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Entre olhares(fundo)

O Preço da Traição e o Sangue nas Mãos

O silêncio no apartamento que Luna compartilhava com Titan nunca pareceu tão ensurdecedor. Luna estava sentado na beira da cama, as mãos trêmulas segurando um envelope pardo que parecia pesar toneladas. O pijama de seda, aquele que Titan tanto gostava de rasgar, estava perfeitamente alinhado hoje, mas por baixo do tecido, Luna sentia como se sua pele estivesse apodrecendo.

A traição não havia sido um ato de amor, nem mesmo de luxúria real. Foi um surto de insegurança, uma tentativa doentia de Luna de provar a si mesmo que não era dependente de Titan, uma reação yandere ao ver o alfa conversando com um desconhecido na rua dias antes. Ele queria ferir Titan da pior forma possível: entregando a única coisa que o alfa reivindicava como sua propriedade absoluta. Ganimedes, um homem que orbitava os mesmos círculos obscuros que eles, fora o instrumento dessa vingança mesquinha.

Mas o destino tinha um senso de humor macabro.

— Luna? Por que você está no escuro? — A voz de Titan ecoou do corredor, profunda e possessiva como sempre. O som dos passos pesados do alfa fazia o coração de Luna martelar contra as costelas.

Luna escondeu o envelope sob o travesseiro com um movimento brusco, mas o suor frio em sua testa e o empalidecer de seu rosto eram impossíveis de ocultar. Titan entrou no quarto, sua presença preenchendo o espaço instantaneamente. Ele ainda vestia o paletó do trabalho, a gravata frouxa, exalando aquele cheiro de poder e testosterona que costumava deixar Luna de joelhos.

— Eu estava... apenas pensando — sussurrou Luna, sem olhar nos olhos do parceiro.

Titan franziu o cenho, aproximando-se com a predação de um lobo que fareja sangue. Ele segurou o queixo de Luna, forçando-o a levantar a cabeça.

— Você está estranho há uma semana. Não me provoca, não faz cenas de ciúme... até parou de verificar meu celular enquanto eu durmo — Titan estreitou os olhos, a mão descendo para o pescoço de Luna, apertando levemente. — O que você fez, meu pequeno monstro?

Luna sentiu uma vontade histérica de rir. O ciúme de Titan, que antes era seu combustível, agora era sua sentença de morte.

— Eu não fiz nada, Titan! Me solta! — Luna tentou empurrá-lo, a faceta tsundere emergindo como um mecanismo de defesa desesperado. — Você é um paranoico, sabia? Só porque eu não estou no seu pé, você acha que o mundo está acabando?

Titan não recuou. Em vez disso, ele jogou Luna contra o colchão, subindo sobre ele com uma agilidade assustadora.

— Eu conheço cada centímetro desse seu corpo, Luna. Eu conheço o som da sua respiração quando você está mentindo — rosnou o alfa, as mãos prendendo os pulsos de Luna acima da cabeça. — Você cheira a medo. E cheira a algo que não é meu.

O pânico atingiu o ápice. Luna começou a se debater, mas a força de Titan era absoluta. Em meio ao esforço, o travesseiro se deslocou, revelando a ponta do envelope pardo. Os olhos de Titan brilharam com uma luz perigosa. Ele soltou uma das mãos de Luna e pegou o papel.

— Não! Titan, devolve! — gritou Luna, as lágrimas começando a transbordar. — É privado! Você não tem o direito!

— Eu tenho todos os direitos sobre você! — rugiu Titan, rasgando o envelope.

O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer grito. Titan leu o documento médico uma, duas, três vezes. O resultado positivo para HIV brilhava na folha branca como uma marca de ferro em brasa. Mas não foi apenas o vírus que paralisou Titan; foi a data dos exames e a percepção imediata de que ele mesmo não havia estado com ninguém além de Luna nos últimos anos.

— Ganimedes... — Titan murmurou, a voz saindo como um som gutural de um animal ferido. Ele havia ouvido boatos de que Luna fora visto saindo de um hotel com o sujeito, mas sua negação possessiva o impedira de acreditar. Até agora.

Titan largou o papel e olhou para Luna. O olhar não era mais de luxúria ou de raiva possessiva comum. Era um olhar de destruição total.

— Você me traiu — disse Titan, o tom de voz tão baixo que era quase um sussurro, o que era muito mais aterrorizante do que seus gritos. — Você deu o que é meu para aquele lixo. E agora... você trouxe a morte para dentro da nossa casa.

— Titan, eu... eu só queria que você sentisse o que eu sinto! — Luna soluçava, o corpo tremendo em espasmos masoquistas, esperando pelo golpe que sabia que viria. — Você estava me ignorando, você olhou para aquele cara na rua... eu queria te machucar! Eu não sabia que ele estava doente, eu juro!

Titan levantou-se lentamente, sua aura transbordando uma violência que fazia as paredes parecerem tremer. Ele caminhou até o armário e tirou uma maleta. Luna observava, paralisado pelo terror e por uma estranha adoração devocional. Ele queria que Titan o matasse. Ele merecia isso.

— Você queria me machucar? — Titan perguntou, virando-se com uma faca de caça na mão, a lâmina refletindo a luz fraca do abajur. — Você conseguiu, Luna. Você destruiu a única coisa que eu valorizava neste mundo imundo: a nossa exclusividade.

Titan avançou, mas não para esfaquear Luna. Ele agarrou o twink pelos cabelos, arrastando-o para fora da cama e jogando-o contra o espelho de corpo inteiro do quarto. O vidro rachou com o impacto, refletindo a imagem distorcida de ambos.

— Olhe para você! — Titan gritou, forçando o rosto de Luna contra o vidro frio. — Olhe para o que você se tornou! Uma casca infectada de mentiras! Você acha que eu vou te deixar ir? Você acha que a morte é uma saída fácil para o que você fez?

— Me mata, Titan... — Luna implorou, a voz falhando. — Por favor, me corta em pedaços como você disse que faria. Eu sou seu, mesmo na minha podridão. Eu não quero viver se você não me quiser mais.

Titan encostou a ponta da faca na bochecha pálida de Luna, traçando uma linha fina de sangue que desceu como uma lágrima vermelha.

— Eu não vou te matar, Luna — disse Titan, os olhos injetados de sangue. — Isso seria um desperdício. Você queria ser meu para sempre, não queria? Pois agora você está preso a mim de uma forma que nem a ciência pode desfazer. Se você tem isso no seu sangue, eu provavelmente já tenho também. Nós estamos condenados juntos.

Luna arregalou os olhos. A realização de que ele poderia ter infectado seu alfa, seu deus, trouxe uma dor que nenhuma tortura física poderia igualar.

— Não... não, Titan, você não! Eu... eu não posso ter feito isso com você! — Luna começou a se arranhar, as unhas cravando-se nos próprios braços em um acesso de loucura yandere. — Eu sou o culpado! Só eu devo sofrer!

Titan o envolveu em um abraço brutal, prendendo seus braços, asfixiando-o com seu calor.

— Agora é tarde para arrependimentos, meu pequeno traidor — sussurrou Titan no ouvido de Luna, um som que misturava ódio e uma obsessão que ultrapassava os limites da sanidade. — Mas antes de lidarmos com a nossa doença, eu vou lidar com a causa dela.

— O que você vai fazer? — Luna perguntou, o medo sendo substituído por uma curiosidade mórbida.

— Eu vou buscar o Ganimedes — Titan deu um sorriso sombrio, o mesmo sorriso que mostrava quando estava prestes a dominar Luna na cama, mas agora desprovido de qualquer traço de luxúria. — E eu vou garantir que ele morra muito antes de qualquer vírus ter a chance de matá-lo. E você vai assistir, Luna. Você vai ver o que acontece com quem toca no que me pertence.

Titan soltou Luna, que caiu no chão, soluçando e rindo ao mesmo tempo. A dinâmica deles havia mudado para sempre. O pijama de seda azul estava manchado de sangue e lágrimas.

— Titan... — Luna chamou, enquanto o alfa se dirigia à porta.

Titan parou, mas não se virou.

— Eu ainda sou seu? — perguntou o twink, a voz carregada de uma esperança doentia.

— Agora mais do que nunca — respondeu Titan, a voz gélida. — Porque agora, Luna, nós compartilhamos o mesmo destino fúnebre. Você é minha posse, minha praga e minha maldição. Não ouse sair deste quarto até eu voltar com o sangue daquele homem nas minhas mãos.

A porta bateu com uma força que fez os restos do espelho caírem no chão. Luna ficou sozinho nas sombras, cercado pelos cacos de sua própria vida. Ele levou os dedos ao pequeno corte na bochecha, provando o sabor metálico do seu próprio sangue infectado.

Ele era o centro do universo de Titan novamente, mas o universo agora era um lugar de agonia e sombras permanentes. E, para um masoquista yandere como Luna, aquela era a prova final de que eles nunca, jamais, estariam separados. Nem pela vida, nem pela traição, nem pela morte.

Ele começou a limpar os cacos de vidro, esperando pelo seu mestre, preparando-se para a sinfonia de dor que seria o resto de seus dias. Afinal, Titan havia prometido: eles estavam presos um ao outro. E Titan sempre cumpria suas promessas.