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entre tapas e beijos

Sinfonia de Metal e Desejo

O som da chuva martelando o telhado de zinco do Galpão 4 havia se transformado em um ruído branco, uma barreira acústica que isolava Deb e Moon do resto da universidade, do resto da cidade e de qualquer rastro de bom senso que ainda pudessem ter. O ar ali dentro estava saturado — não apenas pela umidade da tempestade, mas por uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Deb se arrepiarem toda vez que a pele de Moon roçava na sua.

Deb estava encostada em uma bancada de madeira pesada, com as mãos agarradas à borda com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela tentava manter sua fachada de "durona", a máscara de indiferença que usara como escudo durante todo o semestre, mas o beijo que acabara de acontecer havia destruído suas defesas. Moon, por outro lado, parecia se deleitar com o caos que causara. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Deb com a confiança de quem sabia exatamente o poder que exercia.

— Você está muito silenciosa, Deb — provocou Moon, a voz saindo como um sussurro rouco que vibrou direto na espinha da outra. — Onde foi parar aquela garota cheia de atitude que sempre tem uma resposta pronta para as minhas piadas?

Deb engoliu em seco, sentindo o calor do corpo de Moon irradiando contra o seu. A luz amarelada e fraca de uma lanterna esquecida em um canto projetava sombras longas e dramáticas nas paredes de metal, acentuando as curvas do rosto de Moon e o brilho predatório em seus olhos escuros.

— Eu só... estou tentando processar o fato de que você não cala a boca nem quando está tentando me seduzir — retrucou Deb, a voz falhando levemente no final, o que a fez praguejar mentalmente.

Moon soltou uma risada curta e deliciada, aproximando o rosto do pescoço de Deb. Ela não a tocou imediatamente, mas o hálito quente contra a pele sensível abaixo da orelha foi o suficiente para fazer Deb soltar um suspiro trêmulo.

— Ah, então você admite? — Moon deslizou a ponta do nariz pela linha do maxilar de Deb. — Admite que eu estou te seduzindo? E, mais importante... admite que está funcionando?

Deb fechou os olhos, sentindo o mundo girar. A masculinidade que ela exibia, aquela postura firme e protetora, parecia derreter sob o toque quase imperceptível de Moon. Ela soltou uma das mãos da bancada e a levou à cintura de Moon, puxando-a para mais perto de forma instintiva, eliminando qualquer centímetro de ar que ainda as separava.

— Você é insuportável, Moon — sussurrou Deb, antes de inclinar a cabeça e capturar os lábios de Moon em um beijo que não tinha nada de tímido.

Desta vez, não houve hesitação. O beijo era urgente, carregado de meses de negação e de uma tensão sexual que havia sido cozida em banho-maria nas salas de aula e nos corredores do campus. Moon soltou um som baixo na garganta, algo entre um gemido e um suspiro de satisfação, e enlaçou os braços em volta do pescoço de Deb, puxando-a para baixo.

As mãos de Deb, antes hesitantes, tornaram-se possessivas. Ela deslizou as palmas por baixo da regata de Moon, sentindo a pele macia e quente das costas dela. O contraste entre a frieza do galpão e o calor que emanava de Moon era inebriante. Deb a empurrou levemente contra a bancada, posicionando-se entre as pernas da garota, sentindo a fricção do jeans contra jeans que fazia seu sangue pulsar mais rápido.

— Deb... — Moon arquejou entre os beijos, a voz carregada de uma vulnerabilidade que ela raramente mostrava. — Eu sabia que você estava escondendo esse fogo todo por trás dessa jaqueta jeans.

— Cala a boca e me beija — ordenou Deb, a timidez finalmente sendo eclipsada pelo desejo puro.

Ela desceu os beijos pelo pescoço de Moon, encontrando o ponto exato onde a pulsação dela batia frenética. Moon jogou a cabeça para trás, expondo a garganta, as unhas cravando-se levemente nos ombros de Deb. A tempestade lá fora parecia aumentar de intensidade, o vento uivando contra as frestas do galpão, mas ali dentro, o único som que importava era a respiração pesada das duas e o estalar dos beijos.

Deb sentiu uma onda de audácia que nunca experimentara antes. Ela se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Moon, que estavam nublados de desejo e fixos nos seus. A fachada de "hétero" de Deb não era apenas uma máscara para os outros; era uma prisão que ela mesma construíra, e ali, naquele momento, ela sentiu as grades se transformarem em pó.

— Você não faz ideia de quanto tempo eu passei imaginando isso — confessou Deb, a voz saindo grave, quase irreconhecível. — De quanto tempo eu passei querendo te calar desse jeito.

Moon sorriu, um sorriso pequeno e genuíno, sem o deboche habitual. Ela levou a mão ao rosto de Deb, acariciando a bochecha com o polegar.

— Então por que parou? — desafiou Moon em um sussurro. — Eu não vou a lugar nenhum, Deb. E a chuva não vai parar tão cedo.

Deb sentiu um solavanco no peito. Ela agarrou as coxas de Moon e a levantou, sentando-a sobre a bancada de madeira. Moon soltou uma exclamação de surpresa que rapidamente se transformou em um gemido quando Deb se encaixou entre suas pernas, as mãos subindo para o rosto de Moon, segurando-o com uma mistura de força e ternura.

— Você gosta de brincar com fogo, Moon — disse Deb, os olhos fixos nos lábios entreabertos da outra. — Mas eu não sou de brincar. Se a gente continuar... eu não vou conseguir parar.

— Quem disse que eu quero que você pare? — retrucou Moon, puxando Deb pela gola da camisa, trazendo-a de volta para um beijo profundo e faminto.

O contato tornou-se mais frenético. As mãos de Deb exploravam cada curva de Moon, memorizando a textura da sua pele, o modo como ela estremecia a cada toque mais ousado. Moon, por sua vez, explorava a força de Deb, maravilhada com a mistura de masculinidade e delicadeza que a outra garota possuía. Ela puxou a camisa de Deb para fora da calça, buscando o contato direto da pele, sentindo os músculos das costas de Deb se contraírem sob seus dedos.

— Deb, por favor... — murmurou Moon contra os lábios dela, uma súplica silenciosa por algo mais.

Deb a atendeu, as mãos descendo para o botão da calça de Moon. Cada movimento era coreografado pelo desejo, uma dança desajeitada e urgente que acontecia em meio a ferramentas velhas e poeira. O galpão abandonado, que antes parecia um lugar desolado e frio, havia se tornado o cenário de uma libertação.

— Você tem certeza? — perguntou Deb, parando por um segundo, a respiração curta, os olhos buscando os de Moon em busca de confirmação.

Moon respondeu puxando Deb para mais perto, selando seus lábios em um beijo que carregava toda a confirmação de que precisavam.

— Eu nunca tive tanta certeza de nada na minha vida — afirmou Moon, a voz firme apesar do tremor em suas mãos.

O que se seguiu foi uma sinfonia de descobertas. No isolamento daquela noite, Deb deixou de ser a garota tímida que se escondia atrás de roupas largas e piadas defensivas. Ela se tornou a amante atenta, a mulher que descobria sua própria sexualidade através do prazer que proporcionava e recebia. Moon, a provocadora nata, entregou-se com uma confiança absoluta, guiando Deb e sendo guiada por ela em um território que, embora novo para uma, era o destino final desejado por ambas.

O metal do galpão ecoava os sons de sua intimidade, abafados pelo rugido constante da chuva. Não havia pressa, apenas a necessidade de preencher o vazio de meses de silêncio. Deb descobriu que adorava o modo como Moon arqueava as costas quando ela beijava sua clavícula, e Moon descobriu que o coração de "durona" de Deb batia com uma força avassaladora quando ela era amada.

Quando o ápice finalmente as alcançou, foi como se a tempestade tivesse invadido o galpão. Elas se seguraram uma na outra, âncoras em meio a um mar de sensações avassaladoras, até que a respiração voltasse ao normal e o mundo parasse de girar.

Deb enterrou o rosto no pescoço de Moon, sentindo o cheiro de chuva e do perfume floral que Moon sempre usava. Ela se sentia exausta, mas incrivelmente viva. O silêncio que se seguiu não era pesado; era preenchido por uma cumplicidade nova e preciosa.

— Então... — começou Moon, a voz ainda um pouco instável, tentando recuperar seu tom brincalhão. — Acho que a sua reputação de "hétero do campus" acaba de sofrer um golpe fatal, Deb.

Deb soltou uma risada abafada contra a pele de Moon, apertando-a um pouco mais no abraço.

— Acho que eu posso viver com isso — admitiu Deb. — Na verdade, eu acho que nunca me senti tão eu mesma quanto agora.

Moon se afastou um pouco para olhar para ela, um sorriso doce e vitorioso nos lábios. Ela ajeitou uma mecha do cabelo de Deb que estava grudada na testa suada.

— Eu sabia. Eu sempre soube que você estava aí dentro. Eu só precisei de um galpão abandonado e um pouco de chuva para te convencer a sair.

— Você é muito convencida, Moon — disse Deb, mas não havia irritação em sua voz, apenas carinho.

— E você me ama por isso — rebateu Moon, dando-lhe um selinho demorado.

Elas ficaram ali por um longo tempo, aninhadas na penumbra, enquanto a chuva lá fora começava a diminuir para uma garoa persistente. O frio do galpão tentava retornar, mas o calor que haviam gerado era suficiente para mantê-las aquecidas. Deb pegou sua jaqueta jeans, que havia sido descartada em algum momento, e a colocou sobre os ombros de Moon, envolvendo-as no mesmo casulo.

— O que a gente faz amanhã? — perguntou Deb, a realidade do mundo exterior começando a se infiltrar em seus pensamentos. — Quando a gente voltar para o campus e todo mundo estiver lá?

Moon deu de ombros, encostando a cabeça no ombro de Deb.

— A gente faz o que a gente quiser, Deb. Se você quiser manter isso em segredo por um tempo, tudo bem. Mas eu vou continuar implicando com você no refeitório. E eu vou continuar te olhando daquele jeito que te deixa nervosa.

Deb sorriu, sentindo uma leveza que não experimentava há anos.

— Eu acho que não vou mais ficar tão nervosa — disse ela. — Agora que eu sei o que acontece quando você consegue o que quer.

Moon riu, um som claro e bonito que pareceu afastar as últimas sombras do galpão.

— Ah, Deb, você não tem ideia. Isso foi só o começo. Eu ainda tenho muitos planos para essa sua pose de durona.

Deb beijou o topo da cabeça de Moon, fechando os olhos e aproveitando o momento. O Galpão 4, com seu zinco barulhento e poeira acumulada, havia deixado de ser apenas um abrigo contra a chuva. Tornara-se o lugar onde Deb deixara de fugir de si mesma e onde Moon encontrara a parceria que sempre desejara.

Lá fora, a tempestade havia passado, deixando para trás o cheiro de terra molhada e um céu que começava a clarear. Mas ali dentro, o fio invisível que as unia havia se transformado em uma corda de aço, inquebrável e vibrante. A amizade havia evoluído, a tensão havia se dissipado em prazer, e o que restava era a promessa de uma jornada que elas finalmente estavam prontas para trilhar juntas, sem máscaras e sem medo do que o amanhã traria.

— Vamos? — perguntou Moon, levantando-se devagar e estendendo a mão para Deb. — Antes que alguém venha conferir se o galpão ainda está de pé.

Deb pegou a mão de Moon, entrelaçando seus dedos com firmeza. Ela olhou em volta uma última vez, memorizando cada detalhe daquele espaço que mudara sua vida.

— Vamos — concordou Deb, um sorriso confiante surgindo em seu rosto. — Eu tenho uma jaqueta para recuperar e uma reputação para... bem, para decidir o que fazer com ela.

Moon piscou para ela, puxando-a em direção à porta.

— Não se preocupe, Deb. Eu te ajudo com isso. Afinal, eu sou ótima em causar problemas.

E, enquanto caminhavam para fora, em direção à luz pálida do amanhecer, Deb soube que, não importa o que acontecesse no campus, ela nunca mais estaria sozinha na chuva.