Voltar ao resumo

entre tapas e beijos

Entre o Zinco e a Pele

O silêncio que se seguiu ao último beijo não era desconfortável; era denso, carregado de uma eletricidade que a chuva, lá fora, não conseguia mais dissipar. Deb sentia o calor de Moon irradiando contra seu corpo, uma sensação que contrastava com o metal frio do galpão e o cheiro de mofo que as cercava. Ela ainda mantinha as mãos firmes na cintura de Moon, sentindo a curva do quadril da outra garota sob o tecido fino da regata. A confissão — aquela palavra "hétero" dita entre aspas invisíveis — ainda flutuava no ar, mas agora parecia leve, como se tivesse perdido o poder de sufocá-la.

— Então... — Moon quebrou o silêncio, sua voz ainda um pouco instável, mas recuperando aquele tom de deboche que era sua armadura natural. — O que acontece agora? Você vai me levar para casa e fingir que nada aconteceu, ou vai finalmente admitir que essa sua jaqueta de "bad boy" é só um disfarce para o seu coração de manteiga?

Deb soltou um riso nasalado, balançando a cabeça. Ela deu um passo à frente, diminuindo o pouco espaço que Moon tentava criar para respirar. A timidez de Deb, embora sempre presente, estava sendo eclipsada por uma onda de adrenalina. Ela gostava de como Moon a desafiava, e gostava ainda mais de como podia responder à altura agora que as cartas estavam na mesa.

— Coração de manteiga? — Deb arqueou uma sobrancelha, aproximando o rosto do pescoço de Moon, sentindo o pulsar acelerado da veia carótida dela. — Acho que você está confundindo as coisas, Moon. Eu só estava sendo educada. Sabe como é, hospitalidade de galpão abandonado.

Moon soltou uma risada curta, sentindo o hálito quente de Deb contra sua pele, o que a fez estremecer visivelmente.

— Hospitalidade, é? — Moon inclinou a cabeça, dando mais acesso ao pescoço, um convite silencioso que Deb não hesitou em aceitar. — Você é muito engraçadinha, Deb. Mas seus dedos estão apertando minha cintura com uma força que não me parece "educação".

Deb deslizou as mãos para cima, por baixo da regata preta de Moon, sentindo a pele macia e quente das costas dela. O contato direto fez o estômago de Deb dar um solavanco. Ela nunca tinha se permitido chegar tão longe, nem em seus pensamentos mais ousados.

— Talvez eu esteja apenas garantindo que você não fuja — sussurrou Deb contra a orelha de Moon. — Você fala demais, Moon. Já te disseram isso?

— O tempo todo — murmurou Moon, fechando os olhos quando sentiu os dentes de Deb roçarem levemente o lóbulo de sua orelha. — Mas você é a única que parece saber como me calar de verdade.

Deb se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos escuros de Moon. Havia uma vulnerabilidade ali que Moon raramente deixava transparecer. A pansexualidade de Moon era sua bandeira, sua liberdade, mas ali, sob o olhar intenso de Deb, ela parecia estar sendo vista de uma forma que ia além da sua identidade pública. Ela era apenas Moon, entregue a uma garota que passara meses fingindo que não a queria.

— Eu não quero mais jogar, Moon — disse Deb, a voz perdendo o tom de brincadeira e assumindo uma gravidade crua. — Eu passei tempo demais olhando para você e me perguntando como seria. Como seria se eu não tivesse medo.

Moon estendeu a mão e acariciou o rosto de Deb, o polegar traçando a linha do lábio inferior que ainda estava levemente inchado pelo beijo anterior.

— E como é? — perguntou Moon em um sussurro. — É como você imaginou?

Deb deu um sorriso de lado, aquele sorriso que Moon sempre achou irresistivelmente charmoso e irritante ao mesmo tempo.

— É melhor — respondeu Deb. — Porque na minha imaginação você não ficava tão quieta assim.

— Ah, você quer que eu fale? — Moon deu um passo para trás, saindo do abraço de Deb, mas apenas para se encostar na mesa de trabalho velha, puxando Deb pela gola da jaqueta para que ela ficasse entre suas pernas. — Eu posso falar sobre como eu adoro esse seu jeito de tentar ser durona enquanto seus olhos me devoram. Ou sobre como essa sua postura mais "masculina" me deixa completamente sem chão, mesmo que eu saiba que você é um doce por dentro.

Deb sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar. Ela apoiou as mãos na mesa, uma de cada lado dos quadris de Moon, cercando-a novamente. A inversão de poder ali era constante; uma hora Deb dominava com sua presença física e atitude, na outra Moon a desarmava com sua franqueza desavergonhada.

— Você gosta de me provocar, não gosta? — Deb perguntou, aproximando o corpo, sentindo os joelhos de Moon pressionarem suas coxas.

— Eu amo — admitiu Moon, as mãos agora descendo pelos braços de Deb, sentindo os músculos sob o jeans. — Especialmente quando você reage assim. Com essa cara de quem quer me colocar no colo e me mostrar quem manda.

— E se eu quiser? — O desafio na voz de Deb era palpável.

— Então eu diria que você está demorando demais para agir — respondeu Moon, desafiadora.

Deb não precisou de mais nada. Ela agarrou as coxas de Moon e a puxou para a beirada da mesa, fazendo com que Moon soltasse um suspiro de surpresa que rapidamente se transformou em um gemido baixo quando Deb a beijou novamente. Desta vez, não havia hesitação. Era um beijo de posse, de descoberta, as línguas se encontrando em um ritmo que acompanhava a batida acelerada de seus corações.

As mãos de Moon se perderam nos cabelos curtos de Deb, puxando-os levemente, enquanto Deb explorava a curva do pescoço e da clavícula de Moon com lábios e dentes. O galpão, com suas goteiras e poeira, parecia ter se transformado em um santuário. O mundo lá fora, com suas etiquetas de "hétero", "pan", "amigas" e "estudantes", não tinha permissão para entrar.

— Deb... — Moon arquejou, a cabeça jogada para trás enquanto sentia as mãos de Deb subirem por suas pernas, por baixo do short jeans. — A gente... a gente realmente não vai voltar para o campus hoje, vai?

Deb parou por um segundo, olhando para Moon com um brilho predatório e divertido nos olhos.

— O campus pode esperar — disse Deb, a voz rouca. — Eu acho que a gente tem muito o que conversar. Sem usar palavras.

Moon sorriu, puxando Deb para mais perto pelo colarinho.

— Finalmente uma ideia prática da sua parte, Deb.

— Eu disse que era prática — rebateu Deb, antes de mergulhar novamente no calor de Moon, esquecendo-se da chuva, do frio e de qualquer segredo que um dia ousou guardar.

A tensão que as unira por meses agora se transformava em algo novo, uma conexão que queimava mais forte que qualquer provocação. E ali, no isolamento do Galpão 4, Deb descobriu que não precisava de rótulos para saber exatamente quem era quando estava nos braços de Moon. Ela era a garota que finalmente tinha parado de fugir, e Moon era a razão pela qual ela queria ficar para sempre naquele refúgio de zinco e desejo.

— Sabe de uma coisa? — Moon murmurou entre beijos, a respiração curta.

— O quê? — Deb perguntou, a voz vibrando contra a pele de Moon.

— Você fica muito mais bonita quando para de tentar ser só "um dos caras" e aceita que é a minha garota.

Deb riu, um som rico e cheio de confiança, e apertou Moon contra si.

— Eu posso ser os dois, Moon. Mas só para você.

— Justo — concordou Moon, antes de selar o acordo com um beijo que prometia que aquela noite estava apenas começando.