Entre o amor e o gelo
O Aroma do Desejo e a Armadilha de Cristal
A semana em Nova York havia se transformado em um borrão de tecidos caros, prazos impossíveis e a presença constante e avassaladora de Miranda Priestly. Para Andrea, cada dia era um campo minado. Ela sentia que estava sendo observada por um falcão, um predador que não apenas criticava seu trabalho, mas parecia querer dissecar sua alma. O que Andrea não conseguia entender era por que, em meio a tanto "ódio" e "desprezo", Miranda continuava a enchê-la de presentes que beiravam o absurdo.
Naquela manhã de quinta-feira, Andrea chegou à Elias-Clark usando um vestido de seda cor de vinho que Miranda havia "sugerido" — o que, no vocabulário da Runway, significava uma ordem direta sob pena de morte social. O colar de diamantes que recebera na noite anterior pesava em seu pescoço, não pelo quilate, mas pelo significado sombrio que ela atribuía a ele: uma coleira de luxo.
— Ela está pior hoje — sussurrou Emily assim que Andrea se sentou. — Demitiu o editor de layout porque ele usava meias brancas. E ela está perguntando por você a cada cinco minutos. O que você fez, Andy?
— Eu não fiz nada, Emily! — Andrea exclamou, baixinho. — Ela me odeia, você sabe disso. Ela me chama de moranguinho como se eu fosse uma criança idiota e me dá essas roupas só para rir da minha cara quando eu tropeço nesses saltos.
Nigel, que passava com uma arara de roupas da Valentino, parou e olhou para Andrea com uma mistura de pena e divertimento.
— Moranguinho, se a Miranda risse de você, ela faria isso na frente de todo mundo para te humilhar. Mas ela só faz essas "piadas" quando vocês estão sozinhas ou em círculos muito restritos. Você é um caso perdido de ingenuidade.
Antes que Andrea pudesse responder, o som seco e cortante do interfone ecoou.
— Andrea. Agora.
Andrea respirou fundo e entrou no santuário de vidro. Miranda estava de pé, de costas para a porta, observando a vista da Quinta Avenida. O sol refletia em seu cabelo platinado, criando uma aura quase angelical que contrastava terrivelmente com a reputação de diabo que ela carregava.
— Você demorou doze segundos a mais do que o necessário — disse Miranda, sem se virar. — O café estava frio, ou você estava ocupada demais ouvindo as fofocas inúteis daquela secretária incompetente?
— Desculpe, Miranda. Eu estava apenas...
— Silêncio — Miranda virou-se bruscamente. Seus olhos azuis percorreram o corpo de Andrea com uma intensidade que fez a morena recuar um passo. — O vestido ficou bom. Mas o cabelo... está um desastre. Parece que você lutou com um ventilador e perdeu.
Miranda caminhou em direção a ela. O espaço entre as duas encolheu até que Andrea pudesse sentir o calor emanando do corpo da editora. Miranda levantou a mão e, com uma delicadeza que Andrea interpretou como puro sarcasmo, começou a ajeitar uma mecha de cabelo atrás da orelha da assistente.
— Tão doce, tão perdida — murmurou Miranda, sua voz descendo para um tom aveludado que causou arrepios na espinha de Andrea. — Você é como um moranguinho silvestre, Andrea. Precisa de mãos firmes para não ser esmagada.
— Por que você faz isso, Miranda? — Andrea perguntou, a voz trêmula de frustração. — Por que me provoca o tempo todo? Se eu sou tão ruim, por que não me manda embora? Por que me mantém aqui, me chamando por esses nomes e me dando coisas que eu não pedi?
Miranda sorriu. Não era o sorriso de escárnio que ela dava aos designers, mas algo mais profundo, algo que brilhava em seus olhos com uma chama de possessividade absoluta. Ela aproximou o rosto do de Andrea, o nariz quase roçando o da morena.
— Porque eu gosto de ver você tentar entender o mundo, Andrea. E porque você é minha. Cada fibra desse seu ser ingênuo pertence a este escritório, e por extensão, a mim. That's all.
A porta se abriu subitamente, quebrando o feitiço. Christian Thompson entrou com a arrogância de quem se sentia dono do mundo.
— Miranda, sinto muito interromper, mas vim buscar a Andy para o almoço. Nós combinamos, lembra, querida?
O clima na sala mudou instantaneamente de uma tensão sensual para uma frieza ártica. Miranda se afastou de Andrea, mas seus olhos nunca deixaram a assistente. Andrea sentiu um calafrio; a expressão de Miranda era a de alguém que acabara de ver um intruso em sua propriedade privada.
— Andrea tem muito trabalho, Sr. Thompson — disse Miranda, a voz saindo como uma lâmina de gelo. — Ela não tem tempo para almoços triviais com escritores de segunda categoria que buscam relevância à custa da minha equipe.
— Ah, vamos lá, Miranda — Christian sorriu, aproximando-se de Andrea e tocando seu braço. — É apenas uma hora. Prometo trazê-la de volta inteira.
Miranda deu um passo à frente, sua presença preenchendo a sala de uma forma sufocante.
— Tire a mão dela — ordenou Miranda. A voz não foi alta, mas carregava uma autoridade que fez Christian hesitar. — Agora.
— Miranda, está tudo bem — Andrea tentou intervir, vendo a fúria nos olhos da chefe. — Eu posso ir e voltar rápido...
— Você não vai a lugar nenhum — Miranda sentenciou, voltando-se para Andrea. — Vá para a mesa de Nigel e ajude-o com a seleção de acessórios para o editorial de inverno. Agora, Andrea!
Andrea, assustada com a violência da reação de Miranda, saiu da sala quase correndo. Ela não viu o olhar que Miranda lançou a Christian, um olhar de promessa de destruição total.
— Se você tocar nela novamente, Christian — disse Miranda, a voz baixa e letal —, eu farei com que a única coisa que você consiga publicar pelo resto da sua vida seja o obituário da sua própria carreira. Saia da minha vista.
Quando Christian saiu, bufando de raiva, Miranda desabou em sua cadeira. Suas mãos tremiam levemente. O ciúme era uma fera faminta em seu peito. Ela não suportava a ideia de outro par de mãos tocando a pele de Andrea, de outro homem vendo o brilho naqueles olhos castanhos.
Enquanto isso, no ateliê, Andrea estava desabafando com Nigel e Serena.
— Ela é louca! — Andrea exclamou, jogando-se em uma cadeira. — Ela quase atacou o Christian! Ela me trata como se eu fosse um objeto, uma propriedade dela. Ela me odeia tanto que não quer nem que eu tenha amigos.
Nigel e Serena trocaram um olhar cúmplice.
— Andy — começou Serena, sentando-se ao lado dela —, você realmente acha que aquilo foi ódio?
— O que mais seria? Ela gritou comigo, me proibiu de sair e olhou para o Christian como se fosse matá-lo!
— Querida, aquilo foi ciúme — disse Nigel, ajustando um óculos escuro. — Ciúme puro, destilado e de altíssima qualidade. A Miranda está caidinha por você. Ela está tão apaixonada que mal consegue manter a fachada de profissionalismo.
Andrea soltou uma risada nervosa.
— Vocês estão delirando. A Miranda Priestly não se apaixona. Ela consome pessoas. E ela está me consumindo porque eu sou um alvo fácil. Ela ri de mim, Nigel. Ela me chama de moranguinho para tirar sarro da minha cara!
— Ela te chama de moranguinho porque ela quer te devorar no café da manhã — retrucou Serena. — Você não vê como ela fica calma quando você entra na sala? Antes de você chegar hoje, ela estava jogando pastas nos editores. Você entrou, e ela virou uma monja... uma monja muito bem vestida e perigosa, mas calma.
Andrea balançou a cabeça, recusando-se a acreditar. Para ela, Miranda era o inimigo. Uma mulher poderosa que se divertia em controlar cada aspecto de sua vida. Ela não conseguia ver o amor escondido atrás das provocações, nem a adoração mascarada de crítica.
O dia continuou sob uma tensão insuportável. Miranda não chamou Andrea novamente até o final do expediente. Quando as luzes da cidade começaram a brilhar através das janelas da Elias-Clark, o escritório ficou em silêncio. Emily já havia saído, e Nigel dera um "boa sorte" silencioso antes de partir.
— Andrea, traga o Book — a voz de Miranda veio pelo interfone.
Andrea entrou. A sala estava na penumbra, iluminada apenas pelas luzes dos prédios vizinhos e por uma pequena luminária na mesa de Miranda. A platinada estava sentada, parecendo cansada, mas seus olhos brilharam com uma luz intensa quando Andrea se aproximou.
— Deixe-o aqui — disse Miranda, apontando para a mesa.
Andrea colocou o Book e fez menção de sair, mas Miranda foi mais rápida. Ela se levantou e bloqueou o caminho de Andrea, fechando a porta com um clique suave.
— Você ainda está brava comigo pelo almoço? — perguntou Miranda, a voz rouca e perigosamente próxima.
— Eu não estou brava, Miranda. Eu estou confusa. Eu não entendo por que você se importa tanto com o que eu faço fora deste escritório.
Miranda deu um passo à frente, forçando Andrea a recuar até que suas costas batessem na porta fechada. A editora colocou as mãos na porta, uma de cada lado da cabeça de Andrea, encurralando-a.
— Eu me importo porque o que é meu não deve ser desperdiçado com mediocridade — sussurrou Miranda. — E aquele homem é a definição de medíocre.
— Eu não sou sua, Miranda — Andrea disse, embora sua voz não tivesse convicção. O calor de Miranda estava desarmando suas defesas.
— Não? — Miranda inclinou a cabeça, seu nariz roçando o pescoço de Andrea, inalando o perfume de baunilha e morango que parecia emanar da pele da jovem. — Então por que seu coração está batendo tão rápido? Por que você treme quando eu te toco?
Miranda levou uma das mãos ao rosto de Andrea, traçando o contorno de seus lábios com o polegar. Andrea fechou os olhos, sentindo uma onda de desejo que ela tentara negar por semanas.
— Você me odeia — murmurou Andrea, quase como uma súplica.
— Eu adoro você — corrigiu Miranda, a voz falhando pela primeira vez. — Eu adoro cada centímetro dessa sua inocência irritante. Eu adoro o jeito que você me desafia com esses olhos castanhos. E eu odeio o fato de que eu não consigo passar um minuto sem querer te ter só para mim.
Andrea abriu os olhos, chocada. A vulnerabilidade no rosto de Miranda era real. Não havia deboche, não havia jogo. Havia apenas uma necessidade crua e absoluta.
— Miranda... — Andrea começou, mas foi interrompida.
Miranda inclinou-se, seus lábios quase tocando os de Andrea.
— Diga que você me quer, moranguinho. Diga que você sente esse fogo tanto quanto eu.
O silêncio que se seguiu foi carregado de eletricidade. Andrea olhou para a mulher à sua frente — a mulher que ela achava que a odiava, mas que agora a olhava com uma fome que prometia consumi-la por inteiro. A ingenuidade de Andrea estava começando a ruir, dando lugar a uma percepção avassaladora.
— Eu... eu não sei o que sentir — confessou Andrea, as lágrimas começando a brotar. — Você me assusta.
Miranda suavizou a expressão, encostando a testa na de Andrea.
— Eu sei. Eu assusto a mim mesma quando se trata de você. Mas eu não vou deixar você ir. Nunca. Você vai aprender a me amar, Andrea. Porque eu já te amo mais do que o mundo pode suportar.
Miranda se afastou ligeiramente, apenas o suficiente para olhar nos olhos de Andrea. Ela sabia que ainda não era o momento de forçar o beijo, não até que Andrea estivesse completamente rendida. Mas ela podia sentir a resistência da jovem diminuindo.
— Vá para casa — disse Miranda, sua voz voltando ao tom de comando, mas com uma doçura subjacente. — O carro está lá embaixo te esperando. E Andrea?
— Sim, Miranda?
— Use o vestido de seda preta amanhã. Nós temos um jantar na Galeria. E eu quero que todos saibam exatamente a quem você pertence.
Andrea saiu da sala com as pernas trêmulas. Ela entrou no elevador e encostou-se na parede, tentando processar o que acabara de acontecer. Miranda Priestly, a Rainha do Gelo, acabara de declarar sua obsessão. E, pela primeira vez, Andrea não sentiu medo. Sentiu um calor estranho e viciante começar a queimar em seu peito.
Enquanto o carro a levava para casa, Andrea olhou para o colar de diamantes no reflexo do vidro. Ela ainda achava que Miranda era difícil, talvez até cruel em seus métodos, mas agora ela sabia: o "moranguinho" não era um insulto. Era uma promessa. Uma promessa de que Miranda Priestly faria qualquer coisa para manter seu pequeno moranguinho seguro em seu jardim de cristal, longe de qualquer um que ousasse cobiçar o que era dela.
E no fundo de sua mente, Andrea começou a perceber que, talvez, ela não quisesse ser salva daquela armadilha de luxo e obsessão. Talvez, ser propriedade de Miranda Priestly fosse o destino mais doce que ela poderia imaginar.