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Entre tapas e beijos.

Pétalas de Sangue e o Som do Perdão

A conversa com Amy foi, previsivelmente, um desastre em câmera lenta. Hylda tentou usar o tom de voz que usava na fábrica para acalmar operários em pânico, ou a voz de "padre" que reservava para os jovens na reabilitação, mas nada funcionava com a natureza volátil de Amy. No pequeno apartamento da jovem, entre cartazes de teatro e roupas espalhadas, a verdade caiu como uma granada. Hylda não deu detalhes, mas a confissão de que seus sentimentos haviam mudado — e para quem haviam mudado — foi o suficiente. Amy não chorou de imediato; ela apenas riu, uma risada histérica que gelou a espinha de Hylda, e saiu batendo a porta.

O destino de Amy era óbvio, mas Hylda demorou a perceber. Quando a ficha caiu, ela correu para o apartamento de Gabriele.

Lá, o clima era o oposto do caos de Amy. Gabriele recebia dois casais de amigos de longa data para um jantar íntimo e sofisticado. A mesa estava posta com linho branco, cristais e prataria. O som de um quarteto de cordas tocava baixo ao fundo. Gabriele, vestindo um vestido de seda azul-marinho que a fazia parecer uma estátua de gelo esculpida com perfeição, servia o vinho quando a campainha tocou com uma violência ensurdecedora.

— Ana, por favor, veja quem é — pediu Gabriele, franzindo levemente o cenho. — Deve ser o entregador com as sobremesas extras.

Mas não era o doce. Antes que Ana pudesse processar o movimento, Amy invadiu a sala de jantar como um furacão loiro. Seus olhos estavam vermelhos, o rímel escorrido, e a energia maníaca que ela exalava fez os convidados de Gabriele recuarem as cadeiras, assustados.

— Amy? O que significa isso? — Gabriele perguntou, colocando a garrafa de vinho sobre a mesa com uma mão que, apesar do choque, permanecia firme.

— Significa que você é uma hipócrita, tia Gabi! — Amy gritou, a voz falhando. — Você, com essa pose de santa, de mulher culta, de rainha da moralidade!

— Amy, por favor, saia daqui. Estamos no meio de um jantar — Gabriele tentou manter o controle, mas sua voz era um fio de gelo.

Hylda apareceu na porta logo em seguida, ofegante, o rosto transparecendo o pavor.

— Amy, para! Vamos embora, agora! — Hylda tentou segurar o braço da jovem, mas Amy se desvencilhou com um empurrão.

— Me solta, Hylda! Você também é uma nojenta! — Amy voltou-se para Gabriele, que permanecia imóvel. — Você destruiu tudo! Sua velha desgraçada, você transou com a minha namorada!

O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo som do violoncelo que continuava a tocar no som ambiente. Os convidados de Gabriele trocaram olhares de puro horror. Ana levou a mão à boca. Gabriele sentiu o mundo girar, mas não desviou o olhar.

— Amy... — começou Gabriele, mas não houve tempo.

O tapa veio com a força de semanas de ressentimento acumulado. O som do impacto da mão de Amy contra o rosto de Gabriele foi seco e alto. A cabeça de Gabriele virou bruscamente para o lado. O impacto foi tão forte que o lábio inferior de Gabriele se partiu contra os dentes.

— Eu te odeio! — Amy soluçou, o ódio transformando-se em agonia pura. — Eu espero que vocês duas se matem nesse cinismo de vocês!

Hylda parou, paralisada pela imagem de Gabriele — a mulher que ela via como inabalável — agora com o rosto marcado e um fio de sangue escorrendo pelo queixo.

— Amy, chega! — Hylda gritou, finalmente conseguindo arrastar a jovem para fora da sala.

— Eu vou para a casa dos meus pais! — Amy gritava enquanto era levada pelo corredor. — Não me procurem! Nunca mais!

A porta principal bateu. O silêncio voltou, mas era um silêncio quebrado, estilhaçado. Gabriele não se moveu. Ela sentia o calor do tapa queimando sua pele, mas a dor interna era muito maior. A culpa, algo que ela raramente se permitia sentir, agora a sufocava como fumaça.

— Meus amigos... — Gabriele disse, a voz num sussurro rouco, sem olhar para ninguém. — Eu peço imensas desculpas. Ana, por favor, acompanhe-os. O jantar... o jantar acabou.

— Gabi, você está sangrando — Ana aproximou-se, mas Gabriele recuou um passo, a mão subindo defensivamente ao rosto.

— Por favor, Ana. Apenas tire todos daqui.

Os convidados saíram em um silêncio constrangido, sussurrando desculpas rápidas. Ana, após fechar a porta principal, encontrou Hylda parada no hall, com os olhos marejados e as mãos enterradas nos cabelos grisalhos.

— Hylda, agora não é uma boa hora — disse Ana, com uma firmeza incomum. — Veja o que você causou. Veja o que esse... esse triângulo absurdo fez com ela.

— Eu preciso falar com ela, Ana — Hylda disse, a voz embargada por um choro que ela tentava conter. — Eu posso ter enlouquecido de vez, eu sei que eu errei com a Amy, mas eu amo a Gabriele. Eu preciso saber se ela está bem.

— Ela está no quarto. Mas eu duvido que ela queira ver você — Ana suspirou, vendo o desespero nos olhos da amiga. — Hylda, você é uma boa pessoa, mas você é um caos. E a Gabriele... a Gabriele não lida bem com o caos.

— Eu não vou embora — Hylda insistiu, as lágrimas finalmente caindo. — Eu não vou deixar ela sozinha com aquela dor.

No banheiro de sua suíte, Gabriele encarava o espelho. O vestido de seda azul agora parecia uma mortalha. O lado esquerdo de seu rosto estava inchado e vermelho, e o sangue manchava o canto de sua boca. Ela pegou um pedaço de algodão, limpando o ferimento com movimentos mecânicos. Ela não chorava com soluços; eram apenas lágrimas silenciosas que lavavam a maquiagem impecável.

Ela se sentia suja. Não pelo sexo com Hylda, mas pela destruição que sua fraqueza causara. Ela, que sempre se orgulhou de sua ordem e de sua vida sob controle, agora era o pivô de um barraco de novela.

Batidas suaves soaram na porta do quarto.

— Vá embora, Ana — disse Gabriele, a voz seca.

— Não é a Ana.

A voz de Hylda fez o coração de Gabriele falhar. Ela fechou os olhos, apertando a pia com as mãos.

— Saia da minha casa, Hylda. Você já causou dano suficiente por uma noite.

— Eu não vou sair — a voz de Hylda estava mais perto, ela havia entrado no quarto. — Você pode chamar a polícia, você pode me bater de volta, mas eu não vou te deixar sozinha agora.

Gabriele abriu a porta do banheiro, encarando Hylda. A imagem era o contraste absoluto: a mulher elegante, ferida e desfeita, diante da mulher bruta, de jaqueta de couro, chorando abertamente.

— Olhe para mim — Gabriele disse, apontando para o próprio rosto. — Olhe o que nós fizemos. Aquela menina... ela é instável, Hylda. Nós a destruímos.

— Eu sei — Hylda deu um passo à frente, ignorando o recuo de Gabriele. — Eu falhei com ela. Eu fui egoísta. Mas eu não consigo me arrepender de ter te conhecido. Eu não consigo me arrepender do que eu sinto por você.

— Sente por mim? — Gabriele riu, uma risada amarga. — Você sente tesão por uma mulher ranzinza que te trata mal, Hylda. Isso não é amor, é uma patologia.

— Não ouse dizer o que eu sinto — Hylda aproximou-se o suficiente para que Gabriele sentisse o calor de seu corpo. — Eu amo o jeito que você revira os olhos. Amo o jeito que você protege essa gata como se ela fosse um tesouro. Amo que você tenha sido uma noviça rebelde e que ainda tenha esse fogo escondido sob essa seda toda. Eu amo você, Gabriele. Com toda a sua amargura e sua arrogância.

Gabriele tentou manter a máscara de desdém, mas seus lábios tremeram.

— Eu sou uma velha desgraçada, Hylda. Ela tinha razão.

— Você é a mulher que me fez sentir viva de novo — Hylda estendeu a mão, tocando com uma delicadeza infinita o lado não ferido do rosto de Gabriele. — Por favor... me deixa cuidar de você. Só por hoje. Deixa eu ser a pessoa que te segura quando o mundo desmorona.

O gelo em torno do coração de Gabriele finalmente rachou. Ela soltou um soluço sufocado e desabou contra o peito de Hylda. As mãos de Hylda a envolveram com uma força protetora, o cheiro de couro e tabaco tornando-se, mais uma vez, o único porto seguro de Gabriele.

— Vai ficar tudo bem — sussurrou Hylda, beijando o topo da cabeça de Gabriele. — Eu vou cuidar de tudo.

Com uma paciência que Gabriele nunca imaginou que Hylda possuísse, a outra mulher a guiou até a cama. Hylda ajudou Gabriele a se livrar do vestido pesado, tratando cada movimento como se estivesse lidando com uma porcelana rara. Gabriele deixou-se levar, a exaustão emocional drenando todas as suas defesas.

Quando Gabriele ficou apenas com sua lingerie de renda preta, Hylda buscou uma camisola de seda no closet e a vestiu com cuidado. Depois, foi até o banheiro, trouxe uma toalha morna e limpou o sangue seco do lábio de Gabriele.

— Dói muito? — perguntou Hylda, os olhos cheios de uma ternura que fazia Gabriele querer chorar novamente.

— Só quando eu percebo que ela tinha razão sobre mim — murmurou Gabriele.

— Ela estava com raiva. O que nós temos... não é uma desgraça, Gabriele. É algo que aconteceu apesar de nós.

Hylda deitou-se na cama ao lado dela, por cima das cobertas, mas Gabriele puxou sua mão.

— Fica. Por favor.

Hylda tirou a jaqueta de couro pela primeira vez naquela noite, revelando os braços tatuados, e deslizou para debaixo dos lençóis. Gabriele aninhou-se em seu abraço, escondendo o rosto no pescoço de Hylda.

O carinho começou de forma lenta, curativa. Hylda beijava os ombros de Gabriele, as mãos grandes e calejadas acariciando suas costas com uma suavidade inesperada. Não havia a urgência agressiva da primeira vez; havia uma necessidade de consolo, de reafirmação.

— Você tem que se permitir ser amada, Gabi — sussurrou Hylda contra sua orelha. — O mundo não vai acabar se você baixar a guarda.

— Ele já acabou hoje — respondeu Gabriele, mas suas mãos começaram a explorar o corpo de Hylda sob a camiseta de algodão.

As preliminares foram um diálogo de toques suaves. Gabriele buscava a segurança daquela pele marcada por histórias de superação, enquanto Hylda buscava a vulnerabilidade escondida sob a sofisticação da outra. Quando Hylda beijou o lábio ferido de Gabriele, foi com uma leveza de quem pede permissão para curar.

A tensão sexual, que antes era uma guerra, agora era uma dança lenta. Gabriele sentia-se despida de todas as suas pretensões. Ali, na penumbra do quarto, ela não era a intelectual ranzinza ou a mulher de classe média alta dos Jardins. Ela era apenas uma mulher que precisava desesperadamente do calor de outra.

— Hylda... — Gabriele suspirou quando as mãos de Hylda encontraram o caminho entre suas coxas.

— Eu estou aqui — respondeu Hylda, mergulhando no olhar de Gabriele. — Eu não vou a lugar nenhum.

O prazer veio de forma doce e profunda, um bálsamo para as feridas da noite. Quando finalmente descansaram, entrelaçadas sob os lençóis caros, o silêncio do quarto era diferente. Não era o silêncio da solidão, nem o silêncio da culpa. Era o silêncio de um entendimento mútuo.

— O que vamos fazer amanhã? — perguntou Gabriele, a voz quase sumindo no sono.

Hylda apertou-a um pouco mais forte, sentindo o batimento calmo do coração de Gabriele contra o seu.

— Amanhã nós vamos lidar com o mundo. Vamos falar com a Amy, vamos pedir perdão, vamos enfrentar a Ana. Mas hoje... hoje nós só vamos dormir.

Gabriele fechou os olhos, sentindo o peso reconfortante do braço de Hylda sobre seu corpo. Pela primeira vez em muitos anos, ela não precisava de um livro para escapar da realidade. A realidade, com todos os seus tapas, sangues e escândalos, tinha o gosto de vinho Bordeaux e o toque de mãos que sabiam exatamente como reconstruir o que havia sido quebrado.

E enquanto o sono a vencia, Gabriele percebeu que, embora as tulipas estivessem mortas no chão da sala, algo novo, muito mais resistente e real, estava começando a florescer entre os espinhos.