Escolha

Anthony chegou em casa como se estivesse fugindo de uma cena de crime. A calçada de concreto refletia o brilho ofuscante do sol mato-grossense, e cada passo que ele dava parecia afundar um pouco mais na incerteza. O barulho do portão de ferro batendo atrás de si trouxe um alívio momentâneo, mas a pressão dentro do seu peito não cedeu. A casa estava silenciosa; sua mãe provavelmente ainda estava no trabalho e seu pai só chegaria tarde da noite, exausto do serviço na lavoura. Ele subiu as escadas correndo e se trancou no quarto, jogando a mochila em um canto qualquer. O ventilador de teto girava com um ruído metálico irritante, apenas movendo o ar quente de um lado para o outro. Anthony sentou-se na beira da cama, as mãos trêmulas, e levou os dedos ao pescoço. Onde Lucas o beijara, a pele ainda parecia formigar. — Que porra, Lucas... que porra você tem na cabeça? — sussurrou para as paredes, a voz falhando. Ele pegou o celular no bolso da farda, o vidro da tela trincado em uma das pontas. O aparelho parecia pesar uma tonelada. Ele abriu o WhatsApp, os dedos pairando sobre o nome de Lucas. A última mensagem deles era de três dias atrás, um meme ofensivo que qualquer um que visse acharia apenas "coisa de moleque". Mas o que aconteceu no pátio não era meme. Não era piada. Anthony discou o número. O telefone chamou uma, duas, três vezes. Cada toque era como uma martelada em sua cabeça. — Fala — a voz de Lucas atendeu no quarto toque. Estava rouca, mas mantinha aquele tom de indiferença que Anthony tanto odiava e admirava ao mesmo tempo. — "Fala"? É só isso que você tem a dizer, seu desgraçado? — Anthony explodiu, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro no quarto apertado. — Você ficou maluco? O que foi aquilo no pátio? Todo mundo viu, Lucas! O Gabriel, as meninas do nono... até o sargento podia ter visto! Houve um silêncio do outro lado da linha. Anthony conseguia ouvir a respiração pesada de Lucas, o som de algo sendo chutado, provavelmente uma cadeira. — E daí? — Lucas respondeu finalmente, a voz carregada de um desafio perigoso. — Eu faço o que eu quiser. Ninguém lá tem coragem de falar nada na minha cara. — Não na sua cara, seu imbecil! — Anthony gritou, embora tivesse o cuidado de não ser ouvido pelos vizinhos. — Mas você sabe como as coisas funcionam no Tiradentes. Amanhã a gente vai chegar lá e o colégio inteiro vai estar cochichando. Eles vão achar que a gente é... que a gente é igual a esses merdas que a gente zoa! — Você tá com medo, Anthony? — A pergunta de Lucas veio fria, cortante. — Tá com medo de acharem que você é um "viadinho"? Anthony parou de andar, o rosto queimando. A palavra ecoou como um tapa. Era a mesma palavra que eles usavam como arma todos os dias, o escudo que construíam para esconder a própria confusão. — Eu não sou porra nenhuma, Lucas! E você sabe disso. A gente... a gente só faz aquilo porque... porque sim! Mas fazer na frente de todo mundo? Você marcou meu pescoço, caralho! Eu tive que fingir que você tava louco de sol, tive que te xingar na frente de geral pra não parecer um frouxo. — E você foi muito bem, aliás — Lucas riu, um som seco e sem alegria. — "Eu te quebro os dentes", foi o que você disse, né? Quase acreditei. — Não brinca comigo, Lucas. Eu tô falando sério. Se meu pai sonha com uma coisa dessas, ele me mata. Ele me expulsa de casa e me manda pro meio do mato sem nada. Você sabe como ele é. Você sabe como essa cidade é. — Eu sei, Anthony. Eu moro nessa merda de Sorriso tanto quanto você — o tom de Lucas mudou levemente, perdendo um pouco da agressividade, mas mantendo a tensão. — Mas eu cansei de me esconder no banheiro fedorento do bloco D. Eu queria ver a cara deles. Eu queria ver se alguém tinha culhão pra vir falar comigo. — E agora? O que a gente faz amanhã? — Anthony sentou-se no chão, encostado na cama, sentindo o suor colar a farda ao corpo. — A gente vai ter que dobrar a aposta, né? — Exato — disse Lucas. — Amanhã, se alguém olhar torto, a gente esculacha. Se alguém fizer piadinha, a gente bate. A gente tem que ser os caras mais homofóbicos e escrotos daquela escola, mais do que nunca. É o único jeito de eles acharem que o beijo foi só uma "zoeira de hétero" pra chocar. Anthony respirou fundo, fechando os olhos. A lógica era torta, doentia, mas era a única que eles conheciam. O ódio era a única capa de invisibilidade que funcionava para garotos como eles em uma escola militar no interior do Mato Grosso. — Eu te odeio, sabia? — Anthony murmurou, sentindo uma lágrima de frustração escapar e escorrer pelo rosto marcado por espinhas. — Odeia nada — Lucas retrucou, e Anthony podia quase ver o sorriso marrento dele através da linha. — Você gosta do perigo. Você gosta de como eu te trato. — Você é um idiota. — E você é meu idiota. Amanhã, no primeiro horário, a gente se encontra atrás do ginásio. Antes da formatura. — Pra quê? Pra você me expor mais ainda? — Pra gente alinhar o discurso, Anthony. E porque eu ainda sinto o cheiro do seu sabonete barato no meu nariz. Anthony desligou sem se despedir. Ele jogou o celular no colchão e enterrou o rosto nas mãos. A confusão em sua mente era um labirinto sem saída. Ele sentia nojo de si mesmo, sentia medo do futuro e, ao mesmo tempo, uma necessidade desesperada de estar perto de Lucas, o único que parecia entender a raiva que ele carregava no peito. Ele se levantou e foi até o espelho do guarda-roupa. Olhou para o próprio reflexo: o cabelo raspado, a farda amassada, a expressão de quem estava sempre pronto para brigar. Ele parecia o soldado perfeito, o orgulho da família e da instituição. Mas, por dentro, ele era apenas um menino de treze anos aterrorizado por um sentimento que não tinha nome, ou que tinha nomes que ele mesmo usava para insultar os outros. Ele abriu a gaveta e tirou uma pomada para espinhas, passando-a no rosto com movimentos bruscos. Cada toque na pele era um lembrete da sua vulnerabilidade. Ele precisava ser forte. Precisava ser cruel. — Amanhã — sussurrou para o espelho —, eu vou ser o pior de todos. Enquanto isso, a quilômetros dali, Lucas estava deitado em sua cama, olhando para o teto. Ele não sentia o mesmo medo que Anthony. Ele sentia uma euforia sombria. Ele sabia que estava brincando com fogo, mas o fogo era a única coisa que o fazia se sentir vivo naquele deserto de soja e poeira. Ele tocou os próprios lábios, lembrando-se da textura da pele de Anthony. Ele sabia que o dia seguinte seria um inferno. Sabia que teria que gritar insultos, humilhar colegas e talvez até entrar em uma briga física para manter sua reputação intacta. Mas, para Lucas, o preço daquele segundo de poder no pátio, o momento em que ele desafiou o mundo inteiro com um gesto, tinha valido cada gota de suor e cada mentira que viria a seguir. O sol de Sorriso finalmente começou a se pôr, pintando o céu de um laranja violento, quase da cor do sangue. E, no silêncio de seus respectivos quartos, dois garotos se preparavam para a guerra — não contra os outros, mas contra a verdade que insistia em querer brotar por entre as rachaduras de suas armaduras de ódio. Continue essa história sem alterar nada

Personagens

LucasAnthony

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