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Entre o mar e sobras do passado..

O Veredito da Coruja e o Veneno da Terra

A varanda, que momentos antes era um refúgio de silêncio e promessas sussurradas, foi subitamente invadida pelo som metálico de saltos contra o mármore e o burburinho de vozes que carregavam tudo, menos boas intenções. Nico e Percy se afastaram minimamente, mas as mãos continuaram entrelaçadas, um elo de desafio contra a intrusão.

Annabeth Chase liderava o grupo que saía do salão, mas sua expressão não era de julgamento. Seus olhos cinzentos, tempestuosos e analíticos, varreram a cena com a rapidez de uma estrategista avaliando um campo de batalha. Atrás dela, no entanto, o clima era diferente. Um grupo de semideuses, encabeçado por algumas filhas de Deméter e filhos de Ares, trazia consigo o veneno da fofoca olímpica.

— Vejam só — sibilou uma das filhas de Deméter, uma garota chamada Liana, cujo vestido verde-folha parecia murchar diante da aura sombria de Nico. — O salvador do Olimpo finalmente perdeu o juízo. Dançando com o "Garoto Fantasma" como se ele fosse algo além de um lembrete de que todos vamos morrer.

Nico sentiu o frio familiar subir por sua espinha, mas não era o frio reconfortante do Submundo; era a rigidez da autodefesa. Ele tentou soltar a mão de Percy, sentindo a velha necessidade de se dissolver nas sombras e desaparecer, mas Percy apertou seus dedos com ainda mais força.

— Ele é ridículo — continuou Liana, ganhando confiança ao ver que outros semideuses riam baixo. — Olhem para ele. Parece um cadáver vestido para um funeral vitoriano. Percy, você poderia ter qualquer um de nós. Por que escolher o que há de mais deprimente no mundo?

Annabeth deu um passo à frente, cruzando os braços. Sua postura era de uma autoridade inquestionável.

— Já chega, Liana — disse Annabeth, sua voz fria como o gelo ártico. — A única coisa ridícula aqui é a sua incapacidade de enxergar além do seu próprio nariz.

Liana soltou uma risada anasalada, olhando para Annabeth com desdém.

— Ah, claro. A filha de Atena defendendo o indefensável. Você sempre teve um ponto fraco pelos esquisitos, Annabeth. Mas olhe para eles! É uma abominação visual. O mar e a morte? Isso não é uma aliança, é uma piada de mau gosto. Você é ridícula por apoiar isso.

O ar ao redor de Percy pareceu subitamente carregado de eletricidade estática, e o som da fonte próxima tornou-se um rugido abafado. Antes que Nico pudesse processar a ofensa dirigida à sua primeira amiga, Percy deu um passo à frente, colocando-se entre Annabeth e a multidão de críticos.

— Repita isso — disse Percy, sua voz soando como o aviso de um tsunami. — Repita o que você disse sobre a Annabeth.

Liana recuou um passo, mas o orgulho ferido a impediu de calar a boca.

— Eu disse que ela é ridícula. E que esse... esse fantasma que você está segurando não passa de uma mancha nesta festa. Ele não pertence ao Olimpo. Ele pertence aos buracos de onde saiu.

O chão da varanda tremeu levemente. Nico sentiu o poder de Percy borbulhando, uma força indomável que ameaçava quebrar o mármore sob seus pés. Mas Nico também sentiu algo florescer dentro de si: uma raiva protetora. Ele não se importava com o que diziam dele — ele estava acostumado com o desprezo —, mas ninguém chamaria Annabeth de ridícula por ser leal, e ninguém falaria de Percy como se ele tivesse cometido um erro.

Nico deu um passo à frente, alinhando-se a Percy. As sombras ao redor de seus pés começaram a se alongar, tornando-se sólidas e afiadas como lâminas de obsidiana.

— Você fala de flores e vida, Liana — disse Nico, sua voz baixa, mas carregada com a autoridade de um príncipe que governa o repouso eterno —, mas sua alma cheira a ervas daninhas. Você tem medo da morte porque sabe que, quando chegar ao meu reino, não terá nada além da sua própria amargura para lhe fazer companhia.

Percy olhou de soslaio para Nico, um brilho de orgulho atravessando a raiva em seus olhos verdes. Ele então voltou sua atenção para o grupo.

— Annabeth é a pessoa mais inteligente e leal que este conselho já viu — afirmou Percy, cada palavra pesada como chumbo. — E Nico... Nico é mais homem do que qualquer um de vocês que se esconde atrás de comentários maldosos. Se vocês têm um problema com quem eu escolho para dançar, ou com quem eu escolho para estar ao meu lado, o problema é inteiramente de vocês. Mas se abrirem a boca para insultar meus amigos novamente, eu vou garantir que a próxima "dança" seja muito menos amigável.

Annabeth sorriu levemente, um sorriso de lado que dizia que ela poderia ter lidado com aquilo sozinha, mas que apreciava o gesto. Ela caminhou até Nico e colocou a mão em seu ombro, um gesto de solidariedade que silenciou os sussurros restantes.

— A ignorância é uma doença que nem mesmo a medicina de Apolo cura facilmente — disse Annabeth, encarando Liana. — Sugiro que voltem para o salão antes que a paciência do mar e das sombras se esgote. E acreditem, vocês não querem ver o que acontece quando eles trabalham juntos.

Liana, agora pálida como o próprio Nico, deu meia-volta e saiu apressada, seguida pelo resto dos semideuses curiosos que não queriam arriscar a ira dos dois filhos dos Três Grandes.

Quando o silêncio retornou à varanda, Percy soltou um longo suspiro, a tensão em seus ombros diminuindo. Ele olhou para Annabeth e deu um sorriso torto.

— Desculpe por isso, Sabidinha. Eu sei que você sabe se defender, mas eu não consegui evitar.

Annabeth revirou os olhos, mas seus olhos brilhavam com afeição.

— Eu sei, Cabeça de Alga. Sua impulsividade é quase tão lendária quanto sua falta de noção para escolher momentos românticos.

Ela então se voltou para Nico. Seu olhar suavizou-se de uma forma que poucas pessoas tinham o privilégio de ver.

— Você está bem, Nico?

Nico assentiu, embora seu coração ainda estivesse acelerado.

— Sim. Obrigado, Annabeth. Por... por nos defender antes mesmo de o Percy intervir.

— Somos amigos, Nico. E amigos não deixam que idiotas digam mentiras — ela fez uma pausa, olhando para as mãos de Percy e Nico que ainda se buscavam. — Além disso, Atena pode não admitir, mas a estratégia de unir o Submundo e o Oceano é... brilhante. De uma forma muito caótica, claro.

— Eu só queria dançar — resmungou Percy, embora não parecesse nem um pouco arrependido. — Por que tudo no Olimpo tem que virar um drama de proporções épicas?

— Porque você atrai o drama como um navio atrai tempestades — brincou Annabeth. — Agora, se me dão licença, vou voltar para o salão. Alguém precisa garantir que o Lorde Hades e o Lorde Poseidon não comecem uma guerra de comida só para ver quem apoia mais vocês dois.

Com um aceno de cabeça e um olhar encorajador para Nico, a filha de Atena desapareceu de volta para a luz do baile.

Nico e Percy ficaram sozinhos novamente. O ar estava mais leve, a poeira da confrontação assentando-se sobre o mármore. Nico olhou para Percy, observando como o brilho das estrelas refletia nas escamas de seu traje, e como os olhos verdes do outro ainda mantinham aquele fogo protetor.

— Você me defendeu — disse Nico, sua voz soando pequena na imensidão do jardim.

— É claro que defendi — Percy respondeu, aproximando-se e segurando o rosto de Nico com as duas mãos. — Ninguém fala de você daquela maneira. Ninguém.

— Eu sou o Príncipe do Submundo, Percy. Eu deveria ser assustador. Eu deveria ser aquele que as pessoas temem, não aquele que precisa de proteção.

Percy encostou sua testa na de Nico, fechando os olhos por um momento.

— Ser assustador é fácil, Nico. Qualquer um com um pouco de poder pode fazer isso. Mas ser você mesmo, com toda essa história e esse coração que você tenta esconder... isso é coragem. E eu vou proteger essa coragem com tudo o que eu tenho.

Nico sentiu uma lágrima solitária escapar, mas Percy a limpou antes que pudesse cair. O "Garoto Fantasma" sentiu-se, pela primeira vez, não como uma mancha de tinta, mas como uma parte essencial daquela noite.

— As pessoas não vão parar, você sabe — sussurrou Nico. — Vão dizer que é um erro. Vão dizer que a morte e a vida não se misturam.

— Deixe que digam — Percy sorriu, aquele sorriso desafiador que havia conquistado deuses e monstros. — O mar está cheio de coisas que as pessoas não entendem, e o Submundo guarda segredos que elas temem. Acho que somos o mistério mais interessante deste lugar.

Percy então se afastou um pouco e fez uma reverência exagerada, estendendo a mão novamente.

— Agora, Príncipe di Angelo, onde estávamos antes de sermos tão rudemente interrompidos?

Nico riu, um som que parecia estranho e maravilhoso em seus próprios ouvidos. Ele colocou sua mão na de Percy, sentindo a conexão vibrar através de sua pele.

— Estávamos decidindo quem de nós é o maior desastre.

— Ah, isso é fácil — Percy o puxou para perto, recomeçando o movimento suave da dança. — Somos um desastre em conjunto. E, honestamente? Eu não mudaria nada.

Enquanto dançavam sob a vigília silenciosa das constelações, Nico percebeu que a defesa de Annabeth e a fúria de Percy tinham feito algo que ele achava impossível: haviam transformado o Olimpo, aquele lugar de julgamento e luz ofuscante, em um lugar onde ele poderia, finalmente, respirar.

As sombras ao redor deles não eram mais armas, mas um manto protetor. E enquanto o mar o conduzisse, Nico sabia que não precisaria mais caminhar sozinho entre os mortos. Ele tinha a vida, o sal e o amor, tudo contido no aperto firme de um filho de Poseidon que se recusava a deixá-lo partir.

— Percy? — chamou Nico, após um longo tempo de silêncio confortável.

— Sim?

— Obrigado por me ver.

Percy parou por um segundo, olhou profundamente nos olhos cor de ébano de Nico e depositou um beijo suave em sua testa.

— Obrigado por me deixar entrar, Nico.

E assim, entre o brilho das ondas e a profundidade das sombras, o improvável tornou-se a única verdade que importava. O baile continuava lá dentro, mas ali fora, no limiar entre o céu e a terra, dois príncipes escreviam sua própria história, um passo de dança de cada vez.

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