Entre o amor e o gelo
O Perfume da Obsessão e o Brilho do Perigo
A luz da manhã em Manhattan tinha um tom acinzentado, mas dentro do apartamento de Andrea Sachs, o cenário era uma explosão de luxo que parecia deslocada. Seis araras de roupas de seda, caxemira e couro legítimo ocupavam a sala de estar, acompanhadas por caixas de sapatos cujas solas vermelhas brilhavam como avisos de perigo. Andrea estava parada no meio do caos, segurando um vestido de lã virgem cor de creme que parecia custar mais do que o seu diploma universitário.
— Ela enlouqueceu — sussurrou Andrea para as paredes vazias. — Ela finalmente perdeu o juízo e decidiu que eu sou sua boneca particular.
O bilhete que acompanhava a entrega era curto, escrito na caligrafia elegante e afiada de Miranda: *“Não me faça ter uma enxaqueca ao olhar para você hoje. Use o creme. E o cinto de couro de crocodilo. Sem desculpas. M.P.”*
Andrea vestiu a roupa sentindo-se como uma impostora. O tecido abraçava suas curvas de uma maneira que ela nunca permitira antes, e o salto agulha a obrigava a manter uma postura ereta, quase desafiadora. Quando ela chegou à Elias-Clark, o silêncio que se seguiu à sua entrada foi ensurdecedor.
Emily, que estava tomando o seu terceiro café diet do dia, quase engasgou.
— O que... o que é isso? — Emily gaguejou, os olhos arregalados. — Isso é Chanel da coleção pré-outono? Como você conseguiu isso?
— Miranda mandou entregar no meu apartamento — respondeu Andrea, sentindo o rosto queimar. — Ela diz que minhas roupas dão enxaqueca nela. Ela me odeia tanto que prefere gastar uma fortuna a ter que olhar para o meu poliéster.
Nigel, que passava pelo corredor com uma prancheta, parou bruscamente. Ele assobiou, circulando Andrea como se ela fosse uma obra de arte em um museu.
— Minha nossa, o moranguinho foi colhido e transformado em uma sobremesa de cinco estrelas — Nigel sorriu, mas seus olhos brilhavam com o conhecimento do que aquilo realmente significava. — Ela não te odeia, Andy. Ela está te cercando. Só que você é jovem demais para entender a diferença entre uma jaula e um abraço.
Antes que Andrea pudesse questionar, o sinal sonoro do interfone tocou. O som era como um chicote.
— Andrea! — A voz de Miranda ecoou, mais grave do que o normal.
Andrea entrou no escritório, o coração martelando contra as costelas. Miranda estava sentada atrás de sua mesa, fingindo ler um relatório, mas seus olhos azuis subiram imediatamente para a figura de Andrea. O ar na sala pareceu se esgotar instantaneamente. Miranda sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo; a visão de Andrea naquele vestido creme, com a pele parecendo seda e os cabelos castanhos caindo em ondas suaves, era quase insuportável.
— Aproxime-se — ordenou Miranda.
Andrea caminhou até a mesa. Miranda levantou-se lentamente, contornando o móvel de mogno com a graça de uma pantera. Ela parou tão perto que Andrea podia sentir o calor emanando do corpo da chefe.
— O cinto está torto — mentiu Miranda.
Suas mãos, frias e firmes, tocaram a cintura de Andrea. Ela não apenas ajustou o cinto; ela deixou que seus dedos deslizassem pela curva do quadril de Andrea, uma carícia lenta e possessiva que fez a respiração da assistente falhar. Miranda fechou os olhos por um breve segundo, inalando o cheiro de Andrea. Ela estava calma. A presença daquela menina era o único sedativo que funcionava para sua alma atormentada.
— Melhor — sussurrou Miranda, a voz roçando o ouvido de Andrea. — Você está... aceitável. Quase apetitosa.
— Miranda, eu... obrigada pelas roupas, mas eu não posso aceitar tudo isso — Andrea tentou dizer, sua voz saindo pequena. — As pessoas vão falar. O Christian Thompson me ligou hoje de novo e disse que...
O nome de Thompson agiu como um gatilho. A mão de Miranda, que antes acariciava, agora apertou o braço de Andrea com uma força súbita. O olhar de Miranda tornou-se gélido, uma tempestade de ciúme puro.
— O que aquele verme queria? — perguntou Miranda, a voz baixa e perigosa.
— Ele queria me convidar para um evento literário. Ele disse que eu não deveria passar o tempo todo presa neste escritório, que eu precisava de ar puro e...
Miranda soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor.
— Ar puro? Ele quer te levar para um canto escuro e usar o pouco intelecto que tem para te seduzir, Andrea. Você é ingênua, mas não seja estúpida. Você não vai a lugar nenhum com ele. Você tem trabalho. Você tem obrigações comigo.
— Mas é meu tempo livre, Miranda! — Andrea protestou, a frustração começando a superar o medo. — Você não pode ser dona da minha vida! Você me trata como se eu fosse um móvel, me chama de apelidos bobos na frente de todos, ri da minha cara...
Miranda deu um passo à frente, prensando Andrea contra a mesa. A dominância era absoluta.
— Eu não estou rindo, moranguinho — disse Miranda, o rosto a milímetros do de Andrea. — Você acha que isso é uma piada? Você acha que eu gasto meu tempo e meus recursos com você por diversão?
— Então por que? Por que me quer por perto se eu sou tão "desastrosa" para a moda? — Andrea desafiou, os olhos castanhos brilhando com lágrimas de raiva.
Miranda sentiu a vontade de explodir. Ela queria gritar que não conseguia dormir sem pensar no rosto de Andrea. Que cada vez que Andrea saía da sala, o mundo perdia a cor. Que ela estava perdidamente, loucamente apaixonada por aquela assistente desajeitada que não sabia a diferença entre azul-celeste e azul-lápis-lazúli.
— Porque você é minha — afirmou Miranda, a voz tremendo levemente com a intensidade da emoção. — E eu não divido o que me pertence. That's all. Saia daqui antes que eu perca a paciência.
Andrea saiu da sala batendo os saltos com força, convencida de que Miranda era o ser mais detestável da face da Terra. Ela correu para o banheiro, tentando acalmar o coração.
Minutos depois, Serena entrou no banheiro e encontrou Andrea lavando o rosto.
— Ela atacou de novo? — perguntou Serena, encostando-se na parede.
— Ela é impossível, Serena! Ela me deu roupas caras e agora acha que é minha dona. Ela praticamente me proibiu de ver o Christian. Ela me odeia e quer me isolar de todo mundo para poder me torturar em paz!
Serena soltou uma risada alta, balançando a cabeça.
— Andy, meu doce, você é realmente muito inocente. Você não viu o jeito que ela te olhou quando você saiu da sala? Ela parecia que ia ter um colapso porque você mencionou outro homem. A Miranda não te odeia. Ela está obcecada por você. Ela está marcada, querida.
— Obcecada? — Andrea secou o rosto, confusa. — Não, ela me chama de moranguinho para me diminuir. Ela ri da minha ignorância.
— Ela te chama de moranguinho porque ela quer te comer viva — disse Serena, sem rodeios. — E ela não está rindo de você, ela está sorrindo *para* você, do jeito estranho dela. Nigel e eu fizemos uma aposta. Ele acha que você percebe em duas semanas. Eu acho que você vai precisar que ela te coloque contra a parede e te beije para entender.
Andrea ficou em silêncio, as palavras de Serena ecoando em sua mente. "Obcecada". "Marcada". Era impossível. Miranda Priestly, a mulher de gelo, apaixonada por ela? Era um pensamento absurdo.
No entanto, o resto do dia pareceu confirmar as suspeitas de Serena. Miranda estava em um estado de fúria absoluta com todos os outros. Ela demitiu um fotógrafo por telefone e fez uma editora de acessórios chorar por causa de uma fivela. Mas, sempre que Andrea se aproximava para entregar um café ou um documento, a aura de Miranda mudava instantaneamente. O rosto tenso relaxava, e seus olhos seguiam cada movimento de Andrea com uma fome mal disfarçada.
Às dez da noite, o escritório estava deserto, exceto pelas duas. Miranda estava em sua mesa, e Andrea terminava de organizar os arquivos.
— Andrea, venha aqui — chamou Miranda.
Andrea entrou, esperando mais uma crítica. Mas Miranda estava segurando uma pequena caixa de veludo azul-marinho.
— O que é isso? — perguntou Andrea.
— Jacqueline Follet teve a audácia de me enviar isso como um "agradecimento" pela visita — mentiu Miranda com perfeição. — É uma peça vulgar. Não combina comigo. Mas, como você insiste em usar aquele colar de prata que parece ter saído de uma máquina de chicletes, talvez isso ajude a elevar o seu nível.
Ela abriu a caixa, revelando um colar de diamantes discretos, mas de uma pureza impecável.
— Miranda, eu não posso...
— Vire-se — interrompeu Miranda, levantando-se.
Andrea obedeceu, sentindo um arrepio quando as mãos de Miranda afastaram seu cabelo. O toque da pele de Miranda contra a sua nuca foi elétrico. Miranda demorou mais do que o necessário para fechar o fecho do colar, seus dedos roçando a pele sensível do pescoço de Andrea.
— Você é tão doce — sussurrou Miranda, a boca encostada na nuca de Andrea. — E tão teimosa.
Andrea fechou os olhos, sentindo os joelhos fraquejarem. A proximidade, o perfume, o toque possessivo... pela primeira vez, a dúvida começou a se instalar. Será que as provocações, os apelidos e até a tirania eram, na verdade, uma forma distorcida de afeto?
— Miranda? — Andrea chamou, virando-se lentamente.
Os olhos azuis de Miranda estavam escuros, dilatados de desejo. Ela levou a mão ao rosto de Andrea, o polegar traçando o contorno de sua mandíbula. Por um momento, o tempo parou. A tensão sexual era tão palpável que o ar parecia vibrar.
— Vá para casa, moranguinho — disse Miranda, a voz falhando. — Antes que eu decida que você não vai sair daqui nunca mais.
Andrea saiu do prédio em um transe. O frio da noite de Nova York não foi suficiente para dissipar o calor que Miranda havia deixado em sua pele. Ela tocou o colar de diamantes, sentindo o peso da joia e o peso do olhar de Miranda.
Enquanto isso, no escritório, Miranda Priestly desabou em sua cadeira. Ela estava trêmula. A vontade de possuir Andrea estava se tornando uma tortura física. Ela pegou o telefone e ligou para Nigel.
— Eu não consigo, Nigel — confessou Miranda, a voz carregada de uma vulnerabilidade que ninguém jamais ouvira. — Eu a quero tanto que sinto que vou explodir. Eu vejo aqueles homens olhando para ela e sinto vontade de queimar o mundo.
— Tenha paciência, Miranda — respondeu Nigel do outro lado. — Ela é inocente, mas ela não é cega. Ela está começando a sentir o calor do seu sol.
— Eu não quero que ela sinta o calor — murmurou Miranda, olhando para a cadeira vazia de Andrea. — Eu quero que ela seja consumida por ele. Do mesmo jeito que eu fui desde o primeiro segundo em que ela entrou na minha sala.
Naquela noite, Miranda não dormiu. Ela passou as horas imaginando Andrea usando apenas aquele colar de diamantes, deitada em seus lençóis de seda. A obsessão havia atingido o ponto de não retorno. E, embora Andrea ainda achasse que estava vivendo um pesadelo de inimizade, Miranda já estava tecendo a teia de cetim que a manteria presa para sempre.
A caçada estava no auge, e o moranguinho não tinha para onde correr. Miranda Priestly não aceitava nada menos que a alma, o corpo e o coração de Andrea Sachs. E ela teria tudo, custasse o que custasse.