ERICK+JORGE
Fogo Cruzado e Laços de Sangue
A música eletrônica vibrava pelas paredes de vidro do casarão alugado na Barra da Tijuca, misturando-se aos risos e ao tilintar constante de taças de champanhe. O Clube de Regatas do Flamengo encerrava aquele ano no topo do continente. Não havia troféu que faltasse: campeões da Copa Libertadores e do Campeonato Brasileiro em um intervalo de poucas semanas. A euforia era legítima, palpável em cada abraço da diretoria e nas dancinhas descontraídas dos atletas à beira da piscina iluminada.
Entre a multidão de funcionários, patrocinadores e convidados selecionados a dedo, Erick Pulgar e Jorge Carrascal mantinham a distância milimetricamente calculada que a discrição exigia. Pouquíssimas pessoas sabiam do que acontecia entre os dois quando as portas do condomínio fechado se trancavam: apenas familiares de confiança, amigos de infância e dois ou três membros da comissão técnica que prezavam pelo silêncio absoluto. Para o restante do elenco, para a imprensa e para a torcida, eram apenas a dupla gringa do meio-campo rubro-negro.
Do outro lado do deque de madeira, encostado em uma das pilastras de mármore com uma taça de gim na mão, Jorge mantinha os olhos cravados no volante chileno. Com os cabelos platinados penteados para trás e vestindo uma camisa de linho aberta até a metade do peito bronzeado, o colombiano exalava uma presença magnética. Mas seu maxilar estava tenso.
O motivo da irritação atendia pelo nome de Gabriela. A mulher, uma loira de vestido justo prateado, havia se aproximado de Erick com uma intimidade que fez o estômago de Jorge revirar. Ele sabia muito bem quem ela era. Alguns meses antes de sua chegada ao Rio de Janeiro, Gabriela e Erick tinham vivido um romance casual que durara semanas — tempo suficiente para que a mulher alimentasse a ilusão de que o jogador a assumiria publicamente.
A mão de Gabriela pousou descaradamente no antebraço tatuado de Erick, os dedos deslizando pelas tintas que cobriam a pele do chileno. Erick respondeu algo com um meio-sorriso educado, mantendo a postura impassível, mas sem dar o corte seco que Jorge esperava.
Como se a cena já não estivesse patética o bastante, uma segunda mulher surgiu: uma ruiva de vestido decotado que vinha desfilando pela pista com dois copos de vodca nas mãos. Sem qualquer pudor, ela se colocou entre os dois, jogando os cabelos e puxando a gola da camisa preta de Erick com uma ousadia inacreditável.
Jorge apertou a haste da taça com tanta força que o cristal quase estalou.
De onde estava, com visão privilegiada, o colombiano assistiu ao circo se armar. Gabriela encarou a recém-chegada com puro veneno nos olhos. A ruiva retrucou com um deboche evidente, empurrando o ombro sutilmente contra a rival para disputar cada centímetro de proximidade com o "Pitbull do Flamengo". Em questão de dois minutos, o que era uma conversa virou uma troca de farpas ácida. As duas estavam quase saindo no tapa no meio da festa, disputando quem iria terminar a madrugada na cama do chileno.
Erick ergueu as mãos abertas, tentando apaziguar os ânimos com aquela compostura séria que usava dentro de campo, mas sem a brutalidade necessária para humilhar as duas e mandá-las embora.
Do outro lado, Jorge soltou uma risada nasalada, amarga, cheia de puro ódio. Era o cúmulo da audácia. Duas desconhecidas brigando feito vira-latas por um homem que já tinha dono — e o dono estava assistindo a tudo com o sangue fervendo nas veias.
Sem esperar pelo desfecho daquele espetáculo deprimente, Jorge virou o restante do gim de uma só vez, bateu a taça em uma mesa de apoio e caminhou em passos firmes em direção à área dos bangalôs isolados nos fundos do jardim.
Erick percebeu o movimento. Livrou-se das duas mulheres com duas frases cortantes e passos largos, ignorando os protestos embriagados que ficaram para trás. O chileno atravessou o gramado quase correndo, avistando a silhueta esguia de Jorge entrando na varanda fechada de uma das suítes de apoio do clube.
Assim que a porta de correr foi fechada, o estalo da madeira quebrou o silêncio da penumbra.
— Que porra de show foi aquele lá fora, Jorge? — disparou Erick, a voz rouca e pesada pelo cansaço e pela surpresa ao ver o colombiano andando de um lado para o outro feito uma fera enjaulada.
Jorge virou-se em um rompante, os olhos castanhos brilhando de fúria e o peito subindo e descendo com força.
— Que porra de show? — Jorge soltou uma gargalhada histérica, batendo palmas secas. — Essa é a pergunta que eu deveria fazer pra você, caralho! Que merda foi aquela na frente de todo mundo?
— Eu não fiz nada! As duas apareceram lá do nada, caralho, eu só estava tentando não criar um escândalo no meio da festa do clube!
— Não me venha com essa palhaçada! — Jorge deu dois passos agressivos para a frente, apontando o dedo no peito largo de Erick. — Você deu trela! Você ficou lá, paradinho feito um poste, deixando aquela loira esfregar as unhas nas suas tatuagens! E depois aquela ruiva de merda quase pulou no seu colo! Se aquelas duas piranhas estavam brigando por você feito cachorras no cio, é porque você deu confiança! Você adora essa porra de ego inflado, não adora?
— Abaixa o tom para falar comigo, Jorge — rosnou Erick, as feições endurecendo de imediato. O olhar escuro e penetrante, que intimidava qualquer atacante nos gramados, fixou-se no namorado como um aviso de tempestade. — Você me conhece. Eu não dou moral para ninguém. Eu tava tentando tirar as duas de perto sem chamar a atenção da diretoria inteira que tava a dez metros de nós!
— Ah, me poupe da sua hipocrisia, Pulgar!
O uso do sobrenome atingiu Erick como um soco no estômago. Ele odiava quando Jorge usava a distância daquele nome para criar um abismo entre eles. A mandíbula do chileno travou com tanta força que os músculos do pescoço saltaram.
— Não me chama assim — disse Erick, entre dentes, a voz perigosamente baixa.
— Chamo como eu bem entender! — rebateu Jorge, a ginga colombiana transbordando em gestos descontrolados de pura revolta. — Sabe o que você deveria fazer? Volta lá! Volta pra festa e vai pra casa do caralho com as duas! Fode com a loira, fode com a ruiva, aproveita que o Pitbull tá faminto e faz um banquete! Porque pra mim já deu dessa sua covardia de não saber cortar mulher oferecida!
O ar na suíte pareceu desaparecer. Erick encarou o homem à sua frente, sentindo a raiva queimar sua garganta, mas sob a fúria havia uma dor crua e inesperada. Tinham passado meses impecáveis, focados nos treinos, dividindo jantares discretos, dores musculares, planos para as férias... e Jorge reduzia tudo aquilo a um ciúme doentio e a ofensas baratas.
— É isso o que você pensa de mim? — perguntou Erick, a voz tremendo de uma raiva fria, gélida, muito mais assustadora do que os gritos de Jorge. O grandalhão deu um passo à frente, obrigando o colombiano a recuar até bater as costas contra a bancada. — Você acha que eu sou um moleque qualquer que precisa de migalha de mulher bêbada em festa de clube? Você tá duvidando da minha fidelidade com você, Jorge?
Jorge sustentou o olhar, embora o brilho ferido nos olhos de Erick o tenha feito vacilar por uma fração de segundo.
— Eu vi o que eu vi.
— Então responde na minha cara! — gritou Erick, golpeando a lateral da bancada com o punho fechado, fazendo o móvel estremecer. — Você duvida de mim? Porque se depois de tudo o que a gente viveu, se depois de cada noite que eu passei cuidando de você, você ainda acha que eu sou capaz de te trair com duas putas aleatórias... então a gente acabou aqui. Acabou essa merda toda. Pega suas coisas e cada um segue seu próprio caminho a partir de amanhã!
A palavra pairou entre eles como uma lâmina suspensa. *Acabou*.
Jorge empalideceu sob o bronzeado. Os lábios entreabriram-se, mas nenhuma palavra saiu. Aquele era o limite. A linha invisível que nenhum dos dois jamais havia ousado cruzar.
Erick respirou fundo, puxou o ar pesado pelo nariz, deu as costas ao colombiano e saiu pela porta de vidro, batendo-a com força suficiente para estremecer a armação.
***
Vinte minutos se passaram. A música lá fora parecia abafada, distante, um eco sem sentido.
Jorge estava sentado na murada de tijolos da varanda externa, os pés descalços apoiados no chão frio, os braços cruzados sobre os joelhos enquanto encarava as sombras das palmeiras contra a noite escura. A raiva havia evaporado por completo, deixando em seu lugar um vazio gélido e amargo. Ele sabia que havia exagerado. Sabia que a fúria cega e o medo irracional de perder o homem que amava haviam feito sua língua disparar veneno onde só havia inocência e falta de jeito do chileno.
O som de passos firmes na grama quebrou seus pensamentos.
Erick surgiu das sombras. Ele não tinha ido embora, nem voltara para a festa. Havia apenas caminhado pela orla deserta dos fundos para esfriar a cabeça. Suas mãos estavam nos bolsos da calça preta e os ombros largos pareciam carregar o peso do mundo.
Ele parou a um metro de Jorge, olhando-o de cima.
— A Gabriela é passado. Morreu antes de você sonhar em pisar no Ninho do Urubu — começou Erick, com a voz desprovida de qualquer grito, apenas uma serenidade cansada e firme. — E a outra é só uma sem noção que eu nunca vi na minha vida. Eu não cortei com ignorância porque a porra da imprensa tem fotógrafo até nos arbustos dessa festa, e eu não podia arriscar que uma confusão minha manchasse o clube na noite do nosso título.
Jorge continuou olhando para o chão, mordendo a parte interna da bochecha.
— Eu não preciso de mais ninguém, Jorge — continuou o chileno, dando mais um passo e estendendo a mão grande para tocar o queixo do outro, erguendo o rosto do colombiano devagar. — Eu tenho 90% do meu corpo tatuado, já passei por merda pra caralho nessa vida, mas você foi a única pessoa que conseguiu me desmontar inteiro. Se eu tô com você, é só com você. Eu sou teu, porra. Não duvida mais disso.
Os olhos de Jorge marejaram de leve, mas ele piscou depressa para afastar as lágrimas. Um sorriso torto, tímido e ligeiramente arrependido começou a se formar no canto dos seus lábios.
— Eu sou um idiota ciumento — sussurrou Jorge, a voz rouca.
— É. Um idiota insuportável — concordou Erick, os olhos escuros brilhando com uma centelha de alívio.
— Mas você é meu homem. E eu odeio ver mulher encostando no que é meu.
— É seu — afirmou o chileno, inclinando-se para colar as testas. — Sempre foi.
Jorge desceu da murada, colando o corpo esguio e ágil contra a estrutura imponente de Erick. Seus braços enlaçaram o pescoço tatuado, puxando o rosto do chileno para um beijo faminto, urgente, desesperado por apagar o gosto da discussão. Suas línguas se chocaram com violência, trocando calor, respirações ofegantes e pequenos gemidos abafados contra a pele um do outro.
Erick segurou a cintura de Jorge com as duas mãos, erguendo-o do chão sem qualquer esforço e empurrando-o de volta para dentro da suíte privativa, chutando a porta para trancá-la atrás de si.
O chileno prensou o colombiano contra a parede de espelho do quarto, descendo a boca quente pelo pescoço bronzeado de Jorge, chupando e mordendo com força a pele sensível logo abaixo da orelha.
— Agora você vai me pedir desculpas direito, porra — rosnou Erick no ouvido dele, a voz gutural pingando uma safadeza suja. — Falou que eu queria comer duas vadias... Agora você vai aguentar a porra do Pitbull a noite inteira.
— Erick... — suspirou Jorge, arqueando as costas, com os dedos cravados nos ombros largos do namorado. — Papi... me fode. Faz o que você quiser comigo, mas cala a minha boca.
Erick puxou a camisa de linho de Jorge com tanta brutalidade que dois botões saltaram, caindo pelo chão com estalos secos. Suas mãos calejadas desceram pelo abdômen definido do colombiano, puxando a barra da calça de alfaiataria escura para baixo em um movimento rápido.
Foi quando os olhos de Erick se arregalaram, cravando-se na peça íntima que Jorge usava por baixo.
Não era uma cueca comum. Jorge vestia uma calcinha de renda preta e vermelha, cavada nas coxas torneadas, desenhando perfeitamente o quadril estreito. E no elástico traseiro da peça, logo acima da fenda que deixava suas nádegas quase totalmente expostas, brilhava o nome em letras cursivas vermelhas: *Pulgar*.
O chileno sentiu o sangue ferver na cabeça. Sua respiração travou.
Jorge virou o rosto para trás, apoiando as duas mãos espalmadas contra o espelho, exibindo a bunda redonda empinada com um sorriso de pura malícia e provocação.
— Gostou da surpresa que eu preparei pra comemorar o título, mi amor? — sussurrou Jorge, rebolando devagar, o tecido de renda roçando na braguilha volumosa de Erick. — Mandei fazer sob medida pra hoje. Pra você nunca esquecer quem é que leva o seu nome marcado na carne.
— Filho da puta... — praguejou Erick, com a voz irreconhecível de puro tesão. O chileno agarrou as duas nádegas expostas de Jorge com força, deixando as marcas avermelhadas dos seus dedos na pele bronzeada, arrancando um gemido alto e manhoso do namorado. — Você é uma perdição do caralho, Jorge.
Sem mais cerimônias, Erick abriu a própria calça, libertando o membro rígido e pulsante que já vazava no tecido da cueca. Ele puxou a lateral da renda vermelha para o lado, espalhou a saliva abundante na entrada apertada e quente do colombiano e empurrou os quadris para a frente sem aviso, invadindo-o com firmeza até a base.
Jorge soltou um grito rouco, afundando a testa no vidro frio do espelho enquanto as mãos tremiam contra a superfície lisa.
— Puta que pariu... Erick... — gemeu Jorge, a respiração entrecortada pela sensação avassaladora de plenitude.
— Fala de quem você é — ordenou Erick, segurando firme o cabelo loiro de Jorge, puxando a cabeça dele para trás para que seus olhos se encontrassem no reflexo do espelho. O chileno começou a estocar fundo, ritmado, fazendo os corpos suados baterem com um som úmido e obsceno que ecoava pela suíte. — Fala, caralho! Quem é que te fode desse jeito?
— Seu... eu sou seu, Erick! Só seu, caralho! Mais fundo, porra... não para!
Erick rosnou contra a nuca suada do colombiano, acelerando as estocadas em um ritmo implacável e possessivo. Suas palavras eram sujas, sussurradas com a aspereza de quem reivindicava cada centímetro daquele corpo. Dizia o quanto a bunda dele era deliciosa naquela calcinha minúscula, o quanto ele era gostoso rebolando daquele jeito, o quanto nenhuma mulher naquela porra de festa jamais chegaria perto do que Jorge fazia com ele entre quatro paredes.
Jorge gemia sem pudor, os olhos revirando de prazer a cada estocada violenta que atingia seu ponto exato. Ele levou a mão para a frente, tocando-se no mesmo ritmo alucinante em que era penetrado, incapaz de segurar a onda devastadora de sensações que o consumia.
O clímax os atingiu como uma tempestade. Jorge desabou primeiro, derramando-se espesso contra a própria mão e o espelho com um grito abafado pela curva do braço. Segundos depois, com um puxão final no quadril do colombiano e três estocadas brutais, Erick enterrou-se até o limite, rugindo contra a pele dele enquanto se esvaziava em jatos quentes e profundos dentro da fenda apertada.
Os dois permaneceram colados por longos minutos, os peitos subindo e descendo em sincronia perfeita, os corações batendo descompassados contra as costelas suadas.
Erick beijou a omoplata tatuada de Jorge com uma ternura infinita, puxando-o devagar para os seus braços.
— Se você rasgar essa calcinha, eu te mato — murmurou Jorge, com a voz fraca e rouca, ainda tremendo ligeiramente pelo pós-orgasmo.
Erick soltou uma risada baixa, rouca e incrivelmente apaixonada, aninhando o colombiano contra o seu peito largo enquanto limpava a testa suada do marido com as costas dos dedos.
— Não vou rasgar, mi vida — respondeu Erick, beijando-lhe a têmpora com devoção. — Amanhã a gente vai pra casa. E você vai usar essa porra de novo pra mim.