Entre nós.
A Invasão dos Filósofos e o Evangelho Segundo o Ciúme
A manhã seguinte ao ápice da tempestade nasceu com um silêncio enganoso, apenas o gotejar rítmico das calhas interrompendo a paz que Gabriele e Hylda haviam finalmente conquistado. Gabriele ainda estava envolta nos lençóis, a pele sentindo o formigamento doce da noite anterior, quando o som de pneus esmagando cascalho — desta vez em dobro — estraçalhou a quietude.
— Não pode ser... — resmungou Hylda, afundando o rosto no travesseiro. — Lorenzo prometeu que este lugar era um isolamento. Um isolamento, Gabi!
— Lorenzo é um mentiroso patológico e você sabe disso — Gabriele sentou-se na cama, a elegância voltando a assumir o controle como uma armadura automática. Ela ajeitou os cabelos, ignorando a dor de cabeça que o gim de ontem e o vinho de Lorenzo haviam deixado como herança.
O barulho lá embaixo era caótico. Vozes jovens, risadas estridentes e o som de caixas sendo arrastadas. Hylda vestiu um roupão surrado e Gabriele, impecável mesmo em seu deshabillé de seda, a seguiu até a balaustrada da escada.
Lá embaixo, Lorenzo fazia as honras da casa como se fosse o anfitrião de um festival de verão. Mas o que fez o sangue de Gabriele gelar e o de Hylda ferver foi a visão de duas figuras específicas: Clara, a estagiária ruiva, segurando um notebook como se fosse uma relíquia sagrada, e Isabela, a aluna de Hylda, que parecia estar prestes a ter um colapso nervoso só de olhar para a decoração da sala.
— Surpresa! — gritou Lorenzo, abrindo os braços. — O sinal de celular caiu na cidade inteira, a faculdade inundou o porão e o escritório da Gabi teve um curto-circuito. Como eu sabia que vocês tinham gerador e vinho de sobra, trouxe o comitê de crise!
— Lorenzo, eu vou te matar — disse Hylda, descendo os degraus com uma expressão que faria um gladiador recuar. — Eu vou te matar e enterrar no jardim, e vou usar Heidegger para justificar que o seu "ser" não faz mais sentido no tempo.
— Professora Carandini! — Isabela deu um passo à frente, os olhos arregalados, ignorando a fúria de Hylda. — Eu sinto muito, eu tentei dizer que era uma invasão de privacidade, mas o Lorenzo disse que a senhora adoraria discutir o imperativo categórico enquanto a chuva não para!
Nesse momento, Clara levantou os olhos e viu Gabriele no topo da escada. O rosto da jovem iluminou-se com uma adoração quase religiosa.
— Doutora Carandini! Graças a Deus a senhora está bem. Eu trouxe os arquivos físicos, o servidor realmente caiu e eu não conseguia dormir pensando que a senhora estaria preocupada com o prazo dos herdeiros.
Gabriele sentiu um espasmo de irritação, mas também algo novo. Ao ver Isabela olhar para Hylda com aquela devoção de cachorrinho perdido, um calor ácido subiu por sua garganta. Ela desceu os últimos degraus e, em um gesto que raramente fazia em público, passou o braço pela cintura de Hylda, colando seus corpos de forma possessiva.
— Que eficiência, Clara — disse Gabriele, a voz fria e cortante como cristal. — Mas acho que você e a... — ela olhou para Isabela com um desdém magistral — ...a aluna da minha esposa, esqueceram que este é um retiro privado.
Isabela encolheu-se visivelmente.
— Eu... eu só queria tirar uma dúvida sobre a nota, e o Lorenzo disse que...
— O Lorenzo é um idiota — interrompeu Hylda, embora tenha sentido um prazer secreto ao sentir o aperto de Gabriele em sua cintura. — Mas já que estão aqui, e a estrada está bloqueada pela queda de uma árvore a dois quilômetros daqui, acho que não temos escolha.
O dia transformou-se em um pesadelo de convivência forçada. A casa de campo, que deveria ser o cenário de uma reconciliação íntima, tornou-se um quartel-general de estudantes histéricos e advogados obcecados. Lorenzo, em sua irreverência sem limites, decidiu que a única forma de sobreviver ao isolamento era transformar a situação em uma festa permanente.
Ao entardecer, o gerador roncava lá fora enquanto a música alta de Lorenzo preenchia a sala. Clara não saía do pé de Gabriele, mostrando planilhas e pedindo conselhos de vida, enquanto Isabela seguia Hylda de cômodo em cômodo, tentando desesperadamente engajar a professora em uma conversa sobre ética.
Gabriele, sentada em uma poltrona com seu habitual copo de gim (que ela agora nem tentava esconder), observava Isabela rir de uma piada que Hylda fizera sobre o niilismo. A menina tocou levemente o braço de Hylda, e Gabriele sentiu que poderia explodir.
Ela se levantou e caminhou até a cozinha, onde Hylda tentava abrir mais uma garrafa de vinho.
— Você está se divertindo, não está? — perguntou Gabriele, encostando-se no batente da porta, os olhos semicerrados.
— Do que você está falando, Gabi? Eu estou tentando não surtar com esses adolescentes na minha sala — respondeu Hylda, sem olhar para trás.
— Eu vi como você olha para aquela menina, a Isabela. Eu sei que você é uma safada quando se trata de novinha, Hylda. Sempre teve esse fraco por quem te olha como se você fosse um oráculo.
Hylda parou o que estava fazendo e virou-se devagar. Um sorriso de canto de boca surgiu em seu rosto grisalho. Ela deu um passo em direção à esposa, encurralando-a contra a pia.
— Ciúmes, Carandini? Logo você, que tem a ruivinha anotando cada suspiro seu em um bloquinho de notas?
— Não mude de assunto — Gabriele colocou as mãos no peito de Hylda, empurrando-a levemente, mas sem se afastar. — Ela é jovem, ela é impressionável e ela claramente quer você. E você gosta da atenção.
Hylda soltou uma risada rouca e segurou o queixo de Gabriele, forçando-a a olhar em seus olhos.
— Amor, presta atenção no que eu vou te dizer e vê se grava nessa sua cabeça linda e paranoica: para mim, só tem sentido ser safada com você. Aquela menina é um feto que não sabe a diferença entre Platão e um prato de sopa. Você é a mulher que conhece as minhas cicatrizes e as minhas recaídas. Você acha mesmo que eu trocaria a nossa história por um elogio de rodapé de página?
Gabriele relaxou os ombros, a frieza derretendo por um instante.
— Ela te tocou no braço, Hylda.
— E você me tocou na alma ontem à noite — rebateu Hylda, baixando a voz. — Agora, me dá um beijo antes que o Lorenzo entre aqui pedindo gelo.
O beijo foi interrompido, previsivelmente, por um grito de Lorenzo na sala.
— Gente! Temos um problema logístico!
Ao voltarem para a sala, encontraram o grupo reunido em torno de Lorenzo, que parecia muito satisfeito consigo mesmo.
— Como a árvore bloqueou a passagem e os quartos de hóspedes estão com goteira — Lorenzo apontou para o teto, onde o gesso parecia prestes a ceder —, vamos ter que redistribuir o espaço. Clara e Isabela vão ficar no sofá da sala, eu vou ficar na poltrona... e vocês duas vão ter que dividir o quarto principal com a bagagem de todo mundo e, possivelmente, com a Clara, porque ela está com medo de dormir no andar de baixo com os barulhos da mata.
— O quê? — Gabriele e Hylda exclamaram em uníssono.
— Nem pensar! — Gabriele cruzou os braços. — A Clara não vai dormir no nosso quarto.
— Doutora Carandini, eu prometo não fazer barulho — disse Clara, com os olhos úmidos. — É que eu vi um vulto lá fora e...
— É a imaginação dela, Gabi — sussurrou Hylda, tentando conter o riso diante do desespero da esposa. — Mas se o teto do quarto de hóspedes está caindo, não podemos deixar as meninas lá.
A festa durou toda a madrugada. Lorenzo colocou discos antigos, e a mistura de álcool, filosofia e direito transformou a sala em um cenário surreal. Hylda, em um momento de descontração, acabou sentada no chão com os alunos, contando histórias de seus tempos de rebeldia, enquanto Gabriele permanecia vigilante na poltrona, como uma rainha exilada, fuzilando Isabela com o olhar toda vez que a menina chegava perto demais de sua esposa.
Lá pelas três da manhã, o celular de Hylda começou a tocar incessantemente.
— Quem é o infeliz a esta hora? — resmungou Hylda, atendendo.
— Professora? É o Marcus, do terceiro semestre! Eu sei que a senhora está de licença, mas estamos em um debate acalorado no grupo de WhatsApp sobre a morte de Deus em Nietzsche e precisamos de um árbitro!
Hylda revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso.
— Marcus, se eu não desligar esse telefone agora, quem vai morrer é você, e não vai ser uma morte metafórica!
— Viu? — Gabriele aproximou-se, tirando o telefone da mão de Hylda e desligando-o. — Você atrai o caos, Hylda. É por isso que não temos paz.
— Eu atraio a vida, Gabi. Você é que quer viver em um museu — provocou Hylda, levantando-se e puxando a esposa pela mão. — Vamos para o quarto. Eu não aguento mais ouvir o Lorenzo falar sobre as ex-namoradas dele.
A subida para o quarto foi uma operação tática. Clara as seguiu como uma sombra, carregando seu travesseiro e uma expressão de desculpas. No quarto, a luz era suave, mas o clima era de tensão absoluta.
— Eu vou dormir no divã ali no canto, doutora — disse Clara, apontando para o móvel estofado perto da janela. — Prometo que nem vão notar que eu estou aqui.
Gabriele deitou-se na cama, rígida, enquanto Hylda tirava as botas e a camiseta, exibindo as tatuagens sob a luz do abajur. Gabriele notou como Clara desviou o olhar, corando.
— Hylda, ponha uma camisa — ordenou Gabriele, a voz subindo um tom.
— No meu próprio quarto? Nem morta. Está calor — respondeu Hylda, jogando-se ao lado da esposa e passando o braço por cima dela.
— Temos visitas — sussurrou Gabriele, os dentes cerrados.
— Temos uma intrusa que você convidou indiretamente por ser uma chefe tão inspiradora — Hylda aproximou-se do ouvido de Gabriele, ignorando completamente a presença de Clara no canto do quarto. — Relaxa, Gabi. Ela está dormindo ou fingindo muito bem.
— Eu não consigo relaxar com essa... essa crise acontecendo — Gabriele olhou para o teto, sentindo a psicose religiosa cutucar a borda de sua mente novamente. O barulho da festa lá embaixo, a presença de estranhos em seu santuário, tudo parecia uma provação divina. — Talvez isso seja um sinal. Talvez a gente precise de mais ordem, mais decoro.
Hylda suspirou, sentindo a mudança no tom da esposa. Ela se inclinou, ficando por cima de Gabriele, bloqueando a visão de qualquer outra coisa no quarto.
— O único sinal que eu vejo aqui é que você está precisando de silêncio — Hylda selou os lábios de Gabriele com um beijo calmo, profundo, que forçou a advogada a fechar os olhos e focar apenas no presente. — Esquece a Clara. Esquece a Isabela. Esquece o Lorenzo. Sou só eu.
No canto do quarto, Clara cobriu o rosto com o cobertor, sentindo-se a pessoa mais deslocada do mundo, mas secretamente fascinada pela dinâmica de poder entre as duas mulheres que ela tanto admirava.
— Você é impossível — murmurou Gabriele contra os lábios de Hylda.
— E você está com ciúmes de uma aluna de vinte anos que mal sabe amarrar os sapatos — Hylda deu uma risadinha. — Admite, Gabi. Você me ama tanto que dói.
— Eu odeio você — mentiu Gabriele, puxando Hylda para mais perto. — E amanhã, você vai mandar todo mundo embora, nem que tenha que carregar aquela árvore caída com as próprias mãos.
— Combinado — disse Hylda, acomodando-se no peito de Gabriele. — Mas só se você prometer que, quando eles forem embora, a gente vai passar o resto do dia sem roupa nenhuma nessa casa.
Gabriele sentiu o coração desacelerar, a paz finalmente vencendo a paranoia.
— Prometo.
A madrugada seguiu com o som das risadas de Lorenzo no andar de baixo e o ronco suave de Clara no divã, mas no centro daquela cama grande, Gabriele e Hylda Carandini redescobriam que, apesar de toda a bagunça do mundo e das crises de fé ou de ciúme, a única verdade absoluta era a maneira como seus corpos se encaixavam no escuro, protegidos por um amor que nenhuma tempestade, ou estagiária ruiva, poderia destruir.