Entre o amor e o gelo
O Sussurro da Seda e a Rendição do Inverno
O sol da manhã seguinte não era apenas uma luz sobre Manhattan; para Miranda Priestly, era o holofote que iluminaria sua possessão mais preciosa. Ela estava sentada em sua poltrona de couro, o Book de setembro esquecido sobre o colo, enquanto seus olhos azuis vigiavam a porta de vidro com a precisão de um atirador de elite. Ela não havia dormido. A confissão da noite anterior ainda vibrava em seus lábios, uma vulnerabilidade que ela raramente se permitia, mas que com Andrea Sachs parecia a única linguagem possível.
Quando Andrea cruzou a entrada da Elias-Clark, o tempo pareceu desacelerar. Ela estava usando o vestido de seda preta que Miranda ordenara. O tecido fluía sobre seu corpo como tinta noturna, delineando cada curva que Miranda já havia memorizado em seus sonhos mais febris. O colar de diamantes brilhava contra a pele pálida do pescoço de Andrea, um selo de propriedade que fazia o sangue de Miranda ferver de satisfação.
— Ela chegou — murmurou Nigel, surgindo ao lado da mesa de Miranda com uma pilha de layouts. — E, se me permite dizer, você tem um gosto impecável para... investimentos, Miranda.
Miranda nem sequer se deu ao trabalho de olhar para ele. Seu foco era absoluto.
— Ela está radiante, Nigel. E terrivelmente assustada. É uma combinação deliciosa.
— Você vai acabar matando a menina de susto antes de conseguir o que quer — Nigel comentou, baixando a voz. — Ela passou a manhã no telefone com a Serena, perguntando se "adoração" era um código da Runway para "demissão iminente". A Andy ainda acha que você está jogando um jogo mental cruel.
— Deixe que ela ache — disse Miranda, levantando-se com a elegância de uma divindade. — A percepção da verdade será muito mais impactante quando ela não tiver mais para onde fugir.
Miranda caminhou até a área das assistentes. O silêncio caiu sobre o andar como um manto de gelo. Emily encolheu-se, mas Andrea permaneceu imóvel, seus olhos castanhos encontrando os de Miranda com uma mistura de desafio e uma nova, e perigosa, curiosidade.
— No meu escritório. Agora — ordenou Miranda, passando por Andrea e deixando o rastro de seu perfume caro, que agiu como um laço invisível no pescoço da jovem.
Assim que a porta se fechou, Miranda não foi para trás de sua mesa. Ela parou no centro da sala, esperando. Andrea entrou, fechando a porta com um clique que pareceu um tiro no silêncio.
— Você usou o vestido — observou Miranda, sua voz uma carícia rouca.
— Você não me deu muita escolha, Miranda — respondeu Andrea, tentando manter a voz firme, embora suas mãos tremessem. — Você nunca me dá escolha.
Miranda deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas.
— Escolha é uma ilusão para aqueles que não sabem o que querem, moranguinho. Eu sei exatamente o que eu quero. E eu sempre consigo o que quero.
— E o que você quer, Miranda? — Andrea perguntou, a voz subindo uma oitava. — Você me quer como sua assistente? Como sua boneca de vestir? Ou você só quer alguém para controlar porque o resto do mundo já te obedece por medo?
Miranda soltou uma risada curta, um som que não tinha nada de frio. Ela estendeu a mão e tocou a face de Andrea, o polegar traçando o lábio inferior da jovem com uma luxúria mal contida.
— Eu quero você, Andrea. Não a assistente. Não a boneca. Eu quero essa alma indomável que brilha através dessa sua ingenuidade irritante. Eu quero ser a única pessoa que você vê quando acorda e a última em que pensa antes de dormir. Eu quero que você perceba que este mundo de seda e diamantes não é nada sem você ao meu lado.
— Você está sendo... — Andrea começou, mas as palavras morreram em sua garganta quando Miranda se inclinou, seus rostos a centímetros de distância.
— Eu estou sendo sincera — sussurrou Miranda. — Algo que eu não sou com ninguém mais neste planeta.
O telefone de Andrea tocou no bolso do vestido, quebrando o momento. Ela o pegou mecanicamente. Era Christian Thompson. Antes que ela pudesse reagir, Miranda arrancou o aparelho de sua mão com uma agilidade predatória.
— O que você... — Andrea começou.
Miranda atendeu a chamada, mantendo os olhos fixos nos de Andrea.
— Sr. Thompson — disse Miranda, sua voz destilando veneno. — Andrea está ocupada sendo útil. Se você ligar para este número novamente, eu garantirei que sua próxima "grande história" seja escrita em um panfleto de supermercado no Alasca. Nunca mais a procure.
Ela desligou e jogou o telefone sobre o sofá de camurça.
— Miranda! Isso foi... — Andrea estava indignada, mas havia algo mais em seus olhos. Um brilho de excitação que ela não conseguia esconder.
— Foi necessário — retrucou Miranda, encurralando Andrea contra a parede de vidro. — Eu não tolero competidores, Andrea. Especialmente quando o prêmio sou eu quem descobri, eu quem lapidei e eu quem vou possuir.
— Você fala de mim como se eu fosse um objeto! — Andrea exclamou, mas não se afastou. O calor de Miranda era inebriante.
— Eu falo de você como a única coisa que importa — corrigiu Miranda, sua voz caindo para um sussurro perigoso. — Você acha que eu te chamo de moranguinho para te diminuir? Não, Andrea. Eu te chamo assim porque você é a única coisa doce em uma vida de amargura. Porque você é fresca, vibrante e... eu quero provar você.
Miranda inclinou-se, seu nariz roçando o pescoço de Andrea, bem acima do colar de diamantes. Ela inalou profundamente, sentindo o perfume de Andrea misturado com o aroma da seda nova.
— Você me odeia, moranguinho? — perguntou Miranda, a boca encostada na orelha de Andrea. — Diga-me que me odeia enquanto seu corpo queima sob o meu toque.
— Eu... eu deveria odiar — confessou Andrea, fechando os olhos e deixando a cabeça cair para trás, expondo a garganta para a mulher à sua frente. — Mas eu não consigo. Eu não entendo o que você está fazendo comigo.
— Eu estou te reivindicando — disse Miranda.
Ela se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Andrea. A vulnerabilidade que Andrea vira na noite anterior estava lá novamente, mas agora estava misturada com uma determinação feroz. Miranda levou a mão à nuca de Andrea, os dedos se embrenhando nos fios castanhos, puxando levemente para que Andrea olhasse para ela.
— Hoje à noite, no jantar da Galeria, você não sairá do meu lado — ordenou Miranda. — Você será a minha sombra, e eu serei a sua luz. E quando voltarmos... a conversa será outra.
Andrea assentiu, incapaz de proferir uma palavra. Ela sentia que estava caindo em um abismo, mas, pela primeira vez, não tinha medo do impacto.
O restante do dia foi um borrão. Miranda tratou a equipe editorial com uma crueldade renovada, demitindo dois estagiários e fazendo Serena refazer uma sessão de fotos inteira por causa de uma sombra "inadequada". Mas, para Andrea, ela era o oposto. Miranda enviava pequenos bilhetes por meio de Nigel, exigindo que Andrea bebesse água, ou perguntando se os sapatos novos estavam machucando seus pés.
— Ela está perdendo o controle — comentou Serena no camarim, enquanto ajudava Andrea a retocar a maquiagem para o jantar. — Eu nunca vi a Miranda assim. Ela está... humana. Mas só para você, Andy. Para o resto de nós, ela é o Godzilla de salto agulha.
— Eu não sei o que sentir, Serena — desabafou Andrea, olhando para seu reflexo. — Ela disse que me ama. Miranda Priestly disse que me ama. Isso parece um delírio.
— Não é um delírio, querida. É uma obsessão saudável — brincou Serena, embora seus olhos fossem sérios. — Ela te quer de um jeito que eu nunca vi ninguém querer outra pessoa. Apenas tome cuidado. Quando o gelo derrete, ele pode inundar tudo ao redor.
O jantar na Galeria de Arte Moderna foi o ápice da tensão. Miranda estava deslumbrante em um vestido de veludo azul-profundo, mas seus olhos nunca deixavam Andrea, que permanecia a um passo de distância, conforme ordenado. Christian Thompson estava lá, tentando desesperadamente chamar a atenção de Andrea, mas Miranda agia como um escudo intransponível.
— Miranda, querida, você está radiante — disse Jacqueline Follet, aproximando-se com seu sorriso de tubarão. — E sua assistente... ela parece uma joia rara. Eu estava pensando se ela não gostaria de passar uma temporada em Paris para aprender sobre...
— Andrea não vai a Paris, Jacqueline — interrompeu Miranda, sua mão pousando firmemente na parte inferior das costas de Andrea, um gesto de posse tão óbvio que fez Jacqueline erguer as sobrancelhas. — Ela tem compromissos inadiáveis em Nova York. Comigo.
Jacqueline soltou uma risadinha afetada.
— Entendo. Uma exclusividade, então?
— Total e absoluta — afirmou Miranda, seus olhos azuis desafiando qualquer um a discordar.
Durante todo o jantar, o toque de Miranda nas costas de Andrea era constante. Ora era uma pressão firme, ora um deslizar suave dos dedos sobre a seda, mantendo Andrea em um estado de alerta sensorial permanente. Andrea sentia que todos no salão estavam olhando, que Nigel e Serena estavam trocando sorrisos vitoriosos, mas ela não se importava. O mundo havia se reduzido àquela mão em suas costas e ao olhar intenso de Miranda.
Quando finalmente entraram na limusine para retornar, o silêncio era denso, carregado de uma eletricidade que fazia os pelos dos braços de Andrea se arrepiarem. Miranda não se sentou no banco oposto; ela se sentou ao lado de Andrea, tão perto que suas coxas se tocavam.
— Você se comportou muito bem, moranguinho — murmurou Miranda, sua mão subindo para o rosto de Andrea. — Mas eu vi como você olhou para aquele escritor quando ele entrou.
— Eu não olhei para ele, Miranda! Eu estava apenas...
— Não importa — Miranda a silenciou, colocando o polegar sobre seus lábios. — O que importa é que agora você está aqui. Comigo. E você não vai a lugar nenhum.
Miranda aproximou-se, seu hálito com cheiro de vinho caro e hortelã roçando o rosto de Andrea.
— Você ainda acha que eu te odeio? — perguntou Miranda.
— Eu acho que você é a mulher mais complicada que eu já conheci — respondeu Andrea, sua respiração acelerando. — E eu acho que... eu não consigo mais ficar longe de você.
Miranda soltou um suspiro de alívio, um som que pareceu desinflar semanas de tensão. Ela não esperou mais. Suas mãos envolveram o rosto de Andrea e ela a beijou. Não foi um beijo suave; foi uma colisão de necessidade, fome e meses de desejo reprimido. Andrea gemeu contra os lábios de Miranda, suas mãos agarrando o veludo do vestido da outra mulher, puxando-a para mais perto.
— Você é minha — sussurrou Miranda entre os beijos, sua voz carregada de uma paixão que beirava a loucura. — Minha, Andrea. Só minha.
— Sim — respondeu Andrea, entregando-se completamente. — Eu sou sua, Miranda.
Naquela noite, o apartamento de Miranda Priestly, normalmente um templo de silêncio e ordem, tornou-se o cenário de uma rendição total. Miranda não permitiu que Andrea fosse para sua própria casa. Ela a levou para o seu quarto, um santuário de tons neutros e tecidos luxuosos, onde a fachada da "Rainha do Gelo" finalmente desmoronou.
A obsessão de Miranda não era apenas mental; era física. Ela explorou cada centímetro do corpo de Andrea com uma adoração que beirava o religioso. Ela mudou a vida de Andrea em uma noite, mas já estava planejando mudar o resto. Enquanto Andrea dormia em seus braços, exausta e marcada pelos beijos de Miranda, a platinada observava o rosto da jovem sob a luz da lua.
— Você nunca mais sairá deste quarto, moranguinho — murmurou Miranda, beijando a testa de Andrea. — Eu vou construir um mundo de seda e ouro para você, e ninguém, nem Thompson, nem Jacqueline, nem o próprio tempo, tirará você de mim.
Miranda finalmente fechou os olhos, sentindo o calor de Andrea contra o seu coração. Pela primeira vez em anos, ela não estava sozinha. Ela tinha seu moranguinho. E ela o guardaria com a ferocidade de um diabo que finalmente encontrara seu paraíso.
A manhã traria novas exigências, novas roupas e o choque da realidade para o escritório da Runway. Mas ali, no silêncio da madrugada, a batalha terminara. A inimizade fora consumida pelo fogo, e o que restava era uma obsessão tão pura e vasta que o mundo inteiro pareceria pequeno demais para contê-la. Miranda Priestly tinha Andrea Sachs, e ela nunca, jamais, a deixaria ir.