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ERC×JOR

Tinta, Sangue e Raízes

A tensão na mansão Pulgar-Carrascal não era algo que se dissipava com a brisa do mar que soprava da Barra da Tijuca. Pelo contrário, ela parecia ter se solidificado nos corredores de mármore, pesada como o chumbo das armas que Erick e Jorge carregavam. O café da manhã, que deveria ser um momento de união, transformou-se no palco de uma guerra aberta.

Santino estava de pé, a mandíbula travada exatamente como a de Erick quando estava prestes a explodir, mas os olhos brilhavam com a petulância que só a juventude e o sangue colombiano de Jorge poderiam proporcionar.

— Eu já disse que não vou entregar a chave de porra nenhuma! — Santino bradou, a voz ecoando pela cozinha. — Eu tenho dezoito anos, Carrascal. Você não pode me trancar aqui como se eu fosse um dos seus prisioneiros do galpão.

Jorge, que estava encostado no balcão com uma xícara de café na mão, sentiu o sangue ferver. Ele colocou a xícara na mesa com um baque seco, o som de porcelana estalando contra o mármore.

— Em primeiro lugar, você baixa o tom para falar comigo, seu moleque — Jorge disse, a voz perigosamente baixa, a ginga divertida completamente desaparecida, dando lugar ao homem que comandava rotas de tráfico por todo o continente. — E em segundo lugar, enquanto você morar sob este teto e usar o dinheiro que eu e o Erick ganhamos com sangue, você faz o que eu mando.

— Dinheiro que vocês ganham? — Santino soltou uma risada anasalada, carregada de um desdém que fez Erick, sentado à cabeceira da mesa, estreitar os olhos. — Todo mundo sabe que o império é dos Pulgar. Você só deu sorte de casar com o dono da porra toda. Eu sou um Pulgar de verdade, eu não preciso ouvir sermão de quem veio do nada.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até o som dos pássaros lá fora pareceu cessar. Jorge empalideceu por um segundo antes de uma mancha vermelha de fúria cobrir seu pescoço, subindo pelas tatuagens até o rosto.

— Santino, chega — Erick interveio, a voz como um trovão distante. — Você passou dos limites. Peça desculpas agora.

— Não peço! — Santino virou-se para Erick, buscando o aliado de sempre. — Pai, você vê como ele é. Ele quer me controlar por causa desse complexo de inferioridade dele. Eu só quero viver minha vida, usar meu carro, sair com meus amigos.

— Seus amigos playboys que não sabem o que é um dia de trabalho? — Jorge deu um passo à frente, o dedo em riste. — Você se acha muito homem, não é? Se acha o dono da razão porque nasceu em berço de ouro. Pois escuta aqui, seu filho da puta: a partir de hoje, acabou a palhaçada. Me dá essa chave agora. E o celular. E os cartões.

— Você não pode fazer isso! — Santino gritou.

— Posso e vou! — Jorge explodiu, a voz agora num volume ensurdecedor. — Você vai do colégio para casa e da casa para o colégio. Se eu souber que você desviou um metro do caminho, eu te busco pelos cabelos. Puta que pariu, eu não acredito que criei um parasita arrogante desses!

— Puta que pariu, não acredito que tô sendo tratado igual uma criança! — Santino rebateu, jogando as mãos para o alto, o rosto retorcido em uma careta de ódio.

Jorge avançou, ficando a centímetros do rosto do filho, que era quase da sua altura.

— Puta que pariu é o caralho! — Jorge rosnou, cada palavra cuspida com veneno. — Você deveria era agradecer por toda a mordomia que você tem, seu moleque ingrato. Tudo que você tem, cada roupa de marca, cada gota de gasolina daquela Ferrari, quem deu foi eu e o Erick. Você nunca pegou na porra de uma enxada para saber o valor do trabalho. Nunca acordou cedo para pegar ônibus lotado, nunca sentiu o que é ter fome e não saber se vai ter o que comer no jantar. Você nunca teve o sacrifício de um verdadeiro trabalhador! Você virou um playboyzinho de merda, um filho da puta que cospe no prato que comeu.

— Talvez se você não fosse tão obcecado com esse passado de pobre, a gente conseguisse ter uma conversa normal! — Santino gritou de volta, o rosto vermelho.

Jorge perdeu o controle. A mão dele subiu, não para bater, mas o gesto foi tão brusco que Santino recuou.

— Como é que é, seu filho da puta? — Jorge avançou, os olhos injetados.

Erick levantou-se num salto, movendo-se com a agilidade de um predador. Ele se colocou entre os dois, as mãos grandes e tatuadas espalmadas no peito de Jorge, empurrando-o levemente para trás.

— Chega! Os dois! — Erick comandou. — Santino, para o seu quarto. Agora!

— Mas pai, ele...

— Agora, Santino! — O olhar de Erick era o de "Pulgar", o chefe da máfia chilena que não aceitava insubordinação. — Não me faça repetir.

Santino, percebendo que o ar na cozinha tinha se tornado rarefeito e perigoso, jogou as chaves e o celular sobre a mesa com força e saiu pisando fundo, subindo as escadas enquanto resmungava palavrões.

— Você acha que só porque fez dezoito anos que eu não te quebro na porrada, seu filho da puta? — Jorge gritou para as costas do filho, tentando passar por Erick.

— Jorge, calma — Erick pediu, mantendo a voz firme, mas calma.

Jorge soltou-se bruscamente do toque do marido, os olhos brilhando com lágrimas de raiva e frustração.

— Não toca em mim, Erick! Não vem passar a mão na cabeça desse moleque depois do que ele disse.

— Eu não estou passando a mão na cabeça dele, Jorge. Eu só não quero que vocês se agridam fisicamente. Isso não resolve nada.

— Não resolve? — Jorge riu, uma risada amarga. — Ele me desrespeitou na minha cara. Ele usou a minha história como se fosse uma piada. Ele está arrogante, Erick. Um playboyzinho nojento. E a culpa é nossa, por termos dado tudo na mão dele!

— Vamos conversar com calma... — Erick tentou se aproximar novamente.

— Agora não. Eu não quero olhar para ninguém — Jorge deu as costas, caminhando em direção ao escritório e batendo a porta com tanta força que os quadros no corredor estremeceram.

O resto do dia foi envolto em um silêncio sepulcral. No jantar, a mesa para três parecia vasta demais com apenas dois ocupantes. Jorge não apareceu. Santino comeu em silêncio, evitando o olhar de Erick, que permanecia observador e sério.

Quando o jovem terminou e fez menção de se levantar para sair, a voz de Erick o parou.

— Senta.

Santino obedeceu imediatamente. Ele sabia que, se discutir com Jorge era como enfrentar uma tempestade tropical — barulhenta e intensa —, discutir com Erick era como enfrentar o frio das montanhas chilenas: silencioso, cortante e mortal.

— No escritório. Agora — disse Erick, levantando-se.

Lá dentro, Erick sentou-se em sua poltrona de couro e indicou o sofá para o filho. Santino sentou-se na ponta, as mãos inquietas.

— Você tem ideia do que fez hoje? — Erick começou, a voz num tom baixo que exigia atenção total.

— Eu só me defendi...

— Não — Erick o cortou. — Você foi um moleque. Você atacou o ponto mais sensível do homem que te criou, que te deu um nome e que daria a vida por você sem hesitar um segundo. Se você quer começar a se sentir um homem, Santino, primeiro você tem que agir como um. E um homem de verdade respeita as suas raízes e quem o colocou onde ele está.

Santino baixou a cabeça, o peso das palavras de Erick começando a afundar.

— O Jorge veio do nada. Ele lavou chão, ele carregou pedra, ele lutou cada segundo para que você nunca tivesse que saber o que é a miséria. E você usa isso contra ele? Você age como se o dinheiro fosse seu? Nada aqui é seu, Santino. É nosso. E se você continuar com essa arrogância, você vai acabar sozinho, porque o mundo da máfia não perdoa playboys. Ele os devora.

— Eu sei... — Santino murmurou, a voz embargada. — Eu sei que pisei na bola. Eu agi como um babaca inconsequente. É que às vezes eu sinto que ele me sufoca.

— Ele te protege — Erick corrigiu. — E eu espero que o que aconteceu hoje nunca mais se repita. Peça desculpas ao seu pai. E faça isso de coração, porque se eu tiver que intervir de novo, não vai ser para apartar a briga. Fui claro?

— Sim, pai. Desculpa.

Santino levantou-se, deu um beijo na testa de Erick e saiu, o ombro um pouco menos tenso.

Erick subiu para o quarto horas depois. Encontrou Jorge na varanda, deitado em uma espreguiçadeira, olhando para as luzes da cidade com um olhar distante. O chileno aproximou-se e sentou-se na beirada da espreguiçadeira.

— Desculpa — Erick disse baixinho. — Eu não queria me meter entre você e ele daquela forma.

Jorge suspirou, virando o rosto para o marido.

— O Santino é mais seu filho do que meu, Erick. Ele tem esse seu jeito marrento, essa teimosia...

— Ele é nosso filho, Jorge. E ele está errado. Eu conversei com ele agora há pouco. Ele sabe que agiu como um moleque.

Jorge assentiu, passando a mão pelo rosto.

— Desculpa pelo jeito que falei com você na cozinha. Eu estava cego de ódio. Eu só... eu não criei ele para ser assim, Erick. Não importa quantos anos ele tenha, se eu tiver que meter a porrada nele para ele aprender a ter humildade, eu vou fazer.

Erick soltou um riso curto, acariciando o braço tatuado de Jorge.

— Você nunca bateu no Santino, Jorge.

— Pois é, talvez esse seja o meu erro — Jorge resmungou, embora o fogo da raiva já estivesse se apagando.

— Agressão não resolve, você sabe disso. O castigo que você deu dói muito mais nele do que um tapa. Ele precisa entender o valor das coisas. E ele vai entender.

Jorge ficou em silêncio por um momento, observando o perfil sério de Erick sob a luz da lua. Aos poucos, a expressão dura do colombiano começou a derreter. O bico começou a se formar nos lábios e os olhos ganharam aquele brilho pidão que Erick conhecia tão bem.

— O que foi? — Erick perguntou, já sabendo a resposta.

— Eu tô carente, Erick — Jorge murmurou, a voz manhosa, esticando os braços como uma criança. — O dia foi horrível, meu filho me chamou de pobre de espírito e meu marido ficou me dando sermão de paz e amor. Eu mereço um carinho.

Erick não conseguiu conter o riso. A transição de Jorge de mafioso implacável para marido dengoso era sempre sua parte favorita do dia. Ele abriu os braços e Jorge se jogou sobre ele, fazendo os dois caírem para trás no sofá da varanda entre risadas abafadas.

— Você não existe, Carrascal — Erick disse, selando os lábios nos dele em um beijo profundo e calmo.

No dia seguinte, o café da manhã foi mais silencioso, mas a tensão era diferente. Não era mais uma corda prestes a arrebentar, mas sim uma ferida em cicatrização. Antes de sair para o colégio, Santino parou ao lado da cadeira de Jorge.

— Pai... — ele começou, a voz incerta. — Quando eu voltar, a gente pode conversar? No escritório?

Jorge olhou para o filho, viu a sinceridade nos olhos dele e assentiu solenemente.

— Estarei lá.

Santino deu um beijo na cabeça de Jorge, depois na de Erick, e saiu.

À tarde, o encontro no escritório foi mais calmo. Santino sentou-se ao lado de Jorge no sofá de couro.

— Eu sinto muito, pai — Santino começou, sem rodeios. — Pelo que eu disse sobre a sua história e pela forma como eu agi. Eu fui um playboy mimado e arrogante, exatamente o que você sempre disse que não queria que eu fosse. Eu me esqueci de onde a gente veio e de tudo o que você fez por mim.

Jorge suspirou, passando o braço pelos ombros do filho.

— Eu entendo que você está crescendo, Santino. E entendo que você queira liberdade. Mas a liberdade sem respeito é vagabundagem. Eu fiquei magoado porque vi em você uma arrogância que não pertence à nossa família. A gente pode ser rico agora, mas a nossa alma tem que continuar sabendo o que é o suor.

— Eu sei. Eu prometo que vou melhorar.

Nesse momento, Erick entrou no escritório, encostando-se na porta com os braços cruzados, observando a cena.

— E só para constar — Jorge acrescentou, olhando seriamente para o filho —, não importa se você tem dezoito, trinta ou cinquenta anos. Se você me desrespeitar daquele jeito de novo, eu te dou uma coça de cinto que você vai esquecer até o próprio nome.

Santino arregalou os olhos levemente.

— Pai, por favor...

— Você duvida? — Jorge arqueou uma sobrancelha.

— Pior que não — Santino riu, relaxando. — Eu sei até onde vai a sua loucura, Carrascal.

— Ótimo. Agora me dá um abraço aqui, seu projeto de playboy.

Santino pulou no colo de Jorge, abraçando-o com força, fazendo o pai rir alto. Erick, do outro lado da sala, soltou uma risada contida.

— Do que você está rindo, Pulgar? — Jorge perguntou, ainda abraçado ao filho.

— Nada — Erick balançou a cabeça. — É que você fez exatamente a mesma coisa comigo ontem à noite. Pediu colo e pulou em cima de mim.

Jorge mostrou o dedo médio para o marido, enquanto Santino caía na gargalhada.

— É, mas eu sou o marido, eu tenho direitos! — Jorge rebateu.

Santino levantou-se, deu um abraço rápido em Erick, sussurrando um "obrigado, pai" antes de sair do escritório, deixando os dois sozinhos.

Jorge, aproveitando que já estava no sofá, esparramou-se, abrindo as pernas e olhando para Erick com aquele sorriso arteiro que tinha o poder de desarmar qualquer exército.

— Vem aqui, papacito — Jorge chamou, a voz ficando manhosa de novo. — Vem dar um beijo no seu maridinho bem, que ele ainda está traumatizado com a rebeldia do filho.

Erick revirou os olhos, mas seus pés já o levavam em direção ao sofá. Ele nunca conseguia negar nada a Jorge quando ele pedia daquele jeito. A vida na máfia podia ser feita de sangue e tinta, mas ali, naquele escritório, ela era feita apenas de amor e da eterna ginga colombiana que mantinha o coração do chileno batendo.

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