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Entre Raios e Doces

O Despertar da Tempestade e o Peso da Coroa

O silêncio nos corredores do palácio nunca era absoluto; ele sempre carregava o eco de segredos sussurrados e o tilintar metálico das armaduras dos guardas. Para Meg, aquele som era um lembrete constante de que ela não estava mais protegida pelas paredes quentes e seguras da confeitaria de sua família. Agora, ela era a "Santa dos Doces", a curandeira que o reino observava com uma mistura de esperança e desconfiança.

Ela caminhava em direção aos jardins internos, carregando uma pequena cesta de pães de mel. Seus dedos ainda formigavam com o resíduo do brilho dourado que usara naquela manhã para tratar uma serva com a Febre Cinzenta. A exaustão era uma sombra constante sob seus olhos, mas sua mente ISTJ não permitia que ela parasse. Havia uma ordem a ser mantida, um cronograma de curas a ser seguido e, acima de tudo, uma fachada de força que ela precisava sustentar.

Ao dobrar o corredor, ela quase colidiu com um vulto alto. O cheiro de ozônio e chuva a atingiu antes mesmo que ela visse o rosto dele.

— Você está correndo de novo, Meg — disse Theo, com um sorriso que não alcançava totalmente seus olhos. Ele usava a túnica real de seda azul, mas a coroa parecia pesar mais do que o habitual em sua testa. — Achei que tínhamos um acordo sobre você descansar entre as sessões de cura.

— O acordo era que eu descansaria quando a fila na porta do palácio diminuísse, Theo — respondeu ela, ajustando a cesta no braço. — E ela só faz crescer.

Theo suspirou e estendeu a mão, pegando a cesta dela. Seus dedos se roçaram, e uma pequena faísca estalou entre eles — um lembrete físico da eletricidade que ele mal conseguia conter quando estava tenso.

— Meu pai e o Conselho estão em polvorosa — ele sussurrou, aproximando-se para que ninguém mais ouvisse. — Elena está usando a influência dela para semear dúvidas. Ela diz que sua cura é temporária, uma espécie de hipnose mágica que vai falhar assim que você se cansar.

Meg sentiu uma pontada de raiva.

— Ela está tentando garantir que o casamento diplomático continue sendo a única solução "permanente" para o reino. Ela não quer salvar as pessoas, Theo. Ela quer o trono.

— Eu sei disso — Theo disse, sua voz ganhando uma nota de autoridade real. — Mas a pressão é imensa. Meu pai vê os hospitais que o Reino de Ouro pode construir e os compara com... bem, com uma única garota que precisa dormir e comer para funcionar. Ele teme que, se algo acontecer com você, o reino desmorone.

Eles chegaram ao banco de pedra sob o grande carvalho, o lugar onde, anos atrás, ela havia curado a primeira queimadura dele. Meg sentou-se, sentindo o peso do mundo em seus ombros.

— E você? — ela perguntou, olhando-o nos olhos. — Você também teme que eu não seja o suficiente?

Theo largou a cesta e ajoelhou-se à frente dela, ignorando a poeira que sujava suas vestes caras. Ele pegou as mãos de Meg nas suas, envolvendo-as com um calor que não vinha de seus poderes, mas de sua alma.

— Eu nunca duvidei de você, Meg. Desde os seis anos de idade, eu sei que você é a força mais real deste reino. Meu medo não é que você falhe com o povo. Meu medo é que o povo esgote você até não sobrar nada da garota que decorava cupcakes com lavanda.

O momento de vulnerabilidade foi interrompido pelo som rítmico de saltos metálicos contra a pedra. Meg se empertigou instantaneamente, recuperando sua máscara de reserva. A Princesa Elena apareceu no arco do jardim, sua presença fria e imponente como uma lâmina de aço.

— Que cena tocante — disse Elena, com um sorriso de escárnio. — O Príncipe Herdeiro aos pés de uma plebeia. Se eu não soubesse que o futuro de uma nação está em jogo, eu quase acharia romântico.

Theo se levantou lentamente, a eletricidade ao seu redor fazendo as folhas do carvalho vibrarem.

— Elena. Não me lembro de ter convidado você para este setor do palácio.

— Eu não preciso de convites para circular pelo castelo do meu futuro marido, Theo — ela respondeu, caminhando até eles com uma elegância predatória. Ela parou diante de Meg, olhando-a de cima a baixo. — Ouvi dizer que você curou mais dez pessoas hoje. Impressionante. Mas diga-me, curandeira... quanto tempo até que sua luz se apague? O metal que eu ofereço não se cansa. Ele não precisa de pães de mel ou de sono. Ele apenas protege.

— O metal também não tem coração, Princesa — rebateu Meg, levantando-se para enfrentar a outra mulher. — Ele pode construir paredes, mas não pode dar esperança a quem está morrendo.

Elena soltou uma risada gélida.

— Esperança é uma moeda volátil. O povo a ama hoje porque você é a novidade. Mas amanhã, quando a primeira pessoa que você curou cair doente novamente — e eles cairão, porque a magia sempre tem um preço —, eles serão os primeiros a acender as tochas para queimá-la como uma bruxa.

— Isso não vai acontecer — Theo interveio, sua voz soando como um trovão distante.

— Vai? — Elena arqueou uma sobrancelha. — Theo, seja racional. Você é um ENFJ, sempre tão preocupado com o bem-estar de todos, sempre querendo ser o herói. Mas um verdadeiro líder faz sacrifícios. Você sabe que o Reino de Ouro é a única frota capaz de trazer os suprimentos médicos de que precisamos em massa. Se você me rejeitar, meu pai fechará as fronteiras. Você está disposto a deixar seu povo passar fome para manter sua... amizade de infância?

O silêncio que se seguiu foi pesado. Meg olhou para Theo e viu o conflito em seu rosto. Ele a amava, ela sabia disso agora, mas ele também amava o reino. E Elena, com sua lógica cruel e metálica, estava atingindo o ponto mais fraco de Theo: seu senso de dever.

— Eu não sou apenas um sacrifício, Elena — disse Meg, sua voz firme apesar do tremor em seu coração. — Eu sou a solução. E se você acha que o povo vai se voltar contra mim, é porque você não entende nada sobre lealdade.

— Veremos — disse Elena, virando-se para sair. — O banquete de noivado está mantido para amanhã à noite. Sugiro que você use algo... adequado, curandeira. Seria uma pena se as pessoas a confundissem com a equipe de limpeza.

Quando a princesa desapareceu de vista, Theo socou o tronco da árvore. Uma pequena fenda carbonizada apareceu na casca do carvalho.

— Eu a odeio — ele rosnou. — Odeio o modo como ela fala de você, como se você fosse uma ferramenta descartável.

— Ela está fazendo o papel dela, Theo — Meg disse, aproximando-se e tocando o braço dele para acalmá-lo. O brilho dourado fluiu dela para ele, suavizando a tensão elétrica. — Ela é uma estrategista. Ela sabe que, se conseguir nos separar, ela vence.

— Eu não vou deixar que nos separem — prometeu Theo, virando-se para ela. Seus olhos brilhavam com uma intensidade azul. — Mas ela tem razão sobre uma coisa. Meu pai está hesitante. Ele precisa de uma prova de que sua cura é definitiva, algo que o metal de Elena não possa replicar.

— Eu tenho uma ideia — disse Meg, sua mente organizada já traçando um plano. — A Febre Cinzenta não é apenas uma doença física. É uma praga mágica que se alimenta do medo e da estagnação. Elena controla o metal, algo sólido e frio. Eu controlo a vida e o calor. Se eu conseguir curar a fonte da doença — o Grande Poço na praça central, de onde a névoa parece emanar —, a febre parará de se espalhar.

Theo arregalou os olhos.

— Meg, isso é perigoso demais. O poço é o epicentro. A concentração da praga lá é letal. Nem mesmo você poderia absorver tanta escuridão de uma vez.

— Eu não vou absorver — explicou ela. — Eu vou purificar. Mas vou precisar de você, Theo. Sua eletricidade pode agir como um condutor. Se fundirmos nossos poderes, podemos criar uma onda de choque de cura que limpará a cidade inteira.

— Uma fusão de poderes? — Theo parecia incerto. — Nunca tentamos nada nessa escala. E se eu te machucar? Meus raios são instáveis quando estou sob pressão.

— Você não vai me machucar — ela disse, segurando o rosto dele com as duas mãos. — Você é o meu escudo, lembra? E eu sou a sua cura. Juntos, somos mais do que Elena ou o Reino de Ouro podem enfrentar.

Theo cobriu as mãos dela com as suas, fechando os olhos por um momento.

— Se fizermos isso, e se funcionar... meu pai não terá escolha a não ser cancelar o noivado.

— E se falhar? — perguntou Meg em um sussurro.

— Se falhar — Theo abriu os olhos, e o amor que ela viu ali foi o suficiente para dissipar qualquer sombra —, então eu vou embora com você para as montanhas, e viveremos de vender pães de mel até o fim dos nossos dias.

Meg sorriu, o primeiro sorriso verdadeiro do dia.

— Você é um péssimo vendedor, Theo. Iria dar todos os doces de graça para as crianças.

— Provavelmente — ele admitiu, rindo.

Naquela noite, o palácio estava em festa para o pré-banquete, mas Meg e Theo estavam nas sombras. Eles se encontraram na praça do poço à meia-noite. A névoa cinzenta flutuava sobre a água como um fantasma faminto. O ar estava frio e pesado.

— Pronta? — perguntou Theo, estendendo a mão.

— Pronta — respondeu Meg, segurando-a.

Eles se posicionaram na borda do poço. Meg fechou os olhos e mergulhou em seu âmago, buscando cada gota de luz dourada que possuía. Ela sentiu a escuridão do poço tentando puxá-la, uma frieza que ameaçava congelar seu sangue. Mas então, a mão de Theo apertou a sua.

Ela sentiu a eletricidade dele entrar em seu sistema. Não era uma dor, mas um formigamento vibrante, uma energia que amplificava seu próprio poder. O brilho dourado de Meg começou a se misturar com faíscas azuis, criando uma aura de luz branca ofuscante que iluminou toda a praça.

— Agora, Theo! — ela gritou.

Theo soltou um rugido, e um raio desceu do céu limpo, atingindo-os diretamente. Em vez de destruí-los, a energia foi canalizada através de seus braços unidos para o fundo do poço. Uma explosão de luz purificadora varreu a praça, dissipando a névoa cinzenta como se ela nunca tivesse existido. A onda de choque se espalhou pelas ruas, entrando pelas janelas das casas e tocando cada pessoa doente com um calor restaurador.

Quando a luz finalmente cedeu, o silêncio que restou era diferente. O ar estava fresco, com o cheiro de ozônio e, inexplicavelmente, um leve toque de lavanda.

Meg desabou, mas Theo a segurou antes que ela atingisse o chão. Ambos estavam ofegantes, exaustos, mas vivos.

— Veja — sussurrou Theo, apontando para o poço.

A água, antes turva e cinzenta, agora era cristalina, refletindo as estrelas.

— Nós conseguimos — Meg disse, sua voz fraca mas vitoriosa.

— Sim — uma voz vinda das sombras os fez sobressaltar.

O Rei Alaric estava parado ali, acompanhado por uma Elena furiosa e vários membros do Conselho. O Rei olhava para a água límpida com uma expressão de assombro.

— Eu nunca vi nada parecido — murmurou o Rei. — Nem mesmo nos antigos registros de magia.

— Foi um golpe de sorte! — gritou Elena, suas mãos tremendo de raiva. — Eles poderiam ter destruído a praça! Majestade, você não pode permitir que esse tipo de imprudência governe o reino!

O Rei Alaric olhou para Elena, e então para o filho e a confeiteira. Ele viu o modo como Theo protegia Meg, e o modo como Meg, mesmo exausta, mantinha sua dignidade.

— A imprudência salvou o povo que o seu metal apenas pretendia confinar, Princesa — disse o Rei, sua voz firme. — Elena, o acordo de casamento está anulado. Devolveremos os dotes e manteremos os tratados comerciais, se seu pai assim desejar. Mas o coração de Alvorada não pertence ao Reino de Ouro.

Elena soltou um grito de indignação e marchou para longe, suas botas metálicas soando como uma derrota ruidosa.

O Rei aproximou-se de Meg e Theo. Ele colocou a mão no ombro do filho.

— Você escolheu bem, Theo. E você, Meg... este reino tem uma dívida que nunca poderá pagar.

— Eu não quero que paguem, Majestade — disse Meg, levantando-se com a ajuda de Theo. — Eu só quero voltar para a minha confeitaria. Tenho uma encomenda de cupcakes de lavanda que está atrasada há três dias.

O Rei riu, um som raro e bem-vindo.

— Receio que a confeitaria terá que esperar. O povo vai querer saudar sua nova Princesa amanhã.

Theo olhou para Meg, seus olhos brilhando com uma pergunta silenciosa. Meg respirou fundo. Ela era organizada, reservada e gostava de sua rotina. Ser princesa — e futuramente rainha — seria o maior caos que ela já enfrentara.

Mas então, ela olhou para Theo, o garoto que a amava desde os seis anos, e percebeu que, com ele ao seu lado, ela poderia organizar qualquer reino.

— Acho que posso abrir uma exceção no meu cronograma — disse Meg, sorrindo.

Theo a puxou para um beijo ali mesmo, na praça purificada, sob o olhar aprovador do Rei e as estrelas que agora brilhavam mais forte. O reino de Alvorada estava salvo, e o amor, finalmente, havia encontrado sua cura definitiva.