Entre olhares(fundo)
O Fruto da Infâmia e o Último Suspiro da Obsessão
O ar no apartamento havia se tornado irrespirável, uma mistura de desinfetante hospitalar, o cheiro metálico de sangue antigo e o perfume caro e amadeirado de Titan. Luna estava encolhido no canto do sofá de couro, os braços abraçando as próprias pernas, o pijama de seda agora um trapo cinzento que parecia pesado demais para seu corpo que emagrecia a olhos vistos. A marca de faca em sua bochecha havia cicatrizado em uma linha fina e rosada, um lembrete constante da noite em que seu mundo ruiu.
Titan não havia matado Ganimedes de imediato. Ele o havia quebrado, peça por peça, em um porão úmido, enquanto Luna assistia, obrigado a ver a destruição do homem que ousara profanar o que pertencia ao alfa. Mas a vingança não trouxe paz. Trouxe apenas um vazio mais profundo e uma paranoia que consumia os dois como um ácido.
Luna sentiu uma pontada aguda no baixo ventre e uma náusea que o fez empalidecer ainda mais. Ele correu para o banheiro, o estômago se revirando em espasmos violentos. Quando terminou, limpou a boca com as costas da mão trêmula e encarou o próprio reflexo no espelho que Titan fizera questão de repor — desta vez, um espelho inquebrável, para que Luna nunca deixasse de ver a própria decadência.
— Não pode ser — sussurrou Luna para o silêncio do banheiro. — Não agora. Não assim.
Ele contou os dias mentalmente. A noite com Ganimedes, movida por um ciúme doentio e uma necessidade de ferir Titan, e as semanas seguintes de sexo brutal, desesperado e possessivo com o alfa, que tentava "limpar" a marca do outro de dentro dele. O tempo era uma névoa confusa. A semente que agora crescia em seu ventre poderia ser o herdeiro de seu deus ou o fruto da sua maior traição.
A porta da frente bateu com estrondo. Titan estava em casa.
Luna saiu do banheiro, tentando manter a expressão neutra, mas seu corpo o traía. O suor frio brilhava em sua testa e suas mãos não paravam de se agitar. Titan entrou na sala, jogando o paletó sobre a poltrona. Ele parecia exausto, as olheiras profundas denunciando que o vírus, ou talvez apenas a culpa, estava cobrando seu preço.
— Por que você está escondido aí, Luna? — Titan perguntou, a voz rouca, os olhos dourados fixos no menor com a intensidade de um predador que nunca descansa.
— Eu não estou escondido, Titan — retrucou Luna, sua faceta tsundere tentando emergir, mas soando apenas como um eco fraco. — Eu só estava passando mal. Deve ser o remédio. O coquetel é forte demais para mim.
Titan caminhou até ele, envolvendo a cintura de Luna com seus braços poderosos, puxando-o para perto com uma força que quase cortava a respiração do twink. Ele enterrou o rosto no pescoço de Luna, inalando profundamente.
— Você cheira diferente hoje — murmurou Titan, sua voz vibrando contra a pele de Luna. — Há algo... doce demais em você. Algo que eu não reconheço.
Luna sentiu um calafrio. O instinto de Titan era animal, infalível.
— É a sua imaginação, seu idiota possessivo — Luna disse, tentando rir, mas o som saiu como um soluço. — Você está tão obcecado em me vigiar que está começando a inventar coisas.
Titan o afastou um pouco, segurando seus ombros e olhando diretamente em seus olhos marejados. A mão do alfa desceu lentamente, espalmando-se sobre o abdômen ainda plano de Luna. O toque era possessivo, mas havia uma hesitação ali, uma dúvida que gelou o sangue de Luna.
— Você está carregando algo, não está? — Titan perguntou, a voz subitamente gélida.
Luna desviou o olhar, as lágrimas finalmente caindo.
— Eu não sei, Titan. Eu não sei.
— De quem é? — O aperto nos ombros de Luna aumentou até que ele soltou um gemido de dor. — Responda, Luna! De quem é essa semente maldita que está crescendo dentro de você? É minha? É o sangue do meu sangue que vai herdar essa nossa maldição, ou é o resto daquele lixo que eu joguei no rio?
— Eu não sei! — gritou Luna, desabando no chão enquanto Titan o soltava. — Eu juro que não sei! Pode ser seu... eu quero que seja seu! Eu rezo todas as noites para que seja seu, Titan! Mas eu não posso ter certeza... eu estraguei tudo!
Titan soltou uma risada amarga, um som que parecia vir das profundezas do inferno. Ele começou a andar de um lado para o outro na sala, chutando um móvel, a fúria e a dor lutando pelo controle de suas feições.
— Um filho — Titan disse, parando de repente e olhando para o teto. — Nós estamos morrendo, Luna. Nosso sangue está envenenado. E agora você me diz que pode haver um fruto dessa sujeira. Se for meu, é a única coisa que restará de mim. Se for dele...
Titan voltou-se para Luna, os olhos brilhando com uma loucura yandere que superava a do próprio submisso.
— Se for dele, eu vou arrancar de dentro de você com as minhas próprias mãos.
Luna encolheu-se, o terror absoluto tomando conta de seus sentidos. Ele amava Titan com uma devoção que beirava o religioso, mas ele também era um masoquista que se alimentava daquela toxicidade. No entanto, a ideia de carregar um filho que poderia ser o motivo de sua morte pelas mãos do homem que amava, ou o motivo de um ódio eterno, era demais até para sua mente distorcida.
— Você não me ama — soluçou Luna, abraçando o próprio ventre. — Você só ama a ideia de me possuir. Você prefere me ver morto do que incerto.
— Eu amo você tanto que eu mataria Deus para manter você ao meu lado — Titan rugiu, ajoelhando-se na frente de Luna e segurando seu rosto com uma brutalidade desesperada. — Mas eu não posso viver com a dúvida, Luna. Eu não posso olhar para uma criança e ver o rosto daquele homem. Eu não posso!
— Então me mata logo — desafiou Luna, seus olhos brilhando com uma intensidade maníaca. — Acabe com isso. Você disse que se eu te traísse, você me cortaria em pedaços. Por que está demorando tanto? É porque você sabe que, se eu morrer, você não terá mais ninguém para controlar? Você terá apenas o silêncio e o vírus!
Titan o esbofeteou. O impacto jogou Luna para o lado, o gosto de sangue inundando sua boca novamente. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de uma eletricidade perigosa.
— Vá para o quarto — ordenou Titan, a voz desprovida de qualquer emoção. — Eu vou decidir o que fazer com você amanhã.
Luna levantou-se lentamente, limpando o sangue do lábio. Ele olhou para Titan uma última vez, vendo o homem que era seu mestre, seu amante e seu carrasco. Ele viu a dor nos olhos do alfa, uma dor que ele mesmo havia causado.
— Eu te amo, Titan — sussurrou Luna.
— Vá. Para. O. Quarto — repetiu Titan, sem olhar para ele.
Luna obedeceu. Ele entrou no quarto e trancou a porta, algo que raramente fazia. Ele caminhou até a mesinha de cabeceira e abriu a gaveta. Lá, escondido sob alguns lenços de seda, estava o frasco de comprimidos que ele vinha acumulando. Eram sedativos fortes, analgésicos e o resto do coquetel que ele fingia tomar diante de Titan.
Ele sentou-se na cama, olhando para o frasco. Sua mente estava estranhamente clara. Ele pensou na criança. Se fosse de Titan, ela nasceria em um mundo de dor, destinada a ser órfã e a carregar o estigma de seus pais. Se fosse de Ganimedes, ela seria odiada antes mesmo de respirar.
Luna não podia permitir que a incerteza continuasse a destruir Titan. E ele não podia suportar a ideia de ser olhado com nojo pelo resto de sua curta vida.
— Se eu não puder ser seu por inteiro, puro e sem dúvidas — murmurou Luna para o quarto vazio —, então eu não serei de mais ninguém. Nem mesmo da vida.
Ele começou a tomar os comprimidos, um por um, no início, e depois em punhados. Ele bebia a água do copo que estava ao lado da cama, sentindo o amargor na garganta. À medida que o frasco esvaziava, ele sentia uma paz estranha e letal se aproximando.
Ele deitou-se na cama, a seda do pijama agora parecendo macia e acolhedora pela primeira vez em meses. Ele acariciou o ventre.
— Desculpe, pequeno — sussurrou. — Mas aqui fora só existe escuridão.
Lentamente, a visão de Luna começou a escurecer. Ele ouvia o som abafado de Titan na sala, o som de uma garrafa sendo aberta, o som de um homem quebrado tentando encontrar consolo no álcool.
— Titan... — Luna chamou em um suspiro, mas sua voz não passou de um fio de ar.
Ele imaginou Titan entrando no quarto, encontrando-o ali, perfeito e imóvel. Imaginou o alfa chorando sobre seu corpo, a possessividade finalmente encontrando seu fim na imobilidade da morte. Na mente de Luna, esse era o ato final de amor. Ele estava se retirando do tabuleiro para que Titan não tivesse que escolher entre o ódio e a dúvida. Ele estava se tornando uma memória eterna, uma marca que Titan nunca conseguiria apagar.
— Eu... venci... — Luna pensou, um último sorriso tsundere brincando em seus lábios antes que a consciência o abandonasse completamente. — Agora... você nunca... vai me esquecer.
Na sala, Titan sentiu um aperto súbito no peito, uma sensação de frio que não tinha explicação. Ele olhou para a porta do quarto, a mão hesitando sobre a maçaneta da garrafa.
— Luna? — chamou ele, a voz carregada de uma vulnerabilidade que só mostrava quando pensava que o outro estava dormindo.
Não houve resposta.
Titan levantou-se, o coração acelerando por um motivo que ele não conseguia compreender. Ele caminhou até a porta do quarto e tentou abri-la, encontrando-a trancada.
— Luna, abra essa porta! — ele ordenou, a autoridade voltando à sua voz. — Não brinque comigo, você sabe que eu odeio trancas!
O silêncio que veio do outro lado foi o som mais aterrorizante que Titan já ouvira. Ele recuou um passo e, com toda a sua força de alfa, arrombou a porta.
A visão que o encontrou o faria cair de joelhos. Luna estava deitado, pálido como mármore, as mãos repousando sobre o ventre, o frasco vazio caído no chão.
— Não... não, não, não! — Titan gritou, correndo até a cama e pegando o corpo leve de Luna nos braços. — Luna! Acorde! Isso não é engraçado! Eu te ordeno que acorde!
Ele sacudiu o corpo inerte, mas a cabeça de Luna apenas pendia para o lado, o sorriso pálido ainda fixo no rosto. Titan pressionou o ouvido contra o peito do twink, buscando desesperadamente por um batimento, por um sinal de que sua possessão ainda estava lá.
Nada. Apenas o silêncio frio da morte.
Titan soltou um uivo de dor, um som que não parecia humano, prechendo o apartamento e ecoando pela noite. Ele apertou Luna contra si, beijando o rosto frio, as mãos trêmulas acariciando o cabelo que ele tanto amava puxar.
— Por que você fez isso? — Titan soluçava, as lágrimas caindo sobre o pijama de seda azul. — Eu teria te perdoado! Eu teria cuidado de você! Eu não me importava de quem era... eu só queria você!
Mas Luna não podia mais ouvi-lo. Ele havia escapado do labirinto de obsessão, deixando para trás um alfa destruído pela própria possessividade.
Titan olhou para o ventre de Luna, a mão trêmula tocando o lugar onde a dúvida residia. Agora, ele nunca saberia. O segredo morrera com Luna, enterrado sob camadas de seda e pecado.
O alfa deitou-se ao lado do corpo, envolvendo Luna em um abraço final. Ele não chamou a polícia. Ele não chamou uma ambulância. Ele apenas ficou ali, esperando que o vírus em seu próprio sangue terminasse o trabalho que Luna havia começado.
— Você ganhou, meu pequeno yandere — sussurrou Titan, fechando os olhos enquanto a escuridão do quarto os envolvia. — Você finalmente me possuiu por completo.
Naquela noite, a festa do pijama terminou para sempre. Não houve mais ciúmes, não houve mais marcas, não houve mais dor. Apenas dois corpos unidos em uma tragédia que eles mesmos haviam escrito, um pacto de sangue e silêncio que nem mesmo a morte ousaria quebrar. Luna era, enfim, o centro absoluto do universo de Titan, e Titan era o guardião de um túmulo de seda azul.