Entre o mar e sobras do passado..
O Sal das Lágrimas e o Vinho das Sombras
A música no Salão de Jade parecia ter se tornado um ruído de fundo distante, como o zumbido de abelhas em um jardim de verão. Para Nico, o mundo havia se reduzido ao espaço de poucos centímetros que o separava de Percy Jackson. O calor que emanava do corpo do filho de Poseidon era quase ofensivo para alguém que passava tanto tempo cercado pelo frio do Estige, mas, ao mesmo tempo, era a única coisa que o mantinha ancorado à realidade.
Ao redor deles, o choque inicial da multidão havia se transformado em um burburinho frenético. Nico podia sentir os olhos de Hera queimando em suas costas — a deusa do casamento certamente não aprovava aquela quebra de protocolo —, e a aura de seu pai, Hades, emanava uma satisfação sombria que era quase palpável.
— Você está fazendo isso de propósito — murmurou Nico, a voz abafada pelo tecido da túnica de Percy enquanto eles giravam lentamente. — Adora causar um escândalo, não é?
Percy soltou uma risada baixa, um som que vibrou no peito de Nico.
— Talvez um pouco. Mas admito que a expressão no rosto de Ares valeu cada segundo. Ele parece que vai explodir a qualquer momento.
— Ele não é o único — Nico retrucou, arriscando um olhar para a periferia da pista de dança. — Os outros filhos dos Três Grandes parecem prontos para declarar guerra. Você era o prêmio da noite, Percy. E agora está aqui, dançando com o "Garoto Fantasma".
Percy parou de girar, mas não soltou as mãos de Nico. Ele o segurou com um pouco mais de força, obrigando Nico a olhar diretamente naquelas orbes verdes que lembravam um oceano antes de uma tempestade.
— Eu não sou um prêmio, Nico. E você não é um fantasma. Pelo menos não para mim.
O silêncio que se seguiu entre eles foi carregado de algo que Nico não sabia nomear. Era uma mistura de medo e uma esperança dolorosa que ele tentava enterrar há anos. Antes que ele pudesse responder, no entanto, a música cessou abruptamente.
Um trovão ecoou pelo teto estrelado, embora não houvesse nuvens. Zeus, sentado em seu trono central, pigarreou. O som foi como uma explosão de estática.
— A celebração é para a união e a linhagem — declarou o Rei dos Deuses, sua voz preenchendo cada fresta do salão. — Poseidon, parece que seu filho tem gostos... peculiares.
Poseidon, que estava recostado em seu trono de coral com um tridente em miniatura servindo como palito de dentes, deu um sorriso largo e desafiador para o irmão.
— Ele tem bom gosto, Zeus. O Submundo sempre teve uma elegância que falta ao seu céu barulhento.
Hades, do outro lado, apenas inclinou a taça de vinho cor de sangue em direção ao irmão do mar, um gesto de reconhecimento silencioso. Nico sentiu o rosto queimar. Ele odiava ser o centro das atenções, especialmente quando os deuses o tratavam como uma peça em um tabuleiro de xadrez.
— Vamos sair daqui — sussurrou Percy no ouvido de Nico.
— O quê? Ficou louco? Não podemos simplesmente sair no meio do baile do Olimpo. Meu pai me transformaria em um dente-de-leão.
— Ele não vai — Percy piscou, a travessura brilhando em seus olhos. — Ele está ocupado demais aproveitando a irritação de Zeus. Confie em mim.
Antes que Nico pudesse protestar, Percy o puxou pela mão. Eles não correram, o que seria indigno para dois príncipes, mas caminharam com uma pressa decidida em direção às varandas que davam para os jardins suspensos do Olimpo. Nico sentia o olhar de centenas de seres em sua nuca, mas a mão de Percy era um âncora firme.
Assim que cruzaram as portas de vidro e o ar fresco da noite os atingiu, o som da festa diminuiu para um murmúrio abafado. O jardim estava iluminado por flores que brilhavam com luz própria, refletindo-se nas fontes de água cristalina.
Nico soltou a mão de Percy, abraçando o próprio corpo enquanto caminhava até a murada de mármore. Lá embaixo, as luzes de Manhattan brilhavam como joias descartadas, um mundo de mortais que não faziam ideia do drama divino que ocorria acima de suas cabeças.
— Por que você fez aquilo, Percy? — perguntou Nico, sem se virar. — Falo sério. Aquele discurso sobre eu ser "real"... você não precisa ter pena de mim.
Percy se aproximou, apoiando os cotovelos na murada ao lado dele. O cheiro de mar estava mais forte agora, misturado ao aroma das flores noturnas.
— Você acha que foi pena? — Percy perguntou, sua voz perdendo o tom brincalhão e assumindo uma seriedade que sempre pegava Nico de surpresa. — Nico, eu passei os últimos meses vendo você se esconder nas sombras, agindo como se não pertencesse a lugar nenhum. Eu vi você olhar para as outras pessoas como se elas fossem de outra espécie.
— E elas são — Nico retrucou, sua voz amarga. — Elas são cheias de vida, de luz. Eu sou o filho de Hades, Percy. Eu guardo os mortos. Eu sinto o cheiro da decomposição antes mesmo dela começar. Não há lugar para mim em um baile, ou em um trono de coral, ou... em qualquer lugar que não seja o escuro.
Percy virou-se para ele, encostando as costas no mármore.
— Sabe o que eu vejo quando olho para você? — Percy perguntou, ignorando o protesto de Nico. — Eu não vejo morte. Eu vejo alguém que sobreviveu a coisas que teriam destruído qualquer outro semideus. Eu vejo alguém que tem uma lealdade tão profunda que assusta. E, honestamente? Eu vejo alguém que fica incrivelmente bem em veludo.
Nico sentiu um riso nervoso escapar de sua garganta.
— Você é um idiota, Jackson.
— Um idiota que você acabou de chamar pelo primeiro nome — Percy sorriu, e desta vez o sorriso não era para o público, era apenas para Nico. — Olha, eu sei que seu pai quer um consorte. E eu sei que meu pai está esperando que eu escolha uma princesa de algum reino subaquático para fortalecer alianças. Mas eu nunca fui bom com alianças políticas.
Nico finalmente o encarou. A pele pálida de Nico parecia quase etérea sob a luz da lua, e seus olhos pretos como ébano estavam úmidos, embora ele jamais admitisse que estava prestes a chorar.
— O que você está sugerindo? — Nico perguntou, a voz mal passando de um sussurro.
Percy deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Nico. A diferença de altura era pequena, mas a presença de Percy parecia preencher todo o jardim.
— Estou sugerindo que, se você for governar o Submundo, talvez precise de alguém que não tenha medo de se molhar. Alguém que possa trazer um pouco de sal para aquele ar parado.
Nico sentiu seu coração martelar contra o peito. A ideia era absurda. Um filho de Poseidon e um filho de Hades. O mar e o abismo. Eram forças que deveriam se repelir, mas ali, no silêncio da noite, pareciam as únicas peças de um quebra-cabeça que se encaixavam.
— Meu pai chamaria isso de "consorte" — Nico disse, tentando manter a voz firme. — Mas você sabe o que isso realmente significa no mundo dos deuses. É um compromisso eterno.
— Eu sei — Percy respondeu, sua mão subindo para tocar gentilmente o rosto de Nico. Os dedos de Percy estavam quentes contra a pele gélida, e Nico inclinou-se involuntariamente para o toque. — E eu nunca fui de fugir de compromissos difíceis.
Nico fechou os olhos, sentindo o calor da mão de Percy se espalhar por seu rosto.
— Por que eu? — ele perguntou novamente, desta vez sem amargura, apenas com uma curiosidade genuína e vulnerável.
— Porque quando eu estou com você, Nico, eu não preciso ser o "herói do Olimpo". Eu não preciso ser o salvador de ninguém. Você me vê como eu sou, com todas as minhas falhas e minha teimosia. E você ainda fica por perto.
Nico abriu os olhos e viu a sinceridade crua no rosto de Percy. Não era um jogo. Não era uma provocação para os outros deuses. Era algo real, algo que Nico nunca permitiu a si mesmo desejar.
— As pessoas vão odiar isso — Nico comentou, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios. — Nossos pais vão brigar por séculos sobre onde passaremos os feriados.
Percy riu, e o som foi a música mais bonita que Nico já ouvira.
— Deixe que briguem. O mar e as sombras sempre tiveram uma conexão, Nico. As profundezas do oceano são tão escuras quanto o seu reino. Acho que vamos nos dar bem.
Nico respirou fundo, o cheiro de ozônio e terra molhada preenchendo seus pulmões. Ele estendeu a mão e, desta vez, foi ele quem entrelaçou seus dedos nos de Percy.
— Eu não sou fácil de lidar, Percy. Eu sou melancólico, eu me irrito com facilidade e eu prefiro a companhia de fantasmas à de pessoas vivas na maioria dos dias.
— E eu sou impulsivo, não calo a boca e atraio monstros como se fosse um ímã — Percy rebateu, apertando a mão de Nico. — Parece que somos um par perfeito de desastres.
Eles ficaram ali por um longo tempo, observando a cidade abaixo, dois príncipes de reinos opostos encontrando um terreno comum no silêncio da noite. A festa lá dentro continuava, mas para Nico, o verdadeiro baile havia acabado de começar.
— Nico? — Percy chamou baixinho.
— Sim?
— Aquela oferta de dança ainda está de pé. Mas desta vez, sem a plateia.
Percy puxou Nico para um espaço aberto entre as roseiras de prata. Não havia música de harpas, apenas o som do vento soprando entre as colunas do Olimpo e o ritmo distante da cidade. Eles começaram a se mover, um passo de cada vez, de forma desajeitada no início, mas logo encontrando um ritmo próprio.
Nico encostou a cabeça no ombro de Percy, fechando os olhos. Pela primeira vez em sua vida, o peso do Submundo não parecia um fardo. Ele não era apenas o filho de Hades, o rei das sombras. Ele era Nico di Angelo, e ele estava nos braços de alguém que não tinha medo de sua escuridão.
— Sabe — Nico murmurou contra o pescoço de Percy —, se você contar para alguém que eu dancei duas vezes em uma noite, eu te mando direto para o Tártaro.
Percy soltou uma risada vibrante, girando Nico sob o luar.
— Seu segredo está seguro comigo, Príncipe. Contanto que você prometa me deixar visitar o Submundo sem que Cérbero tente me comer.
— Vou pensar no seu caso, Jackson.
Enquanto dançavam, as sombras ao redor de Nico pareciam dançar com eles, não mais como espectros assustadores, mas como fitas de seda negra que emolduravam a luz que Percy trazia. O mar e o abismo haviam finalmente se encontrado, e o Olimpo nunca mais seria o mesmo.
Longe dali, no salão principal, Hades observava a varanda vazia com um meio sorriso, enquanto Poseidon levantava sua taça em um brinde silencioso. O destino dos dois semideuses estava selado, não por profecias ou ordens divinas, mas por uma escolha feita entre sorrisos e sombras.
Nico di Angelo finalmente entendeu que não precisava merecer o amor. Ele só precisava ter coragem suficiente para aceitá-lo quando ele viesse com cheiro de mar e olhos verdes. E, pela primeira vez, ele estava pronto para ser mais do que um fantasma. Ele estava pronto para viver.