Entre tapas e beijos.
Tinta Fresca, Velhas Feridas e o Aroma de Café
A tarde em São Paulo havia decidido desmoronar em um tom de cinza-chumbo que Gabriele considerava pessoalmente ofensivo. O céu não apenas chorava; ele despejava uma fúria torrencial que transformava as ruas dos Jardins em pequenos afluentes do Tietê. Gabriele, protegida por seu sobretudo de lã italiana e segurando uma sacola de papel de uma livraria cult com o zelo de quem carrega um recém-nascido, praguejava mentalmente contra o aplicativo de transporte que indicava "40 minutos de espera".
Ela odiava o transporte público, mas a perspectiva de ficar plantada na calçada, vendo seu corte chanel ser arruinado pela umidade, a fez marchar em direção ao ponto de ônibus mais próximo. Quando o letreiro luminoso finalmente surgiu entre as cortinas de água, o veículo estava tão apinhado que Gabriele sentiu uma náusea aristocrática. Decidiu, então, por um recuo estratégico.
Avistou uma cafeteria de esquina, um lugar com luzes amareladas e uma fachada de madeira que prometia, ao menos, que ela não morreria afogada. Ao entrar, o sino da porta anunciou sua chegada, mas ninguém olhou. O estabelecimento estava imerso em um rugido coletivo: era dia de jogo da seleção brasileira. Homens e mulheres se amontoavam em volta de uma televisão de polegadas generosas, gritando impropérios contra o árbitro.
Gabriele suspirou, procurando o canto mais isolado possível. E foi ali, na última mesa perto da janela embaçada, que ela a viu.
Hylda estava sozinha. Não usava a jaqueta de couro hoje, mas sim um casaco de sarja escuro que realçava o grisalho de seu cabelo curto. Ela não olhava para a TV; observava a chuva com uma melancolia que não combinava com a imagem de "mulher da fábrica" que Gabriele havia construído em sua mente.
O primeiro impulso de Gabriele foi dar meia-volta e enfrentar o dilúvio. Mas o vento uivou lá fora, e um raio iluminou o céu de forma ameaçadora. Resignada, ela caminhou até a mesa vizinha.
— Se você planeja me expulsar desta cafeteria também, sugiro que espere até eu pedir um expresso — a voz profunda de Hylda cortou o barulho da torcida antes mesmo de Gabriele se sentar.
Gabriele parou, a mão ainda no encosto da cadeira de ferro.
— Eu não expulso pessoas de lugares públicos, Hylda. Apenas de propriedades privadas onde não foram formalmente convidadas.
— Justo — Hylda virou o rosto, e o meio sorriso desafiador apareceu. — Senta aí, Gabriele. Não vou morder. A menos que você comece a falar mal da Amy de novo.
— A "criança encapetada" não está aqui para ser defendida? — Gabriele sentou-se, cruzando as pernas com a elegância de uma garça. — Achei que vocês fossem grudadas por algum tipo de adesivo industrial.
— A Amy está em um ensaio do grupo de teatro dela. E eu precisava de um pouco de silêncio — Hylda fez um gesto para a TV barulhenta. — Iônico, eu sei. Mas aqui ninguém me conhece.
O garçom aproximou-se e Gabriele pediu seu café com uma polidez gélida. Quando ele se retirou, o silêncio instalou-se entre as duas, preenchido apenas pelos gritos de "GOL!" vindos do balcão.
— O que você comprou? — Hylda perguntou, apontando para a sacola da livraria.
— Literatura. Algo que duvido que desperte seu interesse entre um turno e outro na fábrica.
— Tenta a sorte. Eu leio mais do que as pessoas imaginam.
Gabriele hesitou, mas retirou o volume de capa dura.
— "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar. É uma tradução nova.
Hylda inclinou a cabeça, lendo o título.
— "A morte é um dos meus passos de dança". É uma frase desse livro, não é? Ou algo parecido.
Gabriele piscou, genuinamente surpresa.
— "A vida é uma das minhas formas de dança". Você conhece Yourcenar?
— Eu tive muito tempo para ler quando estava na reabilitação, anos atrás — Hylda disse com uma franqueza que desarmou Gabriele. — Quando você não tem nada além de quatro paredes e a vontade de usar alguma coisa, os livros são as únicas janelas que não quebram.
O cinismo de Gabriele vacilou por um segundo. Ela pigarreou, ajeitando o cardigã.
— É uma escolha... admirável. Para alguém da sua estirpe.
— Minha estirpe? — Hylda riu, uma risada rouca e quente. — Você é impossível, Gabriele. Temos quase a mesma idade, sabia? Eu tenho cinquenta e sete. Você deve estar na casa dos cinquenta e cinco.
— Cinquenta e cinco — admitiu Gabriele, sentindo-se estranhamente exposta.
— Pois é. Quando a gente estava beirando os trinta, descobrindo quem éramos no mundo, sua namorada atual estava nascendo.
Hylda arqueou uma sobrancelha, o olhar fixo no de Gabriele.
— A Amy é... um espírito livre. Ela vê cores onde eu só vejo cinza. Às vezes, a gente precisa de alguém que nos lembre que o mundo não acabou só porque a gente envelheceu.
— Ou você só gosta de ser a salvadora — Gabriele rebateu, recuperando o fôlego. — A figura protetora que cuida da menina quebrada para se sentir inteira.
— E você gosta de ser a estátua de gelo para não ter que lidar com o fato de que, se derreter, vai acabar virando uma poça igual a todo mundo.
O clima ficou ácido novamente. Gabriele sentiu aquela irritação familiar, mas havia algo mais. Um calor que subia por seu pescoço. Ela desviou o olhar para o peito de Hylda, onde um pequeno crucifixo de prata pendia de uma corrente discreta.
— Uma santa de jaqueta de couro e agora um crucifixo? — Gabriele apontou. — Você é cheia de contradições, Hylda.
Hylda tocou o metal frio com os dedos calejados.
— É um lembrete. De que alguém, em algum lugar, acredita que eu valho a pena. E você? Onde está sua fé?
Gabriele deu um gole demorado em seu café, o olhar perdido na chuva.
— Eu estive em um convento quando era jovem.
O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que parecia que a cafeteria inteira havia emudecido. Hylda arregalou os olhos.
— Você? Uma noviça?
— Por dois anos — Gabriele disse, a voz subitamente pequena. — Eu buscava o silêncio, a ordem, a disciplina. Achei que Deus seria o único que não me decepcionaria.
— E o que aconteceu?
— Descobri que o silêncio do convento é ensurdecedor quando você tem perguntas que ninguém quer responder. E que eu gostava demais de bons vinhos e de questionar a autoridade.
Hylda soltou uma gargalhada genuína, fazendo algumas pessoas no balcão olharem.
— Eu consigo imaginar perfeitamente você corrigindo o latim das madres superiores e sendo mandada para a penitência.
— Eu fui — Gabriele sorriu, um sorriso raro e genuíno que transformou seu rosto, suavizando as linhas de amargura ao redor dos olhos. — Muitas vezes.
Nesse exato momento, um trovão estrondoso sacudiu o prédio e, com um estalo seco, todas as luzes da cafeteria se apagaram. O breu foi instantâneo. Gritos de decepção vieram dos torcedores, mas na mesa de canto, o mundo pareceu parar.
Gabriele soltou uma exclamação de susto, sentindo a escuridão fechar-se sobre ela. Instintivamente, sua mão tateou a mesa em busca de algo sólido. Ela encontrou uma mão quente, firme e áspera.
Hylda não recuou. Em vez disso, ela fechou os dedos sobre os de Gabriele, segurando-os com uma delicadeza que contrastava com sua aparência bruta.
— Calma — sussurrou Hylda na penumbra. — É só a luz. Eu estou aqui.
Gabriele deveria ter puxado a mão. Deveria ter feito um comentário sarcástico sobre higiene ou espaço pessoal. Mas o contato da pele de Hylda contra a sua era como um âncora em meio ao caos da tempestade. O cheiro de couro e tabaco frio da outra mulher era estranhamente reconfortante.
— Suas mãos são frias — Hylda comentou, o polegar acariciando levemente o dorso da mão de Gabriele.
— Má circulação — Gabriele respondeu, a voz trêmula. — E falta de paciência com fenômenos meteorológicos.
— Ou talvez você só precise de alguém que a aqueça de vez em quando.
Gabriele sentiu o coração martelar contra as costelas. No escuro, sem as máscaras sociais, a tensão entre elas não era mais apenas agressividade. Era algo elétrico, um reconhecimento de duas solidões que se chocavam.
— Você é muito presunçosa, sabia? — Gabriele murmurou, mas não soltou a mão de Hylda.
— E você é muito teimosa.
As luzes de emergência, fracas e avermelhadas, acenderam-se segundos depois. Gabriele rapidamente retirou a mão, ajeitando o cabelo com uma pressa nervosa. Hylda apenas sorriu, encostando-se na cadeira, observando o rubor nas bochechas da outra.
A chuva finalmente começou a ceder, transformando-se em uma garoa fina. O jogo na TV não voltou, e as pessoas começaram a pagar suas contas e sair.
— Eu preciso ir — disse Gabriele, levantando-se e pegando sua sacola de livros. — Mirtes deve estar destruindo minhas cortinas.
— Claro. A gata ranzinza espera pela dona ranzinza — Hylda levantou-se também, pegando sua conta.
Caminharam juntas até a porta. O ar lá fora estava limpo e frio.
— Gabriele — chamou Hylda antes que ela acenasse para um táxi que passava.
— Sim?
— O próximo encontro do clube é na casa da Ana, semana que vem. Eu vou levar um vinho. Um bom. Do tipo que ex-noviças apreciam.
Gabriele parou com a mão na maçaneta do táxi. Ela olhou para Hylda, para as tatuagens que agora pareciam menos ameaçadoras e mais como um mapa de uma vida vivida intensamente.
— Se for um Cabernet de baixa qualidade, eu vou expulsar você pessoalmente, Hylda.
— Eu não esperaria menos de você.
Gabriele entrou no carro e, enquanto o táxi se afastava, ela olhou pelo vidro traseiro. Hylda ainda estava lá, parada na calçada, acendendo um cigarro, uma silhueta solitária e magnética sob a luz dos postes.
Nos dias que se seguiram, Gabriele tentou retomar sua rotina. Seus passeios pelo Ibirapuera, suas tardes nos cafés, suas leituras de clássicos. Mas havia uma distração constante. Ela se pegava olhando para as próprias mãos, lembrando-se do calor da palma de Hylda.
Ela começou a frequentar livrarias que normalmente não visitava, apenas porque ficavam perto da fábrica onde Ana mencionara que Hylda trabalhava. Ela dizia a si mesma que era apenas uma mudança de ares, uma necessidade de novos títulos.
Em uma tarde de quinta-feira, ela se viu parada em frente a uma loja de discos usados, um lugar que cheirava a poeira e vinil antigo — exatamente o tipo de lugar que Hylda frequentaria. Quando a porta se abriu e ela viu o cabelo grisalho familiar vasculhando uma caixa de blues ao fundo, Gabriele não fugiu.
Ela entrou, o som do salto de seus sapatos ecoando no piso de madeira.
Hylda levantou os olhos e, ao ver Gabriele, não pareceu surpresa. Apenas abriu aquele sorriso de lado que fazia o estômago de Gabriele dar voltas indesejadas.
— Procurando Yourcenar em vinil, Gabriele? — Hylda provocou, aproximando-se.
— Procurando o silêncio, mas parece que você tem o hábito de estar onde ele não existe — rebateu Gabriele, embora não houvesse veneno em sua voz.
— Talvez a gente devesse parar de fingir que esses encontros são acidentais — Hylda deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Gabriele de uma forma que ninguém ousava fazer.
— Eu não sei do que você está falando.
— Sabe sim. Você é inteligente demais para mentir para si mesma por tanto tempo.
Gabriele olhou para baixo, para a jaqueta de couro de Hylda, e depois voltou a encarar os olhos dela.
— Você é um problema, Hylda. Um problema de couro, tatuagens e péssimas companhias amorosas.
— E você é um mistério de seda e espinhos que eu estou começando a adorar desvendar.
O clima entre elas, antes apenas ácido, agora era uma mistura perigosa de desafio e desejo reprimido. Nenhuma das duas deu o braço a torcer, mas quando saíram da loja, caminharam lado a lado pela calçada, as mãos quase se tocando, em um silêncio que, pela primeira vez na vida de Gabriele, não era ensurdecedor. Era, de fato, o início de uma história que nenhum de seus livros clássicos poderia ter previsto.