Entre Raios e Doces
Entre Trovoada e Esperança
O caminho até o palácio nunca pareceu tão longo, apesar de Meg tê-lo percorrido centenas de vezes desde a infância. No entanto, desta vez, ela não era a menina que entrava pelas portas dos fundos com uma cesta de pães de mel. Ela caminhava pela avenida principal, de mãos dadas com o herdeiro do trono, enquanto os guardas da Princesa Elena hesitavam, divididos entre as ordens da estrangeira e a autoridade fulminante de seu próprio príncipe.
As ruas estavam cheias. O povo, marcado pela palidez da Febre Cinzenta, abria caminho. Alguns se ajoelhavam quando Meg passava; outros estendiam as mãos, não em busca de esmolas, mas de um toque.
— Fique perto de mim — sussurrou Theo, seus dedos apertando os dela. Pequenos estalos azuis dançavam entre seus nós dos dedos, um aviso silencioso para qualquer guarda que ousasse se aproximar com algemas de ferro.
— Eu não vou fugir, Theo — respondeu Meg, mantendo a coluna ereta. — Pela primeira vez em dezoito anos, sinto que estou exatamente onde deveria estar.
Ao chegarem aos portões do castelo, a tensão atingiu o ápice. O Rei Alaric, um homem cujo rosto parecia esculpido em granito e cansado por décadas de governo, aguardava no topo da escadaria. Ao seu lado, Elena exibia um sorriso vitorioso que não alcançava seus olhos metálicos.
— Theo! — a voz do Rei ecoou pelo pátio. — O que significa este espetáculo? Você deveria estar escoltando sua noiva para os preparativos do banquete, não desfilando com uma... uma curandeira de rua.
Theo deu um passo à frente, puxando Meg para o seu lado. O ar ao redor deles começou a cheirar a ozônio, o sinal claro de que a paciência do príncipe estava se esgotando.
— O nome dela é Meg, pai. E ela não é uma curandeira de rua. Ela é a razão pela qual metade da capital ainda está respirando — Theo declarou, sua voz projetando-se para que todos, desde os nobres nas varandas até os servos nas janelas, pudessem ouvir. — A Princesa Elena propõe hospitais para os mortos. Meg propõe a vida para os vivos.
Elena soltou uma risada seca, descendo dois degraus. O metal de seus ornamentos parecia vibrar com sua irritação.
— Vida? — desdenhou a princesa. — Ela é uma anomalia, Majestade. Uma fonte de poder não regulamentada. Quem garante que ela não é a causa da praga? Ela cura alguns para ganhar adoração, enquanto a doença se espalha pelas sombras. É um truque clássico de insurgentes.
Meg sentiu o sangue ferver. Sua natureza reservada normalmente a faria recuar, mas a injustiça daquelas palavras agiu como um catalisador. Ela soltou a mão de Theo e caminhou até o centro do pátio, parando a poucos metros de Elena.
— A senhora fala de metal e de frotas, Princesa — disse Meg, sua voz calma, mas carregada de uma força que surpreendeu até a Theo. — Mas o metal não acalma a febre de uma criança. Seus navios trarão suprimentos, mas quanto tempo levará para chegarem? Quantos morrerão enquanto seus burocratas assinam contratos de casamento? Eu não sou uma insurgente. Sou uma cidadã que não suporta ver seu povo sofrer enquanto os poderosos discutem política.
O Rei Alaric estreitou os olhos.
— Você afirma ter a cura, garota? Os melhores alquimistas do reino falharam.
— Eu não afirmo. Eu mostro — Meg olhou ao redor e avistou um dos guardas reais que cambaleava discretamente no final da fila. Ele tentava manter a postura, mas as manchas cinzentas já subiam pelo seu pescoço. — Aquele homem. Traga-o aqui.
O Rei fez um sinal. O guarda foi conduzido à frente, tremendo. Elena tentou intervir, mas Theo bloqueou seu caminho com um olhar de advertência.
Meg aproximou-se do soldado. Ela não hesitou. Colocou as mãos sobre o peito da armadura dele, fechando os olhos. O silêncio no pátio era absoluto. Meg buscou aquele núcleo de calor dentro de si, a luz dourada que cheirava a mel e sol de primavera. Quando ela canalizou a energia, não foi apenas um brilho; foi uma explosão de luz que forçou todos a desviarem o olhar.
Segundos depois, o guarda soltou um suspiro profundo. As manchas cinzentas desapareceram, e a vitalidade retornou aos seus olhos. Ele caiu de joelhos, não por fraqueza, mas por gratidão.
— Obrigado... Santa das Flores — ele balbuciou.
Um murmúrio percorreu a multidão. O Rei parecia atordoado. Elena, por outro lado, estava pálida de fúria.
— Um truque! — gritou ela. — Majestade, não se deixe enganar!
— Já chega, Elena — Theo interveio, sua voz agora fria como o gelo. — Meu pai viu a verdade. O reino viu a verdade.
O Rei Alaric desceu os degraus lentamente. Ele olhou para Meg com uma nova percepção.
— Se você pode fazer isso em massa... se você pode salvar o reino... — ele começou, mas Meg o interrompeu.
— Eu posso. Mas não sob custódia, e não como um experimento. Farei isso como uma mulher livre, e com o apoio total da Coroa.
— E quanto à aliança? — perguntou o Rei, olhando para Elena. — O Reino de Ouro nos cortará se quebrarmos o compromisso.
Theo deu um passo à frente, parando ao lado de Meg.
— Deixe que cortem. Se tivermos nosso povo saudável e unido, não precisaremos temer bloqueios comerciais. Além disso... — ele olhou para Meg, e a expressão em seu rosto suavizou-se de uma forma que fez o coração dela disparar. — Eu já escolhi minha parceira.
Elena soltou um grito de indignação.
— Você me rejeita por uma padeira? Você é patético, Theo! Meu pai esmagará este reino de padeiros e plebeus!
— Seu pai terá que passar por mim primeiro — Theo respondeu, e um trovão estrondoso ecoou no céu, embora não houvesse nuvens. — E garanto que o Reino de Ouro não é imune a raios.
Elena virou as costas, marchando em direção às suas carruagens com o que restava de sua comitiva. O Rei Alaric suspirou, parecendo ter envelhecido dez anos em dez minutos.
— Você nos colocou em um caminho perigoso, meu filho.
— Não, pai — Theo disse, pegando a mão de Meg novamente. — Nós finalmente encontramos o caminho certo.
Mais tarde naquela noite, o palácio estava em polvorosa. Meg havia sido instalada em uma ala confortável, mas ela não conseguia descansar. Sua mente trabalhava em ritmo acelerado, organizando os suprimentos necessários para a grande jornada de cura que começaria no dia seguinte. Ela precisava de água limpa, lençóis novos e uma equipe de voluntários.
Ela estava debruçada sobre um mapa do reino quando ouviu uma batida suave na porta. Theo entrou, sem a coroa, vestindo apenas uma túnica simples. Ele parecia exausto, mas feliz.
— Você deveria estar dormindo — disse Meg, tentando manter seu tom pragmático de ISTJ, embora seu coração estivesse martelando.
— E você deveria estar descansando seus poderes — Theo rebateu, aproximando-se da mesa. — O que você está fazendo?
— Planejando a logística — explicou ela, apontando para o mapa. — Se começarmos pelos distritos mais pobres e subirmos em direção ao norte, podemos conter o avanço da febre em menos de uma semana. Mas preciso que seus guardas ajudem na organização das filas. Não podemos ter caos.
Theo riu suavemente, balançando a cabeça.
— Você acabou de desafiar uma princesa, convenceu um rei e salvou um homem de uma morte certa... e sua primeira preocupação é a logística das filas?
Meg sentiu as bochechas esquentarem.
— Alguém precisa ser prático nesta amizade, Theo. Você cuida dos raios e dos discursos dramáticos, eu cuido da ordem.
Theo contornou a mesa e parou diante dela. A atmosfera mudou instantaneamente. O cheiro de ozônio, que sempre a seguia, agora era suave, quase reconfortante.
— Sobre o que eu disse no pátio... e na confeitaria — começou ele, a voz baixando para um tom íntimo. — Eu não estava apenas tentando te salvar da Elena. Eu quis dizer cada palavra.
Meg olhou para as mãos dele, as mesmas mãos que ela curara anos atrás.
— Eu sempre achei que você me via apenas como a amiga que fazia os seus doces favoritos — confessou ela em voz baixa. — Eu me escondi atrás daquelas receitas porque era mais seguro do que admitir que eu morria de ciúmes cada vez que uma dama da corte se aproximava de você.
Theo tocou o queixo dela, levantando seu rosto para que seus olhos se encontrassem.
— Eu comprei quilos de doces que eu nem gostava, Meg. Eu passava horas ouvindo sobre impostos de exportação apenas para ter uma desculpa para correr até a sua loja no final do dia. Você é a luz que me guia no meio de todas as tempestades que eu carrego.
Meg sorriu, uma lágrima solitária escapando.
— Theo, nós temos um reino para salvar. Vai ser difícil. Elena não vai desistir facilmente, e seu pai ainda está preocupado com a guerra.
— Eu sei — Theo se aproximou, seus lábios a milímetros dos dela. — Mas com você ao meu lado, eu sinto que posso controlar até o sol, não apenas os raios.
— Menos drama, Príncipe — sussurrou Meg, embora estivesse se inclinando para ele.
— Mais ação, então? — ele brincou.
O beijo deles foi como o encontro da terra com o céu. Havia o calor suave da cura de Meg e a energia vibrante da eletricidade de Theo. Era uma promessa silenciosa de que, não importa o quão sombria a febre se tornasse ou quão frios fossem os metais de Elena, eles enfrentariam tudo juntos.
Quando se separaram, Meg respirou fundo, tentando recuperar sua compostura habitual.
— Certo — disse ela, voltando-se para o mapa com uma determinação renovada. — Agora, sobre os suprimentos de lavanda para as poções de suporte...
Theo soltou uma gargalhada alta, que ecoou pelos corredores de pedra do palácio.
— Eu te amo, Meg. Mesmo que você tente organizar o meu amor em pastas e cronogramas.
— Alguém tem que fazer isso — ela sorriu, os olhos brilhando com uma luz dourada que não era apenas mágica, mas pura felicidade.
A batalha contra a Febre Cinzenta estava apenas começando, e o desafio político com o Reino de Ouro seria imenso. Mas ali, naquela sala iluminada por velas, entre mapas e sonhos, a confeiteira e o príncipe sabiam que já haviam vencido a luta mais importante: a de encontrar o caminho de volta um para o outro.