Eu me sinto... errada.

— O que é errado é você negar o que sente por mim — Hylda aproximou o rosto, o nariz roçando o de Gabriele. — Você conhece cada detalhe meu, e eu conheço cada detalhe seu. Eu sei que você gosta quando eu mordo seu lábio inferior bem devagar. Eu sei que você gosta quando eu seguro seu cabelo grisalho com força porque isso te faz sentir viva, e não apenas velha.

Hylda soltou o pulso de Gabriele, mas apenas para descer a mão pela lateral do corpo dela, parando na curva do quadril.

— Deus não está olhando para este quarto, Gabi. E se estiver, ele deve estar entediado com a sua abstinência.

Gabriele soltou uma risada curta, entrecortada por um soluço. O humor ácido de Hylda era a única coisa capaz de perfurar sua psicose.

— Você é uma profana, Hylda. Uma pecadora incurável.

— E você é a minha santa preferida para corromper — Hylda sorriu, um sorriso de lado, perigoso e terno.

Ela inclinou-se e selou os lábios nos de Gabriele. Não foi um beijo de negócios, nem um beijo de despedida. Foi um beijo de posse, profundo, com gosto de vinho tinto e de uma saudade que doía. Gabriele resistiu por dois segundos antes de suas mãos subirem para a nuca de Hylda, os dedos se enterrando no cabelo curto e grisalho da esposa, puxando-a para mais perto, como se sua vida dependesse daquele contato.

A chuva lá fora atingiu um ápice, as gotas golpeando o zinco com fúria, mas o som dentro do quarto agora era outro. Era o som de seda sendo rasgada pela pressa, o som de suspiros que haviam sido sufocados por meses.

Hylda afastou-se apenas o suficiente para desabotoar a camisa de Gabriele com dedos ágeis, apesar da leve trepidação. Quando a pele pálida e perfumada de Gabriele foi exposta à luz fraca, Hylda parou por um momento, admirando a mulher à sua frente.

— Você é tão bonita que dói, sabia? — sussurrou Hylda, traçando com o polegar o contorno do sutiã de renda de Gabriele. — Clara pode ter a sua admiração profissional, Isabela pode ter o meu medo acadêmico, mas ninguém, absolutamente ninguém, tem o que eu tenho.

Gabriele sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, dissipando o frio da chuva e o gelo do medo.

— Prove — desafiou Gabriele, a voz recuperando um pouco daquela arrogância elegante que Hylda tanto amava.

Hylda não precisou ouvir duas vezes. Ela desceu o corpo, beijando o vale entre os seios de Gabriele, descendo para o abdômen, onde os músculos da secretária se contraíam em antecipação. A boca de Hylda era quente e experiente, conhecendo exatamente os pontos que faziam Gabriele perder a compostura.

— Hylda... por favor — gemeu Gabriele, arqueando as costas quando a língua da esposa encontrou um ponto sensível em sua coxa.

— Por favor, o quê? — Hylda provocou, olhando para cima, os olhos brilhando com uma malícia amorosa. — Quer que eu pare? Quer voltar para o telefone e falar com a Clara sobre prazos?

— Cala a boca — Gabriele puxou Hylda para cima novamente, colando seus corpos. — Só... me faz esquecer. Me faz esquecer de tudo o que não seja você.

O ato de amor entre elas era uma mistura de urgência e familiaridade. Hylda era bruta quando precisava ser, usando sua força para ancorar Gabriele na realidade, mas era de uma delicadeza extrema quando percebia a vulnerabilidade nos olhos da esposa. Ela conhecia a pequena cicatriz atrás da orelha de Gabriele e a beijou com reverência. Ela conhecia a maneira como Gabriele prendia o fôlego quando chegava ao ápice, e fez questão de prolongar esse momento até que Gabriele estivesse implorando por liberação.

No calor do momento, a crise religiosa de Gabriele parecia algo distante, um delírio de uma mente cansada. Ali, sob o peso e o carinho de Hylda, o corpo não era um templo de pecado, mas um mapa de prazer compartilhado. As mãos de Gabriele, antes trêmulas de medo, agora agarravam as costas de Hylda, sentindo a textura das tatuagens como se estivesse lendo a história de vida da mulher que escolhera para envelhecer ao lado.

Quando o clímax finalmente as atingiu, foi como o trovão que sacudira a casa momentos antes: violento, inevitável e purificador. Gabriele gritou o nome de Hylda, a voz sumindo no barulho da tempestade, enquanto se desfazia nos braços da butch que, apesar de toda a pose de durona, a segurava como se ela fosse o tesouro mais precioso do mundo.

Minutos depois, o silêncio pós-coito se instalou, apenas o som da chuva agora mais calma, uma melodia de ninar após a batalha. Elas estavam entrelaçadas, os lençóis em desalinho, o cheiro de sexo e suor misturando-se ao sândalo.

Hylda acariciava o braço de Gabriele, observando os fios grisalhos que se misturavam aos castanhos no travesseiro.

— Viu? — sussurrou Hylda. — O mundo não acabou. E você ainda é a minha esposa.

Gabriele, com os olhos fechados e a respiração finalmente ritmada, deu um pequeno sorriso.

— Você é insuportável, Hylda Carandini.

— E você está louca para que eu faça tudo de novo — Hylda beijou o ombro dela. — Mas agora, você vai dormir. Sem telefones, sem gim, sem processos. Só eu e você.

Gabriele aninhou-se mais perto de Hylda, sentindo o coração da outra batendo contra suas costas. Pela primeira vez em meses, a voz em sua cabeça que falava de punição e culpa estava silenciosa.

— Hylda? — chamou Gabriele baixinho.

— Hmm?

— Obrigada por não me deixar virar uma estátua de sal.

Hylda soltou uma risada rouca e a apertou mais forte.

— De nada, Gabi. Mas amanhã, você ainda vai ter que explicar para o Lorenzo por que o seu celular está caído na poltrona e por que você está com essa cara de quem viu um anjo... ou um demônio muito bom de cama.

Gabriele não respondeu, mas o aperto de sua mão na de Hylda foi resposta suficiente. A tempestade lá fora podia continuar, mas a crise, pelo menos por aquela noite, fora vencida pelo único ritual que realmente importava: o de pertencer inteiramente a alguém que conhecia cada um de seus segredos.