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Entre o amor e o gelo

O Doce Cárcere de Cetim e Obsessão

A manhã na Elias-Clark não começou com o sol, mas com o som autoritário dos passos de Miranda Priestly ecoando pelo corredor, um metrônomo de perfeição e terror. Para todos os funcionários que se encolhiam atrás de suas mesas, Miranda era a personificação do inverno. Mas, para a própria Miranda, o mundo ganhara cores vibrantes — especificamente o tom castanho profundo dos olhos de Andrea Sachs.

Miranda entrou em seu escritório, jogando o casaco de pele de lince sobre a mesa de Andrea sem olhar para a jovem.

— O café, moranguinho. E não ouse me dizer que a Starbucks estava com a fila lenta. Eu quero o meu latte em três minutos, ou vou considerar sua demissão como um ato de misericórdia para com a moda — disse Miranda, a voz carregada de uma frieza calculada que escondia o desejo fervoroso de puxar Andrea pelo colarinho e beijá-la até que ambas perdessem o fôlego.

Andrea, cujas mãos tremiam levemente ao pegar o casaco, sentiu o peso do olhar de Miranda em suas costas. Ela tinha certeza de que aquele apelido, "moranguinho", era a forma mais refinada de bullying que a editora-chefe já inventara.

— Sim, Miranda. Agora mesmo — respondeu Andrea, saindo apressada, quase tropeçando em seus próprios sapatos, que Miranda já havia marcado mentalmente para serem incinerados.

Assim que a porta se fechou, a postura de Miranda relaxou. Ela se sentou em sua cadeira de couro, fechando os olhos por um segundo e inalando o rastro do perfume de Andrea que ainda pairava no ar. Era um cheiro de sabonete de baunilha, terrivelmente comum, mas que nela parecia a fragrância mais luxuosa do mundo. Miranda sentia uma calma quase divina quando Andrea estava por perto, uma paz que a irritava e a fascinava na mesma medida.

Dez minutos depois, Nigel entrou na sala, encontrando Miranda encarando fixamente a porta por onde Andrea saíra.

— Você está babando, querida. É pouco profissional — brincou Nigel, cruzando os braços.

Miranda disparou um olhar que teria matado um homem menor.

— Não seja ridículo, Nigel. Eu estou apenas... avaliando o potencial de desastre daquela menina.

— Sei. O "potencial de desastre" que você não deixa sair de perto por mais de dez minutos — Nigel riu, aproximando-se. — Emily está à beira de um colapso porque você deu todas as tarefas importantes para a Andy. E Serena me contou que você mandou cancelar o jantar com o embaixador francês só porque a Andy tinha que cobrir um evento na Brooklyn Academy e você "coincidentemente" decidiu ir também.

— Ela é ingênua, Nigel. O mundo a devoraria viva se eu não estivesse vigiando — justificou Miranda, levantando-se e caminhando até a janela. — E aquele Thompson... ele continua circulando como um abutre.

— Ele é um homem jovem e atraente, Miranda. E a Andy é... bem, ela é uma boneca. É natural que ele queira um pedaço daquele morango.

Miranda virou-se bruscamente, os olhos azuis faiscando como gelo sob o sol do meio-dia.

— Ele não vai tocar nela. Eu vou destruir a carreira dele, a reputação dele e, se for preciso, a existência dele se ele chegar a menos de um metro dela novamente. Andrea é minha. Ela só ainda não sabe disso.

Nigel suspirou, um misto de diversão e preocupação.

— Ela acha que você a odeia, sabia? Ela chora no meu ombro dizendo que você a chama de moranguinho para zombar da aparência dela.

Miranda soltou uma risada curta, quase um ronronar.

— Deixe que ela pense assim por enquanto. O medo mantém a atenção dela focada em mim. E a atenção dela é a única coisa que me interessa neste prédio medíocre.

Nesse momento, Andrea entrou com o café, o rosto levemente corado pelo frio da rua.

— Aqui está, Miranda. Quente, como você pediu.

Miranda caminhou até ela, ignorando Nigel completamente. Ela pegou o copo, mas, ao fazê-lo, permitiu que seus dedos longos e frios roçassem deliberadamente a mão de Andrea. O toque foi breve, mas eletrizante. Andrea estremeceu, dando um passo para trás.

— Você está atrasada, moranguinho — murmurou Miranda, os olhos fixos nos lábios de Andrea. — E esse brilho labial... é novo?

— É... sim. Eu achei que... — Andrea começou a gaguejar, sentindo o coração disparar.

— É pavoroso — mentiu Miranda, enquanto sua mente gritava o quanto queria provar aquele brilho. — Mas combina com sua falta de discernimento. Saia. E mande a Emily entrar.

Andrea saiu quase correndo, sentindo as lágrimas arderem nos olhos.

— Viu? — sussurrou Andrea para Nigel no corredor. — Ela me odeia! Ela disse que meu brilho é pavoroso! Por que ela me chama de moranguinho se ela me detesta tanto?

Nigel apenas deu um tapinha no ombro dela, contendo o riso.

— Oh, Andy... você é tão cega. Aquele "pavoroso" da Miranda significa que ela quer te trancar num cofre e jogar a chave fora.

O dia prosseguiu com a intensidade habitual. Miranda estava impossível com todos. Ela humilhou um designer de sapatos até ele sair chorando e jogou um manuscrito inteiro no lixo na frente do autor. Mas, sempre que Andrea entrava para entregar uma correspondência, a tempestade cessava. O tom de voz de Miranda caía três oitavas, tornando-se uma carícia aveludada, mesmo quando as palavras eram críticas.

À noite, a obsessão de Miranda atingiu um novo patamar. Ela não conseguia se concentrar no Book. Cada vez que fechava os olhos, via a curva do pescoço de Andrea, a forma como ela mordia o lábio inferior quando estava nervosa. A necessidade de possuir Andrea, de moldá-la à sua imagem e mantê-la sob sua proteção absoluta, era uma fome física.

— Andrea — chamou Miranda pelo interfone, às nove da noite.

A jovem entrou na sala, visivelmente exausta.

— Sim, Miranda? Já terminei de organizar a agenda de Paris.

Miranda não respondeu de imediato. Ela apenas a observou. Andrea estava usando um suéter de lã azul que, embora comum, destacava a brancura de sua pele.

— Venha aqui — ordenou Miranda.

Andrea aproximou-se da mesa, cautelosa. Miranda levantou-se e deu a volta, parando perigosamente perto da assistente. Ela estendeu a mão e tocou o colar de prata que Andrea usava, um objeto simples que Miranda desprezava, mas que, por estar na pele de Andrea, tornava-se um tesouro.

— Este suéter... — Miranda começou, sua voz uma vibração baixa no peito de Andrea. — É feito de quê? Decepção?

— É lã, Miranda — respondeu Andrea, a voz falhando. A proximidade era demais. O perfume de Miranda — algo caro, floral e perigoso — estava embriagando seus sentidos.

— Amanhã, você não usará isso. Eu mandei entregar algumas caixas no seu apartamento. Considere um investimento da Runway. Ou melhor, considere um presente meu para que eu não tenha que olhar para esse desastre têxtil — Miranda aproximou o rosto do de Andrea, o nariz quase roçando a bochecha da morena. — Entendeu, moranguinho?

— Eu... eu não posso aceitar, Miranda. É muito...

— Você fará o que eu mandar — interrompeu Miranda, a mão agora descendo para o ombro de Andrea, apertando-o com uma possessividade que não deixava margem para dúvidas. — Você é minha assistente. E eu não permito que o que é meu pareça... ordinário.

Andrea sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia algo no olhar de Miranda que não era ódio. Era algo muito mais intenso, algo que Andrea, em sua ingenuidade, não conseguia rotular, mas que fazia seu corpo reagir de maneiras que ela não entendia.

— Agora vá para casa. E Andrea? — Miranda esperou que ela chegasse à porta. — Não atenda o telefone se for o Sr. Thompson. Ele não tem nada que você precise.

Andrea saiu da Elias-Clark confusa e com o coração acelerado. Por que Miranda se importava com quem ela falava? Por que Miranda a tocava daquela maneira? "Ela só quer me controlar", pensou Andrea. "Ela quer me transformar em uma de suas bonecas de luxo para depois me descartar."

Mal sabia ela que Miranda, naquele exato momento, estava ligando para o seu serviço de segurança privada.

— Eu quero um relatório detalhado de todos os passos de Andrea Sachs nas próximas vinte e quatro horas — ordenou Miranda ao telefone, a voz fria como aço. — E se Christian Thompson tentar se aproximar dela, quero que ele seja... dissuadido. Permanentemente.

Miranda desligou o telefone e caminhou até a janela, observando as luzes de Nova York. Ela sentia uma agitação que só diminuía quando Andrea estava ao seu alcance. A ideia de Andrea em seu apartamento, sozinha, era insuportável. Miranda queria que ela estivesse ali, em sua casa, em sua cama, protegida do resto do mundo que não a merecia.

— Logo, moranguinho — sussurrou Miranda para o reflexo no vidro. — Logo você entenderá que o mundo lá fora é frio demais para você. E que só nos meus braços você estará segura.

No dia seguinte, o escritório estava em polvorosa. Jacqueline Follet, a rival de Miranda na Runway francesa, estava de visita, e ela não escondia seu interesse por Andrea.

— Mas que criatura encantadora você encontrou, Miranda — disse Jacqueline, analisando Andrea durante uma reunião de pauta. — Ela tem uma beleza... clássica. Eu adoraria levá-la para Paris comigo.

Miranda, que estava folheando um layout, parou o movimento bruscamente. A tensão na sala tornou-se palpável. Nigel e Emily trocaram olhares de pânico. Eles sabiam que aquele era o terreno mais perigoso possível.

— Andrea não tem o menor interesse em Paris, Jacqueline — disse Miranda, a voz tão calma que era aterrorizante. — E Paris certamente não saberia o que fazer com ela. Ela é... uma especialidade local.

— Oh, eu discordo — insistiu Jacqueline, lançando um sorriso predatório para Andrea. — Ela parece ter muito a oferecer. O que você acha, chérie? Gostaria de conhecer o escritório da Avenue Montaigne?

Andrea, sentindo o olhar de Miranda queimando em sua pele, gaguejou:

— Eu... eu estou muito feliz aqui, Sra. Follet. A Sra. Priestly tem sido... muito instrutiva.

Miranda sentiu uma onda de satisfação e ciúme possessivo. Ela se levantou, caminhando até Andrea e colocando uma mão firme em sua cintura, um gesto que chocou a todos na sala, exceto Nigel.

— A reunião acabou — declarou Miranda. — Andrea, venha comigo. Temos que revisar os orçamentos da edição de setembro. Agora.

Ela arrastou Andrea para o escritório, fechando a porta com um estrondo. Assim que ficaram sozinhas, Miranda a pressionou contra a mesa.

— Você gostou do convite dela? — perguntou Miranda, a voz ríspida, o rosto a centímetros do de Andrea.

— Não! Quer dizer, foi apenas um convite, Miranda...

— Você não vai a Paris com ela. Você não vai a lugar nenhum com ninguém. Você pertence à Runway. Você pertence a este escritório. Você pertence a mim! — Miranda gritou a última parte, a respiração pesada, a fachada de gelo finalmente começando a rachar sob o peso de sua obsessão.

Andrea estava paralisada. As lágrimas começaram a rolar por seu rosto.

— Por que você me trata assim? — soluçou Andrea. — Você me odeia, você me insulta, você me controla... por que você simplesmente não me demite se eu sou tão horrível?

Miranda sentiu o coração apertar ao ver as lágrimas de Andrea. A vontade de beijá-las e sugá-las era quase incontrolável. Ela suavizou o toque, levando a mão ao rosto de Andrea, limpando uma lágrima com o polegar.

— Eu não te odeio, sua tola — sussurrou Miranda, a voz agora carregada de uma ternura dolorosa que Andrea nunca ouvira. — Eu apenas... eu não suporto a ideia de você longe da minha vista. Você é a única coisa real neste deserto de futilidade, moranguinho.

Andrea olhou para ela, confusa, os olhos castanhos buscando uma explicação.

— Você está rindo de mim de novo — disse Andrea, a voz baixa.

— Não — disse Miranda, aproximando-se ainda mais, o calor de seus corpos se fundindo. — Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida.

Miranda se afastou antes que perdesse o controle, voltando para sua mesa com a elegância de uma rainha.

— Vá limpar esse rosto. Você tem trabalho a fazer. E Andrea... as roupas que enviei? Use-as amanhã. Eu quero ver como o meu investimento fica em você.

Andrea saiu da sala em transe. Ela não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que algo havia mudado. O medo ainda estava lá, mas agora havia algo mais — uma curiosidade ardente, um calor que começava a florescer em seu peito sempre que Miranda a chamava por aquele apelido ridículo.

Enquanto isso, Miranda Priestly pegava o catálogo de joias da Harry Winston. Ela já estava planejando o próximo passo. Andrea precisava de mais do que roupas novas; ela precisava ser marcada como propriedade de Miranda. E diamantes, pensou Miranda, eram um ótimo começo para sinalizar ao mundo que o moranguinho já tinha dona.

A obsessão não era apenas um sentimento; era um plano de conquista. E Miranda Priestly nunca perdia uma batalha. Principalmente uma que envolvesse o coração — e o corpo — da única mulher que conseguira derreter o gelo de sua alma.

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