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Entre tapas e beijos.

Notas de Amargor e a Redenção da Seda

O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelo brilho pálido dos postes da rua que atravessava as cortinas de linho. O silêncio, que antes era o refúgio sagrado de Gabriele, agora parecia pesado, carregado com o eco dos gritos de Amy e o som seco do tapa que ainda latejava em seu rosto.

Gabriele se mexia inquietamente sob os lençóis de fios egípcios. Em seu sonho, ela estava de volta ao convento, mas as paredes não eram de pedra, eram feitas de tulipas amarelas que murchavam e sangravam conforme ela as tocava. Amy aparecia em cada canto, com o rosto de uma criança perdida, apontando o dedo e gritando palavras em latim que Gabriele não conseguia traduzir, mas que soavam como condenação.

— Não... — sussurrou Gabriele entre dentes, o corpo tenso. — Hylda, eu não posso...

Ela acordou com um solavanco, a respiração curta e o rosto banhado em suor e lágrimas reais. O coração martelava contra as costelas, uma arritmia de culpa que ela nunca soube que era capaz de hospedar. Ao seu lado, o colchão afundou. Hylda, que dormia um sono leve de quem passou anos em alerta, despertou instantaneamente.

— Gabi? — A voz de Hylda era um murmúrio rouco, preocupado. — O que foi? Um pesadelo?

Gabriele sentou-se na cama, cobrindo o rosto com as mãos. Os ombros tremiam. A máscara de ferro, a pose de mulher inabalável, a arrogância sofisticada — tudo havia sido lavado pela noite de horror.

— Hylda, eu não posso fazer isso — soluçou Gabriele, a voz quebrada, despida de qualquer cinismo. — Eu me sinto mal pelo que fiz com a Amy. Ela é jovem, ela é frágil... Vocês precisam ficar juntas. Eu estraguei tudo. Eu sou a vilã dessa história, a tia amarga que rouba a luz dos outros porque não tem a sua própria.

Hylda acendeu o abajur de luz quente na mesa de cabeceira. Ela viu Gabriele em seu estado mais cru: o cabelo chanel bagunçado, o lábio inchado e os olhos castanhos transbordando uma dor que não vinha de um livro clássico, mas de uma alma que finalmente se permitia sentir.

— Olhe para mim, Gabriele — pediu Hylda, segurando os pulsos dela com firmeza, mas sem agressividade.

— Não! — Gabriele tentou se desvencilhar, a vergonha a consumindo. — Vá atrás dela. Conserte o que eu quebrei. Eu sou um erro, Hylda. Um erro elegante e solitário. Por favor, me deixe voltar para a minha poeira e para os meus livros.

Hylda a puxou para mais perto, forçando Gabriele a encarar a verdade nos seus olhos grisalhos. Ver aquele lado sensível e vulnerável de Gabriele, a mulher que sempre a tratara com desprezo refinado agora desmoronando em seus braços por causa de um senso de moralidade torto, fez algo estalar dentro de Hylda. Ela não sentia apenas desejo; ela sentia uma devoção avassaladora.

— Escute bem — disse Hylda, a voz profunda e vibrante. — Nós vamos resolver as coisas com a Amy. Eu vou conversar com ela, vou garantir que ela tenha o suporte que precisa, vou pedir perdão até minha voz sumir. Mas, Gabriele, ela aceitando ou não, eu quero ficar com você.

Gabriele parou de lutar, os olhos arregalados, as lágrimas paradas no meio do caminho.

— Você não entende... — sussurrou Gabriele.

— Eu entendo tudo — interrompeu Hylda, aproximando o rosto do dela. — Eu passei a vida ajudando pessoas, sendo o "padre", a salvadora. Mas pela primeira vez, eu encontrei alguém que não precisa que eu a salve, mas que eu a desafie. Alguém que me faz querer ser mais do que uma operária com passado difícil. Por favor, não me mande embora da sua vida. Eu te amo, Gabriele.

O impacto daquelas três palavras foi maior do que qualquer tapa. Gabriele ficou genuinamente espantada. "Eu te amo" era uma sentença que ela havia trancado em um cofre décadas atrás, junto com seus hábitos de noviça e suas esperanças de juventude. Ouvir aquilo de uma mulher de jaqueta de couro, com mãos calejadas e um coração tão vasto quanto o céu, a deixou sem defesas.

— Você é... — Gabriele começou, a voz falhando — ...completamente louca.

— Sou — admitiu Hylda com um sorriso triste e terno. — Louca por uma ranzinza que cita Yourcenar e tem uma gata insuportável.

Gabriele não respondeu com palavras. Ela se lançou nos braços de Hylda, buscando sua boca em um beijo que não tinha mais o gosto de guerra fria ou de vingança. Era um beijo de entrega. Naquela madrugada, elas fizeram amor de uma forma diferente. Não foi o embate bruto no tapete, nem o consolo desesperado de horas antes. Foi uma descoberta lenta, um mapeamento de cicatrizes e desejos, onde a seda dos lençóis e a pele marcada por tatuagens se fundiram em uma única textura de pertencimento.

***

Seis meses depois.

O sol de outono entrava pela janela da sala, iluminando as partículas de poeira que Gabriele agora não parecia se importar tanto em limpar imediatamente. Mirtes estava deitada preguiçosamente em cima de uma jaqueta de couro deixada sobre o sofá, e a cena, que antes causaria um desmaio em Gabriele, agora era apenas parte da nova mobília de sua alma.

Gabriele estava sentada à mesa, escrevendo uma carta. Não era um ensaio literário, mas algo muito mais difícil.

— Terminou? — perguntou Hylda, aproximando-se por trás e depositando um beijo no pescoço de Gabriele. Ela agora usava uma camisa de linho que Gabriele comprara para ela, embora as mangas estivessem dobradas, revelando as tatuagens de sempre.

— Sim — Gabriele suspirou, fechando o envelope. — Eu disse a ela que a exposição dela no centro cultural foi brilhante. E que, se ela estiver pronta, eu adoraria que ela viesse tomar um chá. Sem julgamentos. Sem "tias".

— Você está sendo muito corajosa, Gabi — disse Hylda, apertando os ombros dela.

— Eu estou sendo humana, Hylda. É um hábito novo e um tanto cansativo, mas necessário.

Amy havia passado por meses difíceis. O término e o escândalo a levaram a um novo ciclo de tratamento, mas, desta vez, ela parecia estar encontrando um equilíbrio real. Ana servira de ponte, e as notícias eram de que a jovem estava canalizando sua intensidade para a arte de forma mais saudável. O perdão ainda era um caminho em construção, mas as pedras fundamentais haviam sido lançadas.

— O que vamos fazer hoje? — perguntou Hylda, olhando para o relógio. — Tenho um turno extra na fábrica à noite.

Gabriele levantou-se, ajeitando o corte chanel que continuava impecável, embora agora houvesse uma suavidade inédita em seus traços. Ela pegou a mão de Hylda, entrelaçando seus dedos com naturalidade.

— Vamos caminhar no Ibirapuera — decidiu Gabriele. — E depois, você vai me levar naquele bar de "baixa categoria" que você tanto gosta.

Hylda soltou uma gargalhada.

— Você no meu bar de rock? Vai reclamar do copo de vidro americano e do som alto em cinco minutos.

— Provavelmente — Gabriele sorriu, um sorriso que agora habitava seu rosto com frequência. — Mas eu descobri que o barulho do mundo é muito mais suportável quando você está por perto para segurar a minha mão.

Caminharam até a porta. Antes de saírem, Hylda parou Gabriele, puxando-a para um beijo rápido e estalado.

— Eu te amo, sabe? — disse Hylda, como se fosse a coisa mais óbvia do universo.

Gabriele revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o brilho nos olhos.

— Eu sei, Hylda. Você repete isso com a insistência de uma máquina de fábrica.

— E você? Não vai dizer de volta?

Gabriele abriu a porta, saindo para o corredor de mármore, mas parou e olhou por cima do ombro, com aquele ar de superioridade que Hylda tanto adorava desconstruir.

— Eu deixei você morar no meu apartamento e dividir o espaço com a Mirtes, não deixei? — Gabriele arqueou uma sobrancelha. — Para uma mulher da minha estirpe, isso é o equivalente a uma declaração de amor eterna escrita em versos alexandrinos. Agora vamos, antes que eu mude de ideia e te obrigue a ler Proust a tarde toda.

Hylda riu, seguindo-a. Enquanto o elevador descia, o reflexo no espelho mostrava duas mulheres que, contra todas as probabilidades, haviam encontrado beleza no caos. O vinagre e o couro, a seda e a graxa — a mistura era improvável, ácida e complexa, mas, para Gabriele e Hylda, era o único sabor que realmente valia a pena sentir pelo resto de suas vidas.