Entre Raios e Doces
O Aroma do Mel e o Brilho do Horizonte
O sol da manhã filtrava-se pelas janelas de vitrais do Grande Salão de Cura, projetando padrões de âmbar e azul sobre o piso de mármore polido. Meg, agora Rainha de Alvorada, caminhava pelo corredor com a mesma postura ereta e organizada de seus tempos de confeitaria. O avental de linho branco sobre o vestido de seda verde era uma marca registrada: ela podia ser a soberana, mas ainda era a mulher que colocava as mãos na massa — fosse para assar pães ou para dissipar os últimos vestígios de doenças no reino.
— Majestade, os relatórios das províncias do norte chegaram — disse uma jovem assistente, tentando acompanhar o passo firme de Meg. — A Febre Cinzenta é oficialmente uma lembrança do passado. Não há um único caso registrado em três anos.
Meg parou, pegando os papéis e revisando-os com olhos clínicos. Ela assentiu, um pequeno sorriso de satisfação surgindo em seus lábios.
— Excelente, Elara. Arquive estes dados na seção de imunologia e certifique-se de que os estoques de ervas de suporte sejam renovados. A prevenção é a alma da ordem.
— Sim, senhora. — A assistente hesitou por um momento. — O Rei Theo mandou avisar que a reunião com os embaixadores do Reino de Ouro terminou mais cedo. Ele a espera no jardim.
Meg sentiu aquele calor familiar no peito, o mesmo brilho dourado que costumava curar feridas agora aquecendo sua própria alma.
— Obrigada, Elara. Pode ir.
Ela seguiu para os jardins reais, o lugar onde tudo começou e onde, agora, a paz reinava. O Reino de Ouro, após anos de tensões e a eventual queda da Princesa Elena — cujo orgulho metálico a levara a um exílio autoimposto após uma tentativa fracassada de golpe —, tornara-se um aliado comercial estável. O metal deles agora construía arados e escolas, não apenas armas e hospitais de isolamento.
Ao longe, ela viu a silhueta alta e atlética de Theo. Ele estava sentado em um banco sob a grande árvore de carvalho, mas não estava sozinho. No colo dele, uma menina de quatro anos, com cabelos escuros e olhos que brilhavam como eletricidade estática, tentava equilibrar uma pequena coroa de flores na cabeça do pai.
— Mas papai, um rei precisa de flores para ser gentil — dizia a pequena Aurora, sua voz doce carregada de uma seriedade cômica.
— Eu concordo plenamente, pequena centelha — Theo respondeu, rindo. O som daquela risada ainda era a música favorita de Meg. — Mas se os generais me virem assim, eles vão achar que meu novo poder é controlar margaridas em vez de tempestades.
Meg aproximou-se silenciosamente, observando a cena. Theo parecia mais jovem do que aos dezenove anos; a carga da coroa, que antes parecia esmagá-lo, agora era carregada com uma leveza que só o amor e a segurança poderiam proporcionar.
— Acho que as margaridas combinam com a sua nova política de paz, Theo — disse Meg, anunciando sua presença.
Theo levantou o olhar e seu rosto se iluminou instantaneamente. Ele se levantou, com Aurora ainda em seus braços, e caminhou até a esposa.
— Mamãe! — Aurora esticou os braços pequenos. — Eu curei a flor do papai! Ela estava murcha.
Meg pegou a filha e sentiu a pulsação vibrante da menina. Aurora herdara o melhor de ambos: a luz curadora de Meg e a energia indomável de Theo.
— Você fez um ótimo trabalho, querida — disse Meg, beijando a testa da filha. — Por que não vai ver se a Sra. Pains precisa de ajuda com as tulipas? Eu vi que ela estava trazendo novas mudas hoje.
A menina desceu e correu em direção à estufa, seguida de longe por dois guardas que sorriam com as travessuras da princesinha.
Theo envolveu a cintura de Meg com o braço, puxando-a para perto.
— Você ainda cheira a lavanda e açúcar — ele sussurrou contra o cabelo dela. — Mesmo depois de uma manhã inteira lidando com burocracia médica.
— E você ainda tem o hábito de deixar o ar carregado de eletricidade quando está feliz — Meg rebateu, encostando a cabeça no ombro dele. — Como foi com os embaixadores?
— Cansativo — Theo suspirou, mas não havia amargura em sua voz. — Eles ainda tentam negociar taxas de exportação de ferro como se estivessem nos fazendo um favor. Mas quando mencionei que nossa Rainha estava pensando em abrir uma filial da Academia de Cura na capital deles, eles praticamente imploraram para assinar o tratado.
Meg riu baixinho.
— Eles sabem onde reside o verdadeiro poder, Theo. Não é no metal, nem nos raios. É na capacidade de manter o povo vivo e saudável.
— Eu sei disso melhor do que ninguém — Theo se virou para encará-la, seus olhos ENFJ transbordando a admiração que ele nunca fizera questão de esconder. — Às vezes eu olho para trás e nem consigo acreditar que quase deixei você escapar por causa de um contrato de casamento idiota.
— Você não deixou — lembrou Meg, passando a mão pelo rosto dele, sentindo a barba rala que ele agora cultivava. — Você me defendeu diante de um exército e de um rei. Você escolheu a confeiteira em vez da princesa.
— A melhor escolha da minha vida — ele disse com convicção. — Embora eu ainda sinta falta daqueles bolinhos de chuva que você fazia. Os cozinheiros reais são bons, mas falta... o ingrediente secreto.
Meg deu um tapinha brincalhão no peito dele.
— O ingrediente secreto era a minha paciência por você aparecer todos os dias e atrapalhar meu cronograma de produção.
— E você amava cada segundo disso — Theo provocou, dando um beijo rápido na ponta do nariz dela.
Eles caminharam juntos pelo jardim, observando o reino que haviam reconstruído. Alvorada era agora um centro de conhecimento e cura. A antiga confeitaria "Doce Alvorada" ainda existia, mantida pela família de Meg, e servia como um símbolo de que a realeza e o povo estavam conectados por laços mais profundos do que o sangue.
— Theo — Meg parou de repente, olhando para uma pequena cicatriz na palma da mão dele, a única que restara da explosão de seus poderes na infância. — Você se arrepende? De não ser o tipo de rei conquistador que seu pai queria?
Theo parou e olhou para o horizonte, onde as torres da cidade brilhavam sob o sol. O som de crianças brincando na praça distante chegava até eles como um eco de esperança.
— Meu pai queria um reino forte através do medo e das alianças de metal — Theo disse suavemente. — Mas olhe ao seu redor, Meg. Temos um reino forte porque as pessoas não têm medo de adoecer. Temos alianças baseadas na gratidão, não na coerção. Se ser um conquistador significa destruir para reconstruir, eu prefiro ser o rei que apenas... protege o que você cura.
Meg sentiu uma onda de emoção. Ela sempre fora a pessoa organizada, a que planejava cada passo, a que temia o caos. Mas ao lado de Theo, ela aprendera que o caos era apenas uma tempestade passageira e que, depois dela, o sol sempre brilhava mais forte.
— Você é um bom rei, Theo. O melhor que Alvorada já teve.
— E você é a rainha que eu não merecia, mas que o destino foi generoso o suficiente para me dar — ele respondeu, puxando-a para um beijo profundo e calmo.
O beijo não tinha a urgência desesperada de anos atrás, quando guardas batiam à porta e a doença assolava as ruas. Tinha o sabor da vitória, da estabilidade e de um futuro que eles haviam escrito com as próprias mãos.
— Mamãe! Papai! Olhem! — O grito de Aurora interrompeu o momento.
Eles se viraram para ver a menina correndo de volta, segurando um pequeno frasco de vidro. Dentro dele, uma borboleta com asas que pareciam feitas de luz dourada batia as asas suavemente.
— Eu achei que ela estava com a asa quebrada — explicou a menina, ofegante. — Então eu pensei no que a mamãe faz... eu imaginei o sol dentro de mim e toquei nela. E ela voou!
Meg e Theo trocaram um olhar cúmplice. O legado estava seguro. A cura e o poder continuariam a fluir, não como armas, mas como presentes.
— Venha aqui, pequena centelha — Theo pegou a filha no colo novamente. — Que tal irmos até a cidade? Ouvi dizer que a vovó fez uma fornada especial de cupcakes de lavanda hoje.
— Com glacê cor-de-rosa? — os olhos de Aurora brilharam.
— Exatamente como os raios do seu pai seriam se ele continuasse comendo açúcar demais — Meg brincou, repetindo a frase de tantos anos atrás.
Theo soltou uma gargalhada sonora que pareceu fazer as flores do jardim vibrarem.
— Algumas coisas nunca mudam — ele disse, estendendo a mão para Meg.
— E por que mudariam? — Meg aceitou a mão dele, entrelaçando seus dedos. — A organização do mundo está finalmente no lugar.
Enquanto a família real caminhava em direção aos portões do palácio, o povo que trabalhava nos campos e nas lojas parava para acenar. Não havia medo, apenas um respeito profundo. Meg olhou para o céu, vendo uma pequena nuvem solitária ser dissipada por um raio de sol.
Ela sabia que desafios viriam. Sabia que a paz exigia vigilância e que o poder, se não fosse cuidado, poderia corromper. Mas enquanto ela tivesse a mão de Theo na sua e a luz da cura em seu coração, ela sabia que qualquer tempestade poderia ser transformada em uma chuva passageira, necessária apenas para fazer o reino florescer ainda mais.
Afinal, para a Rainha Meg, a ordem era fundamental. E a ordem do seu coração agora estava completa.
— Theo? — ela chamou, enquanto cruzavam a ponte levadiça.
— Sim, meu amor?
— Não se esqueça de pagar pelos doces desta vez. Nada de "moedas de ouro a mais" para impressionar a confeiteira.
Theo deu uma piscadela travessa.
— Eu sou o Rei, Meg. Eu posso emitir um decreto dizendo que doces de lavanda são propriedade da coroa.
— E eu posso emitir um decreto dizendo que o Rei dormirá no estábulo se tentar nacionalizar minha confeitaria favorita.
Theo riu, abraçando-a de lado enquanto entravam na cidade.
— É, você definitivamente ainda é a chefe.
E assim, sob o céu de Alvorada, o raio e a cura continuaram sua dança eterna, transformando açúcar e segredos em um reinado de luz.