Entre tapas e beijos.
Tulipas, Espinhos e o Gosto do Pecado
O outono em São Paulo trazia consigo um vento cortante que assoviava pelas frestas das janelas do apartamento nos Jardins. Gabriele estava em seu santuário, a sala de estar, tentando se concentrar em um ensaio sobre a melancolia na literatura francesa, mas sua mente era um campo de batalha. Mirtes, a gata persa, percebia a agitação da dona e chicoteava o rabo contra o estofado da poltrona.
A campainha tocou. Não era o toque frenético de Amy, nem o toque rítmico de Ana voltando do trabalho. Era algo mais pesado, hesitante.
Gabriele abriu a porta e deparou-se com Hylda. A mulher da fábrica parecia deslocada no corredor de mármore do prédio. Vestia sua indefectível jaqueta de couro, mas, em uma das mãos, segurava um buquê de tulipas amarelas e, na outra, uma garrafa de vinho tinto cujo rótulo Gabriele reconheceu imediatamente como um excelente Bordeaux.
— O grupo de escrita não é hoje, Hylda — disse Gabriele, mantendo a voz plana, embora seu pulso tivesse disparado.
— Eu sei. A Ana me disse que estaria fora resolvendo coisas do condomínio. E a Amy... a Amy está em uma leitura dramática no centro — Hylda pigarreou, o olhar desviando para os próprios pés antes de encarar Gabriele. — Eu trouxe isso. Como um pedido de desculpas pela última vez.
Gabriele olhou para as flores como se fossem espécimes biológicos perigosos.
— Tulipas? Amarelas? Você sabe que elas simbolizam pensamentos desesperados, não sabe?
— Eu achei que eram bonitas. Só isso — Hylda estendeu a garrafa. — E o vinho é do tipo que ex-noviças apreciam. Você mesma disse.
Gabriele hesitou, mas deu um passo para o lado, permitindo que ela entrasse. O perfume de Hylda — couro, tabaco e algo amadeirado — inundou o hall.
— Deixe-as sobre o aparador. Vou buscar as taças — Gabriele caminhou até a cozinha com uma rigidez que beirava o cômico.
Minutos depois, as duas estavam sentadas na sala. O silêncio era denso, carregado por uma culpa que Hylda não conseguia mais ignorar e por uma irritação que Gabriele usava como escudo.
— Como está a sua... pupila? — Gabriele perguntou, após o primeiro gole de vinho. O termo "pupila" saiu carregado de um veneno sutil.
— A Amy está bem. Radiante, como sempre — Hylda suspirou, girando o vinho na taça. — Ela gosta muito de você, Gabriele. À sua maneira torta.
— Ela gosta de me irritar. Há uma diferença fundamental. Mas entendo por que você se sente atraída por isso. Deve ser revigorante brincar de babá aos cinquenta e sete anos. Ajuda a esquecer as dores nas costas, imagino.
Hylda sentiu a primeira fisgada de raiva, mas tentou manter o controle.
— Não é sobre idade, Gabriele. É sobre energia. A Amy tem uma luz que...
— A Amy tem vinte e seis anos, Hylda! — Gabriele interrompeu, rindo com escárnio. — Ela é uma criança que mal sabe distinguir um soneto de uma lista de compras. Enquanto você se desdobra para protegê-la, ela está apenas vivendo a fase maníaca da semana. Você não é a namorada dela, você é o para-raios de uma menina que logo vai se cansar do seu cheiro de graxa e procurar alguém que tenha a idade dela. Ou, no mínimo, alguém que não precise de óculos para ler o cardápio.
Hylda apertou a taça com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.
— Você é uma mulher amarga — disse Hylda, a voz baixa e perigosa. — Eu vim aqui tentar ter uma conversa civilizada, tentar entender o que aconteceu naquela cafeteria, mas você prefere atacar uma menina que nunca te fez nada só para não admitir que está morrendo de inveja.
— Inveja? — Gabriele levantou-se, a seda de sua blusa brilhando sob a luz do abajur. — Inveja de uma relação baseada em caridade e desequilíbrio emocional? Eu prefiro a minha solidão e as minhas cortinas intactas, obrigada.
— Você tem inveja da coragem dela! — Hylda levantou-se também, a voz subindo de tom. — Ela não tem medo de ser ridícula. Ela não tem medo de sentir. Você, por outro lado, está tão enterrada nesses seus livros e nesse seu desdém que esqueceu como é ser tocada por alguém que não seja a droga da sua gata!
— Saia da minha casa — Gabriele sibilou, apontando para a porta. — Agora. Leve suas flores baratas e seu vinho de suborno. Volte para a sua "criança" e continue fingindo que você não é apenas um porto seguro temporário para ela.
Hylda explodiu. A paciência que ela cultivara com tanto esforço na reabilitação e nos anos de trabalho duro evaporou. Ela agarrou o buquê de tulipas sobre o aparador e, em um gesto impulsivo e cômico, bateu com as flores contra o ombro de Gabriele. As pétalas amarelas voaram pela sala como confetes de uma festa trágica.
— Você é uma idiota prepotente! — gritou Hylda, batendo novamente com o que restava dos caules. — A Amy é dez vezes mais mulher que você, porque ela tem um coração, e não um pedaço de gelo no peito!
Gabriele recuou, chocada com a agressão botânica, as costas batendo contra a parede fria do corredor.
— Você me bateu com um buquê? Você é um animal, Hylda! Um animal de fábrica!
— E você é uma covarde! — Hylda jogou os restos das flores no chão e avançou, encurralando Gabriele contra a parede. Seus rostos estavam a centímetros de distância. — Você me provoca porque quer que eu perca o controle. Você quer que eu faça o que você não tem coragem de pedir.
— Eu não quero nada de você — mentiu Gabriele, mas sua respiração estava ofegante, e seus olhos estavam fixos nos lábios de Hylda.
— Mentirosa.
Hylda não esperou por uma resposta. Ela selou o espaço entre elas com um beijo que não tinha nada de romântico. Era um choque de dentes, de línguas e de frustração acumulada. Gabriele soltou um som que era metade protesto e metade rendição, suas mãos subindo para agarrar as lapelas da jaqueta de couro de Hylda, puxando-a para mais perto.
O gosto do vinho misturava-se ao sabor metálico da raiva. Hylda empurrou o corpo contra o de Gabriele, sentindo a maciez da seda contra a rigidez do seu casaco. Era um contraste violento, exatamente como elas.
— Eu te odeio — murmurou Gabriele entre os beijos, enquanto as mãos de Hylda desciam para apertar sua cintura com uma força que deixaria marcas.
— Eu sei — respondeu Hylda, a voz rouca, descendo os beijos para o pescoço de Gabriele, encontrando o ponto exato onde a pulsação dela martelava freneticamente. — Você odeia que eu seja a única pessoa que te enxerga de verdade.
Gabriele gemeu, a cabeça tombando para trás contra a parede. O conflito moral e a culpa por Amy estavam ali, pairando no ar, mas o desejo era uma força física, uma gravidade que as puxava para o chão.
— O quarto — conseguiu dizer Gabriele, a voz falhando.
— Aqui mesmo — rebateu Hylda, as mãos agora subindo por baixo da blusa de seda, encontrando a pele quente e surpreendentemente macia de Gabriele. — No chão, entre as suas pétalas e o seu desdém.
Elas se despiram com uma urgência desajeitada, tropeçando nos próprios sapatos e nas palavras de baixo calão que trocavam. Não havia delicadeza. Quando Hylda penetrou Gabriele com os dedos, foi com a mesma firmeza com que operava as máquinas na fábrica, mas com uma percepção sensorial que só anos de dor e recuperação poderiam dar.
Gabriele arqueou o corpo, as unhas bem feitas cravando-se nos ombros tatuados de Hylda. Ela era uma mulher de cinquenta e cinco anos, culta e refinada, gemendo o nome de uma operária bruta no tapete da sua sala de estar. A ironia não passava despercebida, mas o prazer era avassalador demais para que ela se importasse com a própria dignidade.
— Mais — implorou Gabriele, a arrogância transformada em súplica.
Hylda a virou de costas, pressionando-a contra o tapete persa. O contato do couro da jaqueta — que ela se recusara a tirar completamente — contra as costas nuas de Gabriele criava uma fricção eletrizante. O sexo era rápido, intenso e carregado de uma animosidade que beirava a violência, um expurgo de todas as alfinetadas e cinismos trocados nas semanas anteriores.
Quando o ápice chegou, foi em um silêncio tenso, seguido por respirações pesadas que ecoavam na sala agora escura.
Minutos depois, o apartamento voltou ao seu estado de quietude habitual, exceto pelas pétalas de tulipas espalhadas e pelo cheiro de suor e sexo. Hylda sentou-se, encostando as costas no sofá, tentando organizar os pensamentos. A culpa por Amy agora pesava como chumbo em seu estômago.
Gabriele vestiu seu roupão de seda, recuperando a postura com uma rapidez impressionante, embora seu cabelo chanel estivesse, pela primeira vez, completamente desarrumado.
— Isso foi... — começou Gabriele, pegando sua taça de vinho que ainda restava na mesa de centro.
— Um erro — completou Hylda, levantando-se e começando a se vestir. Suas mãos tremiam levemente enquanto fechava o zíper da calça.
— Um erro monumental — concordou Gabriele, embora seus olhos seguissem os movimentos de Hylda com uma intensidade que a traía. — Você deveria ir embora antes que a Ana chegue. Ou antes que a sua namorada termine de ler o roteiro dela.
Hylda parou, a jaqueta já nos ombros. Ela olhou para Gabriele, que agora estava sentada em sua poltrona favorita, segurando a taça com a elegância de sempre, como se nada tivesse acontecido.
— Você vai contar para ela? — perguntou Hylda.
— Eu não tenho interesse em destruir a vida de uma jovem instável, Hylda. E você? Vai confessar seus pecados para a sua "santa" interior?
Hylda não respondeu. Ela caminhou até a porta, mas antes de sair, virou-se uma última vez.
— O vinho é realmente bom, Gabriele. Mas as flores... as flores ficaram melhores no chão.
A porta se fechou. Gabriele ficou sozinha no silêncio do apartamento. Mirtes saltou para o seu colo, cheirando o ar com desconfiança. Gabriele acariciou a gata, olhando para o buquê destruído no tapete.
Ela ainda sentia o gosto de Hylda em sua boca. E, pela primeira vez em décadas, o silêncio do seu refúgio parecia não apenas vazio, mas insuportavelmente frio. Ela odiava Hylda. Tinha certeza absoluta disso. Mas, enquanto levava a taça aos lábios, Gabriele percebeu que o vinagre que ela tanto prezava havia finalmente encontrado algo forte o suficiente para transformá-lo em outra coisa. Algo que queimava, mas que ela, desesperadamente, queria beber de novo.