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entre tapas e beijos

O Peso da Verdade nas Mãos

A luz da manhã seguinte entrou sem pedir licença pela janela do quarto de Moon, iluminando as partículas de poeira que flutuavam no ar calmo. Deb abriu os olhos devagar, sentindo o peso familiar e reconfortante de Moon abraçada ao seu braço. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som da respiração profunda da garota ao seu lado. A briga da noite anterior parecia um pesadelo distante, mas as marcas emocionais ainda latejavam levemente, como um lembrete de que o que elas tinham era precioso e, por isso, frágil.

Deb observou o teto por alguns minutos. Ela se sentia estranhamente leve. Ter desmoronado na frente de Moon, ter deixado sua armadura de "durona" cair completamente ao chão junto com suas roupas encharcadas, fora aterrorizante, mas libertador. Ela sempre achou que precisava ser o pilar, a rocha, a pessoa que resolvia os problemas sem pestanejar. Descobrir que Moon a amava justamente por suas rachaduras era um conceito que ela ainda estava tentando processar.

Sentindo o olhar de Deb, Moon se mexeu. Ela soltou um murmúrio ininteligível e apertou mais o abraço, enterrando o rosto no bíceps de Deb antes de abrir um dos olhos.

— Você está pensando alto de novo — murmurou Moon, a voz rouca de sono. — Eu consigo ouvir as engrenagens da sua cabeça girando daqui.

Deb sorriu de lado, passando a mão livre pelos cabelos bagunçados de Moon.

— Estava pensando que eu sou uma sortuda por você não ter me chutado para fora daquele corredor ontem à noite.

Moon levantou um pouco a cabeça, apoiando o queixo no peito de Deb. O brilho travesso estava de volta, mas temperado com uma doçura que só Deb conhecia.

— Eu considerei — admitiu Moon, dando um beijinho na ponta do nariz de Deb. — Mas aí eu vi você toda molhada, parecendo um filhote de cachorro abandonado na chuva, e meu coração de manteiga falou mais alto.

— Filhote de cachorro? — Deb arqueou uma sobrancelha, fingindo indignação. — Eu sou uma presença intimidadora, Moon. Respeite minha imagem.

— Ah, claro. Muito intimidadora — Moon riu, sentando-se na cama e deixando o lençol cair, revelando as tatuagens que Deb tanto amava explorar. — Especialmente quando você chora e pede desculpas com voz de bebê.

— Eu não fiz voz de bebê! — Deb sentou-se também, o rosto esquentando.

— Fez sim. "Moon, eu sou uma idiota..." — Moon imitou, afinando a voz de um jeito hilário.

Deb não aguentou e soltou uma risada, puxando Moon para um beijo rápido. O clima estava leve, mas o elefante no quarto — o estágio e a distância — ainda estava lá, esperando para ser discutido com a sobriedade que o dia trazia.

— Sobre o estágio... — começou Deb, sua voz agora séria, mas sem a agressividade de antes.

Moon suspirou e sentou-se de pernas cruzadas, de frente para ela.

— Eu não quero que isso seja um problema entre nós, Deb. Se você acha que a gente não consegue, se você acha que vai ser sofrido demais para você... eu posso procurar outra coisa por aqui.

Deb balançou a cabeça negativamente. Ela pegou as mãos de Moon, sentindo a delicadeza dos dedos da artista.

— Não. Você não vai fazer isso. Eu passei a noite pensando... e eu percebi que parte do meu medo é que eu te vejo voando, Moon. Você é incrível, você é talentosa, e você merece o mundo. Eu tive medo de ficar para trás, presa na minha própria casca. Mas eu percebi que, se eu te impedir de voar, eu não estaria te amando. Eu estaria te prendendo. E eu não quero ser a pessoa que apaga o seu brilho.

Moon sentiu os olhos marejarem. Ela nunca esperou ouvir algo assim de Deb, a garota que, meses atrás, mal conseguia admitir que gostava de segurar sua mão em público.

— Deb...

— Escuta — interrompeu Deb, ganhando confiança. — Vai ser difícil? Vai. Eu vou sentir sua falta todo maldito segundo? Com certeza. Mas a gente vai dar um jeito. Eu tenho carro, eu posso dirigir até lá nos finais de semana. A gente tem vídeo, a gente tem... sei lá, a gente dá um jeito. Eu só preciso que você prometa que, se as coisas ficarem difíceis, você vai falar comigo antes de decidir que é melhor desistir de nós.

— Eu prometo — disse Moon, a voz firme. — Eu nunca desistiria de nós por causa de quilômetros, Deb. Você é o meu norte. Não importa onde eu esteja, é para você que eu quero voltar no fim do dia.

Elas se abraçaram, um abraço longo que selava um novo acordo. Não era mais apenas o desejo cru do Galpão 4, mas um compromisso maduro de duas pessoas que estavam aprendendo a crescer juntas.

— Bom — disse Moon, afastando-se com um sorriso radiante —, agora que resolvemos o drama da minha carreira internacional, que tal a gente focar em algo mais urgente?

— O quê? — perguntou Deb, confusa.

— Eu estou morrendo de fome. E você me deve um café da manhã digno depois de me fazer chorar metade da noite.

Deb riu, levantando-se da cama com a agilidade que lhe era peculiar. Ela vestiu sua camiseta preta e olhou para Moon, que ainda a observava com admiração.

— Café da manhã, é? — Deb caminhou até a porta do quarto, parando e fazendo uma pose de "bad boy" que sempre fazia Moon revirar os olhos e sorrir ao mesmo tempo. — Prepare o seu coração, Moon. Eu faço as melhores panquecas deste lado do estado.

— Panquecas? — Moon levantou-se, indo até ela e passando os braços pelo pescoço de Deb. — Você é cheia de talentos ocultos, Deb. Primeiro o lado sentimental, agora dotes culinários... o que mais você está escondendo?

— Você teria que ficar por aqui para descobrir — sussurrou Deb, puxando-a para um beijo profundo e cheio de promessas.

— Oh, eu não pretendo ir a lugar nenhum sem você, Deb. Nem que eu tenha que te levar na mala para aquele estágio.

As duas riram, caminhando juntas para a cozinha pequena e bagunçada. Enquanto o cheiro de café começava a preencher o apartamento, Deb sentiu uma paz que nunca havia experimentado. A vida adulta estava chegando, com seus desafios, distâncias e decisões difíceis, mas ela não estava mais sozinha. Ela tinha Moon. E Moon tinha a versão mais verdadeira de Deb.

No fim das contas, a chuva que as unira no galpão e a tempestade que quase as separara no apartamento serviram para a mesma coisa: lavar as mentiras e deixar apenas o que era real. E o que era real entre Deb e Moon era forte o suficiente para resistir a qualquer clima.

— Ei, Deb — chamou Moon, enquanto observava a namorada virar uma panqueca com uma precisão impressionante.

— Hum?

— Eu te amo. De verdade. Sem aspas, sem joguinhos.

Deb parou por um segundo, o coração dando aquele salto costumeiro. Ela olhou para Moon, que estava sentada no balcão, balançando as pernas e sorrindo como se tivesse descoberto o maior segredo do universo.

— Eu também te amo, Moon — disse Deb, a voz suave e cheia de certeza. — Mais do que eu achava que era capaz de amar alguém.

A cozinha foi preenchida pelo som do café passando e pelas risadas das duas, um som que ecoaria por muito tempo, atravessando cidades, estradas e qualquer distância que a vida ousasse colocar entre elas. Elas tinham encontrado o ritmo certo, e agora, nada poderia impedi-las de dançar.